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segunda-feira, 17 de abril de 2017

MADAME MALDADE VOLTA A ATACAR... POR ENQUANTO!




         E eis que de repente, sob a batuta do baterista Victor Bertrami, o grande cantor Renato Braz, o contrabaixista Alex Rocha e também o flautista e saxofonista Marcelo Martins se transformam em batedores de panelas e vão dar força na apresentação de “Madame Maldade”, samba com letra minha que tive a honra de ver musicada pelo amigo, parceiro e  supercompositor (supercancionista, diria Tatit) Fred Martins!  A performance aconteceu em outubro de 2015 no Teatro da UFF, nos dois concertos  que Fred – que mora atualmente em Lisboa e vem desenvolvendo de lá uma carreira das mais consistentes no cenário da canção brasileira – apresentou aqui,  com vistas à gravação de um DVD com uma suma de seu trabalho e algumas canções novas.
         Pois o DVD está pronto e lançado, A música é meu país, numa co-produção do Canal Brasil e Sete Sóis Produções Artísticas, um produto esmeradíssimo:  além da habitual competência de Fred como músico e arranjador, o time reúne uma nata de músicos, pessoal de primeiríssima linha, tendo ainda as participações especiais do canto de  Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Livia Nestrovski (com a guitarra de Fred Ferreira), além do já citado Renato Braz.  Em gravações de estúdio feitas em  Lisboa e Santiago de Compostela há ainda as participações da portuguesa Cristina Águas e da caboverdeana Nancy Vieira.  Todos são intérpretes que já incorporaram canções do repertório de Fred aos seus próprios.   E o repertório de Fred... bem, a cada vez que aprontamos uma canção, eu e ele, sinto-me como que pedindo licença para pisar num terreno muito elevado, onde, no topo, se situa Marcelo Diniz, seu principal parceiro e grande poeta carioca, além de outros craques em adivinhar as palavras que ocultam em suas entranhas melodias ou em destas extrair as palavras para fora de seu “estado de dicionário”. Muito bons são também Manoel Gomes, Fred Girauta e Alexandre Lemos, além de um eventual Francisco Bosco ou outros mais eventuais ainda.  Me sinto sempre engrandecido ao ser aceito na confraria. 


         A personagem fala por si só. “Madame Maldade” nasceu, como se deduz facilmente, das manifestações antipetistas, antidilmistas e antilulistas que assomaram histericamente às janelas e varandas em especial dos bairros de classe média das grandes cidades do país, fazendo de fundo sonoro a quaisquer pronunciamentos, entrevistas ou programas do governo a partir de 2013, além de estridularem nas ridículas passeatas verdamarelas e merdavarelas que tomaram de assalto – um assalto permitido, com a complacência policial, afinal um assalto de “gente bem” – o cenário político entre nós desde então.  Fiz a letra pensando na melodia de um samba buliçoso, cheio de quebradas, como acabou sendo captado e soberbamente posto em canção por Fred.  Claro, minha melodia não é a que ficou – nem eu teria competência para isso, imagine – mas a letra indicava em suas pausas e fonemas algo que a indiciava.  Sem contar que, como é bom não apenas com acordes, notas e compassos, Fred também o é nos truques do jogo verbal – as poucas canções com letra própria que lançou o provam com sobras - , em alguns passos ele superou o que eu havia entregue escrito e achou caminhos mais bem resolvidos para a melodia que compôs: emendas melhores que o soneto.



Eis a letra como ficou:

"Madame Maldade chegou na janela
Do apartamento
Deu aquela inspecionada
Ali no movimento
Foi até bater  panela
Gritou palavrão

Madame Maldade ai que saudade que sente
Do tempo em que tinha
O maior respeito
Das empregadinhas
De uniforme engomado
Ostentando co’orgulho
O brasão do patrão

Madame Maldade hoje pensa consigo
Na grande injustiça
De ir se virando
Que nem no pão a lingüiça
E nunca mais Miami
Uma vez por mês
Enquanto em Inhaúma a Conceição folgada
Pega o celular
E com uma só ligada
Manda entregar
Lasanha
Picanha
Cerveja gelada  [costela no bafo]
E frango xadrez

Madame então se queixa
Não há nenhum respeito
Que já não se distingue  o avesso
E o direito
E que a  gente de bem descolada e distinta
Pode hoje em dia valer o mesmo que vale
Qualquer marginal

Vai dando faniquito
Não gosta nada disso
E diz que desde quando o elevador de serviço
Deixou de ser usado começou o enguiço
E todo mundo sobe pelo Social

Madame Maldade chegou na janela
Do apartamento
Deu aquela inspecionada
Ali no movimento
Foi até bater  panela
Gritou palavrão

Madame Maldade postou no feicebuque
Seu descontentamento
Vestiu verdeamarelo
Beijou o regimento
De tão descolada
Tirou até selfie
Com o capitão

Madame não duvida
Do jeito que anda a vida
Só vai ter delivery pra essa gente fedida
Pedir bolsa-família, clínico cubano
Madame nem morta
há de se conformar que é daí pra
pior

Madame não se entrega
Não quer dar de  bandeja
E guarda a sete chaves toda a prataria
Não pensa fazer nunca o que a tal Baronesa
Fez com a sopeira que deu pra avó
Do Benjor" 

         Duas coisinhas mais:  Marcelo Diniz, com muito humor, observou que se trata – talvez caso inédito! – de um “samba com nota de pé de página”, haja vista a referência um tanto cifrada à “avó do Benjor” que surge ao final.  As pessoas em geral perguntam que diabo é isso, o que faz com que a coisa termine meio em anticlímax.  Gosto do anticlímax e não vou contar aqui o que está escondido ali não.  Mas em tempos de Google é só dar uma buscada básica que se chega lá.

         Outra:  Madame Maldade  atuou ainda como colunista na página de humor Depobre News, no Facebook,capitaneada pelo amigo e ótimo poeta carioca André Sampaio.  Durante alguns poucos meses tive competência suficiente para incorporar o espírito de Madame e colaborar com a página, o que começou na semana da Páscoa de 2016, quando a coluna estreou.  E contei ainda com o fato de que o italiano Giovanni Boldini (1842-1931) também incorporou o espírito de Madame e a retratou, com quase um século de antecedência (cf. ilustração).   E pra encerrar pinço lá na página e posto aqui uma “boutade” (oh palavrinha para homenageá-la!) de Madame há um ano, quando ela comemorava a sessão da Câmara que votou pelo impeachment da presidente legitimamente eleita e deu início ao golpe em curso no país: “Pela minha sopeira de Limoges... eu voto SIM! (...) Agora é botar o país de novo nos eixos, não é mesmo, gente? Não vamos perder o foco. A começar pela educação. Mas uma educação que não fique querendo convencer as crianças de que a vocação delas é o gayzismo, que todos devem se esforçar só pra ganhar bolsa-família e passar a vida sem trabalhar, de que não devem temer a Deus, que a gentalha deve ter privilégios... essas coisas que a cartilha lulopetista quis impingir nos nossos jovens! Muita moral e cívica, isso sim! Quem sabe, não podemos inclusive retomar as diretrizes eugenistas que tanta falta nos fazem? Afinal, já sabia o Conde Gobineau, à sombra fresca das mangueiras erguidas , em suas promenades com Pedro II (que, aliás, virou um colégio infestado de esquerdistas!) que esse excesso de democracia de que padecemos é fruto último da miscigenação... mas quem lê Gobineau hoje em dia? Seria ótimo, pra começar."


         

        Em face dos últimos, penúltimos e antepenúltimos acontecimentos... bem,  parece que  Madame Maldade levou essa... está vitoriosa.  Mas na verdade tudo indica que não vai nem desfrutar muito os frutos fedidos de sua vitória não.  A ver.  Pode ser que ela retorne ainda, quem sabe, para reiterar suas queixas numa outra canção. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

"CEGA DE SAUDADE": UMA PARCERIA NO NOVO CD DE PAULINHO LÊMOS






         Amigo  querido de longa data, Paulinho Lêmos músico e cancionista – para usar o termo criado por Luiz Tatit para designar o fazedor de canções – de primeira, há muitos anos está radicado na Europa, de onde volta e meia nos alegra com trabalhos excepcionais e eventuais visitas ao Rio, onde costuma se apresentar.

          Pois ele vem de lançar um ótimo CD, todo de voz e violão, chamado Outra dimensão, no qual há uma parceria nossa, “Cega de saudade”, uma meio que toada quase caipira, de costura melódica delicada e meticulosa.  No CD há preciosidades compostas por Paulinho com seus parceiros habituais, como o ótimo Rogério Batalha, além de Moacyr Luz, Agenor de Oliveira e outros mais.   O CD está disponível para ser adquirido online (em Bandcamp, e também em   Apple Music, Amazon, CdBaby, Spotify, Google play, etc.), além de haver uma tiragem limitada em vinil a sair no fim deste mês de junho.

          Eis a letra da nossa CEGA DE SAUDADE





Ela me olha no olho
acho que cheia de mim
eu bem que tento e não vejo
nem sombra de ser feliz
ali

Se bem que não tou ali
onde ela atenta me fita
também nela não me vejo
quando  sorrindo me diz
ah, sim

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

De dentro do seu retrato
sorri tão cheia de si
ela me tira do sério
quando me chega  chorando
infeliz

 Com a minha falta de tato
penso que ela tá de fita
claro que não, que mau-trato
pois já me disse  e eu não
ouvi

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim 

Lhe compro os olhos da cara
para que olhem pra mim
retoco no photoshop
me desarranco do siso
é o fim

sentir  como é que me sinto
pensar se pensou em mim
saber que é só vaidade
dizer chega de saudade
e ouvir

 que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

 A seguir o link para o CD Outra dimensão no Bandcamp de Paulinho Lêmoshttp://paulinholemos.bandcamp.com/releases

 

 
 

domingo, 7 de junho de 2015

ROGÉRIO BATALHA: DOIS POEMAS E UMA CANÇÃO


MIRRA E MERDA

 
negroazul
do cós
ao cu

rapsodo
de nós
todos
 
exposto
(cara a cara)
entre a pelúcia
e a piaçava

costurar
mirra
e merda
é o que mais me interessa.

 

PROVAR

sentar
na tinta fresca
provar
inóspitas belezas

 

                            Rogério Batalha. Inventário.  RJ: TextoTerritório, 2014.
 
 
 
 
 
 
 

ALIÁS

 
(Paulinho Lêmos – Rogério Batalha)

Então escapar
do absurdo vendaval
Como meliante ou retirante nau
Depois juntar
os farelos da ilusão,
os apelos do coração
E se atirar novamente ao mar...
Se o medo não tem esperança
No fundo, quem é que pode mais?
Se De La Mancha bordou com sua lança
devaneios imortais...
É, quem foi que disse
que de nada adianta
debater-se sobre mares irreais?
Se afinal de contas
Desvarios à boca
Já alimentaram um cais, aliás.

 

 

sábado, 7 de março de 2015

OS PRESENTES: AH, UM SONETO... DE ADRIANO NUNES E UMA CANÇÃO DE PAULINHO LÊMOS

(edição especial de aniversário)

             Cada ano que comemoramos ao perdê-lo traz como uma de suas compensações os presentes com que os que gostam da gente nos regalam.  Assim, tendo comemorado meus 59 (ou 69 menos 10), nesse último dia 3 ganhei, entre outros presentes adoráveis, alguns muito especiais,  porque feitos por quem os ofereceu.   Vejam só que maravilhas:

 
Presente 1: O soneto em versos hendecassílabos de Adriano Nunes; do poeta, aliás, recomendo mais uma vez o seu excelente blog

http://astripasdoverso.blogspot.com.br/

"No infinito do que dito pode ainda"

Sobre o branco que se expande logo cedo,
 Sob um incognoscível céu que se finca
 No infinito do que dito pode ainda
 Ser sobre o que pode ser de qualquer jeito,

Nasce um soneto para o amigo Roberto,
 Com onze soltas sílabas, pra que diga
 Ao poeta, no seu dia, quão antiga
 Nossa amizade, desde Troia, decerto
 
É. Com imenso prazer, canto a cantiga
 Da existência, do que comemora o estreito
 Laço que em nós cria a alegria e interliga

Verso a verso, o que não pode ser desfeito, 

 Como um contrato no qual o amor assina
 E deixa a sua irreconhecível firma.



O poeta Adriano Nunes



Com Paulinho Lêmos



 Presente 2: do amigo Paulinho Lemos, cancionista de primeira, há muitos anos radicado na Espanha (mais especificamente em Barcelona), recebi a preciosa melodia com que ele tratou um poema que anteriormente eu havia publicado aqui mesmo no Firma, em 5 de agosto de 2011:

http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2011/08/noite-obliqua.html

Abaixo o poema e o link para o áudio da canção no youtube.


A noite oblíqua

 
Nem sonho nem vigília
serena inquietação
pelo que se quer
e não pode
ser a não ser
pleno agora
palma de mão
ilharga
pele macia
aos dedos os mamilos
sereno dentro e fora
o dia que não tarda
sobre os flancos da garoa
ilha redoma nicho
rede cama ninho
trama a iludir o sono
urdida pela saudade
fina linha de carinho
a hora de se ir já chega
à noite se achega
a manhã
devagarinho.
 

terça-feira, 16 de julho de 2013

José Afonso - Epígrafe Para a Arte de Furtar


Abaixo, a melodia de Zeca Afonso para o poema "Epígrafe para a arte de furtar", de Jorge de Sena, postagem anterior a esta.  O poema foi publicado no livro Fidelidade, de 1952, na  ditadura salazarista; o disco de José Afonso é de 1970, na ditadura de Marcelo Caetano, herdeiro de Salazar.





JORGE DE SENA

Ilustração de Talarico
 



EPÍGRAFE PARA A ARTE DE FURTAR

 

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
- quem cantarei?
 
roubam-me a Pátria;
e A Humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu desejo:
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!

 

 

In: Jorge de Sena: Ressonâncias e Cinquenta poemas. (introd. e org. Gilda Santos). RJ: 7 Letras, 2006

 
 
    Em seu disco de 1970, Traz outro amigo também, o compositor português José Afonso (Zeca Afonso) gravou a canção que fez ao musicar o poema de Sena, ainda sob a ditadura de Marcelo Caetano, herdeiro de Salazar.  No link abaixo, a gravação do citado disco.
 
 
 
 

terça-feira, 12 de março de 2013

AU AU PRA LUA

http://ninonavarro.bandcamp.com/track/au-au-pra-lua



Alto e contínuo
alta madrugada
ouve o menino
um uivo pra Lua
alta lá no céu
a alva Lua
abana a cauda
pros cães da rua
cantarem em coral
au au au
au au pra Lua
au au
pra Lua...


Ilustração de Talarico

          Esta canção, cantada por Nino Navarro (clique no link acima, leitor) , foi composta há uns trinta anos.  Feita para uma peça musical infantil, a  letra é de minha autoria e a melodia, de Fatima Lannes.  Nino está lançando agora seu segundo CD, Guanabara City, disponibilizado na internet (pelo link acima se vai ao todo do trabalho). O CD pode ser baixado completo, incluindo o encarte e as letras das músicas, e o preço é estipulado por quem baixar..  Passo a palavra ao próprio Nino:

O esquema é o seguinte: você paga quanto você quiser (incluindo não pagar nada). O bandcamp é um site americano e o preço do Cd está em dólar. Você pode pagar com cartão de crédito via paypal. O cd inteiro foi todo custeado por mim e, assim, ele é completamente independente de qualquer selo, gravadora ou patrocinador. Assim, o dinheiro da venda vem diretamente para mim, com uma pequena porcentagem para o bandcamp e para o paypal, simplesmente pelo serviço da venda. Não há nenhuma ligação com os direitos autorais da obra.

Atenção: sinta-se livre para pagar ou não. É só ir no link do "Digital Album", depois "Buy Now" (tem escrito "name your price" - isto é, diga o seu preço") e ali você coloca o valor em dólar, como eu expliquei. Se você quiser baixar de graça, basta colocar 0 e é isso!

Atenção: esta é a versão digital do álbum. O "Cd Físico" será lançado só mais para frente, provavelmente em abril.”


            Há ainda uma parceria minha com Nino no CD, a faixa “Antonio Biá”, poema do meu livro Firma irreconhecível, que inclusive já postei aqui http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2011/03/antonio-bia.html
 Nino fez o recorte que quis na letra ao musicá-la.  À exceção ainda de uma parceria dele com Marcelo Diniz, todas as demais canções são  de autoria do próprio Nino.   É um trabalho todo de excelente qualidade, o que me deixa muito à vontade para, além de tudo,  dizer que  Nino é meu filho mais velho, com Fatima Lannes, minha parceira em “Au au pra Lua”. Convido os leitores ouvintes.
            



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Entrevista de Paulinho da Viola a Roberto Bozzetti na RBEC


Está online o 3º. número da RBEC – Revista Brasileira de Estudos da Canção, publicação online semestral dirigida pelo professor Lauro Meller da UFRN, e cujo corpo editorial tenho a satisfação de integrar. Este número traz uma entrevista que fiz com Paulinho da Viola em 2005 (defendi minha tese de doutorado sobre sua obra na UFF no começo do ano seguinte), à qual dei o título de “O Universo, ou o Infinito, desde o samba”.
Há ainda neste número artigos de diversos estudiosos dedicados a Tom Zé, música cabo-verdeana, Gilberto Gil, Iron Maiden, Pink Floyd, e outras preciosidades mais.  Vai o link para a revista, boa leitura!
http://www.rbec.ect.ufrn.br/index.php/RBEC,_n.3,_jan-jun_2013

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DOIS MULATOS BAIANOS NÃO ALINHADOS: MARIGHELLA E CAETANO



UM COMUNISTA

Um mulato baiano,
muito alto e mulato
filho de um italiano
e de uma preta hauçá

foi aprendendo a ler
olhando o mundo à volta
e prestando atenção
no que não estava a vista

Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
que morreu em São Paulo
baleado por homens
do poder militar

nas feições que ganhou
em solo americano
a dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano,
minimanual
do guerrilheiro urbano
que foi preso por Vargas

depois por Magalhães
por fim, pelos milicos
sempre foi perseguido
nas minúcias das pistas

como são os comunistas

Não que os seus inimigos
estivessem lutando
contra as nações terror
que o comunismo urdia

mas por vãos interesses
de poder e dinheiro
quase sempre por menos
quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
eu estava no exílio
e mandei um recado:
"eu que tinha morrido"

e que ele estava vivo,
mas ninguém entendia
vida sem utopia
não entendo que exista

Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
segue trágica, sempre
indecodificável
tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
o samba o reverencia
muito embora não creia
em violência e guerrilha

Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
multidões apodrecem
há um abismo entre homens
e homens, o horror

Quem e como fará
com que a terra se acenda?
e  desate seus nós
discutindo-se Clara

Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano
 já não obedecia
às ordens de interesse
que vinham de Moscou

era luta romântica
era luz e era treva
feita de maravilha,
de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas!

Carlos Marighella 

 
Ouvindo pela primeira vez “Um comunista’, faixa do mais novo CD de Caetano Veloso me deparo de saída  com esta belíssima gênese: “Foi aprendendo a ler/olhando o mundo à volta/e prestando atenção/no que não estava à vista/assim nasce um comunista”, gênese que sempre se poderá argumentar que não precisa ser necessariamente a de um comunista mas de qualquer um com impulso  de compreensão humanista do mundo e anseio de justiça social, OK.  Mas  faz todo o sentido que Caetano se refira  na letra a Carlos Marighella, comunista não-alinhado a Moscou, expulso do PCB e morto pela repressão policial-militar em São Paulo em fins de 1969, homenageado na canção.  Sob o impacto hoje da morte de outro grande comunista, este sempre alinhado, Oscar Niemeyer, chego a me emocionar quando leio, algumas estrofes abaixo “O baiano morreu/eu estava no exílio/e mandei um recado:/’eu que tinha morrido’/e que ele estava vivo/mas ninguém entendia”, porque, entre outras coisas em 1969 eu li esse texto n’O Pasquim e, obviamente, também não entendi a referência, embora me encantasse, sim, e creio que para sempre,  com as imagens desoladas da prosa de Caetano.  Emociono-me com a memória, não sei bem precisar esta emoção. Eu tinha na ocasião apenas 13 anos, estava me exercitando em prestar atenção no que não estava à vista, e se O Pasquim estava, se era vendido nas bancas de revista  e fazia grande estardalhaço, em boa medida era porque ali sabíamos que se falava de coisas que absolutamente também não estavam á vista.  Éramos poucos, talvez?  Preparávamo-nos para sermos comunistas, como a direita pensava – e pensa sempre? Éramos jovens com anseios de justiça social e liberdade?  Hoje já não sou mais jovem, mas a imagem de Caetano vai na mosca: sigo querendo prestar atenção no que não está à vista. E recomendo o mesmo a todos, aos jovens, meus filhos incluídos.
Mas tergiverso.  A ideia desta postagem  é  sobretudo informação.  Assim, vou transcrever na íntegra o texto de Caetano, publicado originalmente na edição d’O Pasquim de 27/11 a 02/12/1969.  Confiro no Google que Marighella foi morto no começo de novembro de 1969.  Eis  texto de Caetano, referido na canção, que hoje está no volume organizado por Eucanaã Ferraz, O mundo não é chato, da Companhia das Letras, 2005:

Hoje quando eu acordei

            Hoje quando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais feia que eu já vi na minha vida.  Essa coisa era a minha própria cara. Eu sou um sujeito famoso no Brasil, muita gente me conhece.  Eu acredito que a maneira pela qual esse conhecimento se dá pode dizer muito a mim mesmo sobre mim.  Acho que uma capa de revista pode ser como um espelho para um homem famoso.  Quando um homem vê a sua cara no espelho ele vê objetivamente em que estado a vida o deixou.
            O videoteipe, a fotografia colorida e as manchetes que incluem o nome de um homem famoso são também assim como o espelho.  Durante todo o tempo em que eu estive trabalhando com música popular no Brasil, eu sempre levei em conta esse fato.  E eu pensava que estava fazendo alguma coisa, pois a imagem que me era devolvida era a de alguém vivo, em movimento, passando realmente por entre as coisas.
            Hoje eu fui à aula de inglês e Mr. Lee me ensinou a usar direct speech  em lugar de reported speech.  Depois da aula King’s Road estava uma beleza sob uma chuva fria e crônica.  Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar.  Mas eu não estou aqui e não tenho nada com isso.
            Estou andando como os homens, com meus dois pés.  Não penso em fazer nada.  Alguém entende o que seja isso?
            O cara que vende cigarro no Picasso fala espanhol. Na janela da casa onde eu estou morando tem uns gerânios que já estão secando por causa do outono.  Meu coração está cheio de um ódio opaco.  As crianças inglesas são belas e agressivas.  A Rainha Elizabeth está pedindo aumento de salário.  Eu não dependo disso tudo.  Nada disso depende de mim.  O aspirador não serve para limpar as cortinas porque é muito pesado.  Aqui em casa.  O Rei esteve ontem aqui em casa e eu chorei muito.  Se você quiser saber quem eu sou eu posso lhe dizer; entre no meu carro, na estrada de Santos, você vai me conhecer.
            Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso.  Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu.  Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço pra esses caras.  Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar.  Mas virão outros.  Nós estamos mortos.
            Ele está mais vivo do que nós.”
 
          Que fale por si o texto, mas acrescento algumas notinhas, apenas como adendos informativos, sem querer avançar em interpretações.  Reponta a referência a João Cabral, decisiva influência no Caetano pré-tropicalista e que volta e meia marca presença em sua poética ainda hoje.  No caso, a referência é vigorosa e se faz pela  afirmação da vida, superando os signos  da morte: a imagem de “alguém vivo realmente passando entre as coisas”  é a imagem da  “espessura da vida” n’ “O cão sem plumas”, as afirmações do movimento do rio, da espada, do cão, do homem, de quem se diz que se sabem vivos na medida em que “viver é ir entre o que vive”, assim como “uma ave que vai cada segundo conquistando seu voo”.  Outra curiosidade do texto é a frase “Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar”  que depois surgirá quase idêntica no inglês de “London London” (supondo estou, claro, que a canção seja posterior ao texto).  E finalmente a referência à visita que Roberto Carlos faz a Caetano em Londres, que depois será contada em Verdade tropical e em outras ocasiões:  é muito próprio de Caetano esse movimento desconcertante de deriva do texto; no caso aqui,  depois de se ater a aspectos e observações banais de sua vida no exílio londrino, inclusive a nota cômica de a Rainha estar pedindo aumento de salário, quando fala no Rei “aqui em casa”  quem  estaria seguro para saber que se trata do “Rei” Roberto Carlos, mesmo com a referência óbvia a “As curvas da estrada de Santos”, lançada  no disco daquele ano?  José Miguel Wisnik teve uma grande sacada ao designar como “oculto óbvio” esse traço de Caetano, muito presente em suas canções e atitudes no tropicalismo e imediatamente após, e que será mesmo tematizado em canções (“Não-identificado”, “A voz do morto”, “A voz do vivo” e de forma eloquente em “Um índio”).  O “oculto óbvio”, afinal, responde tanto pela referência ao baiano Marighella quanto ao fato de ninguém ter percebido a (óbvia) referência (oculta).  

Marighella morto em tocaia, novembro de 69.  A foto saiu na imprensa e é possível que seja a ela que Caetano se refere




            Nas suas memórias dos tempos do tropicalismo, Verdade tropical, lançado em  1997, é assim que Caetano situa todos os acontecimentos de que fala o texto e a letra da recente canção (ele fala em “nós”, referindo-se à dupla de exilados, ele e Gil):

            “Acompanhávamos de longe o que se passava no Brasil. Sem que eu estivesse certo do que poderia resultar de uma revolução armada, o heroísmo dos guerrilheiros como única resposta radical à perpetuação da ditadura merecia meu respeito assombrado. No fundo, nós sentíamos com eles uma identificação à distância, de caráter romântico, que nunca tínhamos sentido com a esquerda tradicional e o Partido Comunista.  Nós os víamos – e um pouco nos sentíamos – à esquerda da esquerda.  Quando mataram Marighella, o líder da guerrilha urbana, um baiano que pertencera ao Partido Comunista e que tinha a fama de ter respondido, quando estudante, às questões de uma prova de química em versos decassílabos rimados, coincidiu de publicarem as primeiras fotos que fizeram de nós no exílio na mesma capa de revista em que expunham a de Marighella morto.  Isso me pareceu doloroso. Eu enviava então, a pedido de Luís Carlos Maciel, artigos para o jornal O Pasquim, e, considerando o peso simbólicos da coincidência das duas imagens naquela capa de revista (a de maior tiragem do Brasil de então), escrevi um longo e amargurado texto que terminava  com a afirmação: ‘Nós estamos mortos; ele está mais vivo do que nós’.  Nem uma só pessoa no Brasil percebeu do que eu estava falando. Recebi muitas cartas tentando reconfortar-me pelo sofrimento de estar exilado e conversei com várias pessoas que passavam por Londres e por Paris: mesmo os que mencionavam a execução de Marighella e o meu artigo não relacionavam nem remotamente uma coisa à outra.  Fiquei espantado e isso meu deu uma espécie de medida da distância psicológica que nos separava dos que estavam vivendo no Brasil.  As notícias de ações terroristas causavam um misto de entusiasmo e apreensão.  Afinal, doces tocadores de violão saídos  dos lares da classe média não se sentem muito à vontade diante da perspectiva de violência.  Mas as trocas de embaixadores de países ricos por grupos de prisioneiros – com as agradáveis confirmações por parte dos sequestrados de que foram tratados com humanidade – apareciam como gloriosas vitórias daqueles que lutavam a boa luta da resistência.”

Caetano no exílio londrino

 
Só mais um "aliás": sobre Oscar Niemeyer, morto ontem, dediquei-lhe um poema, por ocasião de seus 100 anos, que publiquei em meu livro Firma irreconhecível, e que foi igualmente uma das primeiras postagens deste blog.  O leitor que quiser lê-lo pode acessar o link http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2010/12/oscar-niemeyer.html.