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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

M. CAVALCANTI PROENÇA, A AMIZADE E A MORTE DESEJÁVEL



      Esta postagem remete à postagem do dia 28 de dezembro de 2014, em especial ao que nela é  dito a respeito de M. (Manuel) Cavalcanti Proença.  Para quem quiser, linko a postagem aqui http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2014/12/militares-sergio-macaco-e-outros-dois.html

      Por ora apenas saúdo, ou mais que isso, festejo (quem ler a primeira postagem facilmente entenderá a razão) o que li em 3 Antônios e 1 Jobim recentemente.  Certo, o livro, assim como o documentário  que a ele se vincula, foi lançado há mais de 20 anos, em 1993, não sendo portanto uma novidade no mercado.  Para quem não sabe, tratou-se de uma reunião em fevereiro daquele ano  de Antônio Callado, Antonio Candido, Antônio Houaiss e Antônio Carlos Jobim.  Eu tinha  visto o filme  à época, agora ele circula na web (abaixo dou dois links que os leitores podem acessar; eu os acessei ainda hoje e neles está o filme completo).  O  livro, lançado ao mesmo tempo pela Relume-Dumará, uma espécie de transcrição do que foi filmado (mesmo o que não entrou na edição final), além de conter depoimentos individuais sob a forma de entrevista dos quatro Antônios, eu nem sabia que existia.  E ele guarda uma preciosidade que particularmente muito me gratificou, sobre Proença.  A cena ficou de fora da versão editada do filme, o que é pena.  É quando surge de repente nas palavras de Houaiss o nome de Proença, não por acaso no curso de uma conversa sobre as coisas brasileiras (quem leu o Roteiro de Macunaíma, do mestre Proença,  entende perfeitamente a conexão).  A fala  de Houaiss é imediatamente glosada por Antonio Candido,  e tudo o que se segue é uma delícia, de uma comovedora beleza que não resisto a transcrever aqui na íntegra.  Leia-se:

            “HOUAISS – Bem, eu queria contar uma história sobre o meu querido amigo Manuel Cavalcanti Proença.
            CANDIDO – Foi ele quem me disse a coisa mais bonita que já ouvi sobre a amizade... Certa vez José Aderaldo Castello organizou em São Paulo um curso sobre literatura e cangaço.  E eu fui ouvir a aula do Proença, mas tive que sair antes de terminar, por um trabalho a fazer...Passados dois dias encontro com ele e falo: ‘Proença, me desculpe, rapaz, você está dando aula há vários dias, eu só pude ir a uma;cheguei depois de começada, saí antes de terminar e além disso não te procurei...’ E ele me disse: ‘Não se preocupe.  Amizade boa é feito brasa embaixo da cinza, não precisa soprar, ela está sempre acesa.’
            HOUAISS – Um grande brasileiro. Eu o vi em 1964 no Clube Militar, indignado, coordenando uma reunião e se dirigindo aos militares como ‘seus gorilas’... e por aí afora... Foi uma admiração total. Era um conhecedor do Brasil como pouca gente.
            CANDIDO – Extraordinário conhecedor do Brasil e de literatura, um crítico de grande categoria, com uma capacidade analítica fora do comum.  O ensaio de interpretação crítica que ele lançou sobre Grande sertão: veredas logo após a publicação do romance é um monumento.  Manuel Cavalcanti Proença tinha um ouvido extraordinário para a prosa.
            HOUAISS – Tinha sim. 
            CANDIDO – Grande figura.  Quem o levou lá em casa foi o Francisco de Assis Barbosa.  Assim eu vim a conhecê-lo.  Ele tinha um jeito engraçado, de homem do interior. 
            HOUAISS – Você sabem que eu estava presente quando ele morreu?  Foi assim: Manuel estava no sofá, ao meu lado, com o braço estendido, conversando, e de repente ele tombou o rosto.  Supusemos que dormitava, tão tranqüila era a sua expressão.  E estava morto.
            CALLADO – Onde foi isso?
            HOUAISS – Nós estávamos numa casa, no Rio Comprido, entre familiares.  Foi uma das coisas mais pungentes que eu vivi... Ele estava literalmente morto e continuava sorrindo.  Não sofreu nada.
            CANDIDO – Que beleza de morte!
            HOUAISS – É a morte que a gente deseja.
            CANDIDO – É a morte que é desejável.

            HOUAISS -  Transitou de um papo para a morte sem nenhum escândalo para os companheiros. 

    (In: 3 Antônios e 1 Jobim: histórias de uma geração.  RJ: Relume-Dumará, 1993)




       Praticamente tudo o que é dito nessas poucas frases contém uma mistura generosa de dignidade, grandeza, sabedoria, tudo bem pesado entre a leveza da expressão e a gravidade do que é dito, mistura própria do brilho que emana de homens que foram grandes conversadores.  Mas além de tudo isso, chama-me ainda a atenção, pequeno detalhe, a afirmação  de Candido do “ouvido extraordinário para a prosa”, que ele  identifica no velho Manuel.    Em nossa atividade de professores de literatura quantas vezes recorremos a excessivas simplificações  - até porque os textos com que trabalhamos estão cheios delas, até porque é preciso mesmo muitas vezes ganhar tempo, até porque “ensinar literatura” ,  dependendo do ponto, não deixa de ser dobrar-se  de boa-fé a um logro com a só esperança de que aqueles  que "aprendem" descubram que é tudo infinitamente mais rico do que pensamos ensinar, até porque enfim... – e uma dessas simplificações é mostrar que uma das diferenças marcantes entre o verso e a prosa é que esta é guiada sobretudo pela semântica, pelo significado, ao passo que no verso  o som e o sentido tendem a se equilibrar.  É uma simplificação,  com fundo de verdade, claro, mas se levada às últimas conseqüências, ao pé da letra,  pode tornar surdo o leitor que não se abrir à sonoridade   que exigem obras em prosa do porte de Iracema, Os sertões, Macunaíma e Grande sertão: veredas, para ficarmos em alguns exemplos evidentes e  que mereceram a atenção analítica do mestre(assim como a áspera dicção “prosaica” dos versos de Augusto dos Anjos). 
         Pra encerrar, o dono deste blog sente-se um pouco mais confortado em se deparar com menção – de resto, hoje  tão rara... – a um autor  que preza tanto.  E aproveita para reiterar que, procurando uma fotografia na internet que patenteasse o caboclo de “jeito engraçado de homem do interior”, não encontrou uma só foto do velho Manuel.  Apenas fotografias de capas de algumas de suas obras, bem como retratos de seu filho Ivan, além de outros Proenças e nomes e assuntos conexos.  Mas fotografia não é tudo.  A obra de Proença fica.  Antônios sabem.
 Links para o documentário (acessados nesta data):


 





domingo, 3 de novembro de 2013

CIRCUNVAGANDO NAS BIOGRAFIAS


Não tinha lido a coluna de Caetano Veloso do domingo passado, o que fiz agora (pelo andar da carroça aqui no brejo, domingo que vem eu devo ler a de hoje), mas tem ali duas passagens dignas de nota, que comento e transcrevo:

  1. quanto ao interesse que o assunto “biografias”  despertou, diz Caetano, “pelo visto nas folhas e nas redes, o interesse é enorme, embora não pareça ser pelo que é discutível na questão, e sim pela oportunidade de agredir quem ganhou prestígio no Brasil, país que ainda precisamos tanto provar que não vale nada nem poderá nunca valer nada”.  Não querendo endossar tudo, uma vez que sou mais acometido do que Caetano por esse sentimento de que “nada dará certo no Brasil”,  mas há aqui carradas de razão, sendo alguma coisa que me chamou a atenção nos primeiros comentários dos poucos que fiz no Facebook : impressionante a massa acrítica de ódio despejado sobre essas figuras (em especial Caetano e parece que sabemos tacitamente por que), facilmente perceptível   na recusa em se discutir o que há de discutível em tudo aí (a começar pelo posicionamento inicial deles, artistas, em linhas gerais bem capenga).  Não é também o caso de se simplificar tanto, mas eu sou do clã do Tom Jobim, que dizia com todas as letras “brasileiro odeia o sucesso, por isso gosta do Garrincha e não gosta do Pelé.”
  2. Caetano, depois de ecoar Ana Maria Machado (que não li), escreve:  “que não ajamos como se a democracia tivesse que escolher entre a censura e a difamação. Será que o tom histérico da imprensa e a psicopatia coletiva das redes são a palavra final? Acho que Chico, Gil e eu não estarmos em posição confortável reafirma nosso histórico, ao invés de desmenti-lo. Eu desconfiaria se os três estivéssemos, ao mesmo tempo, tendo apoio unânime.”
Pois nessa última citação a estocada certeira, que atinge professores de história e de literatura preguiçosos (além de jornalistas, é claro) que ficam repetindo as baboseiras de sempre a respeito de “protesto”,  “resistência” e “heroísmo” dessa geração de artistas, negligenciando os aspectos (alguns muito profundos) que sempre houve de dissenso entre eles.  Parece que o sonho desse pessoal  simplista é deixar a palavra final ao simplista Belchior: “Nossos ídolos ainda são os mesmos etc e tal", a chorumela que todo mundo sabe... A simplificação excessiva faz tanto a reflexão histórica quanto a reflexão literária reféns  do jornalismo diário (que tem de lidar com a pressa mesmo e, por conseguinte, com  a simplificação).  Mas mesmo no jornalismo  há aqueles que não se submetem a isso – e alguns textos produzidos para a imprensa têm sido muito honestos  na tentativa de se entender o imbróglio, sem querer livrar a cara de nenhum “ídolo”  – e o imbróglio,  de resto, vai muito além de uma discussão circunscrita a eles. Mas, claro, não pode incluir a sério em nenhuma instância o que diz um Bolsonaro a respeito.

Que a “turma da MPB” nunca tenha sido um bloco unitário e coeso estudiosos sérios (de história, de música  e de literatura) já o demonstraram. Que essa ilusão tenha se perdido para sempre num certo réveillon em Copacabana e não se tenha prestado a devida atenção a isso, bom... lamente-se.  Não acho que se deva tratar a questão por um lado simplificadoramente esteticista, longe disso, mas da forma como tenho visto ser abordado tem alguma razão quem o fizer, ainda que apenas por tédio (eu mesmo tenho me acusado disso): e assim é porque  as obras deixadas por eles (tiro a média da turma) e a importância que elas têm para a discussão cultural brasileira  são superiores a suas circunstâncias históricas, ainda mais se ficarmos chafurdando nessa coisa menor da fofoca.   E afinal, as circunstâncias históricas que alimentaram essas mesmas obras foram em geral tratadas nelas com admirável competência, poder de provocação e profundidade.  Além de terem estado longe de ser recebidas, tais obras,  – convém não esquecer que são mais de 40 anos de estrada – com aplausos unânimes em nenhum momento.
Em resumo, ainda que apenas vadio e em nível de mero pitaco (que, aliás, acabo de descobrir, não é uma palavra dicionarizada): um esteticismo domingueiro – e no entanto produtivo, estou aqui às voltas com um texto de mais fôlego – me obriga deixar claro que amo todos que citei, mesmo implicitamente, acima: e reafirmar que amo muito Tom e igualmente Pelé e Garrincha.  Mas Belchior, menos.  E Paulinho da Viola, mais que todos.




P.S: Não, uma foto incluindo Paulinho da Viola não pode ser tomada como equívoco ou relaxamento de minha parte: ele não é o J. Pinto Fernandes da história.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

70 ANOS EM 2012 É O MÁXIMO




não, eu não vi ainda o filme de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim
certamente o verei.  se eu tivesse 20 e poucos anos já o teria visto
porque não me desculparia que ele estivesse em cartaz há alguns dias
e eu ignorante dele.
(é bom nos desfazermos das urgências que não o são.
mas me recuso a falar como um velho).

25 de janeiro: aniversário de Tom Jobim, que era de 1927

é tanta informação e informação acumulada , além de falsa informação, de des-
-informação, que me sinto obrigado a anotar uma que é fundamental
pro que eu pretendo rabiscar aqui
– reeditando a tentativa canhestra de imitar a prosa de Augusto de Campos –:
não sei se todos sabem
sei que muitos dos que me lêem são muito novos
mas saibam com urgência que
Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto são a bossa nova.
informação fundamental

19 de janeiro: Nara Leão teria feito 70 anos

a mais charmosa e inteligente cantora brasileira, musa da bossa nova
que se lançou gravando de cara os caras que nada tinham a ver com a bossa nova
 – sambas da tradição carioca pré-bossanovística
e que depois veio abrindo as portas para a geração dos que estão aí comemorando ou prestes a comemorar 70 anos:
                  a turma do imediato pós-bossa nova

é motivo de orgulho pra qualquer um ser um compositor lançado por Nara Leão
ou mesmo se não for o caso, fazer 70 anos este ano, assim como
Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Jorge Ben
porque na esteira da bossa nova
porque na esteira do que havia antes da bossa nova
porque na esteira do que havia ao mesmo tempo que a bossa nova
eles ensinaram a cantar quem quis aprender a cantar
o que de melhor se pode cantar para compor e compôs o nosso habitat
– dados os sons que freqüentamos desde que nascemos
e quando eu digo sons eu falo das madeiras
cordas couros metais teclas peles ossos carnes
marfins vogais consoantes hiatos ditongos tritongos
sílabas barbarismos solecismos acertos
todos os muitos acertos incluídos aí os erros
eles nos ensinaram o que é ecologicamente correto
porque com eles não tem conversa mole




claro que é preciso juntar aos setentões
o caçula da turma, Chico, de 1944 – e isso pra ficar só nos 6 grandes
firmados pra valer na década de 70
(quem não acredita ou não conhece que vá conferir – hoje é fácil – os discos
que esses 6 aí fizeram nos anos 70)
mas pra ficar só no mainstream é preciso ainda juntar Edu Lobo, que é de 43
e pra ser verdadeiramente abrangente e pleno de gozo
eu junto a todos a respeitável turma de 1937:
Baden, Menescal, Elomar e Tom Zé – e só a rica diversidade da turma de 37
já fala da força desses todos que andam  aí na casa dos 70

e junto ainda os um pouquinho
mais velhos Sérgio Ricardo e Vandré  e os um pouquinho
menos velhos
Carlos Lyra
Francis Hime
Martinho da Vila
Jorge Mautner
Roberto & Erasmo (e ainda Tim Maia, que em setembro próximo também se tornaria setentão)
e outros que em breve serão setentões também:
Dori
Marcos Valle
Macalé
– Sidney Miller, que não será,  por ter ido cedo demais (ele também lançado por Nara) –
acrescento o canto de Nana, Elis, Gal e Bethânia
mais os poetas Torquato, Capinam e Waly Salomão
pronto: desenhei o que tanto para mim significa
ter aprendido para sempre com o dístico de Paulinho da Viola

“AS COISAS ESTÃO NO MUNDO/
SÓ QUE EU PRECISO APRENDER”
(para mim a frase síntese, projeto geracional)

a frase síntese do projeto geracional:
ela é o fecho da canção que recusa
todo aprendizado cediço, toda visão preconcebida do mundo
- e isso dentro do samba, quer dizer, dentro
de um ambiente propício à proliferação  de estereótipos





mas Paulinho porta ainda
a bandeira: ecolongínquo da primeira bossa nova:
CHEGA DE SAUDADE
e este é o ponto dos que até hoje são os melhores dentre eles
(sim, porque muitos se perderam no caminho – cada ouvinte sabe de si
tem aí entre eles alguns que eu não suporto ouvir há muito tempo)
mas este é o ponto, o ponto é este:
aprender as coisas do mundo para não se render à saudade
à auto-compaixão, à auto-comiseração. 
quando aflora a saudade nas suas canções
 – repito: falo dos melhores dentre eles –
é de um ponto distanciado, é um olhar que fala na verdade de uma
meta-saudade
é comentário
não é queixume.

Waly sempre atento
sabia bem o que dizer quando dizia:

Saudade é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
(...)
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.



essas canções elas mesmas brilham seu metal
inoxidável imunes à ferrugem ao enxurro
de tudo o que as cerca – agora também dos velhos fãs
que pensam ser legítimo sentir saudade
– “que estamos todos velhos”
e eu queria ter 70 anos como eles para não ser nem um pouco velho
ou sê-lo apenas fisicamente
e não repetir o triste espetáculo que era comum ver
nos anos 60, 70,  de quando se trazia à cena um dos grandes
dos anos 30 ou 40 e a regra era chorar
lamentar o tempo que se foi
o mundo que tanto mudara
a juventude que se extraviara
nada parecido com isso faz a dignidade desses grandes
nem mesmo a saudade inerte e inerme da garotada
de novo permeável  à choramingação de sempre
que não parece à altura do metal de suas melhores canções
(Waly também: “Súbito/a reprimida resplandece/Re-nova cobra rompe o ovo/Da casca velha”)



o que eu faço com os que acabaram não sendo tão grandes como pareciam?
eu ouço o que eles fizeram quando eram grandes
um ouvir sem nenhuma saudade
um ouvir que procura estar à altura dos everests kilimanjaros aconcáguas atingidos
para não lamentar o hoje talvez amiudado
mesquinho
acanhado
que é melhor mesmo apenas silenciar




de volta, pra fechar:  Nara, a musa da bossa nova
só veio a gravar bossa nova mesmo pra valer em 1971
- álbum duplo: Dez anos depois, estúdio, ambiência, design parisiense
(foi aí que pela primeira vez eu me detive e fui descobrir a bossa nova pra valer)
Nara exemplifica o gesto dos setentões de, como queria Eliot,
inventar com suas intervenções não apenas o passado
como seus antepassados:
assim
a bossa nova (que é Tom, João e Vinícius, lembram?) é também uma invenção posterior de Nara
Paulinho da Viola inventou Cartola, Wilson, Nelson, a Velha Guarda da Portela
e tantos outros mais
Caetano também inventou João e o anti-João, além de Carmen, Orlando, Roberto
Gil tirou da gruta da Mangabeira Jackson e Gonzagão, Gordurinha e Batatinha
Chico inventou Tom – com auxílio de Edu – e mais Noel e Ismael e
assim sucessivamente todos inventaram
- invenção e intervenção
(além de Elomar, inventado por vários deles e que os  inventou de volta)


é certo que depois dos setentões vieram os que já estão quase lá
mas entre uns e outros há uma distância que eu não sei precisar
(já que sou eu que estou inventando aqui o meu recorte)
mas que já são outra história: Gonzaguinha, Ivan, Melodia, Djavan, João Bosco, Guinga, Aldir, Sérgio Sampaio, Moraes Moreira, Raul, Lô, Fagner, Alceu...

mas nem de longe quero cobrir com o verniz do ideal
ou com as lantejoulas da louvaminhice  a existência tão real que quase inacreditável
dessa turma
que por si só rompeu com todo esse desejo gagá (que acomete todo mundo, mesmo gente muito mais nova, mas não os jovens setentões), no primeiro dia de 1995, quando
reunidos em torno da celebração da arte e da memória de Jobim na praia de Copacabana
( a visão que remetesse à meta da perfeição só poderia mesmo ser desejada nunca atingida)
aquele ideal se desfez
e parece que um desentendimento doloroso, vindo do fundo histórico coletivo e individual do esplendor da luz e do horror do breu entre eles se instalou e talvez um outro país tenha que vir a ser inventado para que se conserte
– os desconfortáveis ante idealizações e saudades diremos:
Que ótimo!

não tenho 70 anos:  não celebro nada em mim
e não tenho 20 anos nem tenho um cinema perto de mim.  mas em quaisquer circunstâncias
se os tivesse ia correndo, tarefa urgente,  ver o filme de Nelson sobre Tom Jobim e tentar aprender para sempre com mais vagar os detalhes dessa história que apenas se começa a contar.  

isso se for interessante se interessar pelo mundo.




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RÃ COM BERTALHA, RIM COM JILÓ, MIOLO COM ESPINAFRE

           Achava que tinha lido no Ruy Castro ou no Hermínio, mas andei buscando e não encontrei, uma estorinha deliciosa com Tom Jobim como personagem principal: diz que ele saiu de uma gravação no começo da madrugada com um amigo, e iam os dois caminhando por uma ruazinha lá pelos lados do Jardim Botânico, quando se depararam com um boteco já meio que fechando as portas. Viram que o boteco servia refeição, estavam com fome, entraram. O atendente (boteco tem garçom?), naquela já de querer se mandar, amarrou a cara, mas como a fome apertava, Tom ficou firme, perguntou se dava pra sair alguma coisa pra eles comerem.  Resposta positiva, diz que o maestro perguntou: “E o que que dá pra sair?” “Tudo”, foi a resposta convicta, de dentro da irritação do cara.  “Tudo? Então me traz rã com bertalha.”
            Não sei se Tom gostava de rã com bertalha, provavelmente não.  Pois o inusitado do prato me atrai, qualquer dia arrisco fazer.  Separadamente adoro tanto rã quanto bertalha, a combinação deve ficar interessante, mesmo no meio da madrugada.  Até porque uma receita clássica pra curar ressaca é canja de rã, uma delícia – sei lá se funciona pra ressaca, mas é ótima.  Um partido que Aniceto do Império cantava sempre, Candeia gravou, tem lá: “Você já começa a beber/vou lhe dar caldo de rã...” Já bertalha, a prima pobre do espinafre, que nunca teve um Popeye pra incentivar ser despejada goela abaixo da garotada, a pobre bertalha as pessoas nem sabem mais o que é, difícil até de achar pra comprar. É uma folhinha maravilhosa, trepadeira de verão, sobe em qualquer armação que se faça pra ela, até mesmo pelas paredes, como eu tinha aqui no meu brejo antes que a chuvarada de janeiro levasse tudo.



           A foto que ilustra esta postagem, tosca por conta única e exclusiva do fotógrafo aqui, não é de rã nem de bertalha.  É de miolo de boi.  Envolvido numa mistura de farinha de trigo com cerveja, temperada com sal e salsa, e frito em óleo bem quente.  Fiz aqui pra comer com um cremoso arroz de espinafre, por falar nele.  Aliás, miolo também é difícil, dificílimo de se conseguir, tem que encomendar com antecedência. No Rio eu comia às vezes no Cervantes, que tinha no cardápio (ainda tem?), com batatas fritas.  Cervantes, bom também para se comer rim, que lá eles fritam inteiro, com uma fatia de bacon.  Tinha também no Lucas, no Posto 6, que acabou. Rim é ótimo, gosto de preparar no vinho e comer com jiló lascado fininho e passado na chapa com cebola.
            Deve ter gente que, enojada, já parou há algum tempo de ler isto.  Uma amiga minha, que aliás é seguidora aqui do “Firma”, usou uma expressão ótima do marido para se recusar a comer certas coisas – eu estava explicando como preparo polvo: diz que o marido dela se recusa a comer “comida explícita”.  Uma outra amiga, que adora camarão, se recusa a comer se ele estiver inteiro, “com os olhos me condenando”.  Em compensação, uma antiga sogra, senhora portuguesa, só comia coelho “se eu mesma puder matar ou se puder ver matarem”.  Não compra coelho morto de jeito e maneira, acha sempre que é gato.          
            Engraçadas as diferentes relações que as pessoas mantêm com o que comem.  Acho que pelo que eu digo e escrevo,  as pessoas me têm na conta de um ogro, esganado e pantagruélico.  Talvez seja, mas sou um ogro de alimentação muito balanceada e equilibrada, dentro dos meus padrões.  Como de tudo, desde que considere bem feito, incluindo botecos que sei que tenham comida (PF que seja) de feitura caprichada, embora ainda não tenha encontrado nenhum que sirva rã com bertalha.  Passei alguns meses da minha vida sem comer carne, e muitos legumes que adoro, por conta de um tratamento alternativo que fiz, e não sofri grande coisa: eu mesmo cozinhava e podia confiar.  Na rua, sabia os lugares de boa comida alternativa, macrô ou vegetariana.  Comida bem feita me dá prazer. As comidas explícitas de que falo lá em cima me habituei desde cedo a comê-las, muito antes de serem consideradas “exóticas” ou “bizarras” – aliás, tem um três anos, se tanto, que descobri num programa de TV que eu comia “comidas bizarras”. 
            Mas não sou um devorador de “comidas bizarras” exclusivamente. Se bem que as pessoas tendem a considerar “bizarras” coisas como bertalha, acelga, funcho, aipo, maravilhosos vegetais que freqüentam sempre a minha mesa ao lado dos mais comuns alface, couve, couve-flor, agrião, rúcula... Rúcula que até alguns anos provavelmente seria considerada “bizarra”.  Bizarro talvez fosse o hábito de voltar à noite de Campo Grande a Niterói, ao volante, Avenida Brasil quase inteira,  devorando um molho de rúcula hidropônica, que era cultivada pelo marido de uma colega, e que de vez em quando me presenteava com essa delícia. Tinha uma amiga que às vezes voltava comigo e era parceira nessas bizarrices. E viva o comer bem!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

E MAIS, ERA TOM JOBIM


me lembrei muito por esses dias d’A casa do Tom
um vídeo que assisti sobre a casa do Maestro
quer dizer
era  sobre o mundo.

como poucos
 Tom morou no mundo,  no planeta Terra
(preciso comprar o vídeo, o que vi me fora emprestado –
já o recomendei a tortos e a direitos
volto a recomendá-lo)

desatavio aqui esta prosa
– que é na verdade uma vontade canhestra  de imitar Augusto de Campos –
porque a catástrofe na serra fluminense soterrou milhares
de pessoas  soterrou
bairros inteiros,  cidade quase inteira
como São José do Vale do Rio Preto
e boa parte de A casa do Tom era passada em sua casa no Poço Fundo  em São José
à qual se chegava pelo Caminho do Dindi – que viria a batizar canção – onde um dia
 reza a lenda dos moradores do local contada pelo próprio Tom
Frank Sinatra se escondeu debaixo da cama para fugir ao assédio

(pronto: fui procurar na net se o nome era mesmo Poço Fundo
e eis que descubro que existe um blog que é só sobre
Tom e o sítio – clique, caro leitor
mas isso não importa tanto até porque como minha conexão é precária
está demorando muito a baixar e
se der
depois eu leio
com calma – que isso não interrompa  a marcha(rancho)
do que eu quero dizer aqui)

o que eu queria dizer pra começo de conversa aqui
é que foi noticiado na mídia que a casa onde Tom compôs “Águas de março”
foi praticamente destruída pela avalanchente e nem mesmo
o infame trocadilho do tipo “as águas de março chegaram em janeiro este ano”
foi desprezado
e dá vontade de não ler o idiota que comete isso
não exatamente porque ele não sabe o que são as águas que fecham
nem sabe que existem as que abrem o verão
mas porque a oportunidade de brincar com os meses
vai mostrar a sua argúcia
 não é mesmo?

mas não quero resmungar
nem quero mau humor pra falar do Maestro
é que lembrei    quando li a notícia
da contracapa do O amor, o sorriso e a flor
o terceiro LP de João Gilberto escrita por Tom
onde já se adivinha a casa do Poço Fundo
da qual transcrevo aqui alguns trechos:

“Em janeiro, não aguentei mais e subi a serra. Todos sabem como foram as águas em 60. Como choveu! Cheguei à fazenda, meti-me numas calças velhas e esperei a chegada daquela burrice calma que nos dá nove horas de sono sem sonhos.
(...)
O mau tempo e o barro mantinham a todos presos em casa. Bom era quando odia amanhecia melhorzinho e eu e meu filho, ainda de pijama, íamos ver o trabalho das formigas cortando as roseiras do jardim. Mas qual! Quando o sol começava a querer esquentar vinha logo a chuva e nós corríamos para dentro.
(...)
Uma noite, já ia apagar os lampiões, quando ouvi o motor de um carro que pelejava para subir a rampa. João Gilberto e Sra. estavam chegando. Tínhamos combinado que ele viria, mas, devido ao mau tempo já não acreditávamos que Joãozinho chegasse, e logo de taxi!”

a disponibilidade feliz de quando se vivia a bossa nova
(daqueles que de alguma forma a viviam)
- é ler o Lorenzo Mammi em  Três canções de Tom Jobim
tão inimaginável hoje – como pensar Tom e João assim:
Tomávamos banho de cachoeira
antes do Carnegie Hall
antes muito antes ainda das notas dissonantes se integrarem ao som dos imbecis
antes do mundo todo se tornar mesmo a casa de Tom ( e essa é a parte boa
da história)  é isso
melhor
é disso que me lembrei ao me lembrar desse texto,
e o que faz o filme que tanto me comoveu é mais uma vez me tocar
do quanto seria bom conversar com Tom - mestre da conversa
que lá pelas tantas diz
 comentando as queimadas que assolavam e assolam e fazem o Brasil crepitar
antes de se dissolver em água e pedra e lama e pó e epidemia:

O brasileiro pra levar uma caixa de fósforos no bolso
devia precisar de porte de arma

enquanto ao fundo o timbre d’ouro do oboé tristíssimo sola
“Valse”
(que depois ganhou letra de Ronaldo Bastos
virou “Olho d’água”  e foi gravada pelo Milton
com o coro dos Canarinhos de Petrópolis no Clube da Esquina 2
- mas isso foi muito muito depois)

é fácil adivinhar “Águas de março” no Poço Fundo
“Chovendo na roseira”
“Correnteza”
“Matita-perê”  “Sabiá”   “Urubu”
mas talvez seja menos óbvio que também de lá o Maestro via o “Corcovado”
as “Two Kites”
“Fotografia”
“Wave”
 – ou não as via  – o que é melhor ainda – mas
as compôs lá

não tenho a menor idéia de que as tivesse composto lá
porque aquela não era a casa de Tom
a casa de Tom era o mundo e lá
ou lá onde for
ele as escreveu compôs tocou entregou
ao mundo – e não ao Poço Fundo
e é esse precisamente o maior sentido de tudo

agora que só resta ao que parece pedra sobre pedra
em tantas cidades sobre tanta gente
agora que tanto se apagou com brutalidade
que aqui deste brejo o coração aperta
a qualquer chuva mais forte nesta quadra agreste do ano

estou vizinho do silêncio – concreto e também  histórico...
que se abateu sobre mais de 1400 mortos na Serra das Araras em 1967
(mas quem sabe? )

e que às vezes me ponho a pensar
como outro dia escrevi

“O que engolirá por fim este brejo, esta noite, estes cães, este morador? Que bocarra devorante entrevejo nesses segundos em que pareço vislumbrar, sem que me vejam,  os séculos vindouros, testemunhos de que não deixei os rastros que me assinariam?”

sem nem de longe adivinhar que o segundo pode ser água e pedra e lama
não ficarão meus rastros
mas não quero ver a casa do Poço Fundo
que o mais
                afinal
era Tom Jobim
                “Vão demolir esta casa.
                Mas meu quarto vai ficar,
                Não como forma imperfeita
                Neste mundo de aparências:
                Vai ficar na eternidade:
                Com seus livros, com seus quadros,
                Intacto, suspenso no ar!”

e o Maestro vai ficar
como o quarto do poeta
como a rosa que não cheira
como a onda que não quebra
sobre a vida costumeira.