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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Um poema magistérico para a data


PARADA

 

enfrentar
a fúria do guarda
e salvaguardas

           a verga do governador
            a prensa e a imprensa
           dos empresários
            dos sub sub sub
           e secretários

 a ira
           dos pais

os torpedagogos

amar
os alunos
essa parada

na avenida

foda-se ou
faça sol.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

DUAS DAS CRIANÇAS


CHÃO DE GUARDA

 

Infância. Tíbias cruzadas recém
escapulidas dos dentes
do guarda

(Nem sempre é
que se escapa
de um cão
de guarda. Guardar
bem esta lição.

Pra vida toda.
Que aliás não há
de durar. A conta
é subtrair. Não
se mexa  aí onde
se acomodou. Não 
respirar.)

Adivinha-se então
entre as tíbias, nas mãos
outros olhos sãos
e o que eles
aguardam:
 
água de chão
pano de chão
gosto de chão
chão de guarda.

Enquanto se  aguarda:
infâmia
salsicharia transgênica
sabão obesa
magra infância
carniça de criança.


Talarico - da série "Os invisíveis"

 


(O poema acima foi postado originalmente em Mallarmargens revista de poesia e arte contemporânea, em 9 de dezembro de 2013, com o título "Na esquina do beco ou em qualquer lugar", a partir de uma outra ilustração de Talarico, de sua série "Os invisíveis".)  Confira-se no link http://www.mallarmargens.com/2013/12/poema-de-roberto-bozzetti.html



CRIANÇA À BEIRA MAR

 

que diferença faz?
um apenas  

e eles são
milhares – não vale a pena

um e nem
ficou ali para sempre
daqui a pouco não mais estará
refugiados são fugazes
 
e não
sabemos de detalhes nem
do potencial perigo para
nós

nós que não fugimos é que somos
estáveis nós é que nos fundassentamos
sobre bases imutáveis
como uma grade de programação
como um cronograma como a árvore
ou como o  continente
de onde provimos
 
como uma igreja secular
banco infenso às areias movediças
do deve e do haver
 
a carcaça foi recolhida rápido
que nem os abutres
nem mais poéticas aves
vieram provar de seus
olhos
vieram provar de seu
pequenino sexo inerte
e ímpio – que sabor teria?

perguntaram-se as gaivotas e cormorões
 
ele é um de eles e são milhares e seguem plurais e zeros
contam-se às dezenas às centenas aos milhares
e dezenas e centenas de milhares
e ele é apenas um

no vietnam também era apenas
um
em toda a áfrica
é apenas
um
na palestina na américa central
no oriente próximo ou distante
apenas
um
no acampamento sem-terra
na cracolândia
outrora há muito na europa apenas
um
sempre foram apenas
um
seguirão sendo apenas
um
                                               
são eles
eles são muitos e de sua pena
sabemos que são refugos
em  busca
de refúgio
 
desafortunadamente num resort.

 

 

domingo, 12 de julho de 2015

DESDE A SUPERFÍCIE


Centro aonde não se vai
ao dentro que não se atinge
o corpo que não se trai
carne de esfinge

O gozo que o outro apaga
no jogo que outro esconda
espuma arisca na frágua
cerne de esponja
 
Leito nubente
corpo onde corpo
outra alma frange
 
Plangem miasmas
corpo onde corpo
jorra no peito.
 
 

 

Roberto Bozzetti.  Firma irreconhecível.  RJ: Oficina Raquel, 2009.

sábado, 25 de abril de 2015

OS RIOS


seis meses entre a vida e a morte
numa enfermaria de hospital
em casa há um mês
entre a morte e a morte.

nos fundos  o espelho d’água química
cisma às vezes de se levantar
cloacágulo sanguezal
berçário de ódio
administrado pelas elites
de tanto esperar os bárbaros
bárbaras
de tanto desejá-los e confessar abúlica
e sem culpa sua própria derrota

(trouxeram sanguessugas para a minha sangria?
trouxeram manguessugas para o próprio repasto?)

- quando dá vau
os ratos
enormes arrastam compenetradamente 
comboios de corpos humanos e  outros restos

- param aqui em casa
às vezes se vão às vezes
não
(talvez numa dessas eu tenha ficado)
às vezes também calha
de subirem cantando direto rumo ao Inferno
no barco bêbado entupidos de crack e sentimentos ínferos
num Faria-Timbó num Acari que deságua
em Malebolge logo abaixo  de Meriti
ou sobem em horrendo alarido ao telhado
sentinelas ao abrigo das fardas azuis
que tentam monitorá-los das margens

que é quando a Ordem intervém
atendendo a denúncias atrás de substâncias ilícitas
como o Sol, que descai
mas os trens descarrilando
e um aprazível espocar de fogos
colore a aquarela vespertina a alimentar os jornais de amanhã
das dores das fendas
que latejam
seus pré-órfãos

porque esse parece ser
o destino

 

sábado, 7 de março de 2015

OS PRESENTES: AH, UM SONETO... DE ADRIANO NUNES E UMA CANÇÃO DE PAULINHO LÊMOS

(edição especial de aniversário)

             Cada ano que comemoramos ao perdê-lo traz como uma de suas compensações os presentes com que os que gostam da gente nos regalam.  Assim, tendo comemorado meus 59 (ou 69 menos 10), nesse último dia 3 ganhei, entre outros presentes adoráveis, alguns muito especiais,  porque feitos por quem os ofereceu.   Vejam só que maravilhas:

 
Presente 1: O soneto em versos hendecassílabos de Adriano Nunes; do poeta, aliás, recomendo mais uma vez o seu excelente blog

http://astripasdoverso.blogspot.com.br/

"No infinito do que dito pode ainda"

Sobre o branco que se expande logo cedo,
 Sob um incognoscível céu que se finca
 No infinito do que dito pode ainda
 Ser sobre o que pode ser de qualquer jeito,

Nasce um soneto para o amigo Roberto,
 Com onze soltas sílabas, pra que diga
 Ao poeta, no seu dia, quão antiga
 Nossa amizade, desde Troia, decerto
 
É. Com imenso prazer, canto a cantiga
 Da existência, do que comemora o estreito
 Laço que em nós cria a alegria e interliga

Verso a verso, o que não pode ser desfeito, 

 Como um contrato no qual o amor assina
 E deixa a sua irreconhecível firma.



O poeta Adriano Nunes



Com Paulinho Lêmos



 Presente 2: do amigo Paulinho Lemos, cancionista de primeira, há muitos anos radicado na Espanha (mais especificamente em Barcelona), recebi a preciosa melodia com que ele tratou um poema que anteriormente eu havia publicado aqui mesmo no Firma, em 5 de agosto de 2011:

http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2011/08/noite-obliqua.html

Abaixo o poema e o link para o áudio da canção no youtube.


A noite oblíqua

 
Nem sonho nem vigília
serena inquietação
pelo que se quer
e não pode
ser a não ser
pleno agora
palma de mão
ilharga
pele macia
aos dedos os mamilos
sereno dentro e fora
o dia que não tarda
sobre os flancos da garoa
ilha redoma nicho
rede cama ninho
trama a iludir o sono
urdida pela saudade
fina linha de carinho
a hora de se ir já chega
à noite se achega
a manhã
devagarinho.
 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

PAISAGEM


Os homens indignos andam todos de cabeça erguida.
 

Os dignos não têm outra lembrança que não a de enterrar os filhos
e uma vez cumprido o terrível rito retiram-se para o ermo
em torno às cidades, onde em meio a resíduos de alumínio
cinábrio  pirita cacos diamantinos   limalhas em sangue pisado
ocorre-lhes contrair novas núpcias  e começar do zero
o projeto dos féretros em precipícios fatais
enquanto os ungidos lhes vendem pastorais e advertências
com promoções e abatimentos.
 

Um emissário das alturas fez ouvir a voz de suas insistentes promessas
até que passados alguns dias não se falou mais nisso
– abateu-se sobre  o orbe o silêncio de todos os antes e de todos os após:
não houve acordo possível com os patrocinadores.
 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

CAMINHADA PISANA




Era dia, torso e fibra
era uma visão despida
aquela que eu perseguia
sem guia imagem enigma
(A tarde toldava os becos
vivazes do sol de Pisa
de uma luz sem atropelo
de um sossego comedido
quase próximo da morte:
Muralha entrada e saída).
Por entre blocos de pedra
onde é ranhura é que medra
a palavra poliedra
espraiando-se, e ao fazê-lo
enreda motos e séculos
o que é ponte e é edifício
passo cálculo comércio
sacerdócio e turismo
numa fala multiplexa
moçárabe macarrônica
doce e no entanto toscana
mercantil e piedosa.
No largo das avenidas
caminho pro cemitério
como quem vai a passeio
- e eu vou mesmo a passeio
mas o falcão sobre a pomba
atira-se da cimalha
e célere a arrebata
ao pé da estátua do Dante
- em que círculo a colomba
foi se entregar gotejante
à volteada rapina
do bico de seu verdugo?
Pergunto e sigo a passeio
ao campo santo adiante
entre estreituras de becos
e epifanias de nesgas
o sol em fachadas sólidas
aqui e ali esboroando-se
como kebabs na lâmina
do solícito hindu
que me serve o mata-fome
e não me nega a cerveja.
Gatos e mais gatos sornas
me olham desentendidos
junto aos bares junto às torres
junto às muralhas, ruínas
onde Ugolino e seus filhos
recendendo em embutidos
sorvetes tripas e pizzas
reencarnam sua vermina.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

DECEPTIVO

Ilustração de Talarico
 

DECEPTIVO

Depois de alguns dias ao acordar
falta – e não ao lado –
 o corpo amado
o corpo que você mesmo
– há alguns dias é que notou 

carregava


2

Recolhe pela cama
pelo quarto os despojos
que reconhece mal
ao achegar-se  à porta
a manhã se esfumou, a tarde é prenúncio
 
para a retórica pastosa e fétida
            existe o dentifrício

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O COMENSAL


 
Alguns poetas precisam de atenção.
Só isso explica vê-los afoitos
a quererem o aval
a leve vitualha
à guisa de consoada
 
ou apenas a dedicatória
num apenas versinho do confrade mais célebre
às vezes apenas um aceno.
 
Os poetas deviam conhecer mesmo
procurar
o silêncio
conviver com o silêncio
viver o silêncio
 
afinal há alguns séculos a leitura se faz para olhos mudos
bocca chiusa
 
isso sem falar no silêncio anterior
ao poema: este mudo tagarela
zombeteiro
das pregas da eternidade.
 
O som não se propaga no vácuo.
Lembrar disso
 
- nem mesmo se formos lidos.

 

domingo, 28 de setembro de 2014

QUEM VIVER


Há muito tempo que no vento sopram
as respostas que nunca responderam
a nada que queremos

O que será que ao fim que pode ser
e ao cabo será que  não seja mesmo
nada  demais

Quando enfim a hora ansiada e anunciada
chegar às badaladas e nos dentes rubros  de metralha
nada a não ser
 
talvez

algumas gaivotas e outras asas
de vôo carniceiro revelem indiferentes
o vão resultado de nossas
certezas

 

domingo, 24 de agosto de 2014

IDADE


Foram muitos os que passaram
serão menos os que virão.
Mascaram suavemente seu fumo,
e em grosso muco  o sumo
puro desfez qualquer ânsia.
Seu nome é tempo – dizem uns
e quietos se retiram, doces – , os dentes
embranquecidos entram no inventário
enquanto se dispõe em mudez
um testemunho expectante
de reminiscências. Qual a ciência
deste silêncio, que estranho
intervalo de urgências desfaz-se
em vestígios de extravagâncias
dispostas em lâminas que olhos
de legistas iluminam?
 
Menos os que aí me aguardam,
me toco agora, furtando-me a  vê-los. 
Com zelos dos que guardam
surpresas para os bailes vindouros
a sete chaves e bailes
que não mais ocorrerão,
socorro-me e lanço-me desafios
que mascaram a falange
dos rostos que me vestem
desde que por aqui vim ter, eu
o aguardado, o que malbaratou
as manhãs e mais todas as horas e sítios
amenos e desfez e magoou
nos embates e enlaces, e agora menos,
por fatal,  por tudo, pelo fraco impulso, 
crepuscular, pelo baixo tônus
de todos os músculos, menos agora,
que bem menos são os que
serão.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

NA VARANDA


foi quando a Louca
começou a sua ronda
imperceptível
à qual de início não dávamos importância

até que meu pai insistiu e o levamos
mais uma vez até a varanda
onde há vários dias ele afirmava
avistar quem ali – a nossos olhos
nunca estivera

não há ninguém, veja com seus próprios
olhos, dissemos
e de fato ele nos mostrou e lá estava ela
a Louca
a que não mais desde então nos deixou
desde que
em seus passos quase imperceptíveis
para ela ele se encaminhou.

 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

FUTURO DO PRESENTE - panfleto

     
Zdzislaw Beksinski
                            


   a Adriane Lima


... e se procurarmos acharemos alguma culpa.
alívio brutal que nos exige a condenação
mas (se ato alheio)  pode ser só pro-forma.

a forma do que é monstruoso é nítida, mas
disfarçaremos e diremos: é nada, é (quando muito)
nódoa. como nos condenarmos?
 
e assim seguiremos o cortejo
feliz dos linchamentos e os teremos
registrados em nossas bugigangas eletrônicas
e compartilharemos felizes com a família
com os vizinhos com os netinhos
que nos acharão tão ingênuos e dirão
de nós “como eram doces e idílicos!”
e saberão que assim como eles,
assim como todos também carregamos a nossa culpa
se bem procurada.
 
por isso todo tijolo atirado sobre um crânio inerte
é pouco
as pernas abertas e os braços a ponto de se rasgarem as entranhas
é pouco
as esfoladuras e contusões e perfurações
é pouco
o pútrido valão onde ratos agressivos rejeitam o luxo de porcos
é pouco
toda a urina e todas as fezes vertidas sobre um deus pretenso vivo
é pouco
é pouco é pouco é pouco para o pecado
que (nos) acharemos – não tem jeito, acharemos

 
de novo perdemos a chance de entender
o que dizia Baudelaire sobre a verdadeira civilização:
ela não está no ipad no ipod no caixa eletrônico
no wifi no wireless no instagram no android -
está no apagamento das marcas
do pecado original. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

MARADONA É MELHOR DO QUE PELÉ?


MARADONA É MELHOR DO QUE PELÉ


 

 

 Sim, ele dirá que caiu que decaiu que fraudou ele que já invocara a mão de Deus que ao tripudiar  sobre os restos do Império Britânico não o fizera em vão como se fosse a junta patética de monstrengos glauberianos medalhados, ele lembrará ainda aos lombardos e piemonteses a existência e a condição de stranieri dos stranieri ao sul de Nápoles, diremos todos indignados depois de tanto tempo – traídos! – ao  sabermos que ele também nos fraudara aos  nos fazer cair decair sobre os restos do tricampeonato outra vez adiado pois ele hereticamente antibiblicamente tinha nos dado de beber a água que passarinho não bebe a água que atleta não bebe a água que nos narcotizou,  enquanto defraudado de um ombro como um mau ator ele nos fez voltar  para casa e foi o que se, sim e ele jamais deixará de dizer  que sim que nos abraçou olimpicamente fraterno que nos fez beber que nos derrotou que nos fez cair decair e nos fraudou e sim e ele sorriu e dirá e continuará a dizer que sim que sim que fez mais,  que bebeu que viveu que jogou o jogo que teve nas mãos a vida que suou e sorveu e cheirou e que comprou e que vendeu e que será fiel a Fidel

  Não, ele não dirá que foi por que quis que foi por que ele veio do mesmo nada social e mulato feioso trazia em si o desgosto de sê-lo e que por isso escolheu o castelo e uma princesa de grande boca meia tigela oca   e pernas infinitas entronizada por algum tempo e incensada pelos onans da vez e não dirá que quis o que quis e que quis e não,  ele não dirá que mais uma vez foi não um destampatório mas sim o desejo possivelmente saciado anteriormente no relativo segredo das celebridades viris inúmeras vezes de ter na boca e no rabo quente consistência de carne rija por que quis por que quer por que ninguém tem nada a ver com isso, que ele sim caiu decaiu, ele que fizera chorar mães italianas e brasileiras e se ergueu e reergueu e não defraudou e poderia ter dito que todas as naus do Egeu eram por direito suas e poderiam ter sido enquanto lhe durasse o delírio a fortuna a mídia a carreira, mas o mulato feioso pensa que chegou tão longe que pecou que é sua a vez e a hora de fingir falar em nome de todas as crianças que um dia poderão ter seus tênis suas chuteiras seus contratos suas boconas de princesas brancas e dirá que  pretende continuar fiel

 



O Rei Pelé - Rubens Gerchman, 1997
 
              
 
                    NÃO, MARADONA NÃO É MELHOR DO QUE PELÉ
 
 
 
                                   ... afinal Pelé é o nome de uma forma.
 
 
 
 
Roberto Bozzetti.  Firma irreconhecível.  Rio: Oficina Raquel, 2009.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

SAMBA DE VERÃO

Ilustração de Talarico



Acúmulo de cúmulos
de impossíveis risíveis
poderes de podridão
risos e alegrias corrosivas
ácidos tóxicos
bueiro de gente de
bueiro de esgoto
sobre todos nós há
esse cu enorme sentado
paroxismo pletórico
baixando os níveis
de água: mágoa
de meu sarcasmo,
dizem eu me defendo:
nada.  Asmático e só
em breve fantasmático,
dó quem há de ter
de mim, sem custo
custódio, sem trono
sem guarda,  que eu
arda rei no inferno
quente como verão
no Rio.


sábado, 8 de março de 2014

JOHNNY VAI À GUERRA

Cena de Johnny vai à guerra, de Dalton Trumbo



JOHNNY VAI À GUERRA


 

Thanatos, o vencedor.
Cristo, o impotente.

Cristo, o que assevera:
Nada tenho com isto
nada posso, desisto, os atos
quaisquer que sejam não deterão
o trem dos mortos,
(um truque de cartas barato
o ar vertido em whisky
e é só isso)

 zang-tumb-tuuum
zang-tumb-tuuum
o trem dos mortos prossegue
e dentro
corpos de plena vida
aguardam a baldeação
para o trespasse,
jogando cartas, sonhando a tortura
e seu conforto
(apenas algumas horas
até o fim)

zang-tumb-tuuum
zang-tumb-tuuum 

cadáver de criança  espreita
entre pilares de De Chirico
e sonha
uma ordenação do mundo, um sonho
em que será esquecida.

 Em breve todos
- esqueletos desmembrados
na paz de lodo parecem sorrir
rumo ao fundo lodo
libertos das dores
de cinzas, cicatrizes
lodo onde não importa
a vara do pai perdida
o perdão do pai
o alistamento voluntário
o Merry Christmas
a morfina 

Não há retórica possível
não há estratagema, a não ser 

(usar a cabeça, usar a cabeça!) 

conformar-se em estar vivo
conceder perdão ao abismo.
 

Roberto Bozzetti. Firma irreconhecível.  RJ: Oficina Raquel, 2009.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um antigo, de 1977.


                                                            QUEM VIVER
                                                        A Marlene de Castro Correia

alguém me disse:
do fundo da terra
partirá um trinado
do fundo da treva
partirá um trinado
do fundo da selva
partirá um trinado

partirá um trinado
partirá um trinado
partirá um trinado
do fundo da vida

ninguém me disse:
do fundo da terra
partirá um blindado
do fundo da treva
partirá um blindado
do fundo da selva
partirá um blindado

partirá um blindado
partirá um blindado
partirá um blindado

e é só o que sei
            
            

             Remexendo em velhos arquivos, volta e meia me deparo com coisas bem remotas “em forma de poemas antigos, relidos”, como no verso de Paulinho da Viola.  Já postei aqui mesmo no Firma, um poema que publiquei em 1977 no número 9 da prestigiosa revista JOSÉ (dezembro de 1977). Veja-se o link:http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2012/08/um-que-ja-tem-tempo.html
Esse outro poema da primeira juventude foi escrito no mesmo ano, que, vejo aqui, foi muito produtivo.  Acho que posso atribuir isso a um excelente curso livre de criação poética que fiz na UFF com a professora Marlene Castro Correia, quando cursava meu segundo período em Letras.  A professora Marlene foi uma guia generosa e segura ao me apresentar as provocações de Pound e dos concretistas, além das teorizações muito produtivas de Jakobson  e Chklovski e da leitura muito atenta da prática poética de Drummond, Augusto dos Anjos e Eliot, entre outros.  Por conta disso, dedico-lhe.