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sexta-feira, 13 de março de 2015

AH, UM SONETO... DE TITE DE LEMOS


IRMANDADE


O meu irmão habita os pântanos e os bosques
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém.  Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,
dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos
e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa
passageira.  Seremos para sempre dois
− como o chá e o limão, a cocacola e o rum −
até que o acaso nos convide a ser só um




Tite de Lemos.  Marcas do Zorro.  Nova Fronteira, 1979.



          Convido o leitor ao outro soneto de Tite de Lemos nesta série.  http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2011/02/ah-um-soneto-vii.html










sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

AH, UM SONETO... (VII)


De TITE DE LEMOS















“Aulas (curso noturno) para musas:
não precisa experiência anterior:
fotografia, preto-e-branco ou cor.
Completaremos linhas inconclusas.

Transparentes serão feições escusas”
se eu puder ser teu Dante ou confessor,
romper-te de contentamento e dor,
presentear-te o amor que me recusas.

Verás teipes históricos de damas
que arqueiros de outras eras desarmaram.
Das Graças, Lola, Gala, Nova, Norma.

Depois, a sós, te amo e tu me amas,
gratos aos fatos que nos inspiraram
tão delicada e tão cruel performance.



                Não resisto a um breve comentário:  os sonetos de Tite de Lemos (1942-1989) são preciosos e me foi muito difícil escolher apenas um para postar aqui.  Optei por este por várias razões, entre elas a maravilhosa rima que o encerra “Norma/performance”.  Tão precisa e tão anti-parnasiana.
                Não resisto a outro: no filme Macunaíma, de Joaquim Pedro, a bela  voz do narrador em off é de Tite de Lemos.

                                          (in: Caderno de Sonetos. Nova Fronteira, 1988)