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terça-feira, 17 de abril de 2012

DOIS PARÁGRAFOS DE ALFONSO BERARDINELLI

           Mas o que busca, hoje, o público de literatura?  As frustrações são cada vez menos dramáticas, os pesadelos, cada vez mais brandos.  Curáveis.  Há a televisão.  As grandes religiões, especializadas na produção de remorsos, sentimentos de culpa e sublimações, foram liquidadas.  E a idéia de revolução, que pretendia ser a sua herdeira rebelde, mas legítima, é uma idéia que se tornou até risível.  Produziu infinitos lutos e sacrifícios, antes de retornar como uma sombra no reino das sombras.
            Todavia, em qualquer estudioso que não tenha um relacionamento asséptico com a literatura moderna, o ensino e a divulgação de obras modernas deveriam criar algum mal-estar.  Há mais de um século, talvez há dois séculos inteiros, nossas literaturas soam como atos de acusação, revelações horripilantes, auto-análises implacáveis e destrutivas.  Não contêm muitas instruções razoáveis e úteis para que se viva feliz em comunidades e sociedades bem organizadas.  Sociedade Industrial e Democracia, Estado Social e Estado total raramente tiveram o apoio, a aprovação, a simpatia e o consenso do que tradicionalmente se chamava Belas Artes, as quais se transformaram em artes infelizes, degradadas ou estéreis.  Antes de entrar no triturador das vanguardas organizadas, dos manifestos técnicos e da estética modernista, antes de se tornar, finalmente, pós-moderna, isto é, ornamental, comestível e insossa, a arte moderna foi intratável.   Falou nada menos que da possibilidade real do fim do mundo, ou da necessidade moral de que o curso do mundo se detivesse.  Havia até uma espécie de Schadenfreude [alegria nociva] em seu modo de apresentar as coisas.  E talvez houvesse ambições, visões e promessas maiores do que hoje estamos dispostos a tolerar.

In: Alfonso Berardinelli.  Da poesia à prosa. Tradução de Maurício Santana Dias.  CosacNaify, 2007.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

INTERIOR

            Como optei desde o segundo semestre de 2009 por vir morar no interior do Estado do Rio, num lugarejo serrano que conheço desde criança, que já foi uma roça propriamente dita, e hoje é quase que apenas uma localidade na periferia em torno do eixo Rio-São Paulo, como optei, dizia,  por vir morar aqui nesse – relativíssimo – isolamento, meus amigos e parentes, amamentados desde a amamentação propriamente dita na cultura urbana, passaram a me ver meio que numa teia de referências meio árcade bicho-grilo, meio bucólica, contaminados que somos todos desde sempre pela idealização da vida no campo, do interior e tal, com seu ritmo mais tranqüilo, seu dia-a-dia mais saudável, suas relações humanas mais cordiais, sua maior proximidade com as forças e potências da natureza, enfim.   Que haja um tanto disso tudo envolvido no fato de eu ter passado a viver essa opção, é fato. Eu mesmo brinco – acho até que já disse aqui mesmo neste blog – com esse bucolismo. Porque  de fato gosto desse ritmo ralentado, propício a uma bestagem, a um ócio que, por outro lado, se a gente bobear, tende a não ser produtivo. 
            O divertido é que a quase totalidade dos amigos de que falo aí em cima sequer desconfiava disso que, no fundo, talvez seja mesmo a minha pouca aptidão para uma vida mergulhada exclusivamente no urbano, meu ritmo sempre um tanto fora das exigências da grande cidade.   E eu sempre soube disso, embora verdade que eu sempre tenha disfarçado relativamente bem.  Mas vai daí que também não tenho a menor simpatia pela província.  E durma-se com um barulho desses!
            Porque essas confusões com o meu way of life só me aborrecem quando as pessoas confundem minha opção pessoal de vida  com um  amor pela vida de província, pela província, o amor aos hábitos interioranos, o convívio pacífico com a sociedade provinciana, coisa que eu absolutamente não tenho.  O tema é extenso, não pretendo desenvolver aqui, mas gostaria de dizer que se é possível esse convívio pacífico, ele não pode ser muito próximo não. Mas também não se consegue fugir a ele: Alfonso Berardinelli disse, e já lá se vão quase vinte anos, que “todo o planeta se transformou numa maledicente província cosmopolita”, desenvolvendo a partir daí um brilhante ensaio, “Cosmopolitismo e provincianismo na poesia moderna”.  Mas meu assunto aqui é outro, nem quero aqui insistir naquilo que eu tenho de concordância com o grande ensaísta italiano.  Isso talvez fique pra uma outra hora (o ensaio é tão fascinante que é bem possível que eu retorne  a ele aqui no blog).
Por hoje eu quero dizer: O provincianismo é cerceador, acabrunhante, pesadamente repressivo, é fechamento de horizontes.   E justo por conta desse fechamento, todas essas qualidades deploráveis seguem de par, juntinhas, irmãzinhas com o tal “orgulho do torrão natal”, o “orgulho em ser (aqui se põe o gentílico correspondente)”, verdadeira catástrofe para quem se deixar encerrar nesse círculo de orgulhos vazios.  Essa face simpática aparece quando se presta atenção no jogo político que nessas cidades é jogado há anos, pelo menos no Brasil, sempre com as mesmas elites no poder (alterações perceptíveis nos últimos anos são ínfimas, e embora significativas, sua dimensão e seu tempo muito lento  exasperam) praticando assistencialismo a uma população de miseráveis,  contando para isso sempre com cúmplices na população idiotalfabetizada a bancar festinhas de igreja, bailes de debutantes, tertúlias de trovinhas, rifas e torneios de futebol.    E a face medonha aparece para valer quando se trata das coisas mais sérias da representação política, da manipulação de verbas, da investigação de crimes, das pendengas judiciais, das situações de catástrofe, quando essas cidades se veem às voltas com grandes chuvas, desabamentos ou – pior, tortura a longo prazo – secas infindáveis, degradação dos recursos naturais. Nota triste do acaso: anteontem, depois de um ano, o mundo voltou a desabar em Teresópolis.  Mortos, feridos, desabrigados, sirenes de alerta compradas por 1 milhão de reais que não funcionaram, prefeito e figurões e apressando em dividir-se entre condolências e desculpas.
            Estou me dispondo aqui a falar mal do interior, da província, por conta de dois textos que li ontem e que me tocaram profundamente.  Um é a entrevista que Célio Turino concedeu a Bruno de Pierro e que li no site Brasilianas http://www.advivo.com.br/node/413503    Se você não liga o nome à pessoa, Célio Turino é o historiador que concebeu os Pontos de Cultura implantados na gestão Gilberto Gil no Minc, onde atuou como Secretário de Cidadania Cultural de 2004 a 2010. Os Pontos de Cultura são, até onde vai o meu parco saber desses assuntos, a mais inteligente e estimulante iniciativa já feita no país no que diz respeito à dinâmica de atuação cultural e trocas, compartilhamento e parceria entre Estado e sociedade.  Pessoas da maior credibilidade já tinham falado para mim da seriedade e da competência de Turino, e a entrevista me deixou muito impressionado com a concepção ousada e o embasamento sólido de sua atuação à frente da Secretaria que ocupou.  Mas no que diz respeito ao assunto aqui, considerando que a atuação do Ministério passa por dificuldades outras e mais graves no momento, como um corte de verbas da ordem de 55%%, o que me chama a atenção é o brevíssimo relato que Turino faz na entrevista sobre dificuldades com secretários estaduais de Cultura por causa justamente da agilidade que era a marca principal, inovadora e empolgante  do projeto.  Leia-se:
“Em 2004, teve uma reunião do conselho de secretários estaduais de Cultura, com o ministro Gil, para protestar contra o programa, pois diziam que ele estava atravessando grupos que os secretários de alguns Estados consideravam que nem eram culturais, como uma comunidade quilombola. Queixavam-se de alguns grupos serem contemplados, sem passar por eles.”

Ora, secretários estaduais de cultura não são representantes de províncias, de pequenas cidades interioranas, dessa mentalidade deprimente que venho desancando aqui, poderá dizer quem me lê.  Engano seu, caro leitor, são sim.  Porque, o que é também assustador, é que esse enclave provinciano, essa miséria mental e intelectual e política, essa verdadeira trava anti-moderna é o que vigora no Brasil. Essa gente paga com os salários nossos, de cidadãos, em cargos que existem pra fomentar, dinamizar, enriquecer a produção de bens simbólicos (“uma comunidade quilombola não é cultural!”), essa gente a desempenhar de forma reles seu papel de secretários, a se sentirem desrespeitados, “atropelados” pela velocidade necessária aos bons resultados – que já estavam visíveis àquela altura.   Daí que eu não me iludo com vida no interior, com os falsos valores bocós que as pessoas normalmente tendem a associar a isso.  Cansar da cidade grande não foi, no meu caso, me iludir com bucolismos: foi saída puramente individual.  E individualista, pra me preservar de alguns embates a que a vida tinha me lançado.
A vontade, ou melhor, o correto a se fazer  – e por isso me penitencio – é largar de resmungar, largar de misantropia e de pessimismo e dar um abraço em Turino, é de  escrever para ele, parabenizando-o, é dizer o quanto o invejo em sua jovial disposição de ação afirmativa, apesar dos horrores que enfrentou (sem lamúrias da parte dele, quem tá chamando atenção pra isso sou eu). Quem ganharia com isso, afinal seria tão-somente a minha vaidade, até por estar dizendo essas coisas aqui. Ele continuará a combater o bom combate, muito melhor do que eu.  Porque eu, na verdade, sou paralisado em meus impulsos construtivos quando leio, de acréscimo,  uma matéria que saiu no Globo do mesmo dia  e que não acho aqui para linkar.  Quem se dispuser a achá-la pela rede, o título é “Mineira vira advogada para provar que está nos bancos dos réus injustamente.” Resumo-a, pois.
Numa cidadezinha chamada Pompéu, interior de Minas, 30 mil habitantes, uma moradora, Beth Campos,  que integrava o Conselho Municipal dos Direitos da Criança, descobriu e denunciou uma assombrosamente vasta rede de exploração sexual de crianças e adolescentes, na qual estavam envolvidos os figurões locais: prefeito, presidente da Câmara, comerciantes, policiais, o diabo, a fina-flor da sociedade provinciana.  O MP entrou na coisa e o julgamento de sete dos envolvidos está previsto para este ano ainda.  O que dá bem o clima dessa “deliciosa vida de província” são coisas como esta: “Mas, em vez de reconhecida como corajosa, ela passou a ser considerada traidora da cidade, por causa da forma como Pompéu foi inserida no noticiário nacional. Beth foi agredida pelo menos duas vezes em bares.” Vida que segue, conseguiram armar na cidadezinha uma cilada para pegar a corajosa denunciante, que, enredada por tramóias mil, difamada e acusada, claro, de “ter interesses políticos”,  agora é denunciada em outro processo e corre o risco de ser condenada a até oito anos de detenção. Diante da situação, Beth fez o certo: saiu de Pompéu, foi viver em Belo Horizonte onde acabou optando por se tornar uma pessoa pública, militante do tema, de modo a não apenas dar continuidade a sua luta, mas também adquirir alguma visibilidade pessoal, como uma – frágil – segurança contra atos extremos de seus ensandecidos inimigos.  E fez também o de certa forma inusitado: tratou de estudar Direito, formando-se advogada em 2010, aos 54 anos, para tratar da própria defesa.  

A perseguição de que foi vítima Beth Campos ou (imagino) a rede de sabotagenzinhas, futricazinhas com que Turino teve de se deparar, longe de constituírem  uma estória excepcional, é uma estória que se pode dizer padrão, que exemplifica o que é mesmo a nossa história, o que é histórico no Brasil.  Brutalidade jardim, em fórmula oswaldiana-tropicalista; prolongamento da falta de lei das fazendas,  estendendo-se sobre a frágil existência de cidades enquanto espaço público, compartilhado socialmente, na lição antiga e atual de Sérgio Buarque.  Enfim...
Enfim, o que eu queria deixar claro,  e daí toda essa falação, neste texto  que ficou muito maior do que eu pretendia era muito simples: primeiro: que embora brinque e até me divirta com o “bucolismo” do meu atual modus vivendi, trata-se na verdade mesmo de uma opção que não guarda nenhuma ilusão idealizadora quanto às virtudes interioranas em relação às cidades; segundo, que sendo sobretudo um ponto de vista meu, que sou avesso a maiores convívios, a vida social, a atividade ou militância políticas, defendo minha opção como saída particular a atender  sobretudo a mim: poderá vir daqui um malogro ou uma felicidade – qualquer um dos dois dirá respeito exclusivamente a mim; e finalmente, terceiro, que sei que a razão não está comigo, está com a militância de Turino e Beth Campos, pessoas pelas quais passei a ter a maior admiração a partir do momento que tomei conhecimento de suas ações. O país melhorará devido a gente como eles.




terça-feira, 3 de janeiro de 2012

AH, UM SONETO... DE CÉSAR VALLEJO



Me moriré em París con aguacero,
un dia del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré em París – y no me corro –
tal vez um jueves, como es hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, jueves, que proso
estos versos, los húmeros me han puesto
a la mala y, jamás, como hoy, me he vuelto,
con todo mi camino, a verme solo.

Cesar Vallejo ha muerto, le pegaban
todos sín que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro

también con una soga; son testigos
los dias jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminos...

            Caros leitores, com este soneto de Vallejo, passo a considerar o espanhol como a segunda língua aqui do blog.  Principalmente porque tenho deixado de postar alguns poemas de que gosto muito em língua hispânica por não encontrar traduções que me pareçam à altura dos originais.  O magnífico Vallejo postado acima me fez decidir abrir mão de traduções que não me satisfaçam, e assim direcionar também os leitores para essa língua irmã, tão próxima de nós e tão bela, cujas dificuldades,  aos que não tenham maior familiaridade com ela,  podem ser vencidas sem esforço excessivo – os esforços maiores de fato ficam para as particularidades da linguagem poética, mas aí elas já têm em boa medida sua correspondência na parcela do prazer próprio de quem ama a poesia.
            Uma breve notícia sobre o poeta: César Vallejo é um magnífico poeta peruano, autor de  Trilce (1922), livro que o celebrizou na poética de vanguarda, tendo vivido de 1923 até sua morte  em Paris em 1938, aos 46 anos.  Praticamente tocado de sua pátria por conta de perseguições de cunho mais ou menos disfarçadamente político.  Vallejo em Paris viveu sempre com extrema dificuldade, freqüentando,  mas sempre na periferia,  o  ambiente vanguardista tão glamourizado na história da arte moderna. 
            Sobre o soneto acima, transcrevo o que diz Alfonso Berardinelli em seu Da poesia à prosa:
           
            “(...) a Paris do surrealismo, dos artistas, e, mais tarde, dos intelectuais de esquerda, vista por um autêntico e refratário provinciano da periferia, sem pátria e sem casa, como o peruano César Vallejo, não aparece sequer como estimulante e vertiginoso cemitério de sofisticações estéticas: é só um lugar onde morrer na mais desconfortável penúria e solidão. (...) Aqui, Paris não é um centro vital de cultura, mas sim uma periferia desolada e fúnebre para imigrantes miseráveis, intelectuais ou quase, que morrem de inanição.”
                                                                                                                               
Alfonso Berardinelli.  Da poesia à prosa.  Cosac-Naify, 2007.