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sábado, 17 de dezembro de 2016

COMEÇAREI A SER INCONVENIENTE




·         pedirei de vez em quando que me inteirem a passagem, que eu saí com pressa de casa e esqueci de passar no banco

·         que me paguem um café, q eu não trouxe trocado e como eu parei de fumar não tenho nem como trocar a nota grande do bolso

·         talvez volte a fumar, se arrumar prum varejão, não vale a pena comprar um maço, fumo no máximo um cigarro por dia

·         opere pequenos furtos em armários de colegas, preciso ver como providenciar as cópias das chaves

·         em bolsos de casacos também, bolsas de colegas  deixadas entreabertas, carteiras pedem para ser levadas

·         em dias de muito calor, uma rodada de cerveja, q depois eu acerto e entre nós não vale isso, não é mesmo

·         no frio, um quente, nem q seja um traçado de dreher com fogo paulista, me sentindo personagem de joão antonio

·         com etiquetas eletrônicas, desenvolverei habilidades nas lojas de varejo, agora que nem mesmo bala na Americanas dá mais pra levar, q dirá lingeries pra vender adiante

·         não tenho habilidade pra aprender a fazer ligação direta, ainda mais agora com tanta tranca, sem falar em GPS e tal

·         não tenho disposição pra traficar branco nem preto, pó nem fumo, tenho mais tendência pra morrer de tanto cafungar

·         não saberia lutar pra manter um ponto, pequeno que fosse, ainda por cima

·         apontar jogo de bicho, nem pensar, se bem que até nisso eu já pensei

·         jamais coragem pra fazer um ganho, berro na mão, decisão e disposição pra chegar junto se for o caso

·         pensar em arma branca furando carne enquanto esfolo o pescoço pra arrancar a gargantilha o pingente me arrepia

·         me aventurar a assaltar banco, nunca pensei, mas admiro, confesso

·         imolar-me em praça pública em nome de uma causa estúpida simpática justa assando vísceras de casuais passantes cheirando a fezes queimadas não

·         não

·         nem

·         nem

·         não

·         conheço um amigo que se deu bem numa igreja na baixada, acho que vai dar pra dividir os cultos com ele dois dias na semana, é sempre um começo

domingo, 23 de outubro de 2016

COM ADRIANO NUNES E PAULO TALARICO




     No acaso algorítmico das redes sociais, me deparo no Facebook com uma dupla postagem de há um ano: um poema que dediquei a Adriano Nunes (e Paulo Talarico) e um poema de Adriano Nunes a mim dedicado.  Reúno aqui os dois poemas, acrescentando uma ilustração de Talarico que diz bem do que os poemas também dizem: os dados do bem-querer e dos acasos da amizade.  Num bom domingo!



NÃO ME CHAME
                    para o Adriano Nunes e
           o Paulo Talarico

Não me chame
         não sou gregário
                   não sou de enxame
é pouco provável
         que eu vá
embora nem vá
dizer:

 Não

mas não vou
não me espere
nunca me atraso
também
não me adianto
nem pro ménage
nem pra homenagem
    nem pro rendez-vous
nem pra santíssima trindade

Não quero encontrar os semelhantes
não tou na fila do confessionário
nem na do mega-show
nem na do lambe o cu do empresário
nem na dos cumprimentos
o pódio que desabe

nado e que se foda a direção dos ventos
e o que leva a correnteza
        
eu já tou dentro e muito dentro
não tenho tempo, absorvido sou
escravo
anfitrião
hóspede
              da beleza






"O PÓDIO QUE DESABE"
 para Roberto Bozzetti

Nem todos os louros da Grécia Antiga
Nem o ouro da Atlântida perdida
Nem medalhas civis ou militares
Nem mesmo as placas comemorativas
Nada disso convém, bom que se diga
Nada disso faz falta a qualquer lida
Nem pedestais de santos nem altares
Nem tronos de nobres sequer de trastes
Nem as honras da recompensa pública
Nem as tais glórias tidas como únicas
Nada disso aqui vale, em nada implica
Nada disso dá alma a qualquer vida
Nem homérica íntima homenagem
Nada: só Arte! E o pódio que desabe!


quinta-feira, 9 de junho de 2016

"CEGA DE SAUDADE": UMA PARCERIA NO NOVO CD DE PAULINHO LÊMOS






         Amigo  querido de longa data, Paulinho Lêmos músico e cancionista – para usar o termo criado por Luiz Tatit para designar o fazedor de canções – de primeira, há muitos anos está radicado na Europa, de onde volta e meia nos alegra com trabalhos excepcionais e eventuais visitas ao Rio, onde costuma se apresentar.

          Pois ele vem de lançar um ótimo CD, todo de voz e violão, chamado Outra dimensão, no qual há uma parceria nossa, “Cega de saudade”, uma meio que toada quase caipira, de costura melódica delicada e meticulosa.  No CD há preciosidades compostas por Paulinho com seus parceiros habituais, como o ótimo Rogério Batalha, além de Moacyr Luz, Agenor de Oliveira e outros mais.   O CD está disponível para ser adquirido online (em Bandcamp, e também em   Apple Music, Amazon, CdBaby, Spotify, Google play, etc.), além de haver uma tiragem limitada em vinil a sair no fim deste mês de junho.

          Eis a letra da nossa CEGA DE SAUDADE





Ela me olha no olho
acho que cheia de mim
eu bem que tento e não vejo
nem sombra de ser feliz
ali

Se bem que não tou ali
onde ela atenta me fita
também nela não me vejo
quando  sorrindo me diz
ah, sim

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

De dentro do seu retrato
sorri tão cheia de si
ela me tira do sério
quando me chega  chorando
infeliz

 Com a minha falta de tato
penso que ela tá de fita
claro que não, que mau-trato
pois já me disse  e eu não
ouvi

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim 

Lhe compro os olhos da cara
para que olhem pra mim
retoco no photoshop
me desarranco do siso
é o fim

sentir  como é que me sinto
pensar se pensou em mim
saber que é só vaidade
dizer chega de saudade
e ouvir

 que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

 A seguir o link para o CD Outra dimensão no Bandcamp de Paulinho Lêmoshttp://paulinholemos.bandcamp.com/releases

 

 
 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Um poema novo, para conjurar os nossos dias contra os nossos dias





OS DESVISÍVEIS

 

Onde não havia ninguém

          - nem vestígio

                    indício 

                             perdido de vista no fundo do

                             precipício

só silêncio abafando

          o suplício de todo

          dia até o fim desde

o início

dos tempos coloniais

 

-  então quando os invisíveis se tornam

visíveis

 

impossível será torná-los

desvisíveis

 

não mais

 

 

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

De A TAL CHAMA O TAL FOGO: AS ANACRONIAS (1989)


SEIS ANACRONIAS  

 

I

quanto tentei acompanhar o carme adolescente
que solfejei na porta do alumbramento
lábios que refutei por medo
na loja do mundo simples
onde nos condenamos à felicidade.

 

 
II

finjo que ali não tem o que procuro
e adiante embaraço os pés
nos cadarços dos sapatos.
mereço o tombo embora
me iluda: navio, me digo
e não calçada.

 

 
III

aquela noite te acordei e fui te arrastar
com toda volúpia
pra te dizer que o primeiro amor morreu
o segundo amor morreu
o grande amor não era
e cantar-me a tardia adolescência.
para mim.  para meus ouvidos
desabotoados.
 

 

IV

pergunto entre um significado
e o itinerário daquele ônibus
entre o esmalte das carrocerias
e o verniz das carcaças, o sono
e o deambular da espécie
rumo ao mar
lêmingues

 

 
V

na manhã – embora de estiletes
acarinho a vida: seu dorso de terciopelo
a mão vai se tornando minha
a voz zela à bocca chiusa
o adeus à terra prometida
 

 

VI

melancólico ectoplasma medusado fogo flâmula
o varredor vai acumulando palavras recolhidas
junto ao meio-fio
saio de novo para a velha manhã
bonita e desabitada de palavras
ele continua lá.  varrendo.
o ajudo – mtaadoâfperolasnoli
fora as que ficaram
mal varridas.
 
 
 

SÉTIMA ANACRONIA

poder apagar a cidade
relógios e galerias
todas as calçadas toda a memória dos passos
todos os calendários virados.
não se pode estancar a
continuidade da cidade na cidade
do homem na cidade
do homem
como se
- cadê o privilégios dos caminhos? –
fosse só atravessar e num
mesmo movimento
apagar estancar zerar
e viver como se a mentira não fosse a água
a água



 

Roberto Bozzetti. A tal chama o tal fogo.  Oficina Raquel, 2008


Marianne Von Werefkin - Cidade à noite com taberna (1880)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

BUCÓLICA FINAL


baratas bem sabem esgueirar-se junto ao rodapé
dissimuladas
enquanto não encontram o todo
do rebanho

morcegos hematófagos revoam ao meio-dia
no pomar
enquanto a seara morre de arrependimento
e troncos pendem dos galhos
gotejantes

na hora de levar a ração aos lobos
reses assistem ao sorteio
enquanto na lixeira ratazanas provocam gatos
esquálidos
intimidados

cardumes de pandorgas são dizimados a esmo
por pedras perdidas em fuga de estilingues
enquanto lamentamos nada
poder fazer
o padre surdo é amasiado com o delegado
dizimador de viados

sou o corpo ao sol
sou a ração dos lobos
no lixão.
não há lobos
na alcatéia de hienas.

 

 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

DISCURSO DE PARANINFO

(Aos formandos do Curso de Letras, turma 2011-2 e "anexos", por ocasião da cerimônia no dia 20 de novembro de 2015)


Dirijo-me aos formandos, inicialmente para agradecer a escolha de meu nome e também para falar em nome da ligação afetiva com esta turma, da proximidade no convívio cotidiano da academia, e mesmo dos laços de efetiva amizade que estabelecemos alguns de nós. Até porque talvez só mesmo laços muito fortes de amizade justificariam a confiança demonstrada não apenas para uma cerimônia destas num feriadão, ainda mais tendo sido o convite formalizado em cima da hora, o que me levou a algumas observações e considerações vazadas numa linguagem bem pouco apropriada a ser reproduzida aqui nesta cerimônia – aliás, em qualquer cerimônia.
         Pois bem: é justo por causa desses laços  muito fortes que resolvo recusar o discurso de viés mais afetivo (que tem sido o mais comum nestas cerimônias) e procurar fazer algumas observações a serem levadas por vocês no arremate desta etapa da vida.  Não farei “um adeus de discurso” – como diz Oswald de Andrade pela boca de João Miramar - , tampouco um discurso de adeus.  Não forçarei a nota afetiva.  Em vez disso, buscarei encaminhar algumas reflexões.
         Comecemos por falar não do “feriadão” (perdendo – ou ganhando o dia, como ensinou Drummond), mas do feriado, deste feriado: o Dia Nacional da Consciência Negra, feriado nacional criado em janeiro de 2003, no atendimento democrático a uma iniciativa das demandas da população negra organizada, feriado de caráter eminentemente democrático por ser opcional,  e que hoje se estende – viva o google! – a 780 municípios brasileiros, que o celebram.
         Numa visão bastante ingênua ou meramente produtivista, existem aqueles que listam entre as causas do nosso “atraso” enquanto país o “excessivo número de feriados”, como se ao suprimi-los ou reduzi-los déssemos um importante passo como nação.  Não vou aqui lembrar da França, onde há mais feriados do que no Brasil, e que não é propriamente um país atrasado – aliás, nestes dias sombrios que correm, uma das razões, se não a principal, de a França ter sido, e ser ainda, alvo de ataques extremistas fundamentalistas é justamente seu caráter de nação pioneira na consagração das conquistas democráticas.
         Aproveito então o “gancho” do feriado para trazer algumas questões à reflexão de todos aqui.  Como vocês me ouviram dizer muitas vezes em sala de aula, vou “dar um passeio”, esperando não me perder antes de retomar o início ao final, numa fala mais “encorpada”.
         Dirijo-me prioritariamente à atenção da turma de formandos, ou seja, – aqui lançando mão de referências mais familiares a nós, “povo de Letras’, mas que serão, se cabíveis forem, de proveito para todos, para o “público externo’ – aqui representado por amigos e familiais presentes - , pois afinal é o trânsito entre o nosso saber específico -mas não exclusivista – e o corpo geral da sociedade, é esse trânsito que deve dar sentido à nossa formação, ainda mais numa universidade pública.
         Aproveito, pois, o mote do Dia da Consciência Negra, para dizer que Antonio Candido lembra Joaquim Nabuco, em O abolicionismo, que diz que uma das dimensões da nossa catástrofe social histórica – e que, é preciso reconhecer, agora se busca, com muita luta e muitas contradições, reverter – é a persistência do drama humano trazido pela escravidão, que comprometeu para sempre o regime de trabalho e de produção, fazendo com que gerações e gerações se acostumassem as ver no trabalhador um objeto, e não um ser humano.  Decorreu isso de que os antigos escravos, mesmo com a abolição de lei em 1888, não foram incorporados à estrutura social.  Cito Candido: “O trabalho livre se estabeleceu lentamente e sofreu uma influência benéfica da imigração estrangeira.  Italianos, sírio-libaneses, alemães, espanhóis, os imigrantes fizeram o Brasil contemporâneo.  Mas aí deu-se um fato que é bastante grave.  A oligarquia brasileira é tão poderosa que coopta todas as sucessivas camadas dominantes.  O imigrante aqui chega e, quando fica rico, passa a tratar o empregado exatamente como foi tratado, como escravo.  Quer dizer: a classe dominante brasileira não é formada pelas mesmas famílias, mas as famílias que se vão sucedendo adotam o mesmo comportamento.”
         Como se vê, entramos numa espécie de reprodução por inércia, quase um moto-contínuo para a perpetuação de nossas iniquidades e indignidades como sociedade.  Darcy Ribeiro repetia serem as elites dominantes brasileiras talvez as mais perversas do mundo e, numa frase que muito circula hoje pelas redes sociais, dizia ainda que o fracasso da educação no Brasil, do ponto de vista das elites não era um fracasso, era um projeto.  Projeto de educação definido também sinteticamente por Paulo Freire em outra frase: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”
         Cito Darcy e Freire porque foram dois homens que juntos estiveram e juntos “fracassaram” em seus projetos para a educação, calados, cassados e perseguidos que foram com o golpe de 1964, ambos.  O governo autoritário e ilegítimo – porque às custas de um golpe – que então se instalou, não custa lembrar ou apenas informar aos mais desavisados, começou golpeando duramente a educação, perseguindo, prendendo, assassinando, fazendo desaparecer estudantes e professores – e não apenas – em muitos crimes de terrorismo de estado, que continuam aí sem esclarecimento e sem punição, para nossa vergonha como nação. Mas não apenas violência contra pessoas: fazendo desaparecer dos currículos escolares qualquer coisa ligada ao ensino de filosofia, que lida, como sabemos, com o exercício constante do pensamento crítico.
         E se falo nesse período medonho para o campo do saber é porque hoje em alguma medida ele parece querer reviver nos sonhos de nossa desmemória endêmica  e manipulada.  Mas sou otimista e considero que, apesar das dificuldades e dos reveses, o pior não acontecerá.  Seguiremos na seara democrática que, apesar de tudo, sinaliza a existência de seus primeiros frutos.  Falemos um pouco destes.
         Li que ontem houve protestos, pelo pessoal que organizou festejos da Semana de Consciência Negra, em frente ao antigo prédio do DOPS na Rua da Relação, Centro do Rio.  O local foi escolhido com a intenção de se marcar um lugar de memória trevosa, de modo a afrontá-lo enquanto tal.  Bem vinda afronta.  Tenho inclusive razões pessoais para festejar a boa ideia, pois frequentei o prédio semanalmente há quase quarenta anos, quando, ao ser aprovado em concurso público, precisei obter um “atestado ideológico” para ingresso na carreira, o que foi complicado, pois no ano anterior eu havia sido presidente do diretório estudantil do meu curso de Letras. E para conseguir nomeação e tomar posse num cargo público, era necessário o “nada consta” de autoridades de resto ilegitimamente constituídas.  Digo isso para lembrar que o país já foi muito pior.
         E se celebro essa afronta ao espaço simbólico da repressão, não o faço em meu nome, um figurante obscuro de importância relegada a uma subalterna quinta grandeza naquele quadro, mas celebro para celebrar o que deve ser celebrado: as manifestações da cultura negra, com cânticos, dança de capoeira, enfim... literalmente se sambou na cara da sociedade repressiva – uma sociedade que, como lembrou Chico Buarque numa entrevista, “pensa que é branca”.  Esse aspecto glorioso da celebração é simbólico daquilo que completa o que configura a nossa seara democrática, que as conquistas das transformações sociais dos últimos anos vêm lutando para sedimentar e que gosto de sintetizar assim: os negros não voltarão para as senzalas, as mulheres não voltarão para as cozinhas, o povo LGBT se organizou, suas vozes se fazem ouvir e, felizmente, não mais de dentro dos armários, para onde não voltarão.  Há muito a ser conquistado ainda, e cito aqui, como exemplo, a dura luta a ser travada em favor da dignidade dos povos indígenas.  Mas, seja como for, viva o Dia da Consciência Negra, viva Zumbi!
         Há quarenta anos esta situação de celebração era impensável:  Jorge Ben Jor cantava algo que parecia ser tão distante: “Eu só quero ver como vai ser quando Zumbi chegar”.  Os sinais estão aí de uma chegada de Zumbi, nesta canção tantas vezes gravada e cantada em festejos diversos.  O mito se confunde por vezes com a história e, se esta pode complementar e nos levar á depressão pelo conhecimento objetivo do estágio repressivo que ela venha a flagrar – afinal, lembram Caetano e Gil, “todos sabem como se tratam os pretos” – o mito pode alimentar, se não a redenção, a perseverança na luta por dias mais justos.
         Ora, afim ao mythos, como ao epos, por vezes englobando a ambos, temos a literatura. Quando vocês me convidam, e aos colegas de literatura, a desempenhar um papel tão importante neste momento, posso, podemos interpretar isso como uma afirmação da literatura, de sua prática, de seu ensino, de sua aprendizagem, de seu sentido mais arraigado.  Este não é simples, nem cabe me estender aqui sobre ele – de resto, penso que já o fizemos muitas vezes juntos - , mas a gradativa supressão que o ensino de literatura vem sofrendo no ensino médio – sem falar no seu abastardamento ou pura e simples ausência nas etapas anteriores de formação – é para nos deixar para lá de alertas.  Não podemos abrir a guarda, não podemos abrir mão do discurso literário, de seu papel de mediador, de aferidor, de problematizador da malha de discursos, ainda mais numa sociedade tão penetrada por autoritarismo, proveniente sobretudo da ignorância e da baixa e/ou péssima  escolaridade.
         Se é inegável que assistimos nos últimos anos – e os indicadores sociais estão aí mesmo, entre outras coisas para nos livrarem de uma mídia comprometidamente venal – a uma significativa inclusão social e diminuição da pobreza e da miséria, é inegável também que muitos analistas têm apontado com razão que esse ganho se fez infelizmente mais pela inclusão via consumo do que via educação.  E a batalha pela educação é aquela que nos chama agora a combater o bom combate nas molduras da sociedade democrática, de instituições que apesar de tudo têm se mostrado sólidas.
         Encaminho agora a conclusão, procurando amarrar os fios soltos na ponta do início.  Graciliano Ramos – este magnífico escritor, por sinal nascido no mesmo estado da federação onde ficava o Quilombo de Palmares – em conversa com o folclorista Câmara Cascudo saiu-se com esta, segundo conta seu biógrafo Dênis de Moraes;
         “Na casa dessa burguesia rica você pode encontrar dez penicos de porcelana, mas não encontra dez livros.  Não é que eu deseje tê-la [a essa burguesia, bem entendido] como leitora de meus livros, mas isto mostra a indiferença pela divulgação literária e a falta de estímulo à produção intelectual.”
         Às vezes ouço falar que a literatura “é uma atividade de elite”, que seria “um luxo”, que os escritores se entregariam “a práticas elitistas”, coisas que tais.  Vou repetir aqui o que disse no correr de uma aula outro dia mesmo:   Não vamos ofender deste modo a literatura ou a atividade literária.  Numa sociedade cujas elites são perversas, boçais, obscurantistas, analfabetas, violentas e assassinas, dizer que assim é a literatura é ofendê-la, é ofender a nós todos.  Não compactuemos com isso.  Nesse sentido, vos conclamo.
         Obrigado.

domingo, 25 de outubro de 2015

Um poema novo


AO PAI

 

Todo dia
ao acordar
cedo a vez
a meu pai
no espelho
cedo
cada vez
mais e mais
dia a dia
por instantes
se aproxima
e se vai
de vez vai
comigo vai

no espelho
do banheiro
fica de seu
um nada
tudo que eu
perca que eu
esqueça
ceda
largue deixe
todo ele
vamos nós
no travo
no hálito
no pigarro

vamos para
todo o mundo

 


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

POUCA VERGONHA. FAZ MUITO TEMPO.


Em 1982 dei por pronto o Pouca vergonha, que teria sido meu primeiro livro a ser editado.  Era um volume que reunia 43 poemas, com uma estrutura dual – no fundo, o velho Ariel e Caliban que Álvares de Azevedo foi buscar em Shakespeare– mas internamente desordenada. Sendo mais explícito: uma parte dos poemas seria regida pela “Musa séria”, outra pela “Musa galhofeira (paródica e autoparódica)”, só que entremeadas na estrutura interna do livro, nem sempre havendo uma delimitação clara entre as duas partes – ou as duas musas.  Mas como na verdade  eu achava importante, mais do que deixar claro essa diferença entre, digamos, o “espírito” dos poemas,  sinalizar para uma suposta “originalidade” na estrutura do livro, urdi o seguinte: os poemas de índole paródica entrariam e sairiam de maneira intempestiva,  irregularmente,  de modo a tentar desmanchar o discurso sério dos demais e causar algum estranhamento no  leitor pela  sua ocorrência inesperada, como se os poemas na verdade fossem  quase que  uma anotação apócrifa, irreconhecível, perturbadora e meio que incontrolável ante o tom dos demais.  Para isso, resolvi brincar com um dado que cultivava ainda  certo anacronismo, homenageando uma paródia radiofônica, o programa PRK-30 (Lauro Borges e Castro Barbosa!), que naquele começo de década de há muito já não existia, mas de que sempre ouvira falar e do qual tinham sido feitos  dois LPs que eu ouvia a ponto de arranhá-los pelo uso.  Assim, o título do livro ganhou um subtítulo e ficou deste jeito: Pouca vergonha – com a interferência da transmissão apócrifa e clandestina do radiolivro O sarau do troglodita.

         Foi em 1983, enquanto eu cursava  uma excelente  especialização em Modernismo na UERJ – que então iniciava a sua pós-graduação – que a professora Dirce Cortes Riedel, de querida memória, que coordenava o curso, leu meu livro, gostou e me encaminhou a um editor no Rio, de editora que publicava muita poesia – bancada pelos autores, claro – e que vinha ganhando certo prestígio no meio intelectual.  Daí para a frente tudo deu errado com meu Pouca vergonha: recebido o dinheiro adiantado, a pretexto de que era muito trabalhoso graficamente,  devido às irrupções “incontroláveis” do troglodita em seu sarau, que previa uso de tipos diferentes de letras e  dificultaria ainda sobremaneira a paginação e a diagramação do volumezinho (o que não deixava de ser verdade), o fato é que  o editor acabou me enrolando, pretextando problemas de ordem gráfica cada vez mais insolúveis, sem jamais vislumbrar  soluções alternativas, e acabando por não produzir livro nenhum.  Enfim: me dando o cano.  Depois de quase um ano de idas e vindas na tentativa de editar o livro , acabei por processar  editor e editora – foi quando eu soube que era mais um que o fazia –,  e lá por 1986, 1987 talvez,  ganhei a causa, recebi de volta a grana, mas... já não queria mais saber do Pouca vergonha.  Achava-o muito datado, muito colado a um  pastiche de poesia marginal, mais  do que propriamente paródia de qualquer coisa, deixei-o para lá.
         Tem algum tempo, topei aqui em casa com o livro datilografado, cópias de poemas que o integravam e de muitos outros, e em meio a um papelório em vias de ir-se em pó, repassei o Pouca vergonha para o arquivo do computador.  Como eu recuperei também  várias anotações, consegui determinar a data de alguns poemas, pena que menos da metade deles.  Mas dá pra saber com segurança que foram escritos entre 1976 e 1982, ou seja, dos meus 20 aos 26 anos, praticamente durante toda a minha graduação em Letras.   Me divirto ainda hoje com alguns deles, especialmente os paródicos – embora datados, alguns são comentários que ainda acho divertidos, muitos versando sobre poesia e vida literária, alguns até  bem resolvidos poeticamente, segundo avalio; os mais “sérios” são praticamente todos insalváveis.  Ainda assim, para minha surpresa gerada pela desmemória,  me toco que um poema do Firma irreconhecível, que inclusive já postei aqui, “Obversão”, é uma retomada de um poema do livro antigo.  E quanto aos  humorísticos, uma vez ao mostrar ao Marcelo Diniz a tresloucada “biografia de Victor Hugo” que consta do conjunto, ele disse que eu era “o inventor do besteirol”, e acho mesmo que o disse  em intenção, se talvez se possa assim dizer, sem me enganar, quer dizer, salvo engano, ou má avaliação, digamos, elogiosa.


 * v. Nota ao final

 

 
 
Lembro ainda que quando pensava editá-lo eu queria que a capa do Pouca vergonha, assim como  todo o trabalho gráfico do volume, evocasse um tipo de desenho antigo que de vez em quando eu via n’O Pasquim.  Sem ter muita certeza do que seria, pensava em algo como se fossem gravuras sacanas,  e ao mesmo tempo inocentes,  de crianças em situações ambíguas, embaraçosas sem perder  a aura de inocência infantil... como de vez em quando eu topava com Fausto Wolff, remanescente dos tempos heróicos do velho semanário, falei com ele do que eu estava querendo,   e ele prontamente dispôs me atender – já contei isso aqui também – me arranjando  umas cópias de ilustrações  de ótima qualidade exatamente do que eu pensava.  Creio que na ocasião ele não me falou nada da autoria daqueles maravilhosos desenhos, que desde há algum tempo, passeando pela rede, descobri tratarem-se de obras de uma gravurista francesa do século XVII, Claudine Bouzonnet-Stella (1636-1697).  Aqui neste link http://semema.com/brincadeiras-e-jogos-infantis-do-seculo-xvii/   
há uma boa amostra dessas gravuras, que trazem ainda pequenos – e deliciosos - poeminhas como legendas, várias das quais – como a que ilustra esta postagem, ‘ “Brincadeira do peido na cara”  – estavam entre as que Wolff me apresentara e presenteara. 
         Quanto aos poemas do livro propriamente dito, agora ao preparar este texto dei uma passeada pela “Advertência” que o abre.   Me deparei com parágrafos assim:          
“foi só me pôr a refletir na multiplicidade de eus que me habitavam que a interferência se insinuou decisiva: “aí hem, realizando seu sonho, seu fernando pessoa de merda!” 
         Bem, todo este passeio me ensejou a fazer uma postagem que trouxesse um pouco do Pouca vergonha aqui para o Firma irreconhecível.  Posto portanto a seguir dois poemas da “Musa séria” ensanduichando quatro pequenos poemas paródicos.  Estes têm por título geral  “Rápidas apostilas: Supletivos de todos os graus”;  abro e fecho com os dois da “Musa séria”: respectivamente,  “Quadro”  e “Instante”, este talvez o mais antigo do conjunto, amostra fiel da minha “lira dos vinte anos” particular.
 
 

QUADRO

 
 
no almanaque
encontrei um teu retrato.
fiquei com saudade olhando pra mim
e espanei a poeira daquilo
que hei de viver um dia
numa cidade de sonho
e concreto
 
tão perto
um teu retrato me dizia de tudo



 
(rápidas apostilas:
Supletivo de todos os graus
 
 
(militarização pedagógica
 
 Instrução
 
ensinam a deitar no chão
e fingir de morto

                            (literatura
 
Modernidade
 
alguns vestidos têm fímbria
outros gente dentro


 


                            (na idade de ler Proust

 

 O pequeno-burguês aposentado

 
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
     às custas do dinheiro ganho


 

 


                                                     (história natural

 

 
              Evolucionismo

 

não tendo mais feijão
daremos graças
pelo arroz concedido

não tendo mais arroz
daremos graças
pelo pão concedido

não tendo mais pão
daremos graças
pelo sal concedido

e não tendo mais sal
lamentaremos
tanto mar

 
 

                                                                                                       INSTANTE
quebro o vidro da noite
e te acordo
 quem me cortou bruscamente o sonho?
quem caminha pela calçada?
quem foi que matou a mulher
no desespero da madrugada?
quem volta bêbado e exausto
de mais noites amarguradas?
quem perdeu seu amigo e agora
corta os pulsos exasperado?
quem acabou o poema
e fecha a tampa da privada?
quem beijou minha boca hoje?
quem me trouxe para casa?
quem me puxou as cobertas?
quem me aqueceu do frio?
quem morreu por mim agora
ou pela desconhecida amada?
quem quebra vidros a essa  hora
de perguntas mal acordadas?
 
dormes.
 
 






* Nota: Ao pé da gravura, reproduzida em publicação tal como colhida na fonte indicada no site acima, há,  sem indicação de autoria, os seguintes versos:


 “Ce plaisir est fort innocent,
Et dans ce jeu divertissant
Les enfants se donnent carrière;
Mais, comme ils se serrent  de pres,
Soit par megarde, ou tout express,
Le nez doit craindre le derrière.”


Na época do Pouca vergonha