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terça-feira, 29 de março de 2016

CAETANO VELOSO: NÃO VERÁS UM PARIS COMO ESTE


[dos textos do exílio londrino]

 

          Cremúsculo.  O sol, a só, despe de si, digo, despede-se, desce pé ante pele, descalço, dá-se e sobe, digo, sob, ou melhor, sobre as bandas cremoças das mulheres alfíssimas do hemisferno nhorte.  Kolinas sonrisam no horizonte.  Mastros desdesenham-se no ocidonte. Acapulcos e havaís tampouco.  Tranquislidade.  Moite.  Não há dúvida: é chagada a hera dos maiares desgrossos.  Não há dúdiva: ele virá, sentará de pé sobre a poldrona enfernizada onde tandos senturame fera o seu elequante discorso: sua eterna dádiva; nossa eterna dívida.  Assim pressunto trudo que já estrá aquantessendo encuanto camino por las calles de esta casa grande mansão da minha hotess.  Sua majestade, sua desclarada, sua cachorra de minha adolescênica, por que nunca me declaraste nenhum amor enquanto eu era virgem e voraz?  Eres uma pública.  Y yo te quiero, yo te quiero... Mas como eu ia rizendo: alguns mastrodantes circruzavam pela prehisteria na hora da ave maria.  Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor, despertando no meu coração as saudades do primeiro amor.  Um gemido e se esvai lá no espaço nesta hora de lenta agonia quando o sino saudoso murmura badaladas apropriadas. Braçal, ano dos maus.  Brastel, amo dos meus.  Passou o ano dos gols.  Bravil, anda com ferro e gorgulho a terra onde Maciste, criança, enfrentou João Lúcio Godar: não verás nenhum Paris como este.  Olha que Shell, que mer, querida, que forgets! Papo furado.  Acordar tarde demais é que é fogo. A mulher que eu amo realmente me disse que eu acordasse mais cedo um pouco. Ao crespúsculo é demais.  Fossa na certa.  Merci bocu.  O bandeide da luz vermelha rides again.  Qualquer negócio.  Hoje em dia, minha filha, tanto faz como tanto fez.  Entretanto não adianta resposta.  Há dias em que adias tudo.  Ou: há dias tudo. ADIO GRINGO! Here comes the Sun king.  Ringo, João, Paulo e Jorge.  Ringo nunca foi santo...João houve dois e agora há, pelo menos, 23.  Paulo parlava molto.  Jorge adaptou-se tão bem aos pegis brasileiros que o Vaticano despediu-o.  Eis tudo o que sei sobre religião, perguntarão.  E jamais saberão.  E nunca sabão.  E nem são. E não. Hão? Rima rica do meu verso, minha canção preferida, melodia do meu samba, vida da minha própria vida.
 
          - Ouvi passos lá fora.
          - Quem será?
          - A essa hora.
          - Anda, Luzia, pega um travesseiro e vai ver lá no quintal.
          - Eu? Mas nem morta.
          - Anda logo. E fale baixo aqui pra ele não ouvir.
          - Ele quem?
          - Sei lá... o ladrão, ora.  Quem fez o barulho lá fora.
          - Que barulho?
          - Você não ouviu?
          - Ah. Não encha o saco.

          Luzia levantou-se, andou até o banheiro, acendeu a luz.  Uma estranha serenidade invadiu a sua alma.  Lá estavam as escovas de dente sobre a pia, a banheira rachada, o chão molhado em volta da latrina, todas as pequenas coisas das quais dependia a sua felicidade.  Será que a palavra latrina sairia na revista Querida? Trentarei, noventarei.  Eu sou um escritor cujo estilo é uma tentativa de realizar o irrealizável: um Nelson Rodrigues prafrentex.


Publicado n’O PASQUIM, edição de 4 a 10/12/1969.  In: Caetano Veloso.  Alegria, alegria: uma caetanave organizada por Waly Salomão.  Salvador: Pedra Q Ronca, 1977.

 

domingo, 19 de abril de 2015

Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto: sobre pureza e puros.



CARTA AOS “PUROS”

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos. 

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Vinícius de Moraes.  Poesia completa e prosa. RJ: Nova Aguilar, 1987

 

 


        Somente os muito tolos ou inexperientes no quesito vida estranhariam a amizade entre dois poetas praticamente antípodas, Vinícius e João Cabral.  A partir da antítese que fundou suas poéticas, eu mesmo durante muito tempo estranhava sempre que lia que eram muito amigos.  Ponha-se isso em parte na minha pouca vivência, pouca compreensão das relações humanas, em especial da amizade; de outra parte, ponha-se no fato de ter vivido boa parte da vida num ambiente em que o campo da poesia brasileira era muito faccionalizado.  Acho mesmo que deve continuar sendo – a rigor não sei, pois quero distância de “vida literária” - , mas é que durante muito tempo João Cabral era lido como um dos esteios do paideuma concretista e Vinícius como um neo-romântico, ou pior, um desleixado “poetinha”. Os meandros disso, bom, é só se inteirar um pouco da história de nossa poesia que se vão descobrindo coisas e coisas.

         O fato é que cultivaram a amizade, apesar de suas poéticas serem de fato duas águas da poética brasileira modernista. Não lembro onde li que ao ler “Morte e vida severina”, Vinícius teria se mostrado empolgado, ao que Cabral retrucara: “Vinícius, esse poema não é pra você não, eu escrevi pra operário, você é intelectual, tem que gostar é de ‘Uma faca só lâmina’”.  O excelente filme de Bebeto Abrantes Recife Sevilha: João Cabral de Meo Neto, documentário de 2003, tem passagem saborosíssima a respeito da amizade dos dois (vale anotar ainda a amizade de vida inteira de Cabral com Ledo Ivo, seu companheiro de geração e de poética bem distinta e mesmo oposta – também nisso o filme de Abrantes toca): numa gravação em fita de rolo em reunião social, Vinícius canta acompanhando-se ao violão, quando se ouve a voz de Cabral: “Sem ser de amor você não sabe fazer não, não é?  Você só canta o coração, não sabe cantar outra víscera?”  Vinícius reage bem humorado,  dizendo que vai musicar os poemas bem “cerebrinos” do pernambucano, “Vou musicar aqueles poemas da cabra, você vai ver...”  De permeio não se pode deixar de frisar que Vinícius -  “um lírico”, como de forma desdenhosamente divertida Cabral a ele se referia, ou melhor, se referia a todos os poetas que não fossem ele próprio, Cabral – é um dos pilares da nada santíssima trindade bossanovista, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, constituindo-se pois no grande pai poético da instituição MPB…  Aos passo que para João Cabral a música não passava do “menos desagradável dos ruídos”, como ouvi de viva voz o poeta dizê-lo nos pilotis da PUC na Expoesia em 1975.  Sobre o Cabral antimúsico,  Caetano Veloso  lhe dedicou – e a João Donato, o músico antipoeta – sua canção “Outro retrato” do CD Estrangeiro.

         Me lembrei dessas coisas todas ao topar dia desses com um poema de Vinícius que anda bem a calhar para nossos tempos de obscurantismo, hipocrisia falsamente pura, sacripantas vivendo em felicidade de maré montante.  E ao reler a “Carta aos ‘Puros’”, lembrei ainda da exegese poética  rigorosa a que lhe submete Cabral com seu “Ilustração para a Carta aos Puros”, de A educação pela pedra, livro de 1966 (o poema de Vinicius é da década de 1950, parece).  Aqui Cabral lhe impõe o rigor do puro e do “puro”,  através da depuração não purista de dois tipos de cal.  Dois belíssimos poemas.

         Não poderia deixar de ilustrar esta postagem com uma foto que amo – não sei quem é o fotógrafo – dos dois poetas, no meio de suas andanças de diplomatas, que ambos eram, numa Paris do anos 1960 com um icônico Citroën-sapo ao fundo.

 

ILUSTRAÇÃO PARA A “CARTA AOS PUROS” DE VINÍCIUS DE MORAES

 A uma se diz cal viva: a uma, morta;
uma, de ação até o ponto de ativista,
passa de pura a purista e daí passa
a depurar (destruindo o que purifica).
E uma, nada purista e só construtora,
trabalha apagadamente e sem cronista:
mais modesta que servente de pedreiro
aquém de salário mínimo, de nortista

Uma cal sai por aí tudo, vestindo tudo
com o algodãozinho alvo de sua camisa,
de uma camisa que, ao vestir de fresco,
veste de claro e de novo, e reperfila;
e nas vezes de vestir parede de adobe,
ou de taipa, de terra crua ou de argila,  
essa cal lhe constrói um perfil afiado,
uma quina pura, quase de pedra cantaria.
Uma cal não sai: se referve em caieiras
se apurando sem fim a corrosão e a ira,
o purismo e a intolerância inquisidora,
de beata e gramatical, somente punitiva;
se a deixassem sair, sairia roendo tudo
(de tudo, e até de coisas nem nascidas),
e no fim roídas as fichas e indicadores,
se roeria os dentes: enfim autopolícia.


João Cabral de Melo Neto.  Obra completa. RJ: Nova Aguilar, 2003.



domingo, 3 de novembro de 2013

CIRCUNVAGANDO NAS BIOGRAFIAS


Não tinha lido a coluna de Caetano Veloso do domingo passado, o que fiz agora (pelo andar da carroça aqui no brejo, domingo que vem eu devo ler a de hoje), mas tem ali duas passagens dignas de nota, que comento e transcrevo:

  1. quanto ao interesse que o assunto “biografias”  despertou, diz Caetano, “pelo visto nas folhas e nas redes, o interesse é enorme, embora não pareça ser pelo que é discutível na questão, e sim pela oportunidade de agredir quem ganhou prestígio no Brasil, país que ainda precisamos tanto provar que não vale nada nem poderá nunca valer nada”.  Não querendo endossar tudo, uma vez que sou mais acometido do que Caetano por esse sentimento de que “nada dará certo no Brasil”,  mas há aqui carradas de razão, sendo alguma coisa que me chamou a atenção nos primeiros comentários dos poucos que fiz no Facebook : impressionante a massa acrítica de ódio despejado sobre essas figuras (em especial Caetano e parece que sabemos tacitamente por que), facilmente perceptível   na recusa em se discutir o que há de discutível em tudo aí (a começar pelo posicionamento inicial deles, artistas, em linhas gerais bem capenga).  Não é também o caso de se simplificar tanto, mas eu sou do clã do Tom Jobim, que dizia com todas as letras “brasileiro odeia o sucesso, por isso gosta do Garrincha e não gosta do Pelé.”
  2. Caetano, depois de ecoar Ana Maria Machado (que não li), escreve:  “que não ajamos como se a democracia tivesse que escolher entre a censura e a difamação. Será que o tom histérico da imprensa e a psicopatia coletiva das redes são a palavra final? Acho que Chico, Gil e eu não estarmos em posição confortável reafirma nosso histórico, ao invés de desmenti-lo. Eu desconfiaria se os três estivéssemos, ao mesmo tempo, tendo apoio unânime.”
Pois nessa última citação a estocada certeira, que atinge professores de história e de literatura preguiçosos (além de jornalistas, é claro) que ficam repetindo as baboseiras de sempre a respeito de “protesto”,  “resistência” e “heroísmo” dessa geração de artistas, negligenciando os aspectos (alguns muito profundos) que sempre houve de dissenso entre eles.  Parece que o sonho desse pessoal  simplista é deixar a palavra final ao simplista Belchior: “Nossos ídolos ainda são os mesmos etc e tal", a chorumela que todo mundo sabe... A simplificação excessiva faz tanto a reflexão histórica quanto a reflexão literária reféns  do jornalismo diário (que tem de lidar com a pressa mesmo e, por conseguinte, com  a simplificação).  Mas mesmo no jornalismo  há aqueles que não se submetem a isso – e alguns textos produzidos para a imprensa têm sido muito honestos  na tentativa de se entender o imbróglio, sem querer livrar a cara de nenhum “ídolo”  – e o imbróglio,  de resto, vai muito além de uma discussão circunscrita a eles. Mas, claro, não pode incluir a sério em nenhuma instância o que diz um Bolsonaro a respeito.

Que a “turma da MPB” nunca tenha sido um bloco unitário e coeso estudiosos sérios (de história, de música  e de literatura) já o demonstraram. Que essa ilusão tenha se perdido para sempre num certo réveillon em Copacabana e não se tenha prestado a devida atenção a isso, bom... lamente-se.  Não acho que se deva tratar a questão por um lado simplificadoramente esteticista, longe disso, mas da forma como tenho visto ser abordado tem alguma razão quem o fizer, ainda que apenas por tédio (eu mesmo tenho me acusado disso): e assim é porque  as obras deixadas por eles (tiro a média da turma) e a importância que elas têm para a discussão cultural brasileira  são superiores a suas circunstâncias históricas, ainda mais se ficarmos chafurdando nessa coisa menor da fofoca.   E afinal, as circunstâncias históricas que alimentaram essas mesmas obras foram em geral tratadas nelas com admirável competência, poder de provocação e profundidade.  Além de terem estado longe de ser recebidas, tais obras,  – convém não esquecer que são mais de 40 anos de estrada – com aplausos unânimes em nenhum momento.
Em resumo, ainda que apenas vadio e em nível de mero pitaco (que, aliás, acabo de descobrir, não é uma palavra dicionarizada): um esteticismo domingueiro – e no entanto produtivo, estou aqui às voltas com um texto de mais fôlego – me obriga deixar claro que amo todos que citei, mesmo implicitamente, acima: e reafirmar que amo muito Tom e igualmente Pelé e Garrincha.  Mas Belchior, menos.  E Paulinho da Viola, mais que todos.




P.S: Não, uma foto incluindo Paulinho da Viola não pode ser tomada como equívoco ou relaxamento de minha parte: ele não é o J. Pinto Fernandes da história.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DOIS MULATOS BAIANOS NÃO ALINHADOS: MARIGHELLA E CAETANO



UM COMUNISTA

Um mulato baiano,
muito alto e mulato
filho de um italiano
e de uma preta hauçá

foi aprendendo a ler
olhando o mundo à volta
e prestando atenção
no que não estava a vista

Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
que morreu em São Paulo
baleado por homens
do poder militar

nas feições que ganhou
em solo americano
a dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano,
minimanual
do guerrilheiro urbano
que foi preso por Vargas

depois por Magalhães
por fim, pelos milicos
sempre foi perseguido
nas minúcias das pistas

como são os comunistas

Não que os seus inimigos
estivessem lutando
contra as nações terror
que o comunismo urdia

mas por vãos interesses
de poder e dinheiro
quase sempre por menos
quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
eu estava no exílio
e mandei um recado:
"eu que tinha morrido"

e que ele estava vivo,
mas ninguém entendia
vida sem utopia
não entendo que exista

Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
segue trágica, sempre
indecodificável
tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
o samba o reverencia
muito embora não creia
em violência e guerrilha

Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
multidões apodrecem
há um abismo entre homens
e homens, o horror

Quem e como fará
com que a terra se acenda?
e  desate seus nós
discutindo-se Clara

Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano
 já não obedecia
às ordens de interesse
que vinham de Moscou

era luta romântica
era luz e era treva
feita de maravilha,
de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

Carlos Marighella 

 
Ouvindo pela primeira vez “Um comunista’, faixa do mais novo CD de Caetano Veloso me deparo de saída  com esta belíssima gênese: “Foi aprendendo a ler/olhando o mundo à volta/e prestando atenção/no que não estava à vista/assim nasce um comunista”, gênese que sempre se poderá argumentar que não precisa ser necessariamente a de um comunista mas de qualquer um com impulso  de compreensão humanista do mundo e anseio de justiça social, OK.  Mas  faz todo o sentido que Caetano se refira  na letra a Carlos Marighella, comunista não-alinhado a Moscou, expulso do PCB e morto pela repressão policial-militar em São Paulo em fins de 1969, homenageado na canção.  Sob o impacto hoje da morte de outro grande comunista, este sempre alinhado, Oscar Niemeyer, chego a me emocionar quando leio, algumas estrofes abaixo “O baiano morreu/eu estava no exílio/e mandei um recado:/’eu que tinha morrido’/e que ele estava vivo/mas ninguém entendia”, porque, entre outras coisas em 1969 eu li esse texto n’O Pasquim e, obviamente, também não entendi a referência, embora me encantasse, sim, e creio que para sempre,  com as imagens desoladas da prosa de Caetano.  Emociono-me com a memória, não sei bem precisar esta emoção. Eu tinha na ocasião apenas 13 anos, estava me exercitando em prestar atenção no que não estava à vista, e se O Pasquim estava, se era vendido nas bancas de revista  e fazia grande estardalhaço, em boa medida era porque ali sabíamos que se falava de coisas que absolutamente também não estavam á vista.  Éramos poucos, talvez?  Preparávamo-nos para sermos comunistas, como a direita pensava – e pensa sempre? Éramos jovens com anseios de justiça social e liberdade?  Hoje já não sou mais jovem, mas a imagem de Caetano vai na mosca: sigo querendo prestar atenção no que não está à vista. E recomendo o mesmo a todos, aos jovens, meus filhos incluídos.
Mas tergiverso.  A ideia desta postagem  é  sobretudo informação.  Assim, vou transcrever na íntegra o texto de Caetano, publicado originalmente na edição d’O Pasquim de 27/11 a 02/12/1969.  Confiro no Google que Marighella foi morto no começo de novembro de 1969.  Eis  texto de Caetano, referido na canção, que hoje está no volume organizado por Eucanaã Ferraz, O mundo não é chato, da Companhia das Letras, 2005:

Hoje quando eu acordei

            Hoje quando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais feia que eu já vi na minha vida.  Essa coisa era a minha própria cara. Eu sou um sujeito famoso no Brasil, muita gente me conhece.  Eu acredito que a maneira pela qual esse conhecimento se dá pode dizer muito a mim mesmo sobre mim.  Acho que uma capa de revista pode ser como um espelho para um homem famoso.  Quando um homem vê a sua cara no espelho ele vê objetivamente em que estado a vida o deixou.
            O videoteipe, a fotografia colorida e as manchetes que incluem o nome de um homem famoso são também assim como o espelho.  Durante todo o tempo em que eu estive trabalhando com música popular no Brasil, eu sempre levei em conta esse fato.  E eu pensava que estava fazendo alguma coisa, pois a imagem que me era devolvida era a de alguém vivo, em movimento, passando realmente por entre as coisas.
            Hoje eu fui à aula de inglês e Mr. Lee me ensinou a usar direct speech  em lugar de reported speech.  Depois da aula King’s Road estava uma beleza sob uma chuva fria e crônica.  Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar.  Mas eu não estou aqui e não tenho nada com isso.
            Estou andando como os homens, com meus dois pés.  Não penso em fazer nada.  Alguém entende o que seja isso?
            O cara que vende cigarro no Picasso fala espanhol. Na janela da casa onde eu estou morando tem uns gerânios que já estão secando por causa do outono.  Meu coração está cheio de um ódio opaco.  As crianças inglesas são belas e agressivas.  A Rainha Elizabeth está pedindo aumento de salário.  Eu não dependo disso tudo.  Nada disso depende de mim.  O aspirador não serve para limpar as cortinas porque é muito pesado.  Aqui em casa.  O Rei esteve ontem aqui em casa e eu chorei muito.  Se você quiser saber quem eu sou eu posso lhe dizer; entre no meu carro, na estrada de Santos, você vai me conhecer.
            Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso.  Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu.  Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço pra esses caras.  Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar.  Mas virão outros.  Nós estamos mortos.
            Ele está mais vivo do que nós.”
 
          Que fale por si o texto, mas acrescento algumas notinhas, apenas como adendos informativos, sem querer avançar em interpretações.  Reponta a referência a João Cabral, decisiva influência no Caetano pré-tropicalista e que volta e meia marca presença em sua poética ainda hoje.  No caso, a referência é vigorosa e se faz pela  afirmação da vida, superando os signos  da morte: a imagem de “alguém vivo realmente passando entre as coisas”  é a imagem da  “espessura da vida” n’ “O cão sem plumas”, as afirmações do movimento do rio, da espada, do cão, do homem, de quem se diz que se sabem vivos na medida em que “viver é ir entre o que vive”, assim como “uma ave que vai cada segundo conquistando seu voo”.  Outra curiosidade do texto é a frase “Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar”  que depois surgirá quase idêntica no inglês de “London London” (supondo estou, claro, que a canção seja posterior ao texto).  E finalmente a referência à visita que Roberto Carlos faz a Caetano em Londres, que depois será contada em Verdade tropical e em outras ocasiões:  é muito próprio de Caetano esse movimento desconcertante de deriva do texto; no caso aqui,  depois de se ater a aspectos e observações banais de sua vida no exílio londrino, inclusive a nota cômica de a Rainha estar pedindo aumento de salário, quando fala no Rei “aqui em casa”  quem  estaria seguro para saber que se trata do “Rei” Roberto Carlos, mesmo com a referência óbvia a “As curvas da estrada de Santos”, lançada  no disco daquele ano?  José Miguel Wisnik teve uma grande sacada ao designar como “oculto óbvio” esse traço de Caetano, muito presente em suas canções e atitudes no tropicalismo e imediatamente após, e que será mesmo tematizado em canções (“Não-identificado”, “A voz do morto”, “A voz do vivo” e de forma eloquente em “Um índio”).  O “oculto óbvio”, afinal, responde tanto pela referência ao baiano Marighella quanto ao fato de ninguém ter percebido a (óbvia) referência (oculta).  

Marighella morto em tocaia, novembro de 69.  A foto saiu na imprensa e é possível que seja a ela que Caetano se refere




            Nas suas memórias dos tempos do tropicalismo, Verdade tropical, lançado em  1997, é assim que Caetano situa todos os acontecimentos de que fala o texto e a letra da recente canção (ele fala em “nós”, referindo-se à dupla de exilados, ele e Gil):

            “Acompanhávamos de longe o que se passava no Brasil. Sem que eu estivesse certo do que poderia resultar de uma revolução armada, o heroísmo dos guerrilheiros como única resposta radical à perpetuação da ditadura merecia meu respeito assombrado. No fundo, nós sentíamos com eles uma identificação à distância, de caráter romântico, que nunca tínhamos sentido com a esquerda tradicional e o Partido Comunista.  Nós os víamos – e um pouco nos sentíamos – à esquerda da esquerda.  Quando mataram Marighella, o líder da guerrilha urbana, um baiano que pertencera ao Partido Comunista e que tinha a fama de ter respondido, quando estudante, às questões de uma prova de química em versos decassílabos rimados, coincidiu de publicarem as primeiras fotos que fizeram de nós no exílio na mesma capa de revista em que expunham a de Marighella morto.  Isso me pareceu doloroso. Eu enviava então, a pedido de Luís Carlos Maciel, artigos para o jornal O Pasquim, e, considerando o peso simbólicos da coincidência das duas imagens naquela capa de revista (a de maior tiragem do Brasil de então), escrevi um longo e amargurado texto que terminava  com a afirmação: ‘Nós estamos mortos; ele está mais vivo do que nós’.  Nem uma só pessoa no Brasil percebeu do que eu estava falando. Recebi muitas cartas tentando reconfortar-me pelo sofrimento de estar exilado e conversei com várias pessoas que passavam por Londres e por Paris: mesmo os que mencionavam a execução de Marighella e o meu artigo não relacionavam nem remotamente uma coisa à outra.  Fiquei espantado e isso meu deu uma espécie de medida da distância psicológica que nos separava dos que estavam vivendo no Brasil.  As notícias de ações terroristas causavam um misto de entusiasmo e apreensão.  Afinal, doces tocadores de violão saídos  dos lares da classe média não se sentem muito à vontade diante da perspectiva de violência.  Mas as trocas de embaixadores de países ricos por grupos de prisioneiros – com as agradáveis confirmações por parte dos sequestrados de que foram tratados com humanidade – apareciam como gloriosas vitórias daqueles que lutavam a boa luta da resistência.”

Caetano no exílio londrino

 
Só mais um "aliás": sobre Oscar Niemeyer, morto ontem, dediquei-lhe um poema, por ocasião de seus 100 anos, que publiquei em meu livro Firma irreconhecível, e que foi igualmente uma das primeiras postagens deste blog.  O leitor que quiser lê-lo pode acessar o link http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2010/12/oscar-niemeyer.html.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

TORQUATO NETO TRÊS VEZES



1.    De “literato cantábile”

a)    A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe:
acabe logo comigo
ou se acabe.

b)    A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe –
estão no fim, no início
da chave.

c)    Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe:
é nela propriamente que eu me ligo,
nem disco, nem filme:
nada, amizade.  Chuvas de virtude:
chaves.

d)    (amar-te/a morte/morrer:
há urubus no telhado e a carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta da saída).

e)    A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?

f)     A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
“como dois mais dois são cinco”
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospicio
É refúgio.  Fuja.


2.    COGITO

Eu sou como eu sou
pronome
pessoal instranferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

Eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

Eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.



3.    PESSOAL INTRANSFERÍVEL

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos.  É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.  Nada no bolso e nas mãos.  Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, etc.  difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa.  Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes.  E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar: citação: leve um homem e um boi ao matadouro.  O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.  Adeusão.
                        (In: Os últimos dias de paupéria, 1973)
           

Torquato Neto (1944-1972) era piauiense, ligado ao grupo tropicalista, trabalhava como jornalista e agitador cultural, sendo ainda um letrista importante, com parcerias de vulto com Caetano Veloso (“Mamãe, coragem: “Ai de mim Copacabana”...), Gilberto Gil (“Geleia Geral”, “Domingou”...), Edu Lobo (“Pra dizer adeus”...), Jards Macalé (“Let’s play that”), entre outros. 
Torquato suicidou-se no dia de seu aniversário de 28 anos. Tinha diversas internações em hospitais psiquiátricos, e seus escritos dispersos (poemas, letras, cartas, anotações, diários etc) foram reunidos pela primeira vez por Waly Salomão na obra póstuma Os últimos dias de paupéria, cuja primeira edição foi lançada no ano seguinte ao de sua morte (uma 2ª. edição, revista e ampliada, saiu em 1982).   Em 2004, Paulo Roberto Pires lançou Torquatália, em dois volumes (Do lado de dentro e Geleia geral) reunindo muito material inédito que se acrescentou ao que já havia antes saído. 
Torquato é um poeta-letrista dos mais ricos de sua geração: como poeta, é nitidamente marcado por Drummond, a que eu acrescentaria ainda Oswald e a presença do experimentalismo concretista.  Mas talvez o mais interessante do que deixou escrito é a constante preocupação de enlaçar ética e estética, fazer da linguagem um território a ser explorado de forma inseparável dos compromissos éticos com os quais severamente sua geração – e sua “turma “ – teve que se haver. Essa postura, “vitalista”, por assim dizer, faz com que possa pensar em Torquato como um nome chave (talvez junto com Waly) de transição entre a geração experimentalista das neovanguardas dos anos 60 e a geração dos poetas marginais da década seguinte. 
No disco Cinema transcendental, de 1979, Caetano inclui “Cajuína”, uma canção homenagem-recordação de/a Torquato.  Sérgio Brito, dos Titãs, põe melodia no texto de “Go back”, até então inédita, e a canção vira um dos grandes sucessos da banda em 1988.



domingo, 1 de janeiro de 2012

PAULINHO DA VIOLA, ESTAMOS PRECISANDO TE OUVIR


             Estamos precisando ouvir Paulinho da Viola.  Não gosto nem de pensar no tanto de tempo já decorrido desde que foi lançado seu último CD.  Acho até que a indústria fonográfica ainda existia.
            Bebadachama, o CD ao vivo, foi em 97.  Em 99 um outro, ao vivo, com Toquinho.  Quanto tempo tem já o filme Meu tempo é hoje?  Dez anos? Quase isso? E o programa da MTV?  Uns cinco anos ou mais? Se eu for falar do tempo que está passando sem lhe ouvir as novidades vou ficar aflito. Paro por aqui.
            Não se trata de saudade não.  Nem poderia.  Acho que aprendi com ele a como lidar com isso da saudade (embora eu já tivesse uma aversão natural a abrigá-la), quero dizer, a como entender que o culto da saudade não faz sentido.  Desde que...
            Desde que se tenha a compreensão do que Paulinho várias vezes já disse em entrevistas – e mesmo pessoalmente a mim –, e que eu vou tentar traduzir.  Tentarei explicar à altura
            O que as pessoas chamam de saudade é o desejo de preencher, de repor de alguma maneira, alguma coisa que achamos, as pessoas,  que ali já esteve, que ali estava e que, sabe-se lá como e por que, de alguma forma deixou de estar.  Um vazio.
            Quer dizer, a saudade – ó truísmo! – é repor uma perda.  Essa perda é um déficit do presente em relação ao passado, certo?  Só que isso que presumivelmente seria reposto no lugar do que falta, por exigência nossa ao sentirmos saudade, seria reposto tão somente para suprir essa falta.  Não seria outra a razão de sua existência.  Donde se conclui que isso que “tapa o buraco”, que “preenche o vazio”, não teria nenhuma outra razão presente de existência.  Assim seriam dois os déficits: daí que a saudade seria uma forma também de autofagia.
            Mas, e quando não se cai nessa de que a razão de existir do que  existe no presente – mesmo naquele que hoje é passado – não pode ser simplesmente tapar os buracos das nossas carências?   Isso eu acho que quem quis aprender com Paulinho da Viola  aprendeu.  É se descolar da ilusão dos vazios.
            É se descolar da ilusão da saudade.  O que acontece tem sua razão de existir nesse acontecer.  O que é bom, o que é forte, acontece em sentido intenso e extenso.  Isso podemos cobrar de tudo aquilo que acontece – falemos de fatos e objetos culturais – para que essas coisas se revistam de valor para nós.  Quanto ao presente, fazemos na verdade uma aposta: que elas continuem presentes.  E quanto ao que aconteceu no passado, não significa que elas tenham morrido, que elas não sejam mais. A permanência do presente nelas (mais do que a permanência delas num presente qualquer que não o imediato de sua criação) é que define a força que elas venham a possuir. 
            Assim: Pixinguinha está aí, como Noel está aí, como estão aí Ary, Caymmi, Gonzagão, Cartola, Lupicínio, Nelson Cavaquinho, Geraldo e Wilson, Candeia, Zé Kéti, Manacea, Monarco  e Mano Décio... eles e tantos outros estão aí.  Não é justo confiná-los nos escaninhos do passado.  Temos é que estar à altura do que eles fizeram , já que julgamos que eles fizeram por permanecer.
Dito assim talvez seja fácil.  Difícil é viver com isso, difícil é viver isso.  Porque fazê-lo implica ter uma visão mais ampla do presente, implica não ter nítida a linha demarcatória onde se confina a memória no gueto do passado – melhor: implica, a rigor, não ter essa linha demarcatória.  A atualização do “passado” não existe.  Existe o passado – sem que lhe tenhamos que dar este nome – no presente atual.  Qualquer cochilo, o saudosismo entra por aí, insidioso.  Não choramingar pelo tempo que se foi é o difícil.  O tempo foge? Colha-se o dia.
É possível que eu não esteja me fazendo entender.  Mas quero voltar ao ponto de onde parti.
Estamos precisando ouvir Paulinho da Viola.  E digo: eu, particularmente, não tenho saudade nenhuma de ouvi-lo.  Acho que agora fica fácil entender: tenho aqui comigo todos os seus discos, assim como tenho vários vídeos.  A vontade de ouvir bate, eu vou ali e ouço.  Sem contar que ele está comigo mesmo quando não o estou ouvindo, incorporado de vez ao meu “fatal lado esquerdo”, como diria Drummond. O que ele  já compôs, já deixou gravado tem uma existência plena, o presente que está contido nesses sambas, nesses choros se presentifica a cada vez que,  na comodidade que as mídias proporcionam, eu ponho um CD ou um DVD pra girar. E é muito bom saber que a cada vez que acontece,  o prazer que sinto nada tem  a ver com saudade. É diferente: e se digo que  precisamos ouvir, assumindo este coletivo,  é porque Paulinho da Viola está fazendo falta.
Faz falta ouvir um CD novo, novas canções, novos sambas, novos choros.  Que sejam composições próprias ou dos compositores que ele freqüenta. Não importa se  inéditas ou não.  Nesse sentido faz falta ouvi-lo.  Nesse sentido talvez pudesse ele ser um pouco menos avaro (a palavra é pesada, reconheço, quase a rasuro; mas acabo por deixá-la: será que ele se aborreceria?).
Faz falta ouvir também Paulinho falar. Não para “dar jeito nas coisas”, como se costuma dizer, no samba ou em coisa que o valha.  Ninguém precisa “tomar na cara pra ver que o samba etc”, já disse o Chico. Nem precisa, o samba, de quem o salve, ele “é terrível”, já dizia o Caetano de 68, num samba aliás dedicado a Paulinho.  Os caminhos e descaminhos do samba continuam e continuarão a se fazer, mas a fala de Paulinho, para nos falar um pouco de sua visão de tudo isso,  falta.  Mesmo porque, ele é felizmente, para meu gosto, o menos professoral dos grandes mestres do samba.  “Meio oficial”, ele me disse certa vez quando o chamei de mestre: Na qualificação dos artesãos historicamente era assim.  Primeiro você era aprendiz e depois, meio oficial, até chegar a oficial, marceneiro-oficial, pedreiro-oficial, porque parece que o sujeito tinha que deixar o ofício, correr as várias oficinas e aí, depois de um certo tempo ele se tornava oficial.  O mestre já era uma coisa bem mais avançada mesmo. Eu me vejo como meio oficial. É, o mestre já é alguma coisa bem superior”.
A sua fala parentética, tmética  está fazendo falta porque entre outras coisas ela não discorre com “naturalidade” fingida ou sincera sobre as obviedades que cercariam o estatuto artístico entre nós, brasileiros.  Como escreveu Nuno Ramos num belo texto, em Paulinho existe a compreensão de que a origem daquilo que ele faz, o samba, é uma origem cultural e não, como é tão comum se considerar entre nós (ainda mais em se tratando de samba!) , uma origem natural.  Daí vem muito da diferença fundamental entre Paulinho e seus pares – no  samba e fora dele.  Paulinho  não pode – ou não sabe, tanto faz – ser professoral, falar como um “naturalista” fascinado com o exotismo (inclusive o próprio) porque não é de exotismo, não é de natureza, não é de natureza exótica que se trata.  Trata-se – se o assunto for o samba ou for o choro ou for a música em geral – de coisas, de artefatos, de objetos, de criações e criaturas e criadores vivos, presentes, passando aqui e ali o tempo todo, exigindo reposicionamentos, outros ângulos para ver como tudo se movimenta, nada está parado, morto, dado, estabelecido nesse universo.  Isso é o contrário do que a cultura brasileira em 90% dos casos (claro que o dado aqui é retórico) faz ao falar de samba. A profunda e diferente compreensão disso explica a fala parentética de Paulinho.  Que faz falta.  Bem utilizada, é um espermicida contra a saudade.
De carona nessa sutil diferença de Paulinho em relação ao samba, vem também  a sua recusa em se converter á outra equação simplificadora de ver o samba como a encarnação dos valores positivos da identidade nacional.  Não encontramos isso em Paulinho, e sua fala, sempre sutilmente taxativa em relação ao tema,  precisa também se fazer ouvir.  Se bem que hoje essa concepção  muito tacanha, tantos tropicalismos depois, já está bem debilitada.  Bem compreendida,  toda a sua obra dá conta dessa recusa.  Num de seus primeiros discos, em 1971, Paulinho deixou que o poeta Capinam falasse por ele em texto da contracapa” “Pra que dizer que existe música brasileira? Existe o zumbido da alma de cada um”. 
Num poema muito longo do Firma irreconhecível,  “Cabral com ímpares”, procurei dar conta de um trio de homenageados certamente um tanto improvável: o poeta João Cabral, Tom Zé e Paulinho da Viola.  A uni-los, por meio de tantas diferenças, a compreensão muito profunda neles da necessidade do aprendizado em arte, aprendizados tão diferentes – presumo – entre si.  Tentando pastichar a dicção cabralina, lá pelas tantas do poema eu ouso falar um pouco do específico do aprendizado em Paulinho, tentando ainda, ao roçar pelas imagens que remetem ao mundo natural, delas desviar e incorporar apenas o que roça por suas franjas, em direção ao que é cultural, construído, feito,  e não dado:


Por contra-exemplo: Paulinho
que a seu nome incorporou
a doce curva da viola
mas com corte: cavaquinho;

por contra-exemplo de Tomzé
a coleção de Paulinho
que um seu Mestre nomeou:
coleção de passarinhos:

rouxinóis de arrabalde
gaturamos  do longínquo
em Paulinho a canção-pássara
não teme a pedra que a extingue;

não mais canções não mais pássaros
sabe que no mundo existem
e ele os leva então na voz
e dentro de si: inquilinos

não em gaiola acoitados
ou presos em si clandestinos,
porém mais como passageiros
a descer o Velho Chico

no curso de tanta água
tendo o mar como destino
mas antes do mar tanta água
a atravessar, desmedida

que a canção-pássara que a passa
pervaga um curso intestino
não desfraldada como em mar
mas destilada em alambique

e desce em Oswaldo Cruz
articulando em repique
o repouso dos dormentes
à mordente voz dos trilhos.


            Pra encerrar, faz falta ouvir Paulinho cantar num novo CD, faz falta ouvi-lo falar.  Seus dois brilhantes companheiros de geração, Chico e Caetano, nos têm presenteado com admiráveis obras de sua maturidade criativa, irrequieta, tensa, tão dolorosa às vezes.  O que teria Paulinho para nos mostrar?  Começa o novo ano, 2012 está aí.  Não seria bom ouvir Paulinho da Viola de novo, e muito, em 2012?
            Feliz Ano Novo!