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segunda-feira, 7 de abril de 2014

PABLO NERUDA NO PASQUIM



O GRANDE URINADOR

O grande urinador era amarelo
e o jorro que caiu
era uma chuva de bronze
sobre as cúpulas das igrejas,
sobre os tetos dos automóveis,
sobre as fábricas e os cemitérios,
sobre a multidão e seus jardins.
 
Quem era e onde estava?

Era uma densidade, líquido espesso
o que caía como de um cavalo
e assustados transeuntes
sem guarda-chuvas
interrogavam o céu
enquanto as avenidas se alagavam
e por debaixo de suas portas
entravam as urinas incansáveis
que iam enchendo açudes,
corrompendo pisos de mármore,
tapetes e escadas.
 
O que quer dizer isto?

Sou um simples e pálido poeta
e não vim para decifrar enigmas
nem propor guarda-chuvas especiais.
Até logo! Saúdo e me retiro
para um país onde não me façam perguntas.

 

                        Tradução de Olga Savary
In:O Pasquim n. 300.  29/03 a 04/04/1975

 

            Folheando aqui uns exemplares do legendário jornal carioca O PASQUIM, primeira grande trincheira sistemática de resistência  na imprensa ao período mais negro da ditadura instaurada com o golpe de 64, deparo-me, em seu número 300,  com uma matéria de Moacyr Werneck de Castro, falando de sua convivência com  Pablo Neruda.  A matéria traz ainda esse poema que aqui posto, com a anotação de que seria um dos dois últimos poemas escritos por ele..  Não consegui localizar o original em espanhol, para postá-lo aqui junto com a tradução,  como costumo fazer. 

            Bom me deparar com este poeta em meio às tantas páginas amareladas desses não muitos números do PASQUIM que tenho comigo encadernados.  Bom por vários motivos, entre eles o de lembrar, nesses dias em que as rememorações do funesto período de ditadura encontram-se à flor da pele, assim como timidamente se renovam as nossas esperanças cívicas quase vãs de que efetivamente se punam aqueles que tanto violaram as prerrogativas básicas da vida democrática e civilizada, lembrar o nome de um poeta de tão alta poesia e de exemplar presença contra os desmandos da terrivelmente assassina instaurada em sua pátria, o Chile, num golpe de estado poucos dias antes de sua morte – cujas circunstâncias, aliás, integram um processo de revisão pela justiça daquele país, uma vez que crescem os indícios de que Neruda – que  era amigo pessoal de Salvador Allende, o presidente socialista deposto e assassinado no golpe – tenha sido ele próprio também de fato assassinado pela ditadura de Pinochet, e não morrido por conta de um câncer na próstata, como sustentava a versão oficial.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O DIA EM QUE FAUSTÃO ME PARABENIZOU POR CONTA DE AÉCIO


        Se o desavisado leitor bateu com os costados aqui neste blog, achando que o Faustão em questão é o Fausto Silva, devo dizer que pode xingar e desistir: não, querido e incauto leitor, o Faustão aqui não é o Silva das tardes domingueiras na Globo e,  naqueles tempos em que se passa a breve estorinha que vou contar,  ele era apenas o perdido na noite paulistana.  E aqui acaba a referência a ele, tchau.  Já o Aécio é ele mesmo, o Aébrio Neves, dublê de bon-vivant e de  atual presidente do PSDB, dublê nada, um talento múltiplo pra coisa alguma  que não seja estar em evidência.  E a gente ia começar a saber disso  justo por aqueles dias, em torno do enterro do avô dele, o Tancredo, quando sua  figura chorosa comovia quem está sempre disposto a se comover por qualquer coisa (aliás, o que o avô dele fez na vida, além de ter herdado a caneta do Getúlio e ter morrido pra nos deixar nas mãos de Sarney?). Mas tergiverso. O ano devia ser 1985.  1986, talvez?  Tínhamos passado pela ditadura, depois, com a derrota da emenda das eleições diretas para presidente, passáramos também  pelo trauma de ter que aturar a costura pra botar Tancredo no poder, enfim, a decepção maior de todas de ter tido que engolir mesmo Sarney na presidência.  Listando essas coisas aqui me toco de que no Brasil, se bobear, nos sentiremos sempre numa espécie de “ressaca cívica”.

            Bom, mas o assunto é outro. Sem mistérios e sem mais adiamentos: o Faustão em questão  é Fausto Wolff,  acho até que mais merecedor do sufixo de aumentativo ão do que o outro, pois tinha fácil uns dois metros de altura.  Faustino Wolffenbüttel, ou Fausto Wolff,  era um combativo jornalista, bom romancista também (Matem o cantor e chamem o garçom, O equilibrista pede desculpas e cai, além do infantil Sandra na Terra do Antes são ótimos livros) que integrara a turma do Pasquim dos tempos heróicos e que fora um dos últimos a abandonar o barco – naqueles últimos tempos ainda criara o impagável colunista social e escroque Natanael Jebão.


Eu me aproximara de Wolff quando, atrás de capa  e ilustrações para o que seria meu primeiro livro, Pouca vergonha, que acabei não publicando, fui bater um dia, em 1984, na redação do velho hebdomadário – já na Rua da Carioca, sua última sede. Lá estava a  sua figura imensa, que me acolheu e me ouviu com muita delicadeza,  embora eu mesmo  não soubesse com precisão o que queria;  eu  pensava conseguir, para ilustrar meu livro,  umas figuras sacanas, uns desenhos  a bico de pena que eu me lembrava de ter visto, por conta de sei lá  qual escaninho da memória,   em livros antigos, umas     figuras de anjos, de crianças em jogos de diversão e de ambíguas e sugestivas posições sexuais, uma mescla de candura e safadeza, que de certa forma presidia o espírito daqueles poemas dos meus vinte e poucos anos, e onde  o neocaretismo insuportável de hoje veria indícios indisfarçáveis de pedofilia.  Fausto me disse que achava que tinha, sim, o que eu procurava, e se colocou inteiramente à disposição para me fornecer o material, que ele mesmo recortaria e que eu montaria da forma que achasse melhor para o que pretendia.  Muito gentil, muito solícito, muito afetuoso, me deu telefone e endereço para que eu ligasse e, assim que ele estivesse de posse desse material – acho que ele desencavaria  lá mesmo no Pasquim –,  eu marcasse de pegar com ele.  Assim foi feito alguns poucos dias depois, quando me recebeu em seu apartamento, com várias gravuras, melhores do que eu poderia supor, e travamos uma certa camaradagem.  Saímos dali para beber uns goles e falar da vida, não lembro onde, num boteco qualquer, acho que em Ipanema.  Faustão bebia em doses industriais, eu jamais seria capaz de acompanhá-lo, mas para um pontapé inicial no que parecia ser uma das de sempre para ele longa noite etílica, travamos, se não uma amizade, longe disso, uma cordial camaradagem, que de vez em quando se renovava ao sabor de encontros ao acaso.

            Apesar de nosso pouco contato, não deixa de me comover de certa forma a lembrança  de que, ao ser homenageado com o título de Cidadão Carioca pela Assembléia Legislativa, Faustão fizesse questão de me mandar convite, de dizer que contava comigo lá na sessão solene e, uma vez cumprido o prometido, demonstrasse ter ficado  feliz da vida que eu tivesse ido.  Ficou feliz da vida com todos os que lá estivemos. 

            Mas agora estamos em 1986, eu trabalhava no Centro do Rio, na agência principal da CEF e ia, em horário de almoço, pela Rua da Carioca.  Eis que em frente ao Bar Luiz (aliás, onde mais?), me surge a enorme figura do Faustão a me abrir os braços e a me envolver num abraço enorme a clamar “Parabéns! Parabéns, meu jovem!”  Eu estava com alguém -,não lembro quem - , ele também vinha acompanhado não sei de quem.  Nossos acompanhantes olhavam o efusivo cumprimento sem entender; como, aliás, eu também.  Faustão aumentava o volume e o entusiasmo dos parabéns, além de ficar cada vez mais vermelho de tanto que ria.  Quando resolveu explicar não o fez para mim nem para os que nos acompanhavam, e sim para a Rua da Carioca inteira, que abarcava com o olhar e com uma voz que se projetava por longa extensão.  Dizia mais ou menos isto: “Aproveito para parabenizar você, um jovem como o valoroso jovem que vai presidir a empresa em que você trabalha, afinal a  Caixa Econômica Federal  agora terá no seu comando um jovem de grande valor que nunca fez nada na vida a não ser ser o neto de Tancredo Neves, credenciais suficientes pra que ele possa gerir um banco social, como é a Caixa!”  E ria, seu olhar buscava cúmplice o meu, eu ri muito também com ele, trocamos impressões pasmas sobre o ridículo da situação, sobre o ridículo do país.  Mas Fausto exagerava: Aécio não ia na verdade presidir a Caixa,  ia "apenas" assumir uma importante diretoria na estatal.  Sem, obviamente, jamais ter feito carreira lá.

            Agora que na qualidade de presidente do maior partido de oposição (o sintagma é muito solene pra esculhambação que é a nossa vida político-partidária), Aébrio se põe a fingir que fala grosso (e dá pra notar que está  com a voz um tanto engrolada) ao pedir satisfações ao governo  sobre a confusão com o boato do término do bolsa-família,  talvez eu tenha me lembrado do episódio.  Mas não é isso que vai ficar não.  Como também não vou ficar aqui tecendo considerações sobre a nossa comédia politiqueira.  Em vez disso, prefiro reter a figura de Fausto Wolff, Faustino Wollfenbüttel, Natanael Jebão, admirável jornalista, ótimo escritor, desaforado, amável e irascível flor de pessoa,  combatente do bom combate, um quase amigo do qual me ficaram estas afetivas lembranças.



domingo, 15 de julho de 2012

CAMPOS DE CARVALHO


O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z.

SEGUNDA E DEFINITIVA CARTA AO ‘TIMES”
(Com vista ao sr. Redator da Seção Necrológica)

            Escrevo-lhe esta em prantos, não para comunicar-lhe a morte de um ente querido, mas a minha própria morte.  Como tudo que parece estranho, isto que acabo de anunciar tem na realidade uma explicação muito simples:  é que resolvi suicidar-me e o senhor foi (à falta de um parente ou amigo, que não tenho) a única pessoa a quem me ocorreu dar, de antemão, a dolorosa notícia.  Ao chegar esta à sua mesa repleta de avisos fúnebres e de convites de missa de 7º. dia, já meu corpo, se foi encontrado, estará repousando no lugar que lhe compete dentro da imensidão da terra, ao lado de outros corpos de indigentes anônimos e esquecidos do mundo, com os quais possivelmente me comunicarei nas noites de tédio infinito.

            Ainda uma hora atrás eu não sabia que hoje iria dormir em companhia dos mortos – hoje ou amanhã, conforme o tempo que levem para descobrir meu corpo franzino entre estes enormes eucaliptos e sob este cipreste que espero venha a cobrir um dia minha sepultura rasa.  Como tudo que tenho feito na vida, decidi realizar minha morte sem pensar muito tempo no assunto, mesmo porque sempre me pareceu que a morte não é tão importante quanto querem fazer crer os vivos, dada a nossa perfeita insignificância dentro do Universo.  A morte de um mosquito é tão importante quanto a  minha própria morte, digo-o sem falsa modéstia, e disso o senhor mesmo terá prova ao ficar sabendo do meu suicídio, que o afetará tanto quanto a morte de um dos milhões de perus sacrificados à véspera do Natal.  A comunhão dos mortos ainda pode ser uma realidade, pelo menos para os que nela creem piamente, à sombra da necrofilia católica ou que outro nome tenha;  a comunhão dos vivos, porém, ainda está por existir e com toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma mesma espécie.

            Sei que é de praxe o suicida invocar grandes razões, e se possível belas, para justificar seu gesto tresloucado, como dizem – e sinto ter que decepcioná-lo não invocando nenhuma razão maior para explicar esta minha fuga prematura de um mundo que afinal é o único mundo com o qual podemos contar honestamente.  Se eu quisesse, certamente poderia encontrar uma dúzia ou mesmo duas de belas razões (metafísicas, econômicas, políticas, etc., etc.) capazes de justificar não apenas o meu suicídio como de toda a humanidade, nos dias que correm como em todos os tempos.  Prefiro, porém ser honesto e dizer que me mato pelo prazer único de matar-me, como existem casos de sujeitos que matam um desconhecido qualquer (não falando da guerra) pelo simples prazer de vê-lo cair morto ou para experimentar uma arma nova.  Sei que é raro isto acontecer, mas acontece; e o meu caso é exatamente um desses.  Enjoei de mim, como poderia ter enjoado da cara de um vizinho que nunca me tivesse feito mal em sua vida – e como não sou obrigado a viver de enjoo, cortei simplesmente o mal pela raiz, eliminando-me da minha vista.  É possível que num dia de primavera e com os bolsos cheios de dinheiro eu não pensasse em eliminar-me com tanta facilidade, mesmo porque o homem é suficientemente tolo  para contentar-se com pouca coisa, eterna criança que é; acontece que hoje não é primavera, nem tenho os bolsos abarrotados de notas de mil francos, de sorte que me sinto decididamente disposto ao suicídio, como o estaria para o homicídio também.  O certo mesmo seria chamar a este meu suicídio de homicídio, já que em mim eu mato o homem que não me agrada e não o meu eu verdadeiro, que é até simpático. 

A lua vem da Ásia foi recentemente montado por Chico Diaz sob forma de monólogo
 
             E já que falei em simpatia, devo deixar claro que morro tão antipático como sempre vivi, tomando-se por base naturalmente a opinião dos outros a meu respeito, não a minha própria.  A náusea que venho de sentir pelo meu corpo cheio de esperma, lágrimas e outros humores trágicos, é uma náusea que, bem ou mal, eu poderia superar com ajuda de alguma filosofia, desde que me dispusesse a praticar a necessária ginástica mental diante do espelho; ao passo que a antipatia que me inspiram os outros, e vice-versa, é algo que nasceu comigo e será hoje comigo assassinado, e que só pode ter explicação na perfeita dessemelhança existente entre mim e os meus semelhantes, entre o meu EU e o que se convencionou chamar de o homem comum. Todas as normas de educação que me tentaram impingir no cérebro tinham por objetivo convencer-me  de que eu e o meu vizinho éramos feitos da mesma massa e consequentemente da mesma qualidade de alma, havendo mesmo alguns exagerados que chegavam a proclamar que ambos  éramos filhos do mesmo pai celestial, a cuja imagem e semelhança havíamos sido feitos em nove meses; a experiência, porém convenceu-me exatamente do contrário, e não foi preciso muito tempo para eu descobrir que não passava de um pequeno monstro dentro da minha espécie, de alguém que não parecia nem sequer consigo mesmo nos diversos momentos e que já nascera fatalmente marcado para a solidão.  E como eu não podia andar metido num escafandro todas as horas do dia, embora já tenha exercido a profissão de escafandrista na penúltima guerra, deu-se o entrechoque fatal entre a minha multidão de almas e a alminha dos meus pseudo-semelhantes. Com consequentes ódios e ressentimentos de parte a parte, como ficou provado nas páginas do meu Diário Íntimo e que um dia ainda serão publicadas.  Nesse livro aparentemente triste, eu me situo na posição de antípoda de todos os seres com os quis vivo esbarrando-me pelas ruas ou mesmo dentro de casa – o que talvez em parte explique meu contínuo peregrinar pelos quatro cantos do mundo,à procura de outro polo no qual certamente  houvesse um outro antípoda à minha espera.

            Mas, sr. redator de assuntos fúnebres, nada mais tenho a dizer, por ora, neste in extremis que já se vai fazendo longo e sem graça , e que certamente será tido por V. S. na devida consideração, atirando-o simplesmente à cesta de papéis velhos.  Desconhecendo-me como o sr. me desconhece, é justo que não queira levar-me a sério e nem sequer se dê ao trabalho de procurar no mapa onde fica San Juan de la Sierra, onde dentro em pouco entregarei a alma ao Criador ou a quem lhe faça as vezes, como quem restitui um guarda-chuva que apenas lhe foi dado em empréstimo.  E para que o sr. me acredite em parte, e bem assim não se sinta de todo roubado em seu precioso tempo, deixo-lhe de presente o meu relógio de estimação, que pertenceu a um enforcado das minhas relações e marca todos os minutos da vida com uma precisão realmente cronométrica, apesar de também já ter sido enforcado com o seu dono.

            Funereamente seu,

                                               ...................................................................................


In: A lua vem da Ásia.  2 ed. José Álvaro, Editor, 1965.

          Campos de Carvalho (1916-1998) é um escritor que amo,  desde as crônicas que publicava n' O Pasquim na década de 70.  Foi difícil então achar edições de seus romances, e o primeiro que consegui foi deste A lua vem da Ásia, cuja primeira edição é de 1954. sua obra hoje é, felizmente, mais conhecida, e existem edições recentes de seus livros.  Para uma visão panorâmica e muito lúcida de seu legado, recomendo o excelente artigo de Nelson de Oliveira e Sinvaldo Júnior, publicado na também excelente revista online O bule, cujo link segue:  http://www.o-bule.com/2010/02/vinganca-do-icone-iconoclasta.html .

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SIMONAL - A DURA QUE LHE DERAM

            Na época do lançamento nos cinemas de Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, o documentário sobre Wilson Simonal, eu saí tão impressionado da sessão que escrevi o texto a seguir, que posto abaixo com pequenas alterações no detalhe.  O filme já existe em DVD e o Canal Brasil o tem passado.  Vale como um momento para esta postagem.

            Wilson Simonal era um sujeito escroto.  Quanto a isso não parecem restar muitas dúvidas.  Ou, pelo menos, passou boa parte do auge de sua curta carreira investindo na imagem do sujeito escroto. O documentário recém-lançado sobre sua trajetória não parece estar muito a fim de limpar a barra dele por esse lado.  É extraordinário o filme, é extraordinário o personagem que dele emerge.  Com toda a sua escrotidão.
            Que acaba ficando em segundo plano, acrescente-se.  Em primeiríssimo plano, o filme põe, merecidamente, o seu não menos extraordinário talento de cantor, de entertainer de enorme carisma, enxertado de ingenuidade e cafajestagem em exata dosagem midiática. E mais que tudo isso: o filme registra dolorosamente a lembrança de tempos de intransigência, intolerância e cafajestagem a torto, à direita e à esquerda.  Tempos escrotos, enfim. Tempos que relegaram Simonal a um terrível castigo, o da morte em vida. O da morte pela distância que dele fizeram questão de manter seus antigos companheiros de showbizz e de meio musical, de boicote desses mesmos meios e da mídia, que o arrastaram da difamação ao anonimato, daí à pestilência, à vergonha perante o público, enfim ao ostracismo e à morte. E à impiedade post-mortem.  Que o filme, de forma extremamente lúcida e conseqüente, vem tentar consertar.
            Não estou ainda na “melhor idade” (melhor só do que a próxima), mas lembro de uma entrevista no Pasquim, na primeira vinda de Caetano do exílio londrino, em 71 portanto, em que Tarso de Castro tenta de todas as maneiras que ele fale mal de Simonal. E Caetano se recusa, eximindo-se de início de conhecer as circunstâncias que naquele momento cercavam a figura do cantor – quando Caetano e Gil foram para o exílio londrino,  Simonal estava no auge – e  a seguir afirmando taxativamente que o que ele sabia de Simonal era que se tratava de um excelente cantor – e ponto.  Por si só uma recusa como essa era um ato de enorme coragem naquela época, ainda mais no Pasquim.  Caetano sempre foi corajoso.
            Ao dizer que Simonal era um escroto, estou tranqüilo quanto aos velhos vícios escaramuçados no homo brasiliensis: nada a ver com o fato de ser o negro que deu certo, de ser o crioulo marrento, o analfabeto que ganha mais do que quem estuda, nada disso. Simonal era um escroto porque a atitude que o levou ao cadafalso foi uma atitude escrota: chamar uns amigos ligados às forças da repressão, uns pés de chinelo, pra “dar uma dura” num empregado que ele julgava estar lesando-o.  E a coisa saiu de seu controle. Agora, e isso é fundamental frisar, trata-se uma atitude absolutamente corriqueira em nossa sociedade de pessoas escrotas, em nossa sociedade escrota. Que acontece a torto e a direito e à esquerda (alguém duvida?), mas que no caso dele, melou... e ele era um ótimo bode pra pagar os pecados da tribo.
            Simonal não tinha ligação alguma com as forças da repressão, todos os que depõem no filme o reconhecem – e mais uma escrotidão: mesmo na época, todos pareciam ter a mesma certeza. O fato de ter, como escrevi acima, “amigos ligados” a elas não quer dizer nada também.  Eram meganhas de segunda categoria, de décima quinta hierarquia.  O problema, quem viveu naqueles tempos sabe, é que qualquer meganha de esquina ostentava mais poder do que os juízes.  E entre estes, também, quantos eram e são escrotos...
            País da escrotidão, país escroto.  Saí do filme pensando que Simonal é um personagem brasileiro de tragédia grega.  Tomado pela desmedida de si, cometeu a sua falha fundamental e pagou caríssimo por ela, muito mais do que merecia.  E recebeu uma terrível punição sem volta. Agora, fico também pensando se ele seria de fato um personagem trágico... será que lhe faltaria para isso a grandeza que, segundo Aristóteles, seria elemento primordial para a catarse, isto é, teríamos como de fato nos condoer de sua sorte?  Não, não tenho dúvida de que sim, a tentação da escrotidão nos ronda a todo momento.
            O documentário toca pela primeira vez na ferida de um personagem específico,  na ferida funda de uma questão incômoda para todos.  Há muita coisa a ser trazida a tona ainda.  Bem que se poderia começar pelo lançamento de seus discos em CDs. Em meio a muita bobagem – sim, eu tinha alguns LPs de Simonal – tem coisas também excelentes ali.