Mostrando postagens com marcador poema de Roberto Bozzetti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poema de Roberto Bozzetti. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de setembro de 2018


QUATRO CANTOS DO RIO AOS 21 ANOS


            Ainda não está totalmente claro, mas acho que vou reativar este blog, cuja última postagem tinha sido  feita no final de abril, com um poema em que homenageei uma amiga querida, que havia nos deixado há poucos dias.
         Caso eu resolva de fato voltar à atividade blogueira, penso que terei de fazer mudanças importantes quanto ao material postado (nenhum problema com qualidade, nada disso, principalmente das produções alheias, das quais muito me orgulho) e periodicidade.  Mais exatamente: tem mais a ver com as formas de postar.  Os próximos dias e as próximas postagens – ou sua ausência – definirão aos poucos esses caminhos.
         O que me levou a este retomar, por ora provisório, foi o fato de eu ter mais uma vez vasculhado meus arquivos, aquilo que durante muito tempo foi papel e que aos poucos foi virando arquivo de computador, e daí vai que acabei topando com o que era para ter sido meu primeiro livro editado, que nunca saiu,  Pouca vergonha, que seria lançado em 1982 ou 83, já nem sei bem. Já falei dele aqui, acho até que mais de uma vez, bem como já postei poemas que o integrariam, escritos quando eu tinha no geral 20 e poucos anos.
         E eis que me deparando de novo com esses textos, resolvi que cabe agora postar quatro deles de 1977, que têm a cidade do Rio como presença – explícita ou apenas sugerida.  Enfim, sem querer me estender mais, ei-los aí.

 

 

 

SÃO COSMIDAMIÃO





os restos dos dias
escorrem na pele
com o suor do rosto
se ganha suor

o espírito come o pão
que o diabo vende




RÉQUIEM


o dia amanheceu enforcado num poste da avenida
e os proscritos
                   pedra pedra pedra
rindo
de sua figura grotesca
                            balouçante
                   inerte

um sentimento carniceiro pousou
a rodear o cadáver

os pequenos marginais urbanos
                   pivetes
                   putas
                   gigolôs
                   assaltantes a mão armada
resolveram estender seus horários
de trabalho
                   - a vida
                   clamava por uma solução

está lá.  roxo.
não suave prenúncio de auroras
mas asfixiado.




VALSA DE UMA CIDADE


viver no Rio
         me deixou alguma beleza nas retinas

                            o ônibus célere entre manhãs
                                                        despindo
                            árvores, pardais
                            a mais no carinho do olhar
                            Praça Paris
                            memórias
                                        e mesmo
                            futuras esperanças

- paisagem útil, inútil paisagem -

vês?

                            impulso assassino, simples tique
                            de suicídio     a nuca entre arestas
                            estas mãos que não se decidem:
                                               plena oferta
                                                                  ou
                                               trêmula recusa
                            esta vertigem de becos celestes
                            um estertor premonitório o corpo
                            destrinchado por 4 rodas
                            - sensação de aguardar perícia

                            contraponto entre
                   fera e medo
viver no Rio.




(“É proibido o uso de aparelhos sonoros no interior deste veículo” - diz o aviso.  No entanto a transmissão clandestina se faz ouvir no rádio clandestino do poeta


Praça Paris


     ao sol da manhã
                        os mendigos
               os pombos

a mãe fala:
somos todos irmãos

o menino inventa:
 a palavra fratrifagia




                                                                  melhor desligar antes que o
                                                                  trocador descubra)

segunda-feira, 30 de abril de 2018

POEMA DOS FINS


(DILUÍDO DE AUGUSTO DE CAMPOS)
                                     

                              para Rosemary Granja


Diante do fim sempre a pergunta:
Com que fim
resvala o corpo ao ermo?

Silenciosos sós como pós
nós nos
vivemos na orla do cosmos

Por muitos átimos
intermitentes
vazios  entre orgasmos

habitamos - e nos olhamos
nas cismas
de almas a esmo

Os que aqui ficamos
nos abraçamos
como um fim em si mesmo.


Foto: Carolina Bezerra

sábado, 17 de março de 2018

46502




I


Tantos cadáveres empilhados
naquelas tais fotografias
doem
(sabê-los
dói)

Se você não resistir e mais uma vez voltar
atrás
não se transformará em manequim de sal
a aguardar o contato da agência internacional
nem perderá para sempre o seu amor
sorvido em trevas pelo melhor contrato publicitário
de vossas  vidas.
Se mais uma vez você não resistir
e voltar e olhar
pra trás
doerá de novo
ver as mesmas fotos com tantos cadáveres empilhados
como doeu
quando pela primeira vez você viu as fotos
de Treblinka e Auschwitz
quando o mundo pela primeira vez viu as fotos
de Treblinkla, Sobibor, Auschwitz
como dói a cada vez que voltamos a elas para as olharmos
(uma dor que chega a dar certo conforto
- e por isso  voltamos a elas?).
As fotos registraram e certamente ficarão aí para sempre
ao menos enquanto durar nosso sempre
que estamos descobrindo também perecível

- mas sem conforto o que dói
é que os cadáveres empilhados numa quase imperceptível diacronia
vão sendo apagados

nós também os vamos apagando
cada caso cada corpo cada rosto cada nome
cada circunstância de que já não sabemos
não lembramos
nem onde pusemos sua foto
(sabê-lo, sim
dói)







II


Não se empilham mais cadáveres como antigamente
embora pegue fogo a maré
embora haja fogo no alemão
os assassinos mandam recado claro
repercutido pelo corajoso pânico das vítimas potenciais
queremos que o bairro queime e que todo mundo
o mundo todo fique sabendo
como se lapidássemos um coletivo epitáfio

não existe amor no RJ
não existe amor em SP
ninguém mais morre de amor
no largo do Estácio

mas somos 46502
e muitos mais.














sexta-feira, 10 de novembro de 2017

TORQUATO: 9 E 10 DE NOVEMBRO

Pela porta de entrada
a mesma de saída
encalacrada
lacrada
escorpião em chamas
dos bueiros de Copa
para os lajedos de Teresina
uma imensa dívida
tenho contigo
Torquato,
teu eco
em mim ainda hoje
no meu torto caminho
de menos coragem
que a tua
e uma quietude
que anula o vigor
e de tanatos
lhe afrouxa a vigília
no país tanatizado
por lacraus ferozes
saindo à luz
dos subterrâneos
com halos
com auréolas
adornando-lhes
os ferrões,
parece
de novo
que a prova dos nove
não fecha.


domingo, 29 de outubro de 2017

O GATO METONÍMICO

                                        ou: Disiecta membra




cabeça de camundongo
de calango língua
pé de galinha
rabo de lagartixa
penas de sabiá
cambacica
juriti
carriça
carapaça de escaravelho
ao sol ressecada
pele de jararaca
escamas da sardinha roubada
à beira da vala me olha com olhos de rã
gourmet rigoroso
à sua maneira

o gato oferece
suas metonímias

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ABRINDO O VOLUME DA POESIA DE HILDA HILST

Eis que as coisas chegam a seu dia.

Abro os poemas de Hilda
de quem bem freqüento a prosa
e a picardia, ela
fingindo esgar desespero desdém estratégia orgia
e eu
lembrando  de uma obscura resenha que o  JB
– que julgávamos, nós na Zona Sul
do Rio, imortal, pétreo como o
Pão de Açúcar –
publicou em 1986 (ou 87?)
e que me deixou febril para escrevê-la
febril como seus personagens com seus olhos de cão
como a mãe de minha mulher que então convalescia em minha casa
no quarto ao lado onde eu lia e escrevia
febril entre pílulas, pélvis, pevides e os humores da Senhorita D
“D de derrelição, de abandono”
e eis que agora ao acaso abro  um mundo de versos entre
a epifania e o alucinógeno
ascese atravessada por visceral furor
a calhar para estes dias
e me digo

eis que o  dia chega às coisas que sempre aí estiveram
antes de serem criadas.


terça-feira, 25 de julho de 2017

PENÉLOPE



Fiou para mim uma história longa
ao cabo da qual eu morria;
meus olhos postos no horizonte longe,
fui o nauta português
fui o viking
ou apenas mais um contrabandista de bacalhau
enquanto  sustentava meu povo
a arenque e carne
de rena
que mais fui eu,
fui o  lendário urdidor de estratagemas
e o que me restaria
se não morrer antes de chegar,
mas não morri e agora
ouço que ela me conta
o que fantasiou
torcendo pela minha ausência
que se perpetuasse
e ela vivesse a justa glória
da fiel expectante
por mim, o aventureiro
que apenas desfilei por todos os quadrantes
minha abulia
a mesma de que já sofria
quando de seu lado

parti. 




sexta-feira, 7 de julho de 2017

UM PANFLETO: A JORNALISTA LEITÃO ENTREVISTA O BANQUEIRO-MÓR



JORNALISTA E BANQUEIRO

a jornalista renomada 
porque domesticada
entre
vista
o banqueirão especializado
no que os banqueiros  sempre se especializaram
ele sorri beneplácito
ela finge inquiri-lo
as perguntas e as respostas
sorriem tergiversativas
por cima da vida vegetativa
dos magotes de sobreviventes
ela se diz preocupada
com a paisagem social
mas elogia a sala elegante do Banco Central onde transcorre a conversa civilizada enquanto ele
faz cara de paisagem

na parede ao fundo as cores e linhas básicas de Volpi
e as crianças de Portinari
            - que morreu envenenado pelas tintas de seu ofício -
asseguram a dignidade possível
o sopro






domingo, 2 de julho de 2017

FÍMBRIA

Aquele homem delicado caminhou pela praia
e chegando à beira, onde a água faz a areia mudar de textura,
exibindo sua permeabilidade,
abaixou-se,  e olhando o mar
não quis mais.
Chama-se  fimbria a borda apática  que demora a desfazer-se
quando a água se arrepende
da célere marcha devastadora  que poderia perfeitamente empreender
na direção da orla urbanizada,
dos prédios amontoados escondendo os pobres
encarapitados no alto das pedras
antes que esgueirem entre as frinchas e se abriguem nos latões de lixo
e o mar não invade
o mar é aquele homem delicado que não quis mais e
a turba não completa o movimento de abandonar os latões
e tomar de assalto
(o sangue nos olhos as facas na fronte)
e sequer o mar arrebata o homem que desistiu
e quando é assim
então ninguém adentra a cidade dolente
decidido a  sofrer sua pena e sua luz
e estacam todos
o homem delicado e só
a turba despossuída e mais
o mar conformado à baixa-mar
e se chama fímbria e é aí que se encontram os delicados
 onde o velho Diabo fumando seu houka
na tela de última geração
smart e led
ri do quanto se perde a vida por falsa
delicadeza.



 
Foto de Carolina Bezerra

quinta-feira, 8 de junho de 2017

VERTIGEM

Muito em breve mas não tão em breve esta mão
que se precipita sobre o comutador
sobre o comutador
para acender  - muito em breve - ou apagar
a luminosidade já mesmo artificial de tudo o que está posto
desde o sempre onde habito e gasto o que resta de meus gastos
entre nesgas de breu,  lâmpadas led e refletores de fonte indefinível 
                                         [e imprecisa
mas de luz precisa  a conspurcar a negra mão da Mãe Noite
em breve mas não tão em breve como o breve  do crânio sobre o corpo
que inadvertidamente se põe na linha de tiro de uma operação policial
–  muito em breve esta mão será impotente para repetir este gesto
corriqueiro quase tão corriqueiro
de apertar trêfega ou calma o comutador
- não tanto quanto  a bala se alojará no corpo cálido de uma criança
colhida pelo acaso de sua falta inocência derrisória sobre o mundo
ainda antes que eu sequer me ponha a sério a pergunta sobre o significado
da palavra helicoidal
e tenha tempo de esclarecê-la
a broca que me perfura o dente até achar o nervo ainda a tempo
de ter vivido o suficiente
para conhecer o inexorável deslocamento dos dentes na cavidade bucal
ao longo dos anos e das gengivas
tão em breve quanto o efeito da reza e do antibiótico
e o receituário como em constelações que ilustram as páginas do meu diário
bendigo a sorte dos amores vividos
dos filhos vindos e idos pelo mundo
dos corpos nos quais repousei e sem descanso me dei a esgotar
as forças de que dispus
ainda haverá tempo de olhar desinteressado em torno a paisagem
dos animais em seus abrigos ou visitando seus cochos
das verduras em seus canteiros
 desapercebido do vórtex e do sumidouro
antes que eu caia crivado das perguntas
que não saberia não saberei nem terei por que
vir a responder jamais.