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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

TORQUATO: 9 E 10 DE NOVEMBRO

Pela porta de entrada
a mesma de saída
encalacrada
lacrada
escorpião em chamas
dos bueiros de Copa
para os lajedos de Teresina
uma imensa dívida
tenho contigo
Torquato,
teu eco
em mim ainda hoje
no meu torto caminho
de menos coragem
que a tua
e uma quietude
que anula o vigor
e de tanatos
lhe afrouxa a vigília
no país tanatizado
por lacraus ferozes
saindo à luz
dos subterrâneos
com halos
com auréolas
adornando-lhes
os ferrões,
parece
de novo
que a prova dos nove
não fecha.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

TORQUATO NETO NASCIMENTO VIDA E MORTE

         No dia 10 de novembro de 1972 Torquato Neto completaria – não sei se chegou a completar – 28 anos.  Matou-se na madrugada, abriu os bicos do gás no apartamento onde morava na Tijuca.  Numa última frase de seu texto de suicida, pedia um cuidado especial com o filho:  “Vocês aí, não sacudam demais o Thiago.  Ele pode acordar”. O impacto de sua morte em mim, que tinha 16 anos, foi imenso.  Mas o impacto de Torquato vivo tinha sido maior.  Hoje ele completaria 72 anos.  Por isso é do Torquato vivo que falarei.


         Meus primeiros contatos com algo que se possa chamar de poesia do século XX, melhor, com a arte do século XX, se deram através da coluna “Geléia Geral”, que Torquato manteve no jornal Última Hora de agosto de 1971 a março de 1972.  Não, minha memória nada tem de extraordinária, muito menos para datas: essa precisão eu devo aos dois belos volumes organizados por Paulo Roberto Pires, sob o título de Torquatália, lançamento da Rocco em 2004. Mas a memória que eu tenho de Torquato e de sua coluna e de tudo a que me levaram seus textos provocantes, informativos, desconcertantes e tantas vezes desaforados, essa memória é enorme e a ela sou muito grato.  Como  a deste, que saiu em 14 de junho de 1971,  e que colo aqui: 



Por exemplo: a foto de Godard com a legenda “Godard. Poeta. Nunca teve medo de quebrar a cara. Quebrou?”  No moleque de 15 anos isso de “Godard poeta” ficava martelando: quem é esse poeta?  Fui ver, fui correr atrás (era um tempo sem internet, googles, wikipedias,  se é que dá pra pensar nisso hoje e, sim, alô saudosistas do que não sabem, era um tempo de enorme cerceamento à informação, a qualquer informação,  no país sob feroz ditadura), descobri que Godard era um cineasta francês, um nome de referência no cinema, mas no cinema de pirados de modo geral, diretor de filmes “incompreensíveis”, “fracassados” etc.  enfim: Godard era um poeta do cinema.  Um poeta, sim.  Cuja linguagem – que ele levava e leva –a  limites impensáveis era o filme.  Assim se faziam as descobertas, fim do exemplo.

       A coluna do Torquato me dava notícias enviesadas, elípticas (eram aqueles tempos e era também uma proposta de não ser didático, a não ser para quem estava a fim de aprender alguma coisa com o ímpeto e o risco)  de um Chico Buarque alvo de censura burra e torpe  e de recriminações mal bem pensantes, de Caetano e de Gil no exílio, dos movimentos subterrâneos na vida cultural, do samba e dos rocks  dos guetos,  da esquerda boêmia carioca que envelhecia, mesmo genial, no Pasquim, da vida que se fazia vigorosa, resistente, frágil entre a antropofagia e o vampirismo,  o Nosferatu que Torquato encarnara em Nosferatu no Brasil, super-8 de Ivan Cardoso (filme, aliás, que nunca vi).



Foi Torquato que me direcionou de forma mais provocativa em direção aos irmãos Campos, a Pound, a Oiticica, foi ele quem primeiro chamou minha atenção para o novíssimo Chacal, quem me dimensionou bem Paulinho da Viola, quem direcionou meus ouvidos para Jards Macalé, os olhos curiosos para as polêmicas do cinema underground x Cinema Novo,  quem me apontou para Waly Salomão e sua “descoberta” Luíz Melodia, um moleque do morro de São Carlos  de 20 anos, cuja “Pérola Negra”, cantada no antológico show  –Fa-tal - , de Gal Costa na virada 1971/72, me deslumbraria, como deslumbra até hoje.   Falo em Waly Salomão,  e a lembrança de Torquato me evoca também a sua.  Estive com Waly uma vez, em 1984, num ciclo de discussões sobre música popular que ajudei o pessoal do Diretório de Letras das UFF (eu já estava formado) a organizar.  Mediei uma mesa dele com o também grande poeta e letrista Abel Silva.

        Adorei o rápido contato com Waly, embora não tenha certeza de a recíproca ser verdadeira, até porque não tive tempo nem interesse em esclarecer.  Mas o jeito de Waly, gestos largos e voz baiana tonitroante e desabusada, a fazer uma fala generosa ao auditório lotado de estudantes (lá pelas tantas apareceram ainda Antonio Cícero, que se não me engano era professor-substituto de Filosofia lá na UFF, e Alex Varella), e ao mesmo tempo reclamar que não havia sequer um “pro-labore” para os convidados (“Vocês precisam correr atrás de patrocínios!” ele bradava), me conquistou,  sobretudo quando fez um “descarrego” (chamemo-lo assim) do peso do fantasma de Torquato no martirológio em que o queriam incluir (como gostamos de martirológios no Brasil, mas apenas para celebrar os santos, não para fazer-lhes justiça...).  Waly dizia algo do tipo “Torquato está morto, nós aqui estamos vivos, sua poesia, sua trajetória não merecem ser domesticadas por esse coitadismo, esse martirológio, o que ele deixou está acima de tudo isso e não vamos ficar gostando do que ele fez pelas razões erradas!”  Vejo a foto e me  novamente ouço sua fala veemente. Waly morreria em 2003, também grande como Torquato.


A Coleção Postal, da Azougue Editorial e da Editora Cozinha Experimental, acaba de lançar seu segundo livro (o primeiro foi dedicado a Roberto Piva, vejam a postagem anterior a esta), o volume Torquato Neto , com vários textos inéditos. Claro que eu recomendo e já estou me deleitando com ela.  Mas folheando aqui os diversos textos da coluna “Geléia Geral” reunidos no volume 2 de Torquatália, me deparo com um ao qual nunca tinha prestado atenção, não devo tê-lo lido na época.  Só pra informação, Lena Rios é uma conterrânea de Torquato, piauiense, que iniciava uma carreira musical naquela época.  Entre outras coisas, lembro que ela gravou a música-tema (parceria de Torquato com Carlos Pinto) de Sem essa, aranha, filme de Rogério Sganzerla, de 1970. Não sei se a cantiga em questão foi musicada.


CANTIGA PIAUIENSE PARA LENA RIOS

Sempre andei por um caminho
Que não conhecia bem;
Sequer me lembro se vinha
Sozinha, ou se com alguém
E nem sei se aqui chegada
Faço morada, me aquieto
Pois é certo que procuro
Algo que deve andar perto:
Mas o que vejo é incerto
E o que consigo não dura.
(Eu sempre quis outra vida
Eu sempre quis ser feliz,
Por isso naquele tempo
Fiz minha mala e parti)
Sempre andei por um caminho
Que não sabia direito;
Do que perdi na viagem
Já me esqueci por completo
Não guardei nada e o que trouxe
Eram apenas utensílios
De fácil desprendimento:
Dois filhos que nunca tive
Um velho anel de família
E uma saudade no peito.
(Eu sempre quis outra vida
Eu sempre quis ser feliz:
Dos dois filhos, da saudade
E até do anel me desfiz).
Sempre andei por um caminho
Que não tem ponto final
E a paisagem que eu via
Era toda e sempre igual:
Depois da noite outro dia
Com suas mesmas desgraças,
Mas também algumas casas
Com jantar posto na mesa.
Agora:
EU SEMPRE QUIS SER CONTENTE
E PODE SER QUE EU JÁ SEJA.

         
         Haveria e há muito a se falar ainda de Torquato, mas isto aqui foram apenas alguns flashes de memória de alguém que foi tão importante para mim, que de certa maneira continua sendo, e cuja obra é provável que ainda tenha muito a render aosd interessados de todas as eras.  Vocês aí descubram por conta e risco.  Aqui mesmo no Firma Irreconhecível há outras postagens.  Divirtam-se.  Vivam. 

Torquato no traço de Luís Trimano


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

TORQUATO NETO TRÊS VEZES



1.    De “literato cantábile”

a)    A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe:
acabe logo comigo
ou se acabe.

b)    A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe –
estão no fim, no início
da chave.

c)    Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe:
é nela propriamente que eu me ligo,
nem disco, nem filme:
nada, amizade.  Chuvas de virtude:
chaves.

d)    (amar-te/a morte/morrer:
há urubus no telhado e a carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta da saída).

e)    A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?

f)     A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
“como dois mais dois são cinco”
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospicio
É refúgio.  Fuja.


2.    COGITO

Eu sou como eu sou
pronome
pessoal instranferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

Eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

Eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.



3.    PESSOAL INTRANSFERÍVEL

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos.  É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.  Nada no bolso e nas mãos.  Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, etc.  difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa.  Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes.  E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar: citação: leve um homem e um boi ao matadouro.  O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi.  Adeusão.
                        (In: Os últimos dias de paupéria, 1973)
           

Torquato Neto (1944-1972) era piauiense, ligado ao grupo tropicalista, trabalhava como jornalista e agitador cultural, sendo ainda um letrista importante, com parcerias de vulto com Caetano Veloso (“Mamãe, coragem: “Ai de mim Copacabana”...), Gilberto Gil (“Geleia Geral”, “Domingou”...), Edu Lobo (“Pra dizer adeus”...), Jards Macalé (“Let’s play that”), entre outros. 
Torquato suicidou-se no dia de seu aniversário de 28 anos. Tinha diversas internações em hospitais psiquiátricos, e seus escritos dispersos (poemas, letras, cartas, anotações, diários etc) foram reunidos pela primeira vez por Waly Salomão na obra póstuma Os últimos dias de paupéria, cuja primeira edição foi lançada no ano seguinte ao de sua morte (uma 2ª. edição, revista e ampliada, saiu em 1982).   Em 2004, Paulo Roberto Pires lançou Torquatália, em dois volumes (Do lado de dentro e Geleia geral) reunindo muito material inédito que se acrescentou ao que já havia antes saído. 
Torquato é um poeta-letrista dos mais ricos de sua geração: como poeta, é nitidamente marcado por Drummond, a que eu acrescentaria ainda Oswald e a presença do experimentalismo concretista.  Mas talvez o mais interessante do que deixou escrito é a constante preocupação de enlaçar ética e estética, fazer da linguagem um território a ser explorado de forma inseparável dos compromissos éticos com os quais severamente sua geração – e sua “turma “ – teve que se haver. Essa postura, “vitalista”, por assim dizer, faz com que possa pensar em Torquato como um nome chave (talvez junto com Waly) de transição entre a geração experimentalista das neovanguardas dos anos 60 e a geração dos poetas marginais da década seguinte. 
No disco Cinema transcendental, de 1979, Caetano inclui “Cajuína”, uma canção homenagem-recordação de/a Torquato.  Sérgio Brito, dos Titãs, põe melodia no texto de “Go back”, até então inédita, e a canção vira um dos grandes sucessos da banda em 1988.



sábado, 12 de fevereiro de 2011

MOVIMENTO DOS BARCOS: JARDS MACALÉ



Canção de Jards Macalé com letra de Capinam

Estou cansado e você também
vou sair sem abrir a porta
e não voltar nunca mais
desculpe a paz que eu lhe roubei
e o futuro esperado que eu não dei
é impossível levar um barco sem temporais
e suportar a vida
como um momento além do cais
que passa ao largo do nosso corpo
não quero ficar dando adeus
as coisas passando
eu quero
é passar com elas
eu quero
e não deixar nada mais
do que as cinzas de um cigarro
e a marca de um abraço no teu corpo
não
não sou eu quem vai ficar no porto
chorando não
lamentando o eterno movimento
movimento dos barcos
movimento
movimento dos vbarcos
movimento

Uma canção linda, sombria, lançada por Maria Bethânia no show “Rosa dos Ventos”, de 1971, e que aqui podemos ouvir na gravação do próprio Macalé em seu primeiro disco individual, de 1972 (ele a regravou em seu disco de 1998, o magistral O q faço é música).
Jards Macalé vem compondo, ao longo de mais de 40 anos de trajetória, algumas muitas obras-primas, com parceiros como Capinam (com quem fez ainda, entre outras, “Gotham City”, escândalo no festival de 1969), ), “Let’s play that” (com Torquato Neto), Waly Salomão (“Vapor barato”, possivelmente sua canção mais conhecida) , além de ostentar uma remota e arrebatadora parceria com Vinícius de Moraes (“O mais-que-perfeito”) e muitas outras.

Em 2005 a Biscoito Fino lançou o CD Real Grandeza, reunindo as parcerias de Macalé com Waly Salomão. Mais recentemente, Marcos Abujamra dirigiu Jards Macalé: Um morcego na porta principal, que acaba de ser lançado em DVD. Vale a pena conhecer este que é um dos mais refinados violonistas e compositores do cenário musical brasileiro.