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sexta-feira, 15 de julho de 2016

RAINER MARIA RILKE (1875-1926)


Ali vivem homens, pálida florada
que morre pasma do mundo e sua agrura;
ninguém enxerga a careta indisfarçada
que o sorriso de uma raça delicada
ao fim de noites sem nome desfigura.

Vão por aí degradados pela lida
de servir, apáticos, a desrazão;
as suas roupas estão sempre puídas
e logo se enrugam suas belas mãos.

A multidão os empurra sem notar
seu andar incerto e seu ar de doentes –
apenas cachorros tímidos, sem lar,
os seguem por algum tempo, mudamente.
 
A mil atormentadores os atiram,
cada hora que bate é um brutal chamado,
em torno dos hospitais ei-los que giram
à espera de internar-se, angustiados.

    Lá está a morte.  Não a que, esplendor,
os tocou na infância, quando os saudou, mas
a pequena morte (como a entendem lá)
que ora dentro deles, verde, sem dulçor,
é fruto que não amadurece mais.

 

                                               Tradução de José Paulo Paes

 

 

 in: Rainer Maria Rilke [poemas].  Tradução e introd. José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2009.

 

Beelitz Heilstätten Hospital, Berlim
 

 

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

D’ O LIVRO DAS HORAS DE RILKE




Deus, que será de ti, quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu.

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus,
que com quentes palavras te acolhia.
Perdem teus pés exaustos as macias
sandálias: também elas eram eu.

De ti desprende-se o teu longo manto.
O teu olhar, que a minha face, quente
coxim acolhe, virá entrementes,
virá procurar-me longamente
e deitar-se depois, ao sol poente,
entre pedras estranhas, nalgum canto.

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


                                                       Tradução de José Paulo Paes







Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe,
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel lässt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.




 in: Rainer Maria Rilke [poemas].  Tradução e introd. José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2009.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

RILKE: DIA DE OUTONO

DIA DE OUTONO

Senhor: é mais que tempo.  O verão foi muito intenso.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e por sobre as pradarias desata os teus ventos.

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras;
Dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,
leva-as à completude e não deixes de pôr
no vinho pesado sua última doçura.

Quem não tem casa, não a irá mais construir.
Quem está sozinho, vai ficá-lo ainda mais.
Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais
e correr as aleias num inquieto ir e vir
enquanto o vento carrega as folhas outonais.

                                           Tradução de José Paulo Paes

HERBSTTAG

Herr, es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren lass die Winde los.

Befiehl den letzten Früchten, voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin, und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben


In: Rainer Maria Rilke – poemas.  Tradução e introdução de José Paulo Paes.  Companhia das Letras, 2012.

domingo, 20 de maio de 2012

AH, UM SONETO... DE RILKE


MORGUE

Ali jazem em ordem como se
à espera de algum ato tardio
que os pudesse ligar entre si e
reconciliá-los com aquele frio;

tudo está por enquanto inacabado.
Por que, dentro dos bolso, um cartão
Com o nome de cada?  O ar de enfado
nas suas bocas, foi esforço vão

tentar lavá-lo: só ficou patente.
Mais áspera, a barba ainda nos rostos:
o zelador da morgue tem seus gostos;

nem os de boca aberta lhe dão náuseas.
Com olhos revirados sob as pálpebras,
os mortos veem-se agora interiormente.
                                                                                                                               
                        tradução de José Paulo Paes

in: Rainer Maria Rilke: poemas.  Tradução e introdução José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2012.           
         


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DE POETAS SOBRE POESIA II

Rainer Maria Rilke:“Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém.  Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo.  Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma: confesse a si mesmo:  morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda.  Se afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade.”            (In: Cartas a um jovem poeta)


T. S. Eliot: “A poesia não pode afastar-se muito da língua cotidiana que nós mesmos falamos e ouvimos falar.  A poesia – seja ela quantitativa ou silábica, rimada ou não rimada, de forma livre ou fechada – não pode perder o contato com a linguagem cambiante das ordinárias relações humanas.  Pode parecer estranho que, mesmo tendo me proposto a falar da “música” da poesia, eu insista particularmente na linguagem da conversação.  Mas antes de tudo gostaria de lembrar que a música da poesia não exciste independentemente do significado; do contrário, poderia produzir-se uma poesia de grande beleza musical,mas ausente de sentido, como jamais me ocorreu de ler.             (In: “Musicalidade da poesia”)



W. H. Auden: “Se se perguntasse quem disse ‘A Beleza é a Verdade, a Verdade, a Beleza!’, muitos leitores responderiam ‘Keats’, mas este não disse nada do tipo.  Trata-se do que ele disse que a Urna Grega dizia, sua descrição e crítica de certos tipos de obras de arte, o tipo do qual os males e os problemas desta vida, ‘ o coração desconsolado e exausto’ estão deliberadamente excluídos.  A Urna, por exemplo, retrata, entre outras belas paisagens, a cidadela de um povo na colina; ela não retrata a guerra, o  mal que torna necessária a cidadela. A Arte surge de nosso desejo de beleza e verdade e de nosso conhecimento de que elas não são idênticas."       (in: “A mão do artista”)



Maiakóvski: “Não se deve colocar em movimento uma grande usina poética, para fabricar isqueiros poéticos.  É preciso virar o rosto a tão irracional miuçalha.  Deve-se pegar da pena somente quando não existe outro meio de dizer o que se quer, a não ser o verso.  Devem-se elaborar objetos acabados somente quando se sente um encargo social bem claro.”  (in: "Como fazer versos")














Traduções utilizadas: Paulo Rónai e Cecília Meireles (Rilke), Affonso Romano de Sant'anna (Eliot), José Roberto O'Shea (Auden) e Boris Schnaiderman (Maiakóvski)