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domingo, 19 de abril de 2015

Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto: sobre pureza e puros.



CARTA AOS “PUROS”

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos. 

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Vinícius de Moraes.  Poesia completa e prosa. RJ: Nova Aguilar, 1987

 

 


        Somente os muito tolos ou inexperientes no quesito vida estranhariam a amizade entre dois poetas praticamente antípodas, Vinícius e João Cabral.  A partir da antítese que fundou suas poéticas, eu mesmo durante muito tempo estranhava sempre que lia que eram muito amigos.  Ponha-se isso em parte na minha pouca vivência, pouca compreensão das relações humanas, em especial da amizade; de outra parte, ponha-se no fato de ter vivido boa parte da vida num ambiente em que o campo da poesia brasileira era muito faccionalizado.  Acho mesmo que deve continuar sendo – a rigor não sei, pois quero distância de “vida literária” - , mas é que durante muito tempo João Cabral era lido como um dos esteios do paideuma concretista e Vinícius como um neo-romântico, ou pior, um desleixado “poetinha”. Os meandros disso, bom, é só se inteirar um pouco da história de nossa poesia que se vão descobrindo coisas e coisas.

         O fato é que cultivaram a amizade, apesar de suas poéticas serem de fato duas águas da poética brasileira modernista. Não lembro onde li que ao ler “Morte e vida severina”, Vinícius teria se mostrado empolgado, ao que Cabral retrucara: “Vinícius, esse poema não é pra você não, eu escrevi pra operário, você é intelectual, tem que gostar é de ‘Uma faca só lâmina’”.  O excelente filme de Bebeto Abrantes Recife Sevilha: João Cabral de Meo Neto, documentário de 2003, tem passagem saborosíssima a respeito da amizade dos dois (vale anotar ainda a amizade de vida inteira de Cabral com Ledo Ivo, seu companheiro de geração e de poética bem distinta e mesmo oposta – também nisso o filme de Abrantes toca): numa gravação em fita de rolo em reunião social, Vinícius canta acompanhando-se ao violão, quando se ouve a voz de Cabral: “Sem ser de amor você não sabe fazer não, não é?  Você só canta o coração, não sabe cantar outra víscera?”  Vinícius reage bem humorado,  dizendo que vai musicar os poemas bem “cerebrinos” do pernambucano, “Vou musicar aqueles poemas da cabra, você vai ver...”  De permeio não se pode deixar de frisar que Vinícius -  “um lírico”, como de forma desdenhosamente divertida Cabral a ele se referia, ou melhor, se referia a todos os poetas que não fossem ele próprio, Cabral – é um dos pilares da nada santíssima trindade bossanovista, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, constituindo-se pois no grande pai poético da instituição MPB…  Aos passo que para João Cabral a música não passava do “menos desagradável dos ruídos”, como ouvi de viva voz o poeta dizê-lo nos pilotis da PUC na Expoesia em 1975.  Sobre o Cabral antimúsico,  Caetano Veloso  lhe dedicou – e a João Donato, o músico antipoeta – sua canção “Outro retrato” do CD Estrangeiro.

         Me lembrei dessas coisas todas ao topar dia desses com um poema de Vinícius que anda bem a calhar para nossos tempos de obscurantismo, hipocrisia falsamente pura, sacripantas vivendo em felicidade de maré montante.  E ao reler a “Carta aos ‘Puros’”, lembrei ainda da exegese poética  rigorosa a que lhe submete Cabral com seu “Ilustração para a Carta aos Puros”, de A educação pela pedra, livro de 1966 (o poema de Vinicius é da década de 1950, parece).  Aqui Cabral lhe impõe o rigor do puro e do “puro”,  através da depuração não purista de dois tipos de cal.  Dois belíssimos poemas.

         Não poderia deixar de ilustrar esta postagem com uma foto que amo – não sei quem é o fotógrafo – dos dois poetas, no meio de suas andanças de diplomatas, que ambos eram, numa Paris do anos 1960 com um icônico Citroën-sapo ao fundo.

 

ILUSTRAÇÃO PARA A “CARTA AOS PUROS” DE VINÍCIUS DE MORAES

 A uma se diz cal viva: a uma, morta;
uma, de ação até o ponto de ativista,
passa de pura a purista e daí passa
a depurar (destruindo o que purifica).
E uma, nada purista e só construtora,
trabalha apagadamente e sem cronista:
mais modesta que servente de pedreiro
aquém de salário mínimo, de nortista

Uma cal sai por aí tudo, vestindo tudo
com o algodãozinho alvo de sua camisa,
de uma camisa que, ao vestir de fresco,
veste de claro e de novo, e reperfila;
e nas vezes de vestir parede de adobe,
ou de taipa, de terra crua ou de argila,  
essa cal lhe constrói um perfil afiado,
uma quina pura, quase de pedra cantaria.
Uma cal não sai: se referve em caieiras
se apurando sem fim a corrosão e a ira,
o purismo e a intolerância inquisidora,
de beata e gramatical, somente punitiva;
se a deixassem sair, sairia roendo tudo
(de tudo, e até de coisas nem nascidas),
e no fim roídas as fichas e indicadores,
se roeria os dentes: enfim autopolícia.


João Cabral de Melo Neto.  Obra completa. RJ: Nova Aguilar, 2003.



sábado, 6 de julho de 2013

GRACILIANO


            Uma das primeiras postagens deste blog foi sobre Graciliano Ramos, visto por seu filho, o também escritor Ricardo Ramos, num valioso livro dedicado às lembranças de seu convívio com o velho,  Retrato fragmentado. 
http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2010/12/graciliano-em-dois-fragmentos.html Arrumando estantes aqui,  e aproveitando que a FLIP deste ano é dedicada a Graciliano,  um dos escritores do meu fatal lado esquerdo, resolvi vadiar um pouco pelo livro de Ricardo.  E por outras páginas, alusivas ao mestre alagoano.   Ficam sendo fragmentos dos fragmentos e de outros fragmentos...

             Na página 32 de Retrato fragmentado leio:

             “A linguagem, para Graciliano, era um problema.  Ou casos a resolver, e não dos mais corriqueiros.  Tanto que demandava pesquisa, de raízes ou eufonias, sem muito a ver com as tendências de época…  meu cunhado James Amado me relembra um diálogo, bastante longo, em que ele descartava o modernista “me dê”, por não encontrar base na sua realidade oral, nem na gramática, em benefício de um “dê cá”, real e fluente.
            Há outros exemplos, inúmeros, que pedem somente esforço de memória.  Um deles meu pai me contou, reconstituindo o tempo em que escrevia São Bernardo na língua de Paulo Honório.  Estava sentado na varanda da casa de Palmeira dos Índios, trabalhando, quando chega Clóvis, um dos seus irmãos mais moços, fazendeiro, eventual consultor para assuntos do agreste e se apeia afogueado, suando. Papai o chama. Esbaforido meu tio o atende, ouve a pergunta que o surpreende, dá de ombros, responde atravessado:
            - Ora, Grace! Quem pariu mateus que o balance!
            Ele dá uma gargalhada e agradece:
            - Obrigado, Clóvis. Era isso que eu queria.”

 

 


Mais adiante, na 191:
   

            “Logo após sua morte foi publicado “Máscara mortuária de Graciliano Ramos” soneto de Vinícius de Moraes; o poema “Graciliano Ramos”, de João Cabral de Melo Neto, saiu a seguir.

            O verso inicial de Vinícius, “Feito só, sua máscara paterna”, diz bem das suas relações com Graciliano.  Durante a doença do Velho, ele nos visitava regularmente.  Chegava educado, atencioso, encantador, ficava o tempo requerido, nem muito nem pouco, a nos entreter amável e inteligente.  Era uma presença que fazia bem a meu pai, a todos nós.  E continuou além dele, ainda que mais espaçada, no convívio conosco.  Bar, livraria, jantar de amigos.  Um dos nossos últimos encontros, já vivia sua temporada baiana, aconteceu num almoço na casa de Jenner Augusto, com muita bebida, piscina, comida, interminável e caloroso. Ele me convidou, fosse vê-lo, matar saudades.  Deu o endereço, combinamos.  Eu de férias, pouco depois ia procurá-lo, em Itapuã.  Cheguei, toquei a campainha, passei o portão.  E me surgiu um cachorro enorme, ladrando, ameaçador.  Congelei, de susto ou medo, quando ouvi o grito:
           - Graciliano!
            O bicho aquietou-se, Vinícius apareceu.  Fomos entrando.  Ainda meio arisco, perguntei:
            - Ele se chama Graciliano?
            E Vinícius, no seu natural carinhoso:
            - Claro.  É um São Bernardo.”  
        
 
           Aqui o belo soneto de Vinícius, que, não sei por que, ao relê-lo agora, me ecoou um tanto o  “Le tombeau d’Edgar Poe”, de Mallarmé - releio-o de novo: não.  Acho que só o motivo.  Talvez o primeiro verso.   Eis o  soneto de Vinícius:


MÁSCARA MORTUÁRIA DE GRACILIANO RAMOS

Feito só, sua máscara paterna,
Sua máscara tosca, de acre-doce
Feição, sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.

Feito só, feito pó, desencantou-se
Nele o íntimo arcanjo, a chama interna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.

Feito pó, feito pólen, feito fibra
Feito pedra, feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.

Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação da luta,
Uma impassível negação da morte.

 

 

          Na seqüência, leio ainda no belo livro de Ricardo Ramos:


           "João Cabral de Melo Neto, apesar de visível desde os meus começos, sempre foi mais uma admiração a distância que um particular de pessoal, entretanto alimentado na substância das afinidades.  Aquilo de nordestino afiado, só lâmina, que apura a palavra escrita e a esgota, quase nunca a diz.  Um errante por profissão, um erradio por formação ou destino.  Atribuí os nossos desencontros a tais fados, que nos evitavam, limitavam  meus desejados contatos a breves encontros no Rio, quatro dias no Porto, ligeiras aparições em São Paulo.  E no entanto, para mim, tudo era ontem.
            O poema sobre Graciliano é definitivo.  Como iluminação do escritor, como sentido e afirmação da obra.  Somente um oficial do mesmo ofício, irmão de opa, seria tão preciso.  A precisão, aliás, marca de João Cabral.  Ou de Graciliano. Esse despojamento, que despreza os enfeites, emblema de um e outro.  Irmanados, João Cabral e Graciliano, um interpreta o outro.  ‘Falo somente com o que falo:/Falo somente do que falo:/Falo somente por quem falo:/Falo somente para quem falo.’ Os dois pontos dão seqüências.  Mínimas, essenciais.  Do seco e de suas paisagens.
            Sentados num corredor de hotel, enquanto lá dentro jantavam, animados, escritores de várias instâncias literárias, João Cabral e eu nos abstínhamos, enfastiados.  Um pelo temperamento, outro pela rotina.  Aí falamos de meu pai.  E João Cabral, inesperado, me declarou:
            - Eu não o conheci.
            Surpreso, pois até eu vinha com João desde longe, reagi:
            - Não é possível!
            João Cabral simplesmente declarou:
            - Eu o via na José Olympio e não me aproximava. Por mais que quisesse, era inatingível.  Nunca cheguei nem perto.
            Eu disse o que devia, ou podia.  Duas almas gêmeas.  Muito possivelmente, íntimas.  Se Graciliano fosse poeta, estaria próximo de João Cabral.  Se João Cabral fosse prosador, se avizinharia de Graciliano.  Entre um e outro, os imponderáveis.  Que nós pesamos, pensativos.  Sem concluir, decerto, mas com aquela sensação de penoso desencontro. ‘O que é sinônimo da míngua.’”
 
 
  A íntegra do extraordinário poema de João Cabral:
GRACILIANO RAMOS:
 
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

 
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.
               ***
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

 
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.
                ***
 Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

 
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
              ***
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

 
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
quem bate numa porta a socos.
Ricardo Ramos

 
 

 
Ricardo nasceu no começo do mesmo 1929 em que seu pai Graciliano foi prefeito em Palmeira dos Índios, Alagoas. A  passagem de  27 meses do Velho pelo cargo  é conhecida de todos os que sabem o mínimo sobre ele, pois foi graças aos relatórios que enviou ao governo daquele  estado que sua escrita precisa, firme, sem rodeios e rebuços indicou  ao Sul maravilha que ali estava um escritor – e que escritor! – inédito ainda àquela altura.  Não me estendo aqui sobre a passagem, de resto facilmente encontrável em suas linhas gerais nas biografias disponíveis,  inclusive na internet.  Mas não se pode deixar de frisar e repisar que a herança deixada, se não frutificou – e não frutificou mesmo, não digo apenas em Alagoas, mas no Brasil todo – é exemplar por seu espírito republicano, por sua integridade, por sua inteireza de límpida transparência na função de homem público.  Como sua escrita, diga-se. 
            Ricardo, p. 111:
            “Dois anos mais tarde, (...) ele me encontrou lendo direito comercial.  E veio me ensinando, muito pai que acha um jeito de confraternizar.  Indireto, mas educativo.  Foi minha vez de rir e perguntar:
            - Onde diabo você aprendeu isso?
            E ele, reflexivo, me respondeu:
            - Em 29 eu agüentei a crise, a prefeitura de Palmeira e você.
            Fora o ano em que nasci.  Acidente, mas contornável.  Tanto que seguiu, concluindo:
            - Se não soubesse um pouco de direito comercial, de escrituração, eu tinha falido.  Mas não, sobrevivi.  Porque não mandei fazer por mim.”
 
            Os relatórios do prefeito Graciliano foram incluídos no volume Viventes das alagoas, mas podem ser acessados na internet no site da excelente Revista de História. Para o Relatório de 1929: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/conteudo-complementar/relatorio-da-prefeitura-municipal-de-palmeira-dos-indios-1929

 

Para quem não os conhece, não resisto e adianto alguns trechos.  Do relatório referente a 1929, veja-se a abertura, na qual a “capilaridade”  do poder é absolutamente perversa, por remeter sempre, inexoravelmente, ao pretenso “poder absoluto” de cada um.  É a situação, familiar para  nós brasileiros, de que o guarda da esquina tem mais poder que um juiz, na medida em que ele, o guarda, é o juiz.  O que se contrapõe a isso, que se reforça com a famosa “falta de vontade política” de quem poderia mudar tal situação, é a conformidade com os “desígnios do Senhor”.  Leia-se:

“COMEÇOS

O principal, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração.
Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante de Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Para que tal anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensava uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se a administração do Município é boa ou ruim.
Talvez pudesse ser pior."

             Ainda no mesmo relatório, a inevitável necessidade de ter que indispor-se com todo o sistema da cordialidade brasileira, que Sérgio B. de Holanda formulou e explicou como funciona, partindo do sentido etimológico: é relativa ao coração, como sede dos afetos (bons e maus), e é herança da sociedade patriarcal, pré-moderna,  opondo-se ao domínio do racional e do impessoal próprio das relações modernas. A cordialidade faz com que a lei seja secundária, relativa, flexível e  frouxa, valendo o princípio das relações estabelecidas com aqueles aos quais cabem empregá-la, não com ela propriamente.  Leva a lei ao ponto certo, emprega-a de maneira a não favorecer os que dela se beneficiam ou burlam?  A “amizade” torna-se de súbito inimizade, dessa vez sem aspas. É o que temos na conclusão do primeiro relatório:

 

CONCLUSÃO
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.
Não me entendi com esses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisas tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.


 

            Voltando à p. 33 do Retrato fragmentado, conta o narrador, como um  exemplo perfeito do que expus acima:

            “Às vezes eram lembranças que ficariam inéditas:
            - Logo que cheguei à prefeitura, proibi animais soltos na cidade.  Palmeira era um pasto de bois, cavalos, porcos e cabras, uma sujeira grossa. Na primeira infração, o dono pagava multa; se reincidisse, os bichos iam a leilão.  Foi aquele escarcéu.  Eu agüentei firme, praça pública não é fazenda de ninguém.  A maioria meteu o rabo entre as pernas, diminuiu muito a invasão, mas não terminou. Muritiba chegava todo santo dia com o maço de multas.  Uma ocasião ficou-me rondando, meio sem jeito. ‘Que aconteceu, homem?’ Ele me informou que achara umas vacas de meu pai, juntas das amigas, zanzando à toa.  ‘E você?’ Respondeu: ‘Não fiz nada não.’  Emntão eu mandei: ‘Pois faça, lavre a multa.  Prefeito não tem pai.’  Dito e feito.   Eu paguei a multa, peguei o recibo, de noite falei com seu Sebastião: ‘Olhe aqui, veja, hoje encontramos umas vacas suas fazendo footing.  Se mandasse lhe entregar a multa, o senhor tinha um ataque do coração.  Por isso eu mesmo paguei.’ O velho impou, estourou esbravejando, suviu nas tamancas.  E terminou me devolvendo o dinheiro.  Depois, a vaca dele nunca mais visitou o centro.” 

 
            Não há frase mais exemplar da anticordialidade, do espírito certeiro capaz de diferenciar o público do privado (diferenciação cuja falta assombra mais e mais este país torto na entrada do terceiro milênio) do que “Prefeito não tem pai.”.  Uma lição assombrosa, se pensarmos em Alagoas 1929,  de modernidade.  A seco. Precisa. A retórica da anti-retórica, remédio  contra a verborragia que nos assola ainda hoje.  E em Graciliano todo este arsenal extraordinário de linguagem é posto sempre a serviço do diagnóstico preciso de nossas mazelas, das necessidades de superarmos os incríveis déficits que ainda hoje trazemos enquanto nação.   Veja-se a passagem a seguir do 2º. Relatório:

 
"MIUDEZAS
Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microscópio.
Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo Município.
Agora mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem. Ou as obras públicas de Palmeira dos Índios são pagas pelo Estado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei."
 
        A situação absurda de não crer em nossa própria capacidade de realizar obras de cidadania, ações que nos dignifiquem enquanto povo, sociedade, ou como se queira chamar, é outro traço persistente em nosso “complexo de vira-latas” (que parece estar sempre à espreita, quando pensamos tê-lo superado), na forma de uma  idéia insistente de que nunca poderemos estar à altura de nós mesmos.  Graciliano é também desde aquela época o contra-exemplo perfeito disso – e a consciência de ser esse contra-exemplo.  Afinal, valha aqui o truísmo, é ele o autor da extraordinária obra que deixou, onde, bem observados, esses traços comparecem em tempo integral.

De modo a encerrar aqui  esses rabiscos, remeto ao poema que Murilo Mendes lhe dedicou, dez anos depois de sua morte, e publicou no seu livro de 1970, Convergência:

           
Murilo Mendes


MURILOGRAMA  A GRACILIANO RAMOS

                                              

1

Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,

Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,

Desacontece, desquer.

2

Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro

Nenhuma voluta inútil,
Rejeita qualquer lirismo.

Tachando a flor de feroz.

3

Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,

Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
 
Ao limite irrespirável.

4

Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
 
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR

Que desintegrado explode.

 

 

Pessoa não identificada, Graciliano, Neruda, Portinari e Jorge Amado
 

 
Ricardo Ramos.  Retrato fragmentado. Siciliano, 1992.
Vinícius de Moraes. Poesia completa e prosa. Nova  Aguilar, 1987.
João Cabral de Melo Neto. Obra completa. Nova Aguilar, 1994.
Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1994.
 
 

domingo, 28 de abril de 2013

HART CRANE E VINÍCIUS DE MORAES


MEDUSA

“Caia comigo
Nas estrelas frígidas
Caia comigo
Na luz do delírio
Mergulhe
Onde não há canção
Salvo as cãs dos ventos velhos.

Siga-me
Até o fim,
Até o caos estonteante
O eterno caos fervente
Dos meus cabelos!

Contemple a sua amante, −
Pedra!”

            Tradução de Augusto de Campos

Ilustração de Talarico


  
MEDUSA

“Fall with me
Through the frigid stars:
Faal with me
Through the raving light:
Sink
Where is no song
But only the white hair of aged winds.

Follow
Into utterness,
Into dizzying chaos,
The eternal boiling chaos
Of my locks!

Behold thy lover,
Stone!”

Augusto de Campos. Poesia da recusa. Perspectiva, 2006. 


            Hart Crane nasceu em 1899 em Ohio.  Em 1932 atira-se de um navio na costa americana, quando voltava de uma viagem ao México, dando fim a uma vida marcada por conflitos com a sua homossexualidade e pelo alcoolismo.  Em 1953, Vinícius de Moraes dedica-lhe o belo poema a seguir:


O POETA HART CRANE SUICIDA-SE NO MAR

Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto...)
Que te disse a Poesia?


Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia...)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À idéia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?

De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?

Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?

Vinícius de Moraes. Poesia completa e prosa. 1987.







domingo, 14 de abril de 2013

UMA BALADA DE VINÍCIUS

BALADA DO MORTO-VIVO

Tatiana, hoje vou contar
O caso do Inglês espírito
Ou melhor: do morto-vivo.

Diz que mesmo sucedeu
E a dona protagonista
Se quiser pode ser vista
No hospício mais relativo
Ao sítio onde isso se deu.

Diz também que é muito raro
Que por mais cético o ouvinte
Não passe uma noite em claro:
Sendo assim, por conseguinte
Se quiser diga que eu paro.

Se achar que é mentira minha
Olhe só para essa pele
Feito pele-de-galinha...

Dou início: foi nos faustos
Da borracha do amazonas.
Às margens do Rio Negro
Sobre uma balsa habitável
Um dia um casal surgiu
Ela chamada Lunalva
Formosa mulher-de-cor
Ele por alcunha Bill
Um inglês comercial
Agente da “Rubber Co.”

Mas o fato é que talvez
Por ter nascido na Escócia
E ser portanto escocês
Ninguém de Bill o chamava
Com exceção de Lunalva
Mas simplesmente de Inglês.

Toda manhã que Deus dava
Lunalva com muito amor
Fazia um café bem quente
Depois o Inglês acordava
E o homem saía contente
Fumegando o seu cachimbo
Na sua lancha a vapor.

Toda manhã que Deus dava.


Foto de Renato Rizzaro

Somente com o sol-das-almas
O Inglês à casa voltava.

Que coisa engraçada: espia
Como só de pensar nisso
Meu cabelo se arrepia...

Um dia o Inglês não voltou.

A janta posta, Lunalva
Até o cerne da noite
Em pé na porta esperou.

Uma eu lhe digo, Tatiana:
A lua tinha enloucado
Nesse dia da semana...
Era uma lua tão alva
Era uma lua tão fria
Que até mais frio fazia
No coração de Lunalva.
No rio negroluzente
As árvores balouçantes
Pareciam que falavam
Com seus ramos tateantes
Tatiana, do incidente.

Um constante balbucio
Como o de alguém muito em mágoa
Parecia vir do rio.

Lunalva, num desvario
Não tirava os olhos da água.

Às vezes, dos igapós
Subi8a o berro animal
De algum jacaré feroz
Praticando o amor carnal
Depois saía o silêncio...

E então voltava o cochicho
Da floresta, entrecortado
Pelo rir mal-assombrado
De algum mocho excomungado
Ou pelo uivo de algum bicho.
Na porta, luzcancarada
Só Lunalva, lunalvada.

Súbito, ó Deus justiceiro!
Que é esse estranho ruído?
Que é esse escuro rumor?
Será um sapo-ferreiro
Ou é o moço meu marido
Na sua lancha a vapor?

Na treva sonda Lunalva...
Graças, meu pai! Graças mil!
Aquele vulto... era o Bill
A lancha...  era a Arimedalva!

“ – Ah, meu senhor, que desejo
De rever-te em casa em paz...
Que frio que está teu beijo!
Que pálido, amor, que estás!”

Efetivamente o Bill
Talvez devido à friagem
Que crepitava do rio
Voltara dessa viagem
Muito branco e muito frio.

“ – Tenho nada, minha nega
Senão fome e amor ardente
Dá-me um trago de aguardente
Traz o pão, passa a manteiga!
E aproveitando do ensejo
Apaga esse lampião
Estou morrendo de desejo0
Amemos na escuridão!”

Embora estranhando um pouco
A atitude do marido
Lunalva tira o vestido
Semilouca de paixão.

Tatiana, naquele instante
Deitada naquela cama
Lunalva se surpreendeu
Não foi mulher, foi amante
Agiu que nem mulher-dama
Tudo o que tinha lhe deu.

No outro dia, manhãzinha
Acordando estremunhada
Lunalva soltou risada
Ao ver que não estava o Bill.

Muito Lunalva se riu
Vendo a mesa por tirar.

Indo se mirar no espelho
Lunalva mal pôde andar
De fraqueza no joelho.

E que olhos pisados tinha!

Não rias, pobre Lunalva
Não rias, morena flor
Que a tua agora alegria
Traz a semente do horror!

Eis senão quando, no rio
Um barulho de motor.

À porta Lunalva voa
A tempo de ver chegando
Um bando de montarias
E uns cabras dentro remando
Tudo isso acompanhando
A lancha a vapor do Bill
Com um corpo estirado à proa.

Tatiana, põe só a mão:
Escuta como dispara
De medo o meu coração.

Em frente da balsa pára
A lancha com o corpo em cima
Os caboclos se descobrem
Lunalva que se aproxima
Levanta o pano, olha a cara
E dá um medonho grito.

“ – Meu Deus, o meu Bill morreu!
Por favor, me diga, mestre
O que foi que aconteceu?”
E o mestre contou contado
O Inglês caíra no rio
Tinha morrido afogado.

Quando foi?... ontem de tarde.

Diz – que ninguém esqueceu
A gargalhada de louca
Que a pobre Lunalva deu.

Isso não é tudo, Tatiana:
Ao cabo de nove luas
Um filho varão nasceu.

O filho que ela pariu
Diz-que, Tatiana, diz-que era
A cara escrita do Bill:

A cara escrita e escarrada...

Diz-que até hoje se escuta
O riso da louca insana
No hospício, de madrugada.

É o que lhe digo, Tatiana...




Vinícius de Moraes.  Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1987.




(foto do igapó no blog http://renatorizzaro.blogspot.com.br)