Mostrando postagens com marcador Silviano Santiago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Silviano Santiago. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

JACQUES PRÉVERT (1900-1977)


CANÇÃO DOS CARAMUJOS QUE VÁO AO ENTERRO

Ao enterro de uma folha seca
Vão dois caramujos
Têm a concha negra
E véu negro em volta das antenas
Vão pela noite
Uma bela noite de outono
Quando chegam coitados!
Já chegou a primavera
E as folhas que jaziam pelo chão
Todas tinham ressuscitado
Os dois caramujos
Ficam muito desapontados
Mas eis o sol
O sol que lhes diz
Façam o favor façam
O favor de sentar
Tomem um copo de cerveja
Se vontade lhes dá
Tomem caso queiram
O ônibus para Paris
Parte esta noite
Poderão admirar a paisagem
Mas não ponham luto
Sou eu quem lhes aconselha
Escurece o branco do olho
E também enfeia
Histórias de enterros
São tristes e nada belas
Ganhem as suas cores
As cores da vida
Então animais
Árvores plantas todos
Começaram a cantar
A cantar aos berros
A verdadeira canção viva
A canção do verão
E todo o mundo a beber
E todo o mundo a saudar
É uma bela noite
Uma bela noite de verão
E os dois caramujos
Voltam para casa
Voltam muito comovidos
Muito felizes
Como beberam demais
Ziguezagueiam um pouco
Mas no céu lá no alto
A lua protetora.

                                                    Tradução de Silviano Santiago

Vyacheslav Mishchenko,  foto



CHANSON DES ESCARGOTS QUI VONT À L’ENTERREMENT

 

A l'enterrement d'une feuille morte
Deux escargots s'en vont
Ils ont la coquille noire
Du crêpe autour des cornes
Ils s'en vont dans le noir
Un très beau soir d'automne
Hélas quand ils arrivent
C'est déjà le printemps
Les feuilles qui étaient mortes
Sont toutes ressuscitées
Et les deux escargots
Sont très désappointés
Mais voilà le soleil
Le soleil qui leur dit
Prenez prenez la peine
La peine de vous asseoir
Prenez un verre de bière
Si le coeur vous en dit
Prenez si ça vous plaît
L'autocar pour Paris
Il partira ce soir
Vous verrez du pays
Mais ne prenez pas le deuil
C'est moi qui vous le dis
Ça noircit le blanc de l'oeil
Et puis ça enlaidit
Les histoires de cercueils
C'est triste et pas joli
Reprenez vos couleurs
Les couleurs de la vie
Alors toutes les bêtes
Les arbres et les plantes
Se mettent à chanter
A chanter à tue-tête
La vraie chanson vivante
La chanson de l'été
Et tout le monde de boire
Tout le monde de trinquer
C'est un très joli soir
Un joli soir d'été
Et les deux escargots
S'en retournent chez eux
Ils s'en vont très émus
Ils s'en vont très heureux
Comme ils ont beaucoup bu
Ils titubent un petit peu
Mais là-haut dans le ciel
La lune veille sur eux.

Vyacheslav Mishchenko,  foto

 

 

In: Jacques Prévert: poemas. Sel. e trad. de Silviano Santiago. RJ:  Nova Fronteira, 1985.
 




quinta-feira, 1 de outubro de 2015

TRÊS POEMAS DE SILVIANO SANTIAGO (1936 -)


A MÁSCARA DO PODER
 

O homem se transforma
disfarçando-se
para ser
o polícia todo-poderoso.
Shazam!
Onde está o tímido repórter Clark Kent?
Cadê aquele jornaleiro aleijado?
O disfarce amplia,
pelo enigma,
a fonte do Poder.
O Poder disfarçado
é a polícia da nação.
Batman é o herói.
Ou seria Bruce Wayne, o milionário?
 
É tempo de cinco sentidos
num só.  O espião janta conosco.

 

 

EXPEDICIONÁRIO


Alto e magro, franzino,
é o primeiro herói mulato
da cidade.
 
Seu corpo repousa
no Cemitério de Pistóia
- disse o Prefeito.

Respondeu a voz além-túmulo:
Por mais terras que eu percorra,
não permita, Deus, que eu morra.

 

HOMEM & MULHER BALA

Quem disse que os objetos
são a extensão do corpo
disse mentira.
A verdade é que o objeto,
depois de inventado,
domina por si,
e o corpo humano
apenas é uma metáfora do objeto
- ridícula metáfora.
 

Silviano Santiago.  Crescendo durante a guerra numa província ultramarina. RJ: Francisco Alves, 1978.


quarta-feira, 21 de março de 2012

JACQUES PRÉVERT

Prévert por Robert Doisneau em 1955

3 POEMAS


O GATO E O PÁSSARO
Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
O gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não para de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.


LE CHAT ET L'OISEAU
Un village écoute désolé
Le chant d'un oiseau blessé
C'est le seul oiseau du village
Et c'est le seul chat du village
Qui l'a à moitié dévoré
Et l'oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l'oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l'oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n'arrête pas de pleurer
Si j'avais su que cela te fasse tant de peine,
Lui dit le chat,
Je l'aurais mangé tout entier
Et puis j'aurais raconté
Que je l'avais vu s'envoler
S'envoler jusqu'au bout du monde
Là-bas où c'est tellement loin
Que jamais on n'en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets.

Il ne faut jamais faire les choses à moitié.


BATISMO DE AR
Essa rua
outrora chamada de rua do Luxemburgo
por causa do jardim
Hoje é chamada de rua Guynemer
por causa de um aviador morto na guerra
No entanto
essa rua
é a mesma de sempre
o jardim é sempre o mesmo
é sempre o de Luxemburgo
Com alamedas... estátuas... fontes
Com árvores
árvores vivas
Com pássaros
pássaros vivos
Com crianças
todas as crianças vivas
Então a gente pergunta
a gente pergunta pra valer
por que um aviador morto foi ali meter o bedelho.


LE BAPTÊME DE L'AIR
Cette rue
autrefois on l'appelait la rue du Luxembourg
à cause du jardin
Aujourd'hui on l'appelle la rue Guynemer
à cause d'un aviateur mort à la guerre
Pourtant
cette rue
c'est toujours la même rue
c'est toujours le même jardin
c'est toujours le Luxembourg
Avec les terrasses... les statues... les bassins
Avec les arbres
les arbres vivants
Avec les oiseaux
les oiseaux vivants
Avec les enfants
tous les enfants vivants
Alors on se demande
on se demande vraiment
ce qu'un aviateur mort vient foutre là-dedans

A FELICIDADE DE UNS
Peixes amigos amados
Amantes dos que foram pescados em tamanha quantidade
Vocês assistiram a essa calamidade
A esta coisa horrível
A esta coisa terrível
A este tremor de terra
A pesca milagrosa
Peixes amigos amados
Amantes dos que foram pescados em tamanha quantidade
Dos que foram pescados cozidos comidos
Peixes... peixes... peixes...
Como vocês devem ter rido
No dia da crucificação.


LE BONHEUR DES UNS
Poissons amis aimés
Amant de ceux qui furent pêchés en si grande quantité
Vous avez assisté à cette calamite
A cette chose horrible
A cette chose affreuse
A ce tremblement de terre
La pêche miraculeuse
Poisons amis aimés
Amants de ceux qui furent pêchés en si grande quantité
De ceux qui furent pêchés éboulillantés mangés
Poissons... poissons... poissons...
Comme vous avez dû rire
Le jour de la crucifixion.

                                                Traduções de Silviano Santiago


            Além do encanto próprio da poesia de Prévert (1900-1977), a estratégia adotada por Silviano Santiago para sua tradução adiciona-lhe mais um: a aproximação dessa dicção poética com a dos nossos modernistas de 20/30.  Deixo Silviano falar na introdução que escreveu para a antologia de Prévert organizada e traduzida por ele:

            “Acreditamos que – de modo geral – a sua dicção se assemelha à dos bons poetas brasileiros escrevendo nos anos 30. Poetas estes que já se encontram desvinculados da linguagem agressiva da vanguarda dos anos 20, mas daqueles anos guardando ainda a simplicidade coloquial na escolha do vocabulário e nas construções sintáticas, perpassando também o coloquial com a alta voltagem do humor e até da piada.  Foi a partir de ‘modelos’ como Manuel Bandeira, Carlos Drummond e Murilo Mendes que procuramos transpor os versos de Prévert para o português.
            (...)
            Coube ao tradutor não impor ao texto a ser traduzido uma dicção poética esclarecedora do poema, mas buscar no repertório das dicções possíveis na sua literatura nacional um equivalente que fosse justo.  Coube ao tradutor domar primeiro o equivalente, ou seja, a dicção poética escolhida como justa, para só depois efetuar o trabalho de tradução.
            Nesse sentido, este tradutor é um exegeta de asas curtas, certamente um duplo plagiador.  Plagia o texto a ser traduzido e plagia os poetas nacionais que selecionou como modelos de dicção.”

In: Jacques Prévert: poemas.  Nova Fronteira, 1985.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

POETAS REAGEM CONTRA A BANALIZAÇÃO

          Os poetas mandaram ver!  Frederico Barbosa lançou pelo Facebook seu Manifesto Anti-M.E.R.D.A. (Mercado Editorial Reprodutor de Asneiras)https://www.facebook.com/messages/?action=read&tid=ZvsIxrLKCUUuQh51YzWlpQ#!/notes/frederico-barbosa/manifesto-anti-merda-mercado-editorial-reprodutor-de-asneiras/232999056752440 que  em seguida  Claudio Willer repercutiu e reforçou, pondo também a boca no trombone no texto “Da flipização à bienalização” http://claudiowiller.wordpress.com/2011/09/13/da-flipizacao-a-bienalizacao/.

        
         Concordo com o diagnóstico da situação descrita em ambos os textos, por isso dou curso a eles aqui.      Não se trata, claro, de ser contra a FLIP ou a Bienal do Livro ou outros eventos do gênero.  A questão é que eventos desse tipo acabam reféns da mídia, no pior sentido da expressão: numa mídia cada dia mais destituída de senso crítico, num jornalismo “cultural” indigente que apenas faz juntar os releases das editoras a tiradinhas de falsamente insolente humor juvenil, nessa falsa disputa entre mariscos impróprios para consumo,  o mar,  não do lucro mas da glorificação do lucro pelo lucro, faz a festa e leva a parte do leão.  Livros como sabonetes, entrevistas como kits de maquiagem, escritores  como “artistas da TV”, críticos vistos como se fossem  laranjas, suspeitos de estar a serviço de alguma indesejável inteligência.
         O insuspeito José Miguel Wisnik chamou a esse processo num texto recente de “Jô-soarização da cultura” (pode ser lido aqui: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/07/antonio-e-joao-jose-miguel-wisnik.html).

          Remeto o leitor a seu texto, mas acho bom destacar nele o seguinte: “O ponto a que me refiro é a tentação de opor automaticamente performances capazes de entreter o público a performances tidas como excessivamente intelectualistas e acadêmicas. Em primeiro lugar, esse é um falso problema quando supõe que a atenção do público seja necessariamente oposta à reflexão. Não é isso que se vê de uma maneira geral. Em segundo lugar, a diferença entre entretenimento e crítica tem que ser afirmada contra a tendência, também existente, à conversão do mundo num talk-show generalizado — no limite extremo, numa espécie de compulsória jô-soarização da cultura.”


           Quando digo que Wisnik é insuspeito é justo porque em primeiro lugar se trata de um intelectual (palavra que soa estranhamente anacrônica hoje, não?) que circula com bastante desenvoltura por esses espaços (midiático e acadêmico)  que a estupidificação em curso timbra em ver como excludentes no mesmo  movimento em que timbra por fazer crer que não o sejam (desde que, “ao fim do processo”, a palma da vitória fique com o midiático).  Ou seja: Wisnik não teme o midiático.  Mas isso é só meia verdade: Wisnik não o  teme porque sua substância vem do “outro lado”, seu pensamento profundo e percuciente se alimentou e se alimenta do melhor leite da alta cultura.  Ao lado de Antonio Cicero, outro insuspeito (que aliás, não fez carreira no meio acadêmico), Wisnik tem produzido ao longo dos últimos anos muito da melhor reflexão sobre a cultura brasileira e sobre o patamar mundial dessas discussões  vistas desde o  Brasil.  O que vale também para Cícero, o excelente letrista de Lulu Santos e de Marina Lima e autor do que é para o meu gosto pessoal (“não precisa ninguém me acompanhar”)  o melhor livro de poemas da década até aqui, o excepcional A cidade e os livros, sem falar  das amplas e profundas reflexões de Finalidades sem fim.   E citei entre aspas e parêntesis ali em cima o Caetano Veloso de “Jeito de corpo” não à toa.  Matriz brasileira da melhor obra e reflexão sobre o embate alta cultura/mercado/mídia, o insuspeito sempre suspeito Caetano leva-nos muitas vezes à exasperação com sua perturbadora capacidade  de saber distinguir o joio do trigo e optar consciente e estrategicamente  muitas vezes pelo “lixo”  do joio.
                Queria só ajuntar essas observaçõezinhas mesmo descosidas em reforço ao estágio atual da discussão tal como ela se coloca nesses textos.  Queria apenas que os que aqui me leem, especialmente meus alunos e ex-alunos (ai, esse ofício de professor...) parassem para refletir um pouco sobre todo esse processo perverso que busca converter o mundo da inteligência num vasto painel de tolas celebridades, em que os livros não são mais discutidos pelo que eles trazem (se é que em algum momento no Brasil o foram), mas pelo que eles vendem, em que as referências vão sendo perdidas e vão se dissipando e se diluindo em contato com a maré tsunâmica da indiferença e da indiferenciação conceitual que nos varre.
                Está na hora, por fim, de dar mais atenção aos que antigamente Umberto Eco chamava de “apocalípticos”, opondo-os aos “integrados” (por mais que essas categorias tenham sido elas mesmas justamente problematizadas).  Um pouco de má-vontade (pra começar) contra a alarmante banalização pode ser reforçada nesse momento pela leitura estimulante – mesmo pelas discordâncias e incompreensões que venham a suscitar – dos que há muito não apenas esbravejam, mas estimulam as discordâncias (inclusive quanto à própria matéria literária e teórica),  de Alcir Pécora a Flora Süssekind, de Costa Lima a Silviano Santiago, para ficar apenas na prata da casa.   Com o recurso hoje muito franqueado a se fazer ouvir e ler, pode ser que o intelectual – no sentido que essa palavra tinha no século XIX, de intervenção na vida pública – possa redefinir o seu papel, para além da quase total invisibilidade atual que o acomete.


quarta-feira, 16 de março de 2011

SILVIANO SANTIAGO


Você se lembra, tesão meu,
naquela suave manhã de verão,
o doce sol
esquentava o orvalho
das plantas
destruindo as gotas brilhantes
pelo perfume que exalavam,
você não se esqueceu,
ou já se esqueceu?
tesouro meu,
do objeto que de repente
vimos no meio do caminho:
a carniça de um corpo
de mulher.  Você se lembra,
deitada na cama semeada
de farpas, pedrinhas e formigas,
ela, com as pernas pro alto
qual puta velha,
era cozida ao ponto
pelo doce sol de verão
e espalhava pelos ares
o úmido veneno
das entranhas. *

* homenagem a Charles Baudelaire e a Carlos Drummond de Andrade

                                                                   
                                                                       In: Cheiro forte.  Rocco, 1995