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domingo, 3 de novembro de 2013

CIRCUNVAGANDO NAS BIOGRAFIAS


Não tinha lido a coluna de Caetano Veloso do domingo passado, o que fiz agora (pelo andar da carroça aqui no brejo, domingo que vem eu devo ler a de hoje), mas tem ali duas passagens dignas de nota, que comento e transcrevo:

  1. quanto ao interesse que o assunto “biografias”  despertou, diz Caetano, “pelo visto nas folhas e nas redes, o interesse é enorme, embora não pareça ser pelo que é discutível na questão, e sim pela oportunidade de agredir quem ganhou prestígio no Brasil, país que ainda precisamos tanto provar que não vale nada nem poderá nunca valer nada”.  Não querendo endossar tudo, uma vez que sou mais acometido do que Caetano por esse sentimento de que “nada dará certo no Brasil”,  mas há aqui carradas de razão, sendo alguma coisa que me chamou a atenção nos primeiros comentários dos poucos que fiz no Facebook : impressionante a massa acrítica de ódio despejado sobre essas figuras (em especial Caetano e parece que sabemos tacitamente por que), facilmente perceptível   na recusa em se discutir o que há de discutível em tudo aí (a começar pelo posicionamento inicial deles, artistas, em linhas gerais bem capenga).  Não é também o caso de se simplificar tanto, mas eu sou do clã do Tom Jobim, que dizia com todas as letras “brasileiro odeia o sucesso, por isso gosta do Garrincha e não gosta do Pelé.”
  2. Caetano, depois de ecoar Ana Maria Machado (que não li), escreve:  “que não ajamos como se a democracia tivesse que escolher entre a censura e a difamação. Será que o tom histérico da imprensa e a psicopatia coletiva das redes são a palavra final? Acho que Chico, Gil e eu não estarmos em posição confortável reafirma nosso histórico, ao invés de desmenti-lo. Eu desconfiaria se os três estivéssemos, ao mesmo tempo, tendo apoio unânime.”
Pois nessa última citação a estocada certeira, que atinge professores de história e de literatura preguiçosos (além de jornalistas, é claro) que ficam repetindo as baboseiras de sempre a respeito de “protesto”,  “resistência” e “heroísmo” dessa geração de artistas, negligenciando os aspectos (alguns muito profundos) que sempre houve de dissenso entre eles.  Parece que o sonho desse pessoal  simplista é deixar a palavra final ao simplista Belchior: “Nossos ídolos ainda são os mesmos etc e tal", a chorumela que todo mundo sabe... A simplificação excessiva faz tanto a reflexão histórica quanto a reflexão literária reféns  do jornalismo diário (que tem de lidar com a pressa mesmo e, por conseguinte, com  a simplificação).  Mas mesmo no jornalismo  há aqueles que não se submetem a isso – e alguns textos produzidos para a imprensa têm sido muito honestos  na tentativa de se entender o imbróglio, sem querer livrar a cara de nenhum “ídolo”  – e o imbróglio,  de resto, vai muito além de uma discussão circunscrita a eles. Mas, claro, não pode incluir a sério em nenhuma instância o que diz um Bolsonaro a respeito.

Que a “turma da MPB” nunca tenha sido um bloco unitário e coeso estudiosos sérios (de história, de música  e de literatura) já o demonstraram. Que essa ilusão tenha se perdido para sempre num certo réveillon em Copacabana e não se tenha prestado a devida atenção a isso, bom... lamente-se.  Não acho que se deva tratar a questão por um lado simplificadoramente esteticista, longe disso, mas da forma como tenho visto ser abordado tem alguma razão quem o fizer, ainda que apenas por tédio (eu mesmo tenho me acusado disso): e assim é porque  as obras deixadas por eles (tiro a média da turma) e a importância que elas têm para a discussão cultural brasileira  são superiores a suas circunstâncias históricas, ainda mais se ficarmos chafurdando nessa coisa menor da fofoca.   E afinal, as circunstâncias históricas que alimentaram essas mesmas obras foram em geral tratadas nelas com admirável competência, poder de provocação e profundidade.  Além de terem estado longe de ser recebidas, tais obras,  – convém não esquecer que são mais de 40 anos de estrada – com aplausos unânimes em nenhum momento.
Em resumo, ainda que apenas vadio e em nível de mero pitaco (que, aliás, acabo de descobrir, não é uma palavra dicionarizada): um esteticismo domingueiro – e no entanto produtivo, estou aqui às voltas com um texto de mais fôlego – me obriga deixar claro que amo todos que citei, mesmo implicitamente, acima: e reafirmar que amo muito Tom e igualmente Pelé e Garrincha.  Mas Belchior, menos.  E Paulinho da Viola, mais que todos.




P.S: Não, uma foto incluindo Paulinho da Viola não pode ser tomada como equívoco ou relaxamento de minha parte: ele não é o J. Pinto Fernandes da história.

sábado, 23 de março de 2013

PAULINHO DA VIOLA


Algo de muito especial ocorre então.

Algo de muito especial ocorre então.
E não à linha da superfície, como
pode parecer a princípio.
Para alguns desses homens, o
conhecimento do instrumento se deu
muito antes: quando ele ainda era
madeira.
Ou mais: quando era uma árvore,
que descia chão a dentro até os
úmidos e escuros segredos da vida – o
mesmo chão que os pés do menino
um dia pisou.
E ainda pisa. 

(texto de Paulinho da Viola, em seu disco de 1978)

Ilustração de Talarico

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Entrevista de Paulinho da Viola a Roberto Bozzetti na RBEC


Está online o 3º. número da RBEC – Revista Brasileira de Estudos da Canção, publicação online semestral dirigida pelo professor Lauro Meller da UFRN, e cujo corpo editorial tenho a satisfação de integrar. Este número traz uma entrevista que fiz com Paulinho da Viola em 2005 (defendi minha tese de doutorado sobre sua obra na UFF no começo do ano seguinte), à qual dei o título de “O Universo, ou o Infinito, desde o samba”.
Há ainda neste número artigos de diversos estudiosos dedicados a Tom Zé, música cabo-verdeana, Gilberto Gil, Iron Maiden, Pink Floyd, e outras preciosidades mais.  Vai o link para a revista, boa leitura!
http://www.rbec.ect.ufrn.br/index.php/RBEC,_n.3,_jan-jun_2013

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

JOÃO CABRAL COM PAULINHO DA VIOLA COM TOMZÉ



      No livro  Firma irreconhecível publiquei o longo poema a seguir, uma homenagem a João Cabral de Melo Neto, e também a Paulinho da Viola e Tom Zé, seus ímpares. Claro que se trata de um exercício na dicção cabralina e de, no mesmo movimento poético, de poética, homenagear outras duas grandes admirações minhas; além disso, considerando algumas obsessões do poeta, entre elas a importância que concede ao número par, em especial o 4, ir introduzindo de maneira também nada regular nem  simétrica o ímpar nas estrofes, de 7 versos, até terminar num longo bloco meio aleatório com 23 versos e mais um, que finaliza o poema.  Ao lado disso, a redondilha, verso de 7 sílabas, coexiste com o verso de 8 sílabas, pelo qual o poeta tinha especial predileção (por artes refinadíssimas  de prosódia rítmica, mesmo a redondilha cabralina muitas vezes soa como verso octossilábico).  Cabral é também um poeta da admiração de Paulinho (que o cita, sem nomeá-lo,  em “Bebadosamba”) e de Tom Zé.  Assim, os ímpares e díspares compositores na verdade acabam por configurar  uma constelação poética e afetiva, intelectualmente falando,  de minha parte.



CABRAL COM ÍMPARES



1. O véu continua, Cabral
apesar do heroísmo
do teu sol a punhaladas
ou mesmo a golpes de aspirina;

é que persistem essas sombras
e sei que não é só comigo
(nem somente é letra em livro
que a redondilha desmancha).

O 4, o 8 e o 16
tentam, Cabral, empalar-me em
geometria, mas o ímpar
imperfeito e impertinente

que priva em minha fala íntima
não dói como devia
(a fala deste renitente
em público ainda se equilibra)

e ao velar o acabamento
desvela a própria deriva
não por misteriosamente
mas pelo espesso do que vive.

2. Quatro quadras de quadrão
em décima sexta sentina
por cultivar o inenfático
que ao ouvido desafina,

ressoam onde não se espera
expelidas à revelia
em lâmina cega de véspera
em trama de trava-língua.

Que é quando se adormece
fugindo-se ao sol da vigília
e reincidente e temerário
o véu, Cabral, se insidia

mas não necessariamente
em velame de perfídia:
véu somente, sombra somente
(no papel a letra escrita)

incide a certo intervalo
em que o sol se silencia
e a mudez pode não ser
que seja o final da partida;

dizer: a mudez pode não ser
sublime que a boca saliva
vacância de régua e traço
mas justo ponto de partida

e mesmo a mudez do sol
no esgoto da enxovia
por simples dado de lembrança
cresce como parasita

quando o trava-língua destrava
a timidez da desídia
que a inércia também pode
subordinar-se a armadilhas

as quais submetem os silêncios
a ordenações adjetivas
que vendem ardis a distância
como substâncias ferinas.

3. Mas não era isso, Cabral
que na verdade me movia:
movia-me o moto contínuo
da dialética obsessiva

até o limite onde o não
encontra outro não resoluto
de negar o que quer que exista
por vadiagem ou estudo.

A vadiagem, Cabral
ensina o que não o estudo:
assim como o estudo nem sempre
povoa o museu de tudo

o que a vadiagem pode
descartar em sestro mudo:
a brecha por onde o estulto
entra no papel do sisudo

o mesmo de quem é estulto
e veste roupa de sisudo;
a roupa, o papel, a atitude
são todo o tudo do estulto.






4. Por des-exemplo: Tomzé
e seu zunir de estilingue
a extinguir a canção-pássara
tão logo sua pedra a atinge;

em Tomzé o não é severo
embora semelhe a despiste
de quem se achega à arapuca
pela atração do alpiste

e uma vez preso na gaiola
lhe devora tudo em torno
do que é ardil de alimento:
as finas hastes que a compõem
metal ou madeiramento
incorporam-se ao corpo,
tal comedouro e poleiro

mais o plástico de onde bebe
vaza a água que tem dentro
garganta som canto ventre
trinca canção, trincha ferro
maçarico esmerilamento
sem lugar para o canoro
flauteado do lamento

que o ouvido na concha ouça:
voz de mar, mas não da carne
a qual a despeito do olvido
trabalhou em ressofrimento
grossa bátega de mangue
pedra rija de indormido
parida por boca náufraga

burilada à indiferença
de qualquer divina crença
movida a mó de sabença
estridência de esmeril
pérolas no ostracismo
em longos anos de abismo
um silêncio de cinismo
no ouvido do Brasil.



 

5. Por contra-exemplo: Paulinho
que a seu nome incorporou
a doce curva da viola
mas com corte: cavaquinho;

por contra-exemplo de Tomzé
a coleção de Paulinho
que um seu Mestre nomeou:
coleção de passarinhos:

rouxinóis de arrabalde
gaturamos do longínquo
em Paulinho a canção-pássara
não teme a pedra que a extingue;

não mais canções não mais pássaros
sabe que no mundo existem
e ele os leva então na voz
e dentro de si: inquilinos

não em gaiola acoitados
ou presos em si clandestinos,
porém mais como passageiros
a descer o Velho Chico

no curso de tanta água
tendo o mar como destino
mas antes do mar tanta água
a atravessar, desmedida

que a canção-pássara que a passa
pervaga um curso intestino
não desfraldada como em mar
mas destilada em alambique

e desce em Oswaldo Cruz
articulando em repique
o repouso dos dormentes
à mordente voz dos trilhos.

6. A bigorna da araponga
grita o sol a palo-seco:
secura do próprio sol
a calcinar até o eco
que reduz então crestado
a araponga ao esqueleto.

Assim sobrevive Tomzé,
melhor dizer: supervive.
Analfabetizado ao ler
súbito um dia Euclides
quando se abriram os sertões
agora em página de livro:
 
a página-maçarico
a inflamar o que já havia
desde sempre sido vivido:
ausência de sombra e água
ausência de letra em livro
a reclamar o alarme.

A lágrima de pedra rola
lágrima lisa, sem limo
mas não como um seixo rolado:
limpa apenas de seu visgo
como se interno, lamento
vício visguento cativo.

Ao chorar sabe Paulinho
a lágrima que todos choram
por isso seu choro é vivo,
melhor dizer: ultra-vivo
desfaz o visgo que traz dentro
e o faz polícia do ouvido:

o infinito é o precário
marcado num breve tempo
quando o silêncio é cantado
samba curto, porém tenso
em um caso diferente
sem a saudade e seu lamento.
 
7. Vadios de tanto estudo,
Cabral: Tomzé e Paulinho
acabarão em museu,
morada arisca do risco.

Não de tudo, mas por nada
de nada pejorativo
um bom museu, Cabral, vertebra
a dispersão do que é digno

conjuga aparentes ímpares
insuspeitos como signos
revelando-se improváveis
pares de sóis distintos

assim a pedra em sua pedra
soterrada por monturo
não desanda em chorumela
nem destila qualquer chorume
assim a flor, não por ser bela
mas por nascer do estrume:

o que se há de desfazer
ao tempo irremediável
deixará por fim a pedra
inteiriça, por intocável
deixará por fim nascer
a flor não menos improvável

as coisas quietas conservam
sequidão de extintas águas
água que pede pedra
e que a move e a naufraga
e em paisagens submersas
suspeita-se o que não é água

mais que a letra a voz gravada
(flauta que jogaste fora
por fluidez desprezada)
ameaça de transbordo
como sempre qualquer água
onde pousa o canoro
contrabando de passarinhos
de avião do Irará
de ônibus de Botafogo.

Mas passarinhos, Cabral
que bebem com gosto a água
que passarinhos não bebem
e comem pedra, Cabral
por terem dentro de si
sucos com o que a digerem:
de sol a sol a espessura
(e tal que não esmaece)
de duros ofícios, biscates
baralhos, peixes de feira
brancura de alvaiade
sobre o negrume da pele
didática que se adquire
ou pré-didática em pedreira
lâmina da voz metal
berceuse de britadeira
ou corte certo de alfaiate
no anônimo da vida inteira
entre automóveis, carroças
pó de fuligem, caliça
entranhada no encardido
curtume vivo da pele
em contraste com a cal

como tu mesmo preferes.




Roberto Bozzetti. Firma irreconhecível.  Oficina Raquel, 2009. 


quinta-feira, 21 de junho de 2012

SOBRE UMA CANÇÃO DE PAULINHO DA VIOLA

 Amigos, a VIA ATLÂNTICA é uma publicação da USP, da Área de Estudos Comparados de literaturas de língua portuguesa.  No seu número 20, de 2011, ela trouxe um artigo meu, "'Coisas do mundo minha nega': para uma poética de Paulinho da Viola", no qual eu tento dar uma visão geral da trajetória compositor carioca em termos de poética,  a partir de uma canção de seu início de carreira.
   Não sei exatemente se por conta de minha nenhuma intimidade com os procedimentos de rotina no mundo internético, mas o fato é que não consegui separar meu texto do restante do corpo da revista e postar apenas ele aqui.  O que acaba sendo uma vantagem, pois há diversos artigos de interesse na excelente publicação.
   Assim, espero que o link abaixo direcione os leitores não apenas para o meu artigo, mas para todo o conteúdo do número 20 da VIA ATLÂNTICA do qual pode ser feito o download.  

 

domingo, 1 de janeiro de 2012

PAULINHO DA VIOLA, ESTAMOS PRECISANDO TE OUVIR


             Estamos precisando ouvir Paulinho da Viola.  Não gosto nem de pensar no tanto de tempo já decorrido desde que foi lançado seu último CD.  Acho até que a indústria fonográfica ainda existia.
            Bebadachama, o CD ao vivo, foi em 97.  Em 99 um outro, ao vivo, com Toquinho.  Quanto tempo tem já o filme Meu tempo é hoje?  Dez anos? Quase isso? E o programa da MTV?  Uns cinco anos ou mais? Se eu for falar do tempo que está passando sem lhe ouvir as novidades vou ficar aflito. Paro por aqui.
            Não se trata de saudade não.  Nem poderia.  Acho que aprendi com ele a como lidar com isso da saudade (embora eu já tivesse uma aversão natural a abrigá-la), quero dizer, a como entender que o culto da saudade não faz sentido.  Desde que...
            Desde que se tenha a compreensão do que Paulinho várias vezes já disse em entrevistas – e mesmo pessoalmente a mim –, e que eu vou tentar traduzir.  Tentarei explicar à altura
            O que as pessoas chamam de saudade é o desejo de preencher, de repor de alguma maneira, alguma coisa que achamos, as pessoas,  que ali já esteve, que ali estava e que, sabe-se lá como e por que, de alguma forma deixou de estar.  Um vazio.
            Quer dizer, a saudade – ó truísmo! – é repor uma perda.  Essa perda é um déficit do presente em relação ao passado, certo?  Só que isso que presumivelmente seria reposto no lugar do que falta, por exigência nossa ao sentirmos saudade, seria reposto tão somente para suprir essa falta.  Não seria outra a razão de sua existência.  Donde se conclui que isso que “tapa o buraco”, que “preenche o vazio”, não teria nenhuma outra razão presente de existência.  Assim seriam dois os déficits: daí que a saudade seria uma forma também de autofagia.
            Mas, e quando não se cai nessa de que a razão de existir do que  existe no presente – mesmo naquele que hoje é passado – não pode ser simplesmente tapar os buracos das nossas carências?   Isso eu acho que quem quis aprender com Paulinho da Viola  aprendeu.  É se descolar da ilusão dos vazios.
            É se descolar da ilusão da saudade.  O que acontece tem sua razão de existir nesse acontecer.  O que é bom, o que é forte, acontece em sentido intenso e extenso.  Isso podemos cobrar de tudo aquilo que acontece – falemos de fatos e objetos culturais – para que essas coisas se revistam de valor para nós.  Quanto ao presente, fazemos na verdade uma aposta: que elas continuem presentes.  E quanto ao que aconteceu no passado, não significa que elas tenham morrido, que elas não sejam mais. A permanência do presente nelas (mais do que a permanência delas num presente qualquer que não o imediato de sua criação) é que define a força que elas venham a possuir. 
            Assim: Pixinguinha está aí, como Noel está aí, como estão aí Ary, Caymmi, Gonzagão, Cartola, Lupicínio, Nelson Cavaquinho, Geraldo e Wilson, Candeia, Zé Kéti, Manacea, Monarco  e Mano Décio... eles e tantos outros estão aí.  Não é justo confiná-los nos escaninhos do passado.  Temos é que estar à altura do que eles fizeram , já que julgamos que eles fizeram por permanecer.
Dito assim talvez seja fácil.  Difícil é viver com isso, difícil é viver isso.  Porque fazê-lo implica ter uma visão mais ampla do presente, implica não ter nítida a linha demarcatória onde se confina a memória no gueto do passado – melhor: implica, a rigor, não ter essa linha demarcatória.  A atualização do “passado” não existe.  Existe o passado – sem que lhe tenhamos que dar este nome – no presente atual.  Qualquer cochilo, o saudosismo entra por aí, insidioso.  Não choramingar pelo tempo que se foi é o difícil.  O tempo foge? Colha-se o dia.
É possível que eu não esteja me fazendo entender.  Mas quero voltar ao ponto de onde parti.
Estamos precisando ouvir Paulinho da Viola.  E digo: eu, particularmente, não tenho saudade nenhuma de ouvi-lo.  Acho que agora fica fácil entender: tenho aqui comigo todos os seus discos, assim como tenho vários vídeos.  A vontade de ouvir bate, eu vou ali e ouço.  Sem contar que ele está comigo mesmo quando não o estou ouvindo, incorporado de vez ao meu “fatal lado esquerdo”, como diria Drummond. O que ele  já compôs, já deixou gravado tem uma existência plena, o presente que está contido nesses sambas, nesses choros se presentifica a cada vez que,  na comodidade que as mídias proporcionam, eu ponho um CD ou um DVD pra girar. E é muito bom saber que a cada vez que acontece,  o prazer que sinto nada tem  a ver com saudade. É diferente: e se digo que  precisamos ouvir, assumindo este coletivo,  é porque Paulinho da Viola está fazendo falta.
Faz falta ouvir um CD novo, novas canções, novos sambas, novos choros.  Que sejam composições próprias ou dos compositores que ele freqüenta. Não importa se  inéditas ou não.  Nesse sentido faz falta ouvi-lo.  Nesse sentido talvez pudesse ele ser um pouco menos avaro (a palavra é pesada, reconheço, quase a rasuro; mas acabo por deixá-la: será que ele se aborreceria?).
Faz falta ouvir também Paulinho falar. Não para “dar jeito nas coisas”, como se costuma dizer, no samba ou em coisa que o valha.  Ninguém precisa “tomar na cara pra ver que o samba etc”, já disse o Chico. Nem precisa, o samba, de quem o salve, ele “é terrível”, já dizia o Caetano de 68, num samba aliás dedicado a Paulinho.  Os caminhos e descaminhos do samba continuam e continuarão a se fazer, mas a fala de Paulinho, para nos falar um pouco de sua visão de tudo isso,  falta.  Mesmo porque, ele é felizmente, para meu gosto, o menos professoral dos grandes mestres do samba.  “Meio oficial”, ele me disse certa vez quando o chamei de mestre: Na qualificação dos artesãos historicamente era assim.  Primeiro você era aprendiz e depois, meio oficial, até chegar a oficial, marceneiro-oficial, pedreiro-oficial, porque parece que o sujeito tinha que deixar o ofício, correr as várias oficinas e aí, depois de um certo tempo ele se tornava oficial.  O mestre já era uma coisa bem mais avançada mesmo. Eu me vejo como meio oficial. É, o mestre já é alguma coisa bem superior”.
A sua fala parentética, tmética  está fazendo falta porque entre outras coisas ela não discorre com “naturalidade” fingida ou sincera sobre as obviedades que cercariam o estatuto artístico entre nós, brasileiros.  Como escreveu Nuno Ramos num belo texto, em Paulinho existe a compreensão de que a origem daquilo que ele faz, o samba, é uma origem cultural e não, como é tão comum se considerar entre nós (ainda mais em se tratando de samba!) , uma origem natural.  Daí vem muito da diferença fundamental entre Paulinho e seus pares – no  samba e fora dele.  Paulinho  não pode – ou não sabe, tanto faz – ser professoral, falar como um “naturalista” fascinado com o exotismo (inclusive o próprio) porque não é de exotismo, não é de natureza, não é de natureza exótica que se trata.  Trata-se – se o assunto for o samba ou for o choro ou for a música em geral – de coisas, de artefatos, de objetos, de criações e criaturas e criadores vivos, presentes, passando aqui e ali o tempo todo, exigindo reposicionamentos, outros ângulos para ver como tudo se movimenta, nada está parado, morto, dado, estabelecido nesse universo.  Isso é o contrário do que a cultura brasileira em 90% dos casos (claro que o dado aqui é retórico) faz ao falar de samba. A profunda e diferente compreensão disso explica a fala parentética de Paulinho.  Que faz falta.  Bem utilizada, é um espermicida contra a saudade.
De carona nessa sutil diferença de Paulinho em relação ao samba, vem também  a sua recusa em se converter á outra equação simplificadora de ver o samba como a encarnação dos valores positivos da identidade nacional.  Não encontramos isso em Paulinho, e sua fala, sempre sutilmente taxativa em relação ao tema,  precisa também se fazer ouvir.  Se bem que hoje essa concepção  muito tacanha, tantos tropicalismos depois, já está bem debilitada.  Bem compreendida,  toda a sua obra dá conta dessa recusa.  Num de seus primeiros discos, em 1971, Paulinho deixou que o poeta Capinam falasse por ele em texto da contracapa” “Pra que dizer que existe música brasileira? Existe o zumbido da alma de cada um”. 
Num poema muito longo do Firma irreconhecível,  “Cabral com ímpares”, procurei dar conta de um trio de homenageados certamente um tanto improvável: o poeta João Cabral, Tom Zé e Paulinho da Viola.  A uni-los, por meio de tantas diferenças, a compreensão muito profunda neles da necessidade do aprendizado em arte, aprendizados tão diferentes – presumo – entre si.  Tentando pastichar a dicção cabralina, lá pelas tantas do poema eu ouso falar um pouco do específico do aprendizado em Paulinho, tentando ainda, ao roçar pelas imagens que remetem ao mundo natural, delas desviar e incorporar apenas o que roça por suas franjas, em direção ao que é cultural, construído, feito,  e não dado:


Por contra-exemplo: Paulinho
que a seu nome incorporou
a doce curva da viola
mas com corte: cavaquinho;

por contra-exemplo de Tomzé
a coleção de Paulinho
que um seu Mestre nomeou:
coleção de passarinhos:

rouxinóis de arrabalde
gaturamos  do longínquo
em Paulinho a canção-pássara
não teme a pedra que a extingue;

não mais canções não mais pássaros
sabe que no mundo existem
e ele os leva então na voz
e dentro de si: inquilinos

não em gaiola acoitados
ou presos em si clandestinos,
porém mais como passageiros
a descer o Velho Chico

no curso de tanta água
tendo o mar como destino
mas antes do mar tanta água
a atravessar, desmedida

que a canção-pássara que a passa
pervaga um curso intestino
não desfraldada como em mar
mas destilada em alambique

e desce em Oswaldo Cruz
articulando em repique
o repouso dos dormentes
à mordente voz dos trilhos.


            Pra encerrar, faz falta ouvir Paulinho cantar num novo CD, faz falta ouvi-lo falar.  Seus dois brilhantes companheiros de geração, Chico e Caetano, nos têm presenteado com admiráveis obras de sua maturidade criativa, irrequieta, tensa, tão dolorosa às vezes.  O que teria Paulinho para nos mostrar?  Começa o novo ano, 2012 está aí.  Não seria bom ouvir Paulinho da Viola de novo, e muito, em 2012?
            Feliz Ano Novo!         

domingo, 1 de maio de 2011

LUPICÍNIO RODRIGUES NO FAROL DE FARO






            QUEM HÁ DE DIZER
Quem há de dizer
Que quem vocês estão vendo
Naquela mesa bebendo
É o meu querido amor
Reparem bem que
Toda vez que ela fala
Ilumina mais a sala
Do que a luz do refletor
O cabaré se inflama
Quando ela dança
E com a mesma esperança
Todos lhe põem o olhar
E eu, o dono,
Aqui no meu abandono
Espero louco de sono
O cabaré terminar

“Rapaz, leva esta mulher contigo”
Disse uma vez um amigo
Quando nos viu conversar
“Vocês se amam
E o amor deve ser sagrado
O resto deixa de lado
Vai construir o teu lar”
Palavra, quase aceitei o conselho
O mundo, este grande espelho,
Que me fez pensar assim:
Ela nasceu com o destino da lua
Pra todos que andam na rua
Não vai viver só pra mim

In: A música brasileira por seus autores e intérpretes. v.1 - SESC-SP


            O mau-gosto é uma questão complicada em arte.  Pode ser detectado na imperícia, na inépcia, na falta de formação consistente ao lidar com técnicas e  materiais, na “naïveté”, nas formas cediçamente degradadas de se buscar atingir o “gosto comum” médio, na atração pelo “trash”, enfim, pode se originar de uma porção de fatores, mas não é esta a sua principal complicação, e sim porque esbarra de forma inexorável no lado do receptor, que é quem decide, discerne, descortina, rebaixa, desqualifica o que assim é taxado. 
            Relendo o que escrevi aí em cima, não gosto. Ficou rombudo. Mas não vou apagar não. Vou em frente e vou no meio de todos os riscos.  Digo que enorme parte do que é veiculado pela mídia atualmente no Brasil é de um mau-gosto monumentalizado, um tsunami de breguice, no qual o esforço de pescar algo que se mantenha vivo e vigoroso demanda paciência na hora de separar o joio do trigo e optar... pelo joio – que é como Caetano uma vez respondeu à acusação de que gravava muitas banalidades.
            Releio, reescrevo, releio.  Está só um pouquinho menos rombudo.  Dane-se: quero falar aqui de Lupicínio, e quero que o meu leitor seja mais uma vez ouvinte do que postei aqui na vitrolinha.  Porque Lupicínio em certo sentido é uma radicalização do mau-gosto. E é estupendo compositor, o cantor por excelência do sentimento da “cornitude”, como dele escreveu Augusto de Campos em 1967.  Num texto inaugural de apreciação da obra lupicínica (o adjetivo é estranhamente apropriado) feito por um dos intelectuais mais “alta cultura” do Brasil, Augusto acerta na mosca em vários momentos (em alguns outros, já não acho tanto), como quando diz que após a onda “clean, “cool” da bossa nova, a obra de Lupicínio passa a ser olhada retrospectivamente “relegada à faixa do samba-canção bolerizado e descaracterizado, quando o seu caso não é realmente esse.  Suas músicas podem lidar com o banal, mas não são banais.” O universo muito particular de Lupicínio é curioso porque justamente não é nada de muito particular em ambiência: é o “bas-fond”, isto é, o cabaré, o puteiro, o pé-sujo, lugares onde transitam seus personagens amargurados, vingativos, ressentidos ou às vezes tão-somente resignados, cada um com sua “mala suerte”.  Particular é sua arte não-sublimada, carregada nas tintas, suas letras recheadas de senso comum que explodem aqui e ali em imagens surpreendentes, que passam uma incrível veracidade.  Sobre isso, Luiz Tatit escreveu: “O talento desse compositor manifesta-se, sobretudo, na descoberta de formas específicas para traduzir o lugar-comum visando, não à particularidade, mas à ampliação\o do consenso.  Ele procura fisgar o essencial de sua experiência para que mais gente sinta a autenticidade dos seus sentimentos e mais gente se identifique com sua posição narrativa.”
            Como um exemplo do que Tatit acertadamente diz veja-se na canção postada a posição narrativa do eu que canta: ele dirige-se àqueles todos que estão no cabaret para contar sua vida com a mulher que todos eles admiram: “vocês estão vendo...” o mundo, por sua vez,  lhe fala pelo conselho do amigo, para que preserve o “amor sagrado”, que ele, no entanto, só é capaz de preservar de maneira bem pouco sagrada, como “o dono” daquela que “dança no cabaré” (aqui vai uma concessão ao decoro).  Esse “dono” assumido tem a ver com o indisfarçável (que não quer mesmo se disfarçar) mau-gosto de que eu falei antes.  Os versos acasalam a vulgaridade da cena com o inusitado das imagens: “toda vez que ela fala ilumina mais a sala do que a luz do refletor”.  O respeito à mulher que é de “todos que andam na rua” é um respeito a si próprio, para evitar o afastamento que provavelmente lhe seria fatal.
            Na entrevista concedia a Fernando Faro em 1973, de onde pincei o material desta postagem, todas as declarações de Lupicínio são impressionantes.  Com sua voz que se equilibra entre mansa e insidiosa, Lupi conta estórias incríveis a respeito de quase todas as canções que canta.  A maneira de falar, de contar as desilusões que motivaram cada canção mantém perfeita continuidade com o que ele canta em seguida.  Optei por uma canção sobre a qual ele nada fala.  Vale a pena conhecer o CD.
            Por fim, vale registrar que Lupicínio fascina a música brasileira pós-bossa nova com uma efetiva força de permanência.  De Paulinho da Viola, que gravou magistralmente “Nervos de aço” e sempre a canta em seus shows (“eu só sei é que quando a vejo me dá um desejo de morte ou de dor”), a Arrigo Barnabé (que anda levando em vários palcos – que eu saiba ainda não gravou em CD, embora haja vídeos por aí pelos youtube – a “Caixa de ódio”, projeto dedicado a Lupi), passando por Caetano, Bethânia, Gal, Gil, Jards Macalé e ainda Arnaldo Antunes, que gravou num CD “Judiaria” (que tem o verso terrível “estou lhe mostrando a porta da rua para que você saia sem eu lhe bater”), e outros que provavelmente desconheço ou estou esquecendo, Lupi continua vivo.  Certamente por muito tempo ainda. E ainda bem.  

domingo, 17 de abril de 2011

BUCY MOREIRA ILUMINADO PELO FAROL DE FARO



Psiu. Ouça isso aqui. Mais até do que leia. Se quiser ler, aí vai a letra:
NÃO PÕE A MÃO
(Bucy Moreira – Mutt – Arnô Canegal)
Não põe a mão
No meu violão
Não não põe a mão
No meu violão

Você pode sambar se quiser
Com a minha mulher
Mas por favor
Não põe  a mão
No meu violão

Se você quiser eu dou
Um cigarro pra fumar
Empresto a minha mulher
Se você quiser sambar
Se você quiser dinheiro
Também posso emprestar
Faço qualquer sacrifício
Pra poder lhe agradar
Mas por favor
Não põe a mão
No meu violão
(Tira a mão daí)
Não põe a mão
No meu violão...

                Essa preciosidade de picardia, ginga e competência na composição ,na execução e no canto,  típica dos negaceios do samba malandro carioca é uma gravação de Bucy Moreira, grande compositor e ritmista – um dos pandeiros que ouvimos na gravação é dele – raro caso de sambista que faz o elo entre o samba “primitivo” da Praça Onze (era neto da legendária Tia Ciata) e a turma do Estácio, que frequentava.  Bucy (que é também grafado Buci Moreira) nasceu em 1909 e morreu em 1982.  A gravação aqui postada é de 1973 e foi feita para o programa MPB Especial, produzido e dirigido por Fernando Faro.


                Não são muitos os registros em que Bucy aparece com destaque, embora como ritmista sua atuação anônima em gravação dos grandes astros do disco e do rádio, desde a década de 1930, tenha proporcionado um considerável número de gravações.  Em seu disco de 1978, Paulinho da Viola gravou “Miudinho”,  e Bucy, ao lado de Raul Marques – outro nome proeminente do samba – e de Monarco, participou cantando os versos e atuando como ritmista, naquela que talvez tenha sido sua última gravação.
                É possível que existam imagens de Bucy em atuação aí pelos youtubes da vida. Eu nunca vi, mas adoraria.  A gravação que postei acima faz parte – a exemplo da de Blecaute, postada em 05/03/2011  http://robertobozzetti.blogspot.com/search/label/Blecaute  – do 1º. Volume da coleção “A música brasileira por seu autores e intérpretes”, lançada pelo SESC-SP, reunindo o acervo dos programas MPB Especial e Ensaio, criados e dirigidos por Fernando Faro.
                É hora de falar um pouco que seja de Faro, o Baixo.
                Fernando Faro é uma figura admirável.  Quem se interessa por música na TV brasileira sabe disso – e quem está chegando agora e ainda não sabe deve procurar saber logo.  É urgente, pois não saber quem é ele faz mal, só por isso. Um pouco de sua atuação, de sua vasta experiência e de sua vasta e cosmopolita cultura pode ser comprovada pelo leitor nesta interessante entrevista que achei num site de memória da TV no Brasil: http://www.tudosobretv.com.br/histortv/depo/faro/




               Há mais de cinqüenta anos dirigindo musicais na TV (entre eles, o explosivo “Divino, Maravilhoso”,  que os tropicalistas apresentaram para escândalo da audiência no finado 1968), Faro dirigiu palco também, e entre seus grandes êxitos está a primeira caravana de artistas brasileiros em Angola no começo dos anos 80, que reuniu entre outros Chico Buarque e Dona Ivone Lara.  Hoje com mais de 80 anos, olhar em retrospecto tudo o que ele fez é contemplar algo não menor do que uma proeza. Que o diga a coleção lançada pelo SESC.
                O Ensaio – ouço falar que a TV Cultura de São Paulo acabou com o programa e parece que dispensou os seus serviços, o que já é motivo suficiente para... rogar pragas terríveis para quem o fez, se for verdade – é a grande marca registrada de Fernando Faro.  Pela imagem e pelo som.  Pela imagem: Faro criou uma técnica de focalizar o entrevistado em close e em big-close, sempre sob uma fotografia de alto contraste, que acaba por captar com riqueza de detalhes as reações dos entrevistados na situação de entrevista, certamente diante das perguntas que generosamente lhes possibilitam discorrer sobre sua vida, narrar suas estórias.  E aqui o grande achado de Faro (não sei se inventado por ele, mas não importa): as perguntas dirigidas àquele que está em foco, nós, espectadores,  não ouvimos.  Elas são feitas em off, Faro, já por si só baixinho (ele carrega desde sempre o apelido de Baixo e dele fez outra de suas marcas: só se refere a seus interlocutores como “Baixo”), senta-se no chão na frente do  entrevistado e pergunta,  sem que ouçamos.  Ficam uns claros, umas hesitações, ou – pelo contrário – um entusiasmo, uma pressa às vezes, que contribuem esplendidamente para que ao final de cada entrevista tenhamos uma imagem audível bastante rica de cada artista enquanto conversador. 
                Alguns dos números que compõem a coleção já foram lançados em DVD – o de Elis Regina, inclusive, parece que com uma venda estupenda –,  não sei se o de Bucy saiu.  Não é o caso, mas ainda que fosse,  de várias de suas passagens já serem bem conhecidas do público – o que seria estupendo – ao postar aqui alguns fragmentos desse riquíssimo acervo não pretendo nenhum ineditismo ou coisa do gênero.  Eu quero é que os leitores aqui deste blog compartilhem esses momentos comigo. Como se fosse uma música que, ao tomarmos um amigo pelo braço, queremos que ele se comova com a gente e como a gente se comove.  Vou postando aos poucos grandes momentos do que está disponível. E vou postar sobretudo com esse intuito.  Que é proporcionado pelo grande farol que é Fernando Faro.