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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

EM TORNO D' "A MISSA" DE BEHR E DE MIM

            Postei aqui ontem o poema de Nicolas Behr, “A missa”.  É raro que me aconteça diante de um poema o que me acontece diante desse: é como se ao lê-lo, operando uma pausa absoluta no fluir do tempo, o poema fundasse de súbito uma ilha de memória, não exatamente uma ilha índice de solidão, porém sim de abrigo precário em meio a possíveis tormentas, logo, por precário, também sujeito a tormentas.  E principalmente: índice de alguém com quem eu possa dividir a ilha.
            Esse alguém não é o poeta Behr, que não conheço pessoalmente: é o seu poema e todas as vozes que o povoam. É  todo o mundo que essas vozes vão criando ao longo dos versos, assim disposto, esse mundo, de forma estudadamente desleixada em termos formais, meio que num fluxo um tanto à la poesia beat, num desatavio também muito próprio aos poetas que vêm da geração 70, como é o caso dele, Behr.  São as palavras da liturgia católica derrubadas de súbito aqui, ali, no rasteiro do chão pelos pensamentos do menino que não lhes capta o sentido ou o transfigura, são as vozes muitas da desatenção do menino ante o ritual, à espera de poder voltar à vida lá fora, fora da igreja, vozes de outras crianças que se entrecruzam, sussurradas no interior da nave, e que aqui o leitor lê em pé de igualdade – na verdade, superioridade – com as palavras vazias do padre. . Divido a ilha com esse poema, com essas vozes, na medida em que sei exato o que é isso. Ou seja, acho que na verdade o poema me faz compartilhar a ilha... comigo mesmo, com minhas memórias, que ele acende.
            “A missa” de Behr, poema que conheço há não muito tempo, me transportou, na primeira vez que o li, diretamente não tanto para as missas, poucas, que assisti na vida e das quais quase não tenho lembrança.  Levou-me sim de início a uma situação análoga, se bem que mais angustiosa, do jovem adulto perturbado pelo mundo das formas no poema de Murilo Mendes:

            “Não consigo ultrapassar a linha dos vitrais
            pra repousar nos teus caminhos perfeitos.
            Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas e ancas das mulheres, pronto.
(...)     
            Vestidos suarentos, cabeças virando de repente,
            pernas rompendo a penumbra, sovacos mornos,
            seios decotados não me deixam ver a cruz.

            Me desliguem do mundo das formas!”

“A missa” me levou aqui para a igrejinha próxima a este brejo, onde, não sei por que cargas d’água, me inscreveram há muito tempo para assistir às aulas de catecismo, numa segunda tentativa de fazer a primeira comunhão, visto que a primeira tinha sido frustrada por uma reprovação na São Paulo Apóstolo em Copacabana.  A segunda também se frustraria e justo pelo que está como no poema de Behr: todos os versos me são próximos, melhor, me são meus, em especial um dos últimos: “e eu não quero ser goleiro outra vez”.  Ruim de bola (doente do pé e ruim da cabeça também, vá lá), só me restava ir para o gol.  Agarrar no gol é destino de todo perna-de-pau nos rachas.  Agarrar no gol era muito melhor do que as aulas de catecismo. Muito antes de abandonar os rachas – que carioca chama de pelada – abandonei a idéia de comunhão católica.  Nem na segunda tentativa eu fiz a primeira.  No dia da cerimônia perdi por W.O.
           

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

NICOLAS BEHR

A MISSA

em nome do pai, do filho e do espírito santo
depois da missa vou jogar bola e pescar
cantemos todos o canto de entrada, de pé
tenho vara, linha, chumbada e isca boa, minhoca
bendito seja deus que nos reuniu no amor de cristo
eu e Inácio vamos pescar naquele trecho do rio, difícil
deus pai todo poderoso tenha compaixão de nós
mamãe veio me visitar e fomos tomar guaraná
leitura da carta de são Paulo apóstolo aos romanos
ela vem de novo mês que vem e vamos tomar
guaraná de novo, ela disse, ela prometeu
senhor tende piedade de nós
não sei o que faço para aprender matemática
evangelho de Jesus cristo segundo são Lucas
é tempo de manga na casa da dona alair
glória a deus nas alturas
só que na casa dela agora tem cachorro bravo
e paz na terra aos homens de boa vontade
só faltam três semanas pra gente sair de férias
nós vos damos graça por vossa imensa glória
meu irmão puxou minha orelha, sangrou, doeu
vós que tirais os pecados do mundo
tende piedade de nós
aquele cacho de banana que escondi na roça
dos padres deve estar bem maduro
vós que estais à direita do pai tende piedade de nós
vou lá sozinho comer aquele cacho de banana sozinho
vinde a mim os que têm fome glória a vós senhor
não subo mais em pé de abacate caí quase morro
segura na mão de deus que ele te sustentará
que pena vão derrubar o muro da casa do seu João
não vai mais ter graça roubar manga lá
oh meu bom Jesus que a todos conduz
olhai as crianças do nosso brasil
ah mas ainda tem muitos outros quintais
pra gente roubar manga
o senhor esteja convosco ele está no meio de nós
quando eu for na fazenda quero andar a cavalo
senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada
mas dizei uma só palavra e serei salvo
que palavra será essa meu deus! a palavra cavalo serve?
e se meu pai vendeu o cavalo?
cordeiro de deus que tirais o pecado do mundo
será que tô com bicho-de-pé de novo?
no amor e na comunhão do espírito santo
estou arrependido de ter tocado fogo no sapo
abençoai-vos deus todo poderoso
pai, filho e espírito santo
aleluia! aleluia! aleluia!
a missa está no fim
e eu não quero ser goleiro outra vez
ide em paz e o senhor vos acompanhe
amém! gol! amém! gol! amém! gol!

pela primeira vez meu time ganhou
do time dos anjos

            (in: Laranja seleta. Língua Geral, 2007)