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domingo, 12 de dezembro de 2010

NA MEMÓRIA: O SAMBA FALADO

               Escrevi aqui outro dia sobre a Velha Guarda da Portela e me lembrei, numa associação pelo avesso, de Ernâni Alvarenga (1914-1992).  Mais precisamente de um samba de Ernâni Alvarenga:  “Lá vem ela chorando/o que é que ela quer?/pancada não é/já dei.”  Cantarolei e uma amiga me lembrou  que Monarco gravou isso lindamente, o que é verdade.  Mas por que eu digo que foi uma associação pelo avesso?  Porque Ernâni Alvarenga, às vezes chamado Alvarenga da Portela, não fazia parte da Velha Guarda da Portela.  E já li que morou a vida toda em Oswaldo Cruz, assim como também é notório ter sido um dos fundadores da azul-e-branco.  Recusava-se à identificação com a Velha Guarda da escola, como tive oportunidade de ouvir uma vez dele mesmo.
                Foi acho que em 1978, na Letras da UFF. Era um curso sobre cultura popular, e o professor Luiz Fernando Medeiros convidou alguns sambistas pra bater papo conosco, os alunos, verdadeiras palestras en petit comitê.  Num desses encontros foi lá Ernâni Alvarenga. Mulato longilíneo, embora não alto, camisa social para dentro da calça vincada, pequena  nécessaire de couro presa por uma tira ao ombro, óculos escuros estilosos, figurino acabado de malandro total, Alvarenga mandou ver e desfiou uma dúzia de sambas primorosos, dos quais pouquíssimos ouvi gravados.  Dicção absolutamente malandra, sibilina, um canto cheio de stacattos, o que justificava que carregasse por vezes o apelido de “Alvarenga, o Samba Falado”, como um Mário Reis sem granfinagem.  Lá pelas tantas disparou contra aqueles que o chamavam de “Alvarenga da Velha Guarda da Portela”: disse com todas as letras, em bom-humor irritado,  que não pertencia à Velha Guarda da Portela, entre outras coisas porque não gostava de “andar por aí de uniforme”.  Dava pra ver que era encrenqueiro e temperamental – o que não é uma apreciação pejorativa, entenda-se. 
                Era portanto um dissidente.  Parece que algumas vezes ele teria participado de algumas apresentações da Velha Guarda, parece que ora ficava próximo ora rompia relações com o pessoal, não sei bem.  Alguém algum dia vai contar essa história, espero.  Entre outras coisas porque dá para perceber que era um compositor primoroso, embora talvez pouco prolífico.  E que não teve ainda um disco individual dedicado à sua obra.  Uma hipótese me ajuda a pensar,  se não a sua dissidência, pelo menos a sua pouca identificação com o pessoal capitaneado por Monarco: é que todos os sambas que cantou lá aquele dia – como os 4 ou 5 que sei gravados – todos, sem exceção, versam sobre temas abertamente associados à malandragem.  Não ouvi nada parecido com uma linha temática lírico-amorosa, que perfaz a maioria dos sambas da Velha Guarda da Portela, se bem que não exclusivamente.
                Em Tudo azul, CD que Marisa Monte produziu com a Velha Guarda, tem um samba de Alvarenga: na verdade é uma chula, “Sabiá cantador”, um motivo quase folclórico, que glosa a amada que partiu, “foi pelas ondas do mar”.  Não é um samba malandro, longe disso, mas está longe de ser exatamente um samba lírico-amoroso. E foi o único samba de Alvarenga que a Velha Guarda gravou.  No filme de Carolina Jabor, que comentei aqui outro dia, ele é cantado em roda de samba miúdo durante a apresentação dos créditos finais. Passeio pela memória e não lembro também de Paulinho da Viola ter gravado Ernâni  Alvarenga.
                Aquela letra cujo trecho inicial está lá em cima dá bem uma mostra de sua poesia, na melhor tradição misógina herdada da turma do Estácio, conforme exposto por Luiz Antonio Giron em seu ótimo livro sobre Mário Reis.   Vai agora na íntegra:

LÁ VEM ELA

Lá vem ela chorando
o que que ela quer?
pancada não é
já dei
 mulher da orgia quando começa a chorar
quer dinheiro,
dinheiro não há

Carinhos eu tenho demais
pra vender e pra dar
pancada também não há faltar
mas dinheiro,
isso não dou a mulher
 faço descer à terra
o céu e as estrelas se ela quiser

 mas dinheiro não há...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ZUMBIDO E LÁGRIMAS

               Não é comum que me venham lágrimas ante performances artísticas.  Mas é infalível quando está em cena a Velha Guarda da Portela, e assim é desde a primeira vez que a vi em ação nos idos dos 70.  Lembro do espanto que senti da primeira vez que me peguei chorando,  e lembro também  não liguei para o meu espanto.  Ainda hoje se for vê-la já sei o que me espera.  E com prazer imenso me entrego. Quarenta anos depois de sua criação, por Paulinho da Viola, são outros os integrantes – à exceção, quero crer, de Monarco e Casquinha – e o efeito é o mesmo.  Revi em DVD O mistério do samba, o extraordinário documentário que Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda dirigiram sobre essa instituição do samba carioca.
                Um trabalho de câmera com um olhar tão amoroso sobre o mundo captado, acho que só me lembro de semelhante no Morango e chocolate de Gutiérrez Alea. Quando o vi, lembro que me emocionei demais com o que a câmera-olho captava da arquitetura colonial da Velha Havana, endossando as lições que o professor dava sobre o sentido do amor pelo lugar de pertencimento – naquele caso, acossado por uma ameaça oficial fundamentada na intolerância.  Olho no casario e ouvido nos boleros derramados e proscritos. Tão diferente do olhar estetizante de Wenders sobre a mesma Cuba em Buena Vista Social Clube, isso a despeito da importância e da grandeza de seu filme. Mas aqui, no filme de Carolina e Lula,  a beleza emana do zumbido – ouvido e olho – da alma do subúrbio carioca, do zumbido da alma de cada um dos integrantes – presente e passado – da Velha Guarda.  São cenas de arrebatadora beleza: o casario de Oswaldo Cruz e suas cores, o interior e o exterior dos botequins, as negras peles vincadas das pastoras e dos velhos mestres, o baú de tesouros de Manacea, a beleza fulgurante de Áurea, sua filha, o canto coral no Portelão, e mais do que tudo, um momento de puro enlevo: a lépida e esguia senhora que,  indo à feira ou ao mercado, larga tudo para “perder tempo” num magistral miudinho à porta do bar onde rola o samba – e a seguir, com familiaridade e integração total com aquele mundo, retoma sua marcha, sabendo que,  mais do que esta o que vale é o samba;  a prosa guarda a irrupção cintilante da poesia, para retomar aqui os termos de Valéry.
                Só uma coisa me incomoda em O mistério do samba, mas tem mais a ver com a apresentação do filme, a sua embalagem: não lembro como foi no cinema, mas na capa do DVD vêm em destaque os nomes de Marisa Monte, Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho.  Nada a objetar, são três presenças de capital importância em tudo o que cerca o filme e enobrecem demais a tela sempre que aparecem.  Mas falta o nome de Monarco.  Nosso olhar e nosso ouvir de espectadores são guiados por Monarco, hoje mais do que nunca a Voz – e que voz! – da Velha Guarda.