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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)


AS PROMESSAS DE UM ROSTO

 

Amo,ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
Que não têm nada de funéreos. 
 
Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: “Amante, se o apelo
Queres seguir da musa plástica,

  Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
Que nós te fomos bem verazes;

 Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
Amorenado como bronze,
 
Um rico tosão que à tua enorme cabeleira
Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
Noite sem astros, Noite escura!”

 

Tradução de José Paulo Paes
 
Baudelaire: Autorretrato sobre os efeitos do haxixe

 
 
LES PROMESSES D'UN VISAGE
 
J'aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D'où semblent couler des ténèbres,
Tes yeux, quoique très noirs, m'inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.

Tes yeux, qui sont d'accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent : " Si tu veux,
Amant de la muse plastique,

Suivre l'espoir qu'en toi nous avons excité,
Et tous les goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu'aux fesses ;

Tu trouveras au bout de deux beaux seins bien lourds,
Deux larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d'un bonze,

Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t'égale en épaisseur,
Nuit sans étoiles, Nuit obscure !"
 
José Paulo Paes.  Poesia erótica em tradução.  Companhia das Letras, 1990.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

BAUDELAIRE: O CISNE


O CISNE

            A Victor Hugo

 

I
Andrômaca, é em ti que eu penso! Aquele rio,
Espelho triste, em que outrora resplandeceu
Tua dor de viúva em majestoso brio,
Simoente irreal que teu choro cresceu,

Súbito fecundou minha fértil saudade,
Quando ia cruzar o Carrossel atual.
A velha Paris não é mais! (uma cidade
Muda mais rápido, ai, que um coração mortal);

Em minha mente vejo o campo de barracas,
Fustes, capitéis numa pilha de bosquejos,
Ervas, pedras que as poças tornam verdes placas, 
Brilhos do bricabraque sobre os azulejos.

Ali ficavam bichos em exibição;
Ali eu vi num dia de céu claro e frio,
No instante em que o trabalho acorda, e um tufão
De lixo vem cortar o ar sombrio em silêncio,

Um cisne, que fugira da gaiola, só,
A esfregar os seus pés no seco pavimento,
E arrastar sua branca plumagem no pó.
Junto ao regato sem água, o bico sedento,

Nervoso, no chão duro as asas mergulhando, 
Seu coração imerso no lago natal,
Dizia: "Sem trovões, sem chuvas, até quando?"
Eu vejo este infeliz, mito estranho e fatal,

Erguer algumas vezes, qual o homem de Ovídio,
Rumo ao azul irônico e cruel dos céus,
A cabeça ansiosa, convulso, em dissídio,
Como a endereçar reprovações a Deus!

II
Paris muda! porém minha melancolia
Não!, andaimes, palácios novos, avenidas,
Blocos, para mim tudo vira alegoria, 
E mais que as pedras, pesam lembranças queridas.

Também em frente ao Louvre uma imagem me oprime:
Penso em meu cisne, no seu gesto delirante,
Tal qual os exilados, grotesco e sublime,
Roído de um desejo sem fim! e adiante,

Andrômaca, em ti, de um grande esposo roubada,
Sob o poder de Pirro, gado sem valor, 
Junto à tumba deserta em êxtase curvada;
Mulher de Heleno, mas a viúva de Heitor!

Penso naquela negra, magricela e tísica,
Os pés na lama, os olhos na procura aflita 
Dos coqueiros ausentes da África magnífica
Por detrás das muralhas de bruma infinita;

Nos que perderam o que não se recupera
Jamais, jamais! nos que lambem suas feridas
E vão mamar na Dor como uma boa fera! 
Nos órfãos magros tal qual flores ressequidas!

No exílio, na floresta onde fiz minha trilha, 
Uma velha Lembrança sopra seus metais!
Penso nos marinheiros deixados na ilha, 
Nos presos, nos vencidos! ... e outros tantos mais!

                                                         Tradução de Duda Machado
 
 
Imagens da Praça do Carrossel em Paris , onde Baudelaire ambientou o poema, e arredores,  no período da reforma urbana contemporânea do poeta, a cargo do Barão Haussmann.



Aspecto da Praça do Carrossel, c. 1870.

Fotografia de Charles Marville
 

LE CYGNE
À Victor Hugo
I
Andromaque, je pense à vous! Ce petit fleuve,
Pauvre et triste miroir où jadis resplendit
L'immense majesté de vos douleurs de veuve,
Ce Simoïs menteur qui par vos pleurs grandit,


A fécondé soudain ma mémoire fertile,
Comme je traversais le nouveau Carrousel.
Le vieux Paris n'est plus (la forme d'une ville
Change plus vite, hélas! que le coeur d'un mortel);


Je ne vois qu'en esprit tout ce camp de baraques,
Ces tas de chapiteaux ébauchés et de fûts,
Les herbes, les gros blocs verdis par l'eau des flaques,
Et, brillant aux carreaux, le bric-à-brac confus.


Là s'étalait jadis une ménagerie;
Là je vis, un matin, à l'heure où sous les cieux
Froids et clairs le Travail s'éveille, où la voirie
Pousse un sombre ouragan dans l'air silencieux,


Un cygne qui s'était évadé de sa cage,
Et, de ses pieds palmés frottant le pavé sec,
Sur le sol raboteux traînait son blanc plumage.
Près d'un ruisseau sans eau la bête ouvrant le bec


Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre,
Et disait, le coeur plein de son beau lac natal:
«Eau, quand donc pleuvras-tu? quand tonneras-tu, foudre?»
Je vois ce malheureux, mythe étrange et fatal,


Vers le ciel quelquefois, comme l'homme d'Ovide,
Vers le ciel ironique et cruellement bleu,
Sur son cou convulsif tendant sa tête avide
Comme s'il adressait des reproches à Dieu!




Fotografia de Charles Marville
 

II
Paris change! mais rien dans ma mélancolie
N'a bougé! palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie
Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs.


Aussi devant ce Louvre une image m'opprime:
Je pense à mon grand cygne, avec ses gestes fous,
Comme les exilés, ridicule et sublime
Et rongé d'un désir sans trêve! et puis à vous,


Andromaque, des bras d'un grand époux tombée,
Vil bétail, sous la main du superbe Pyrrhus,
Auprès d'un tombeau vide en extase courbée
Veuve d'Hector, hélas! et femme d'Hélénus!


Je pense à la négresse, amaigrie et phtisique
Piétinant dans la boue, et cherchant, l'oeil hagard,
Les cocotiers absents de la superbe Afrique
Derrière la muraille immense du brouillard;


À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve
Jamais, jamais! à ceux qui s'abreuvent de pleurs
Et tètent la Douleur comme une bonne louve!
Aux maigres orphelins séchant comme des fleurs!


Ainsi dans la forêt où mon esprit s'exile
Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor!
Je pense aux matelots oubliés dans une île,
Aux captifs, aux vaincus!... à bien d'autres encor!


 
Praça Carrossel com o Louvre e a pirâmide invertida, hoje
 

domingo, 31 de março de 2013

BANDEIRA TRADUZ BAUDELAIRE

Retrato de Baudelaire por Gustave Courbet, 1847-48

EPÍLOGO

De coração contente escalei a montanha,
De onde se vê – prisão, hospital, lupanar,
Inferno, purgatório – a cidade tamanha,

Em que o vício, como uma flor, floresce no ar.
Bem sabes, ó Satã, senhor de minha sina,
Que eu não vim aqui para lacrimejar.

Como o amásio senil de velha concubina,
Vim para me embriagar da meretriz enorme,
Cujo encanto infernal me remoça e fascina.

Quer quando em seus lençóis matinais ela dorme,
Rouca, obscura, pesada, ou quando em rosicleres
E áureos brilhos venais pompeia multiforme,

– Amo-a, a infame capital! Às vezes dais,
Ó prostitutas e facínoras, prazeres
Que nunca há de entender o comum dos mortais.


Postal de café parisiense, final do século 19

EPILOGUE
Le coeur content, je suis monté sur la montagne
D'où l'on peut contempler la ville en son ampleur,
Hôpital, lupanar, purgatoire, enfer, bagne,


Où toute énormité fleurit comme une fleur.
Tu sais bien, ô Satan, patron de ma détresse,
Que je n'allais pas là pour répandre un vain pleur;


Mais comme un vieux paillard d'une vieille maîtresse,
Je voulais m'enivrer de l'énorme catin
Dont le charme infernal me rajeunit sans cesse.


Que tu dormes encor dans les draps du matin,
Lourde, obscure, enrhumée, ou que tu te pavanes
Dans les voiles du soir passementés d'or fin,


Je t'aime, ô capitale infâme! Courtisanes
Et bandits, tels souvent vous offrez des plaisirs
Que ne comprennent pas les vulgaires profanes.



Manuel Bandeira e o pintor Cícero Dias, Paris, 1957

Passeando por meu volume de Poesia e prosa de Manuel Bandeira, deparei-me com esta  tradução do poema de Baudelaire.  Julgo-a excelente, não me lembrava de tê-la lido antes, quis trazê-la para meus leitores.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

ICARAÍ NEW-GARDEN E OUTROS BREJOS

Saí de Niterói faz dois anos.  Me assustou agora constatar que morei lá por 30 anos, mas é fato, depois de 23 anos em Copacabana.  Essa simples “aritmética biográfica” me leva a uma série de associações que... deixo pra lá, não é o assunto de que quero tratar aqui.
Bom, antes de vir para este brejo onde hoje estou, morava desde 96 em Santa Rosa, em quatro endereços diferentes, numa área limítrofe com Icaraí, o que sempre me levava a perguntar na hora de preencher CEP, se eu moraria num ou noutro bairro.   Aos poucos no entanto eu fui aprendendo a contragosto que morava no Jardim Icaraí.  A contragosto por quê? Porque sempre soubera – ou achava que sabia – que o tal Jardim se restringiria a uns poucos quarteirões retirados, num cantinho que vai encostar lá pros lados do Vital Brasil. Era o que me diziam moradores mais antigos, familiarizados com essas sutilezas geográficas, em geral fruto de um convívio amoroso com a história do lugar onde moram.
Mas não! Fui constatando aos poucos, surpreso, que, sem  nunca ter ido morar no Jardim Icaraí, nos meus últimos 4 ou 5 anos por lá morei justo... no Jardim Icaraí!  É porque a especulação imobiliária que assola a antiga Cidade Sorriso  acha que “Jardim Icaraí” tem uma nobreza no nome, entendem?   “Acha”, não, melhor dizendo, sabe.  A publicidade sabe captar essas ânsias de ascensão social naqueles que vêem sua situação econômica melhorar e passam a ter como objeto de desejo  atingir outro patamar no seu dia-a-dia.   “Sempre foi assim”, digamos pra simplificar.  A conferir no poema de Oswald de Andrade dos anos 20, rindo dos novos ricos paulistanos, dentro do “espírito futurista”, impregnando de amor-humor sua relação com os “modern times”, mesmo que (ou justo por conta disso) a cavaleiro de sua condição de milionário que viria a dilapidar a fortuna da família tradicional.  No poema abaixo temos a inconfundível voz paródica oswaldiana dialogando com a mentalidade jeca-chique dos novos ricos, tão bem capitalizada pela publicidade:

IDEAL BANDEIRANTE
Tome este automóvel
E vá ver o Jardim New-Garden
Depois volte à Rua da Boa Vista
Compre o seu lote
Registe a escritura
Boa firme e valiosa
E more nesse bairro romântico
Equivalente ao célebre
Bois de Boulogne
Prestações mensais
Sem juros

Oswald  sabia que pra essa mentalidade  todo jardim é new-garden, romântico buá de bulonhe.
Vai daí que assim, quase 100 anos depois, se eu nunca morei no tal Jardim, ele veio tentar morar em mim, por artes da indústria imobiliária.  Indústria mobiliária que tem notórios laços com a trupe instalada no poder em Niterói há não sei quantos anos, devastando aquilo lá já há muitos mandatos. Saí de Niterói, portanto, a um passo de morar no Jardim Icaraí.  Uma das vezes em que por lá voltei, ao circular   pela área que virou Icaraí New-Garden,  fiz mais ou menos de cabeça o inventário das casas que por ali havia e que não existem mais.  Fazendo contas de cabeça, me toquei um tanto atordoado que desapareceram, num espaço de alguns poucos  quarteirões, umas 30 casas, substituídas, claro, por edifícios de 10 pavimentos em média.  Isso só circulando nas ruas onde morei desde 96.  Prossigo as contas: se cada edifício  abriga,  calculando por baixo, 20 famílias (na estimativa modesta de 2 aps. por andar), isso quer dizer que saíram 30 famílias e entraram... 600! As ruas do New-Garden são estreitas, a rede de esgotos para atender o número de moradores multiplicado por 20 (por baixo) é a mesma... bom, o que daí decorre está espetacularmente bem exemplificado naquela explosão que aconteceu na estação de esgotos da cidade em abril, inundando de merda e causando uma destruição inimaginável à área perto do Mercado São Pedro (que, aliás, continua sendo a melhor coisa de Niterói – o mercado, não a área).
Sem exagero, sem vontade de fazer “literatura”, sem expressionismo chulé: bandas de música, fanfarras, faixas, gambiarras, bandeiras e guirlandas, fogos de artifício e pobres, muitos pobres muito pobres de perucas multicoloridas – “e quase brancos quase pretos de tão pobres” – foi o que vi de uma das últimas vezes que circulei por onde morei (um quadrilátero formado pela Lopes Trovão, a Otavio Kelly, a Av. Sete e a Rua Santa Rosa).  E vi em três esquinas diferentes, em stands de vendas abarrotados (de novo sem hipérbole) das incorporadoras, os lançamentos espalhafatosos de  uns “Palazzo de Milano”, “Quartier  Versailles” e assemelhados... ou seja, o processo de destruição urbana e todas as suas conseqüências (pet-shops, academias pra exercitar narciso, restaurantezinhos  metidos a finos, barzinhos pra ocupar as calçadas com cadeiras e bêbados chatos etc) está longe de se dar por esgotado, vai render (em mais de um sentido) ainda um bocado.  
Outro dia li um texto no  ótimo blog do poeta Oswaldo Martins  e posto aqui uns trechos, não só porque concordo integralmente com ele mas também porque ilustram perfeitamente o que eu estou querendo dizer:

“Quando alguém, visando a beleza de um produto, a ele dá um nome de um pintor, de um poeta, de um músico, falseia a relação do produto com o público e mostra a destruição que a obra do artista sofre pela exposição midiática. A emulação grosseira pressupõe a falta de leitura daqueles que os mestres da publicidade pensam ser o público alvo do produto oferecido.
(...)
Quando Baudelaire disse que o poeta iria ao mercado vender a alma, como as putas vendem o corpo, não disse ou justificou a mixórdia do mercado – senão que dele fez lugar de preferência para passear a inaptidão do sujeito, sua radical redução à aberração denunciatória dos novos tempos recém-inaugurados.
Quando Caetano entra na justiça para proibir que um investimento qualquer roube-lhe a tropicália para nela fazer morar mal-pensantes que pensam comprar a modernidade e o paraíso, merece, novamente, nossa absoluta aprovação.”  (cliquem aí http://osmarti.blogspot.com/2011/10/picasso.html)


Citei lá em cima o  antropófago. Já  Oswaldo Martins passa por Baudelaire e fecha com Caetano, perfazendo aqui no todo deste texto um percurso por três grandes artistas e grandes provocadores (artistas provocadores) da modernidade (palavra, aliás, que foi cunhada pelo francês).  Enxergar essa dimensão do urbano como horror e fascínio (Friedrich), como aquilo que a poesia não teria mais como nem porque se furtar a tomar como tema e como problema (Candido), essa primeira “sacada”, por assim dizer, quem a teve foi, parece mesmo, Baudelaire.  Oswald soube rir, cínico e conciso, dessa avalanche espreitante de filisteísmo. Assim como Luís Aranha, este com boa dose de galhofa e de jorro poético, parece que entre nós foram eles que mais se aproximaram do “futurismo” de Apollinaire, Cendrars e Palazzeschi, o entusiasmo dos novos tempos numa das mãos, a derrisão na outra.   Mário e Bandeira, para ficar só na primeira hora dos anos 20, também cantaram a cidade moderna, sendo que neles parece haver sempre um travo de indefinível melancolia pela perda de uma paisagem anterior – e neles muito interiorizada.  Foi bom para mim me retirar aqui para este brejo e poder meditar e amar mais detida e distanciadamente essa poesia.  Ainda que para me deparar com minha própria raiva surda e impotente diante desse processo.
Da última vez que estive em Niterói, estava no campus da UFF no Gragoatá quando uma colega comentou que “aqueles apartamentos ali” estavam sendo vendidos a 300, 400 mil cada um.  Olhei para ver quais apartamentos e constatei que se tratava simplesmente de novos prédios em fase já final de construção onde era o casario na Avenida Litorânea, no trecho que medeia entre São Domingos e o Forte.  Meio desconcertado perguntei à amiga se era aquilo mesmo, se eles estavam ali no lugar daquelas casas... diante da resposta afirmativa, não lembrei do “diabo leve quem pôs bonita a minha terra!” do Bandeira, não.  Nem fiquei pensando com que nomes eles teriam sido batizados para ganharem seu verniz de obras de arte. Tive mesmo foi vontade de nunca mais voltar a Niterói.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

AH, UM SONETO... DE BAUDELAIRE

A GIGANTA

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça – eis do que eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.

Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos  enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,

Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.
                                                    
                                                         Trad. Décio Pignatari
                                                          (in: Poesia pois é poesia: 1950-2000)




LA GÉANTE

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J'eusse aimé vivre auprès d'une jeune géante,
Comme aux pieds d'une reine un chat voluptueux.

J'eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement de ses terribles jeux ;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux ;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes ;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s'étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l'ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d'une montagne.

Charles Baudelaire por Nadar

quarta-feira, 2 de março de 2011

BAUDELAIRE: ESPANQUEMOS OS POBRES!

de Honoré Daumier
             
            Durante quinze dias eu me enclausurara no meu quarto e cercara-me dos livros em moda naquele tempo (há dezesseis ou dezessete anos); refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, discretos e ricos em vinte  quatro horas.  Tinha, pois, digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos esses empreendedores da felicidade pública – daqueles que aconselham todos os pobres a fazerem-se escravos, e daqueles que os persuadem de que todos eles são reis destronados.  Não é, pois, de surpreender me achasse num estado de espírito vizinho da vertigem e da estupidez.
            Parecera-me somente que eu sentia, confinado no fundo de meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas as fórmulas de curanderia de que eu havia recentemente percorrido o dicionário.  Isso, porém, era apenas a idéia de uma idéia, alguma coisa infinitamente vaga.
            E saí com muita sede.  O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional de ar livre e de refrigerantes.
            Ia entrando numa taberna, quando um mendigo me estendeu o chapéu, com um desses olhares inesquecíveis que derrocariam os tronos, se o espírito movesse a matéria e se o olho de um magnetizador fizesse amadurecer as uvas.
            Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar-me ao ouvido, uma voz que reconheci perfeitamente;  era a de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda a parte.  Pois se Sócrates tinha o seu bom Demônio, por que não haveria eu de ter o meu Anjo bom, e por que não haveria de ter a honra, como Sócrates, de obter o meu diploma de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo atilado Baillager?
            Entre o Demônio de Sócrates e o meu há esta diferença: o de Sócrates não lhe manifestava senão para defender, advertir, impedir, e o meu se digna de aconselhar, sugerir, persuadir.  O pobre Sócrates não tinha mais que um Demônio proibidor; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, ou Demônio de combate. 
            Ora, a sua voz me cochichava isto:
            – Só é igual a outro aquele que disso dá prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la.
            Imediatamente me atirei sobre o meu mendigo.  Com um só murro lhe tapei um dos olhos, que se tornou, num segundo, do tamanho de uma bola.  Quebrei uma das unhas rebentando-lhe dois dentes, e, como não me sentisse bastante forte – pois sou frágil de natureza e não me exercitei bem no boxe – para moer de pancadas aquele velho, agarrei-o com uma das mãos pelo colete e com a outra empolguei-o pela garganta, e pus-me a sacudir-lhe vigorosamente a cabeça de encontro a uma parede.  Devo confessar que de antemão inspecionara, num lance de olhos, as adjacências, e verificara que naquele subúrbio deserto eu me encontrava, por um espaço de tempo bem longo, fora do alcance de qualquer agente de polícia.
            Depois, com um pontapé nas costas, bastante vigoroso para fraturar-lhe a omoplata, prostrei por terra o alquebrado sexagenário, e, apoderando-me de um grosso galho de árvore que se arrastava pelo chão, fustiguei-o com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bifesteque.
            Súbito – ó milagre! a alegria do filósofo que comprova a excelência da sua teoria! – vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com um vigor que eu jamais teria presumido em máquina tão singularmente desconjuntada, e com um olhar de ódio que se me afigurou de bom augúrio, o malandrim decrépito investiu contra mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes, e com o mesmo galho de árvore me bateu de rijo.  Com a minha enérgica medicação eu lhe restituíra o orgulho e a vida.
            Então, fiz-lhe compreender, por meio de muitos sinais, que dava por encerrada a contenda, e erguendo-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, disse-lhe:
            O senhor é igual a mim!  Dê-me a honra de partilhar da minha bolsa; e, se realmente é filantropo, lembre-se que é necessário aplicar a todos os seus  confrades, quando lhe pedirem esmola, a teoria que eu tive a dor de experimentar nas suas costas.
            Ele jurou-me que havia compreendido a minha teoria, e que ouviria os meus conselhos.


                         (In: Pequenos poemas em prosa. Trad. de Aurélio B. de Holanda Ferreira)