Mostrando postagens com marcador Talarico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Talarico. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de julho de 2015

OLIVERIO GIRONDO

                                                                             Oliverio Girondo (1891-1967)



QUE OS RUÍDOS TE PERFUREM OS DENTES

Que os ruídos te perfurem os dentes,
como uma broca de dentista,
e a memória te encha de ferrugem,
de odores descompostos e de palavras rotas.
Que cresça em cada um dos teus poros,
uma pata de aranha;
que só possas alimentar-te de baralhos usados
e que o sonho te reduza, como uma plaina,
à espessura de teu retrato.
Que ao sair à rua,
até os faróis te botem pra correr;
que um fanatismo irresistível te obrigue a ajoelhar
em frente às latas de lixo
e que todos os habitantes da cidade
te confundam com um poste.
Que quando queiras dizer: “Meu amor”,
digas: “Peixe frito”;
que tuas mãos tentem estrangular-te a cada instante,
e em vez de jogar fora o cigarro,
sejas tu que te atires nas escarradeiras.
Que tua mulher te traia até com bujões.
que ao deitar-se junto a ti,
se metarmofoseie em sanguessuga,
e que depois de parir um corvo,
ilumine uma chave inglesa.
Que tua família se divirta em deformar teu esqueleto,
para que os espelhos, ao te olharem,
suicidem de repugnância;
que teu único entretenimento consista em ficar
na sala de espera dos dentistas,
disfarçado de crocodilo,
e que te apaixones, tão loucamente,
por uma caixa de ferro,
que não possas deixar, nem por um instante,
de lamber-lhe a fechadura.

                                           Olivério Girondo, tradução de Fred Girauta.
 
 
Ilustração de Talarico
 
 
 
Que los ruidos te perforen los dientes,
como una lima de dentista,
y la memoria se te llene de herrumbre,
de olores descompuestos y de palabras rotas.
Que te crezca, en cada uno de los poros,
una pata de araña;
que sólo puedas alimentarte de barajas usadas
y que el sueño te reduzca, como una aplanadora,
al espesor de tu retrato.
Que al salir a la calle,
hasta los faroles te corran a patadas;
que un fanatismo irresistible te obligue a posternarte
ante los tachos de basura
y que todos los habitantes de la ciudad
te confundan con un madero.
Que cuando quieras decir: “Mi amor”,
digas: “Pescado frito”;
que tus manos intenten estrangularte a cada rato,
y que en vez de tirar el cigarrillo,
seas tú el que te arrojes en las salivaderas.
Que tu mujer te engañe hasta con los buzones;
que al acostarse junto a ti,
se metamorfosee en sanguijuela,
y que después de parir un cuervo,
alumbre una llave inglesa.
Que tu familia se divierta en deformarte el esqueleto,
para que los espejos, al mirarte, s
e suiciden de repugnancia;
que tu único entretenimiento
consista en instalarte en la sala de espera
de los dentistas, disfrazado de cocodrilo,
y que te enamores, tan locamente,
de una caja de hierro,
que no puedas dejar, ni por un solo instante,
de lamerle la cerradura.
                                                   Oliverio Girondo. Obra. Editorial Losada. Buenos Aires. 1968

 

sábado, 27 de junho de 2015

MÁRIO DE ANDRADE


Ilustração de Talarico


CANTO DO MAL DE AMOR

       (1924)

Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor.
Senti que vinha... Seus braços
Era fatal me chamavam,
Parti... Cheio de vontade
E já não tenho vontade,
Percorro a noite, percorro
A noite com mal de amor...

É tarde já... Zero grau.
Hesito mais, indeciso...
Meus irmãos desaparecem
Nos corredores com luz
Donde saltam na calçada
Muitos palhaços de riso,
Até rio... Vaia o jazz.
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo. A frase não pára
No meio: com mal-de-amor.

Ironia do contraste,
Militares linhas retas,
Praças claustros seculares
Nunca amaste! nunca amaste!
Névoa filha-de-Maria,
Névoa fria... vida fria...

Não vale a pena ficar
Torturando a minha carne
Com o cilício da esperança,
Arrasto gozos perdidos,
Vim buscar os corredores
Os corredores com luz,
E o eco desses braços nus
Resvalando no céu baixo,
Atordoando os meus ouvidos,
Corro cambaleio azoinam
Meu corpo corpos rangentes,
Estalidos de desejos,
Beijos, ecos estridentes
De braços nus me chamando,
Eu quero! eu quero... Seus braços
Teus abraços boca pele
Seios olhos seios dentes
Corro. O eco explode já perto
Muito, perto muito, forte,
Vejo perfume de fome
Muito forte, muito perto,
Agora... Ela me abre os braços
Viro a esquina, estendo os braços,
Meus abraços nos espaços.
Rua reta, rua reta,
Rua reta, que deserto!...
Os lampiões bem regulares
Com um só olho. São ciclopes.
São eunucos dum harém,
Odalisca, o lampeão pisca,
Não tem mais nada niguém...

O sino cai sobre mim.

São três horas já.... Percorro
A noite com mal de amor...
Pedaços de minha carne
Pelos punhais das esquinas
Vão ficando, vou caminho
Sigo... amor... Sei que não morro,
Vou sigo caminho... é tarde...
É mais adiante! Na esquina!...
Já sei que não é... Aquela
Janela sempre acordada,
É uma puta me chamando,
Dez milréis, mercadoria,
Alfândega, porto de Santos
Oceano atlântico, grande
Mar monótono monótono,
As ondas que vão e vêm,
Os cadáveres nos naufrágios
Serão jogados na areia...
E há praias muito bonitas
Com palmeiras guaranis...
As invenções de Alencar
Ficaram muito inferiores
A esses oásis das praias
Tão verdes, tão verdes, tão,
Tão horrível solidão!...
E o mar ondula e desmaia,
Depois me empurra é fatal
O mar me empurra pra areia
Sou atirado na praia
Das palmeiras, minha rua...
Minha rua das Palmeiras...
Vou sigo caminho.... Longe
Meu quarto... quarto vazio...

Um vago marulhar de ondas
Sai dos meus ouvidos... O eco
Morreu. Um marulhar de ondas...

A miragem se dispersa.

Os braços nem chamam mais...
Sangue da aurora... O padeiro
Passou.
            Última esquina.
                                     Perto
O olho frio do meu quarto...
Nem não tenho carne mais...
Carne mais... Sigo. Caminho...
Destroços de ossos batendo...

Triste triste do andarilho
Carregando para o quarto
Os lábios secos. Inúteis...

 




                   Mário de Andrade. Poesias completas. 4 ed. SP: Martins, 1974.

 

terça-feira, 5 de maio de 2015

PAUL VERLAINE

Ilustração de Talarico


A VOZ DOS BOTEQUINS

 

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
Os plátanos largando no ar as folhas pretas,
O ônibus, furacão de ferragens e lodo,
Que entre as rodas se empina e desengonça todo,
Lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
Cachimbos sob o olhar de agentes da polícia,
Paredes e beirais transpirando imundícia,
A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
Eis meu caminho – mas no fim há um paraíso.

 

                                      Tradução de Guilherme de Almeida

 

LE BRUIT DES CABARETS, LA FANGE DES TROTTOIRS...
 

Le bruit des cabarets, la fange des trottoirs,
Les platanes déchus s'effeuillant dans l'air noir,
L'omnibus, ouragan de ferraille et de boues,
Qui grince, mal assis entre ses quatre roues,
Et roule ses yeux verts et rouges lentement,
Les ouvriers allant au club, tout en fumant
Leur brûle-gueule au nez des agents de police,
Toits qui dégouttent, murs suintants, pavé qui glisse,
Bitume défoncé, ruisseaux comblant l'égout,
Voilà ma route - avec le paradis au bout.

 

 

                            Verlaine.  A voz dos botequins e outros poemas. Tradução de Guilherme de Almeida. São Paulo : Hedra, 2009.



Verlaine

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AH, DOIS SONETOS... E O SÉCULO XVIII
















Observação inicial: o título desta postagem estava errado.  Agora foi feita a correção. Embora o século 18 seja central aqui, como ideário, a nortear os comentários a respeito dos dois sonetos, o do Parnasse Satyrique é do século 17, conforme se lerá ao final. Por isso mesmo, penso ser  fundamental proceder à correção. 

Ping...


... DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA


Não vês, Lise, brincar esse menino
Com aquela avezinha?  Estende o braço;
Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
A condena outra vez ao seu destino?


Nessa mesma figura, eu imagino,
Tens minha liberdade; pois ao passo,
Que cuido, que estou livre do embaraço,
Então me prende mais meu desatino.


Em um contínuo giro o pensamento
Tanto a precipitar-me  se encaminha,
Que não vejo onde pare o meu tormento.


Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Se me faltasse a mim o entendimento,
Como falta a razão a esta avezinha.


                                        Pong..!
                            

                            do PARNASSE SATYRIQUE

                            Amo flagrar nos bosques a aventura
                            da traseira a pastora ao pastor dando
                            tanto e tão bem que o gozo culminando
                            desmaiam mortos ambos na natura


                            amo dos campos ver não a pintura
                            mas um carneiro à fêmea então carcando
                            mesmo o bode que à cabra enfim montando
                            não lembra mais de prado e de verdura

                            amo ver na campina todo o empenho
                            da vaca sob touro tão ferrenho
                            que a vararia e em duas se pudesse


                            foder é a nossos olhos primavera
                            tão vária que se nada mais fodesse
                            campina campo e tudo mais já era
                       
(soneto do século 17 do Parnasse Satyrique, anônimo, traduzido por Marcelo Diniz)


J’ayme dedans un bois à trouver d’aventure,
Dessus une bergère un berger culetant,
Qu’il attaque si bien et l’escarmouche tant,
Qu’ils meurent à la fin au combat de nature.


     J’ayme voir dans les champs non la belle peinture,
     Mais un bélier cornu sa femmelle foutant
     Et le bouc éschauffé sur la sienne montant
     Par un si doux plaisir oublier sa pasture.
 


J’ayme voir sur un pré à un pareil effort
Le taureauqui se joint à la vache si fort,
Qu’il voudroit s’il pouvoit la percer d’outre en outre.

     Le foutre est à nos yeux un printemps diapré,
     Au coeur un paradis, mais si je ne vois foutre
     Je n’ayme point ny champs, ny campagnes, ny pré.












            Pensei em dar a  esta postagem o título de algo como “Viva o século 18!”.  Mas aí resolvi inseri-la na série “Ah, sonetos...” Seja como for,  o espírito dela  é mesmo de celebração do glorioso século quando se completou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, que nos deixou de herança o que de melhor se poderia ter feito da modernidade, com a separação das esferas do saber e o fim das crenças na “magia do Universo” ou coisa que o valha.  Se tanto se desvirtuou de seu legado, talvez possamos culpar de saída a moralidade burguesa que se estabeleceu pelo século seguinte e, que óbvio, é parte do mesmo legado.  Pois na verdade o soneto do Parnasse Satyrique, prenuncia com um século de antecedência o caráter libertário e libertador do ideário iluminista.  Ele se entronca numa tradição genealógica que vem subterrânea desde os gregos e passa por Rabelais, Ronsard, tanto outros.  No século 18 continua subterrânea, certo, mas o veio é muito forte (lembremos do português Bocage e o círculo neoclássico português).  Seja como for, aprendeu muito o homem no século 18, sobretudo por retomar a antiga lição racionalista grega ao observar as relações existentes no mundo natural e, em esforços especulativos, deslindar,  por rebatimentos e contrastes, natureza e cultura.  E quanto a aprendizados:  Cláudio Manuel da Costa, um dos nossos inconfidentes de Minas, aprende algo da vivência amorosa – em especial o sofrimento –  ao ver a perversidade mesmo que – ou justo porque – carinhosa da criança que brinca de aprisionar e libertar uma pobre avezinha. Lições de amor, agora em linguagem, digamos, menos decorosa, (que se manteria debaixo do tacão censório pelos tempos afora) é o que também está no poema anônimo francês traduzido por Marcelo Diniz, em que a primavera desperta o cio por toda parte - e ai se não despertasse!  A relação interior natureza/subjetividade, em tonalidade pré-romântica desponta neste deliciosamente obsceno soneto seiscentista (em tradução de cunho emulatório de Diniz,  que parece mesmo superar o original), tanto quanto os dilemas de fundo cultista entre razão e desrazão estão no de Cláudio Manuel.  Lógico que se sempre se poderá argumentar  qualquer coisa a favor do século 18 – e mesmo contra, que neste mundo nada é mesmo simples – mas convém não esquecer que a tônica aqui vai sobretudo para o sortilégio (palavra tão pouco iluminista!) verbal próprio de poesia tão boa – incluindo, claro, a excelência da tradução.

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A ÚLTIMA DO ANO; EXPLORANDO AMIGOS

  
     Como acontece com certa freqüência, e é ótimo que assim seja, ao entrar numa espécie de transe tradutório que o acomete de tempos em tempos, o poeta professor  e amigo Marcelo Diniz costuma me conceder o privilégio de conhecer em primeira mão muito daquilo que vai traduzindo, seja via telefone, internet ou mesmo pessoalmente.  Desta vez, aproveitei oportunisticamente o fato de ele me enviar alguns sonetos e epigramas, nos quais anda trabalhando, de uma coletânea de poesia satírica do século XVII francês, para elaborar – com pouco esforço de minha parte  e com muito talento alheio, considerando que juntei ainda outro amigo explorado por mim, conforme se verá – a última postagem do ano.  Achei que valia a pena lançar mão de um epigrama dos que Marcelo me enviava, que afinal fala da assinatura ausente, anônima e irreconhecível - e que pouco importa, no fundo,  para o gozo da poesia.  Bom para lembrar que se fecha um  ano e se reabre outro.  Fechar e abrir de olhos, enquanto ao menos assim for.  
      Passo a palavra ao profeçor  Marcelo, para que ele mesmo explique as circunstâncias do pedido e do que se trata:

 “A pedido de meu querido Proffezzor Bozzetti, partilho com os amigos um epigrama de um estudo recente e divertido. Ele foi colhido no Le parnasse satyrique, minha leitura de férias, entre o prazer e o compromisso. Trata-se de um recolho de textos libertinos e satíricos publicado em Paris pela primeira vez em 1622. Théophile Viau (1590-1626) é quem organiza esta edição contendo 166 peças (sonetos, odes, epigramas, epitáfios), todos anônimos. Esta edição ficou notória por motivar debates teológicos quando à natureza do riso. Vemos no epigrama certa risoterapia que decerto afirma a metafísica carnavalesca e satírica da medicina rabelaiseana."
 
     Em seguida, ele envia generosamente o link para acesso aos originais.  Veja-se aqui, como ele diz, "le pdf du Parnasse":
    


     E aqui a sua tradução e o original:

  

EPIGRAMA
 

o riso amigo da saúde

dos mortais sabedoria

eu curti sempre que pude

pois desopila e alivia

o poeta cuja poesia

nos faz rir se divertindo

anônimo todavia

aqui libo bebo e brindo

 

épigramme

 
le ris compaignon de santé

est propre à la race mortelle

j’ay souvent expérimenté

qu’il fait grand bien à la ratelle

ce poëte n’est pas sans cervelle

qui nous fait rire en esbatant

je ne sait pas comme il s’apelle

mais je vait boire à luy autant

 

     Então reforço os votos do Marcelo, o qual acrescenta em seu bilhete que 
 
 “Faço do pedido de meu querido Proffezzor a oportunidade de meus votos que, em dois mil e       quinze, o riso nos salve de novo na prova dos nove!”

 E considerando por fim que resolvi explorar mesmo os amigos nesta mensagem  final,  pedi o arremate do arremate ao Talarico, que compareceu presto e mandou esta graça aí
 
 


                                                   Bom 2015 pra nós todos!

                                                                       

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

DECEPTIVO

Ilustração de Talarico
 

DECEPTIVO

Depois de alguns dias ao acordar
falta – e não ao lado –
 o corpo amado
o corpo que você mesmo
– há alguns dias é que notou 

carregava


2

Recolhe pela cama
pelo quarto os despojos
que reconhece mal
ao achegar-se  à porta
a manhã se esfumou, a tarde é prenúncio
 
para a retórica pastosa e fétida
            existe o dentifrício

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA seis vezes

Ilustração de Talarico


1.

certas coisas é melhor olhar de longe
ver pela janela distante
ver pelo semáforo com pressa
ver pela fresta fria da noite
ver pelo meio no  lusco-fusco
ver sem ver, fazer que ver
 

2.

ver pela televisão o resto do mundo
ver nas vitrines o resto das coisas
ver nos cabides das lojas
o resto das roupas
ver o corpo frio do filho

 
3.

viu o fiapo da teia
e na ponta o inseto
lutando para viver
o corpo emaranhado
quanto mais preso
mais se debatia

pensou um salvar o bicho
lidou com o fio pegajoso
e o animal caiu
mas não voou
já estava dentro da morte
e não sabia

 
4.

saiu cedo para a missa
todo mundo dormia, só viu cães
farejando esquinas de casas
pardais em bandos e outros pássaros
festejando juntos aquele dia de Natal

 
5.

esperou que a dor parasse
quieto num canto
ninando o membro roto
esperou que o vissem gemer na noite
que o ouvissem morrer na noite
 

 
6.

como via um gato
miar de fome
se definhar
virar pelo e osso
Deus devia de vê-lo


Vera Lúcia de Oliveira.  O músculo amargo do mundo.  SP: Escrituras, 2014.

 
 
 


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

AH, UM SONETO... DE AUGUSTO DOS ANJOS


ASA DE CORVO

 

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro, que nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!

 

In:  Augusto dos Anjos. Toda a poesia.  RJ: Paz e Terra, 1978.

 
 
 

domingo, 21 de setembro de 2014

MARCELO REIS DE MELLO DUAS VEZES


BREVE DISCURSO EM DEFESA DA INDECÊNCIA

 
nem no monástico silêncio dos cegos, nem no escuro
sonoro dos surdos
há mundos tão mudos
ou palavras tão plenas
                 de nada
e vazias
      de sentido
como na língua lânguida & engalanada
                          desses eruditozinhos
de beira de estrada
                 [com sua voz sisuda
e semi-tonada
pros nossos ouvidos-palatos
                    de alfa anal fabetos
ex-
pulsos
como flátulos
do paraíso
poético

apenas porque o nosso corpo é mais proteico
                                       do que o nosso espírito
 
            ou seria porque o nosso falo famélico
fecunda mais fêmeas que a sua filistéica fala?

declaram que não sabemos
sânscrito nem lingala,
nem grego antigo nem alemão, vociferam
                           que a métrica
é mais importante que
o nosso tesão e

o dark, dark, dark. they all go into the dark.
até a joana dark
até o clark kent
até descartes
até a pop art é mais cult, oh my heart!
 
mas
um prepúcio vale mais que um precipício
um boquete vale mais do que um bouquet
mais valem duas vulvas voando que um verso na mão
uma suruba vale mais que mil palavras
e um poema, no mais das vezes
não vale nada

pois, senhores, o que gritamos é a vida
e não a regra
            ; nem a que se escreve
nem a que se caga.
                    - as palavras, senhores
são águias rapinas
          não trinos da moda;
                                  e as rimas,
               [mesmo as pobres, oh camões!
                           são ricas
quando cantadas com a ponta
                 da pica,
                na cadência bonita da
foda.

 

In: Esculpir a luz. RJ: Cozinha Experimental, 2010.




DEUS EX MACHINA

Boquinhas fechadas. Pálidas.
Dentro, a escavação. Os escombros.
Porque a boca é o sótão do corpo.
E o que uma boca tem de mítico
tem de ridículo. Não cabe nenhuma boca
dentro de uma manga. Não há caroços
brancos nos dentes. Os dentes são
estalagmites e estalactites. A boca
é sempre cavernosa. Os dentes são morcegos.
A boca é notívaga. A boca parece um rato
com asas. Numa boca cabe
uma porção de terra.
O caixão é pequeno, é um caixão
de anões. Há muitas
bocas numa morte pequena.
Uma boca é uma grande cova
sem mistério. É onde se enterra
o silêncio. É onde se pesca o silêncio.
É onde o mau hálito, é onde
as obturações, é onde os vermes.
Dentro, a escavação. Há muita coisa
lá dentro, mas nenhuma imagem.
As boquinhas fechadas dormem
sem sonhar. Bocejos
são seres fantásticos e contagiosos,
mas o bruxismo gasta os caninos
de madrugada e os cisos doem
quando inflamam.
A boca é uma máquina ruim.
 
Poema inédito de Elefantes dentro de um sussurro (no prelo)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CLÁUDIA ROQUETTE-PINTO



ALMA CORSÁRIA
 

De tanto sono me baixa uma lucidez estranha
em que a amendoeira pousa, luminosa, rara,
sob o fundo escuro da noite meio baça
(cilíndrica, roliça, bizarra)
seu vulto verde acocorado sobre a água
da piscina que não tem um pensamento.

Eu sinto inveja dessas águas anuladas
tão plácidas, idênticas ao próprio contorno
enquanto eu mesma nem sei onde começo,
quando acabo
e sofro o assédio de tudo o que me toca.

O mundo ora me engole, ora me vara
e tudo o que aproxima me desterra.
Chorei, ao ver no chão da cela,
o botão arrancado na contenda,
os óculos pisados do escritor judeu.

Tenho um coração que estala
com o peteleco das palavras de Clarice.
Numa vila miserável na Bahia,
um negro lindo, lindo,
dança ao som do corisco
_ e só me apaixono por casos perdidos,
homens com um quê de irremediável.

Mais de uma vez, imóvel, circunspecta,
vi abrir-se a máquina do mundo
sob a luz inclinada de Ipanema,
na Serra da Bocaina, no meio da floresta,
no alto da escada no topo do morro
por onde a moça seqüestrada vinha subindo
debaixo das lágrimas do pai.

Mais de uma vez meu coração trincou feito vidro
diante da página impressa,
e sempre que a palavra justa vem tirar seu mel
de dentro da copa do desespero de amor.
Acredito, do fundo das minhas células,
que uma amizade sincera "é o único modo de sair da solidão
que um espírito tem no corpo".
Sim, eu acredito no corpo.

Por tudo isso é que eu me perco
em coisas que, nos outros,
são migalhas.
Por isso navego, sóbria, de olho seco,
as madrugadas.
Por isso ando pisando em brasas
até sobre as folhas de relva,
na trilha mais incerta e mais sozinha.

Mas se me perguntarem o que é um poeta
(Eu daria tudo o que era meu por nada),
eu digo.
O poeta é uma deformidade.

 

In: Ciranda da poesia.  Cláudia Roquette-Pinto por Paulo Henriques Britto.  EdUERJ, 2010.



domingo, 6 de julho de 2014

GOTTFRIED BENN



A BELA JUVENTUDE

 

A boca da moça que longo tempo jazera em meio aos juncos estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esôfago era só buracos.
Acabaram achando numa arcada abaixo do diafragma
um ninho de ratos novos.
Uma das ratinhas morrera.
Seus irmãos viviam do fígado e dos rins;
bebiam sangue frio e tinham
passado ali uma bela juventude.
E bela e pronta foi também a morte deles:
jogaram-nos todos na água.
Ah, como os focinhozinhos guinchavam!

 
                                               Tradução de José Paulo Paes


Ilustração de Talarico




SCHOENE JUGEND

 
Der Mund eines Mädchens, das lange im Schilf gelegen hatte,
sah so angeknabbert aus.
Als man die Brust aufbrach, was die Speisröhre so löcherig.
Schliebflich in einer Laube unter dem Zwerchfell
fand man ein Nest von jungen Ratten.
Ein kleines Schwesterchen lag tot.
Die andern lebten von Leber und Niere,
tranken das kalte Blut und hatten
hier eine schöne Jugend verblebt.
Und schön und schnell kam auch ihr Tod:
Man warf sie allesant ins Wasser.
Ach, wue die kleinen Schnauzen quietschten!
 
           

In: José Paulo Paes: Gaveta de tradutor.  Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1996.