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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

AH, UM SONETO... DE AUGUSTO DOS ANJOS


ASA DE CORVO

 

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro, que nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!

 

In:  Augusto dos Anjos. Toda a poesia.  RJ: Paz e Terra, 1978.

 
 
 

domingo, 22 de dezembro de 2013

AUGUSTO DOS ANJOS

Caricatura de Augusto dos Anjos por Sábat
 

NUMA FORJA

 

De inexplicáveis ânsias prisioneiro
Hoje entrei numa forja, ao meio-dia.
Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía
A térmica violência de um braseiro.
Dentro, a cuspir escórias
De fúlgida limalha
Dardejando centelhas transitórias,
No horror da metalúrgica batalha,
O ferro chiava e ria!
 
Ria, num sardonismo doloroso
De ingênita amargura
Da qual, bruta, provinha
Como a de um negro cáspio de água impura
A multissecular desesperança
De sua espécie abjeta
Condenada a uma estática mesquinha!

Ria com essa metálica tristeza
De ser na Natureza,
Onde a Matéria avança
E a Substância caminha
Aceleradamente para o gozo
Da integração completa,
Uma consciência eternamente obscura!

O ferro continuava a chiar e a rir.
 E eu nervoso, irritado,
Quase com febre, a ouvir
Cada átomo de ferro
Contra a incude esmagado
Sofrer, berrar, tinir.

 
 
 

 

 
Compreendia por fim que aquele berro
À substância inorgânica arrancado
Era a dor do minério castigado
Na impossibilidade de reagir!
 
 
Era um cosmos inteiro sofredor,
Cujo negror profundo
Astro nenhum exorna
Gritando na bigorna
Asperamente a sua própria dor!
Era, erguido do pó,
Inopinadamente
Para que à vida quente
Da sinergia cósmica desperte,
A ansiedade de um mundo
Doente de ser inerte,
Cansado de estar só!

 
Era a revelação
De tudo que ainda dorme
No metal bruto ou na geléia informe
Do parto primitivo da Criação!
Era o ruído-clarão,
- O ígneo jato vulcânico
Que, atravessando a absconsa cripta enorme
De minha cavernosa subconsciência,
Punha em clarividência
Intramoleculares sóis acesos
Perpetuamente às mesmas formas presos,
Agarrados à inércia do Inorgânico
Escravos da Coesão!
 
Escultura de Franz Weissmann
 

 
 
Repuxavam-me a boca hórridos trismos
E eu sentia, afinal,
Essa angústia alarmante
Própria de alienação raciocinante,
Cheia de ânsias e medos
Com crispações nos dedos
Piores que os paroxismos
Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.
Ao ouvir todo esse cosmos potencial,
Preso aos mineralógicos abismos
Angustiado e arquejante
A debater-se na estreiteza bronca
De um bloco de metal!

Como que a forja tétrica
Num estridor de estrago
Exectava, em lúgubre crescendo
A antífona assimétrica
E o incompreensível wagnerismo aziago
De seu destino horrendo!
 
Ao clangor de tais carmes de martírio
Em cismas negras eu recaio imerso
Buscando no delírio
De uma imaginação convulsionada
Mais revolta talvez de que a onda atlântica,
Compreender a semântica
Dessa aleluia bárbara gritada
Às margens glacialíssimas do Nada
Pelas coisas mais brutas do Universo!

 

Augusto dos Anjos. Toda a poesia.  2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

AH, UM SONETO... DE AUGUSTO DOS ANJOS


O CAIXÃO FANTÁSTICO

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio...

Era tarde! Fazia muito frio.
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!

In: Toda a poesia de Augusto do Anjos.  Paz e Terra, 1978.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DOMINGOS PELLEGRINI JR.


"Boi do povo", fotografia de Carlos Ribeiro 


O BOI

O boi cala a marretada, e estrebucha.
Então ali, na antecâmara da morte
nos miolos explode um clarão forte
de inteligência e dor – o boi pensa e bufa.

O nariz entupido de sustos vermelhos
dos outros bois antes dependurados,
o boi se eletrocuta de medo;
o medo é verde, o boi expele medo.

Enquanto rola e lhe engancham a pata
tonto, vê dentro da cabeça zebuína
um filme colorido de hemorragias,
açougues, estatísticas e pastos.

O gancho sobe e os pensamentos do boi
ficam suspensos; e em vômito, convulsão,
lembra vacinas e capim colonião,
veterinários, riachos, tudo que viu e foi.

Então foi para isso que me picotaram
com injeções de hormônio feminino:
uma arroba de gordura clandestina
na balança do lucro me ganharam.

Então foi para isso que nasci: comer
e engordar meus dias com rações
cercado pelo olhar doente dos peões
e entre colegas de dor viajar e morrer.

Uma lâmina lhe abre na barbela
os segredos sebentos do pescoço
e o boi se vê no prato dos almoços
e nas bocas desiguais das panelas.

Lingüiças, mocotó, pentes, botões.
Carne.  Osso. Quilo.  Até miudamente grama.
O boi sente um orgulho que derrama
desse músculo incansável, coração.

Um braço rápido lhe enterra a  faca
na gruta do pescoço, o boi percebe:
quanto mais sai o sangue, mais leve
o pensamento fica, as visões fracas.

Mas ainda vê o seu antigo dono
riscando contas numa caderneta:
a arroba, sal, ração, capim, caneta;
com tanto lucro o boi sente sono.

No cheiro de banha, vapor das buchadas,
o boi lembra seu melhor dia de vida:
quando varou a cerca, ruminou ervilhas
da roça vizinha, feijão recém plantado.

E desmaia pensando em vitaminas:
proteínas sou, preço serei, produto
nacional e bruto  para os navios do mundo,
bandeiras de dólar, fome de rapina.

A motosserra vai serrando os chifres
mas o boi ainda pensa: meus rins
virarão patê; meus miolos enfim
mais nada pensarão como salsicha.

A pata livre escoiceia incompreendida
e o boi vê, numa última visão,
jantando dívidas, mascando coração,
a família brasileira reunida.

O boi sente cócegas longínquas:
estão esfolando – o couro malhado
irá para o destino de ser pisado;
para as panelas pobres irá a língua.

Boi, boi, boi – pensa o boi na esfola
boi virarei filé entre florões;
acém perdido na sopa de milhões.
Por que não nasci democrática cebola?

Boi, boi, boi da cara preta...
o boi ouve ecos de cirandas;
dedica sua carne a todas as crianças
e morre sem sangue; ruminando
se cumprirão ou não seu testamento.

                               In: Inéditos n. 2, julho-agosto 1976, Belo Horizonte.

Salvo desatenção maior de minha parte ou excessivo alheamento do mundo, não vejo quase circular entre os escritores brasileiros surgidos na década de 70 o nome deste paranaense nascido em 1949 em Londrina, onde vive há muito anos, como me informa o Google.  Talvez o fato de estar fora do velho eixo Rio-São Paulo ainda conte, mais do que se costuma pensar.  Talvez Pellegrini Jr. Tenha mesmo se retirado da vida literária ou se faça menos presente do que nos anos 70/80...
Não importa.  Entre o que escreveu de muito bom eu alinho esse poema publicado numa revista, Inéditos,  dedicada principalmente a novos na década de 70, editada em Belo Horizonte.  “O boi”, com seu andamento  pesadão, baseado nos versos de 10 a 12 sílabas, com abundância de palavras polissílabas, é uma reflexão irônica sobre o animal sacrificial por excelência (Mário de Andrade dizia ser o boi o símbolo maior do Brasil) em contexto utilitário, tensionando esplendidamente pela ironia um lirismo de humor um tanto sardônico com um discurso triunfalista de nação-potência (algo próximo ao triunfalismo da década do milagre, que vemos repetido em boa medida hoje na retórica oficial).
           A maneira ainda muito aguda com que o poeta transita de uma captação micro do detalhe referencial  (“A pata livre escoiceia incompreendida...”) para uma percepção  macro do quadro social (veja-se como passa na mesma estrofe para “e o boi vê, numa última visão,/jantando dívidas, mascando coração,/a família brasileira reunida”)  filia o poema a uma linhagem que tem uma de suas pedras-de-toque na valorização do “senso do real” de que falava Zola, aproximando-se tanto da apreensão realista de um Cesário Verde quanto, entre nós,  do genial “irrealismo” de Augusto dos Anjos.