"Depois de passar pelos casos miúdos, redigi a minha primeira tragédia. Uma mulher matara o marido. Não me lembro onde (talvez na rua Mariz e Barros). E, na polícia, quando perguntaram pelas razões do crime, foi sucinta: − “Não gostava do meu marido.”. Não entendi, ninguém entendeu. Matar porque não gostava, e só por isso? Eu ainda não sabia que não gostar do marido, simplesmente não gostar, é pior do que o ódio. Numa palavra: − não fora o ódio, que não existia, mas a simples e terrível falta de amor. Na delegacia, na embriaguez da primeira grande chance profissional, tomei todas as notas. E fui para a redação escrever.”
(Nelson Rodrigues. A menina sem estrela)