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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A ÚLTIMA DO ANO; EXPLORANDO AMIGOS

  
     Como acontece com certa freqüência, e é ótimo que assim seja, ao entrar numa espécie de transe tradutório que o acomete de tempos em tempos, o poeta professor  e amigo Marcelo Diniz costuma me conceder o privilégio de conhecer em primeira mão muito daquilo que vai traduzindo, seja via telefone, internet ou mesmo pessoalmente.  Desta vez, aproveitei oportunisticamente o fato de ele me enviar alguns sonetos e epigramas, nos quais anda trabalhando, de uma coletânea de poesia satírica do século XVII francês, para elaborar – com pouco esforço de minha parte  e com muito talento alheio, considerando que juntei ainda outro amigo explorado por mim, conforme se verá – a última postagem do ano.  Achei que valia a pena lançar mão de um epigrama dos que Marcelo me enviava, que afinal fala da assinatura ausente, anônima e irreconhecível - e que pouco importa, no fundo,  para o gozo da poesia.  Bom para lembrar que se fecha um  ano e se reabre outro.  Fechar e abrir de olhos, enquanto ao menos assim for.  
      Passo a palavra ao profeçor  Marcelo, para que ele mesmo explique as circunstâncias do pedido e do que se trata:

 “A pedido de meu querido Proffezzor Bozzetti, partilho com os amigos um epigrama de um estudo recente e divertido. Ele foi colhido no Le parnasse satyrique, minha leitura de férias, entre o prazer e o compromisso. Trata-se de um recolho de textos libertinos e satíricos publicado em Paris pela primeira vez em 1622. Théophile Viau (1590-1626) é quem organiza esta edição contendo 166 peças (sonetos, odes, epigramas, epitáfios), todos anônimos. Esta edição ficou notória por motivar debates teológicos quando à natureza do riso. Vemos no epigrama certa risoterapia que decerto afirma a metafísica carnavalesca e satírica da medicina rabelaiseana."
 
     Em seguida, ele envia generosamente o link para acesso aos originais.  Veja-se aqui, como ele diz, "le pdf du Parnasse":
    


     E aqui a sua tradução e o original:

  

EPIGRAMA
 

o riso amigo da saúde

dos mortais sabedoria

eu curti sempre que pude

pois desopila e alivia

o poeta cuja poesia

nos faz rir se divertindo

anônimo todavia

aqui libo bebo e brindo

 

épigramme

 
le ris compaignon de santé

est propre à la race mortelle

j’ay souvent expérimenté

qu’il fait grand bien à la ratelle

ce poëte n’est pas sans cervelle

qui nous fait rire en esbatant

je ne sait pas comme il s’apelle

mais je vait boire à luy autant

 

     Então reforço os votos do Marcelo, o qual acrescenta em seu bilhete que 
 
 “Faço do pedido de meu querido Proffezzor a oportunidade de meus votos que, em dois mil e       quinze, o riso nos salve de novo na prova dos nove!”

 E considerando por fim que resolvi explorar mesmo os amigos nesta mensagem  final,  pedi o arremate do arremate ao Talarico, que compareceu presto e mandou esta graça aí
 
 


                                                   Bom 2015 pra nós todos!

                                                                       

domingo, 7 de dezembro de 2014

MANOEL DE BARROS



O MORTO

 I

A chuva lavou
As pessoas do morto
E lavou o morto
Com a sua fisionomia
De torto
E com seus pés de morto
Que arrastava um rio seco
E suas mãos de morto
Onde se dependurou
Insistente, um gesto oco.
À noite enterrou-se
O homem
Na raiz de um muro
Com sua roupa no corpo.
E a chuva regou no horto
Desse vitorioso
Homem morto
Enormes violetas
E uns caramujos férteis...
 
 
II

Veja esse morto como esgotou um por um seus segredos.
Sentando como um doutor
Veja que respeito nutre pelo silêncio...
Que morto!
Um piano dormindo no fundo de um poço
Não é mais cômodo que um homem morto num porto.
Veja que comodidade:
Ele não usará seus dedos nunca mais para pegar em moças...
Que morto!
 
 
Manoel de Barros. Gramática expositiva do chão (poesia quase toda). Civilização Brasileira, 1990.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O COMENSAL


 
Alguns poetas precisam de atenção.
Só isso explica vê-los afoitos
a quererem o aval
a leve vitualha
à guisa de consoada
 
ou apenas a dedicatória
num apenas versinho do confrade mais célebre
às vezes apenas um aceno.
 
Os poetas deviam conhecer mesmo
procurar
o silêncio
conviver com o silêncio
viver o silêncio
 
afinal há alguns séculos a leitura se faz para olhos mudos
bocca chiusa
 
isso sem falar no silêncio anterior
ao poema: este mudo tagarela
zombeteiro
das pregas da eternidade.
 
O som não se propaga no vácuo.
Lembrar disso
 
- nem mesmo se formos lidos.

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

ÁLVARES DE AZEVEDO DUAS VEZES


Poema VI de Spleen e charutos

 

O POETA MORIBUNDO

 
Poetas! Amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes?  Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas!  Que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que no Céu sofrer os tolos!

Ora!  E forcem um’alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a missa!

 

TERZA RIMA

 
É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas rescendendo,

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem-me... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

UMA DAS RAZÕES POR QUE RIMOS NOS VELÓRIOS


O cadáver de uma amizade não sai no jornal.
Ninguém se reúne para celebrá-la.
Fala-se baixo e constrangido. 
O mundo teme a imaginação.

A amizade também ninguém celebra.
Quando muito os próprios amigos no seu convívio.
Sem sabê-lo.  Sem saber que é amizade.
Até porque pode
            – perfeitamente –
                        não sê-lo.

 
                          *

 
(Cada um carrega apenas sua morte.
Sua bateria).


                          *
 

A capacidade de rir do mundo e suportá-lo
só a comentamos quando nos despedimos
do que já não é mais

que corpo.

 

 

sábado, 7 de setembro de 2013

RUBEM BRAGA DUAS VEZES



A Mariana Quadros, linda, amada e sólida fortaleza ética



CONVERSA DE COMPRA DE PASSARINHO

          Entro na venda para comprar uns anzóis e o velho está me atendendo quando chega um menino da roça, com um burro e dois balaios de lenha. Fica ali, parado, esperando. O velho parece que não o vê, mas afinal olha as achas com desprezo e pergunta: “Quanto?” O menino hesita, coçando o calcanhar de um pé com o dedo de outro. “Quarenta”. O homem da venda não responde, vira a cara. Aperta mais os olhos miúdos para separar os anzóis pequenos que eu pedi. Eu me interesso pelo coleiro do brejo que está cantando. O velho:

          – Esse coleiro é especial. Eu tinha aqui um gaturamo que era uma beleza, mas morreu ontem; é um bicho que morre à toa.

           Um pescador de bigodes brancos chega-se ao balcão, murmura alguma coisa: o velho lhe serve cachaça, recebe, dá troco, volta-se para mim: “- O senhor quer chumbo também?” Compro uma chumbada, alguns metros de linha. Subitamente ele se dirige ao menino da lenha:

           – Quer vinte e cinco? Pode botar lá dentro.

           O menino abaixa a cabeça, calado. Pergunto:

           – Quanto é o coleiro?

           – Ah, esse não tenho para venda, não…

           Sei que o velho esta mentindo; ele seria incapaz de ter um coleiro se não fosse para venda; miserável como é, não iria gastar alpiste e farelo em troca de cantorias. Eu me desinteresso. Peço uma cachaça. Puxo o dinheiro para pagar minhas compras. O menino murmura: “- O senhor dá trinta…?” O velho cala-se, minha nota na mão.

          – Quanto é que o senhor dá pelo coleiro?

          Fico calado algum tempo. Ele insiste: “- O senhor diga…” Viro a cachaça, fico apreciando o coleiro.

          – Se não quer vinte e cinco vá embora, menino.

          Sem responder, o menino cede. Carrega as achas de lenha para os fundos, recebe o dinheiro, monta no burro, vai-se. Foi no mato cortar pau, rachou cem achas, carregou o burro, trotou léguas até chegar aqui, levou 25 cruzeiros. Tenho vontade de vingá-lo:

          – Passarinho dá muito trabalho…

          O velho atende outro freguês, lentamente.

          – O senhor querendo dar quinhentos cruzeiros, é seu.

          Por trás dele o pescador de bigodes brancos me fez sinal para não comprar. Finjo espanto: “- Quinhentos cruzeiros?”

          – Ainda a semana passada eu rejeitei seiscentos por ele. Esse coleiro é muito especial.

          Completamente escravo do homem, o coleirinho põe-se a cantar, mostrando sua especialidade. Faço uma pergunta sorna: “- Foi o senhor quem pegou ele?” O homem responde: “- Não tenho tempo para pegar passarinho.”

          Sei disso. Foi um menino descalço, como aquele da lenha. Quanto terá recebido esse menino desconhecido, por aquele coleiro especial?

          – No Rio eu compro um papa-capim mais barato…

          – Mas isso não é papa-capim. Se o senhor conhece passarinho, o senhor está vendo que coleiro é esse.

          – Mas quinhentos cruzeiros?

          – Quanto é que o senhor oferece?

           Acendo um cigarro. Peço mais uma cachacinha. Deixo que ele atenda um freguês que compra bananas. Fico mexendo com o pedaço de chumbo. Afinal digo com voz fria, seca: “- Dou duzentos pelo coleiro, cinquenta pela gaiola.”

           O velho faz um ar de absoluto desprezo. Peço meu troco, ele me dá. Quando vê que vou saindo mesmo, tem um gesto de desprendimento: “Por trezentos cruzeiros o senhor leva tudo.”

           Ponho minhas coisas no bolso. Pergunto onde é que fica a casa de Simeão pescador, um zarolho. Converso um pouco com o pescador de bigodes brancos, me despeço.

           – O senhor não leva o coleiro?

           Seria inútil explicar-lhe que um coleiro do brejo não tem preço. Que o coleiro do brejo é, ou devia ser, um pequeno animal sagrado e livre, como aquele menino da lenha, como aquele burrinho magro e triste do menino. Que daqui a uns anos quando ele, o velho, estiver rachando lenha no inferno, o burrinho, menino e o coleiro vão entrar no Céu – trotando, assobiando e cantando de pura alegria.

 

In: Quadrante. RJ: Editora do Autor. 1962.
 
 
 

 

 
           Penso sinceramente que depois de um tal texto, qualquer adendo é completamente dispensável.  Mas não me furto a dois dedos de observações um tanto vadias, tendo sempre como guia as palavras muito claras que Davi Arrigucci Jr. escreveu certa vez a respeito da prosa de Braga: “Rubem Braga é um autor de acesso fácil e imediato para quem o lê,  mas extraordinariamente difícil para quem quer falar criticamente do que leu.  Nessa naturalidade complexa lembra ainda muito um poeta que quase sempre ele lembra no trato do cotidiano, da carne concreta e dos estados fugidios do espírito, das coisas comuns e humildes, mas espinhosas de se dizer literariamente: Manuel Bandeira.”  Arrigucci ainda observa que não se trata apenas – embora efetivamente se trate também – de escritores pertencentes a uma mesma família, de parentesco entre tons e temas.  Trata-se de que “o velho Braga não só é um poeta lírico, ainda que seja um dos maiores que surgiram aqui.  Que a sua andadura de prosa não nos engane.  Ele é essencialmente lírico.”
            Nesse sentido, esta  crônica aí em cima é perfeita, o silêncio final do narrador – dizer o quê diante da absoluta falta de compaixão e solidariedade, diante da indiferença pela sorte alheia, tão familiar em nosso cotidiano, tão concreta e perceptível o tempo todo em cada fração de segundo nas atitudes mais cotidianas? O lirismo de Braga, aliado ao profundo e claro senso ético de sua escrita – e aqui ela sempre me remete ao antilírico Graciliano – parece não envelhecer.  É de se arriscar mesmo dizer que não envelhecerá. 
Complemento esta postagem com um dos poucos textos que Rubem Braga publicou  em versos, seu poema mais conhecido, “Ode aos calhordas”.  A calhordice de que trata o velho Rubem não se restringe a uma suposta elite econômica, como talvez fosse cômodo, apressado e equivocado ler: a gosma gelatinosa e fétida que genialmente emana de seu poema nos faz lembrar que invade a tudo, se não tratarmos de construir uma sociedade e um mundo capazes de eticamente recusar o status quo calhorda.  Mas não vou ficar aqui nestes resmungos que, de resto, remetem muito mais a um estado de espírito um tanto pessimista e sombrio em que me vejo envolvido.  Melhor mesmo é ler o grande Rubem.  Que, sempre que se fizer necessário,  voltará a freqüentar este blog.


 
 
ODE AOS CALHORDAS
 Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com muita eficiência

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices — nunca fazem nada.

Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ele acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.

Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo vem nos jornais:
"O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais."

Os calhordas não morrem — não morrem jamais
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas da nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: "Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem."

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.


                                                               1953

 
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Ilustrações de  Jaguar e Scliar. Rio de Janeiro: Record, 1993.
 


 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

MANOEL DE BARROS

De MATÉRIA DE POESIA


Muita coisa se poderia fazer em favor da poesia:

a – Esfregar pedras na paisagem.

b – Perder a inteligência das coisas para vê-las.
            (Colhida em Rimbaud)

c – Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.

d – Mesmo sem fome, comer as botas.  O resto em Carlitos.

e – Perguntar distraído: – O que há de você na água?

f – Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas de Mário-pega-sapo era nua.  Por isso as crianças e as putas do jardim o entendiam.

g – Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, teréns de rua e de música, cisco de olhos, moscas de pensão...

h – Aprender a capinar com enxada cega.

i – Nos dias de lazer, compor um muro podre para os caramujos.

j – Deixar os substantivos passarem anos no esterco, deitados de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto de chão – como cabelos desfeitos no chão – ou como o bule de Braque – áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro – um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de folhas.

l – Jogar pedrinhas nim moscas...

Manoel de Barros. Gramática expositiva do chão (Poesia quase toda). Civilização Brasileira, 1990.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

WALY SALOMÃO


COBRA CORAL


Para de ondular, agora, cobra coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que tua beleza
                     teu langor
                     tua elegância
                                   reinem sobre as cobras não corais.

Waly Salomão. Tarifa de embarque.  RJ: Rocco, 2000.

terça-feira, 24 de julho de 2012

AH, UM SONETO... DE NAURO MACHADO


Que planeta gerou meu nascimento?
que paraplégico planeta?  Acesas
estrelas frias, meu estrumado alento,
teus róseos dentes, Pai, de eternas presas,
mastigam o osso do apodrecimento
e esmagam a alma das minhas tristezas!
Que planeta fez-me em carne, e não em vento?
Noturna dor de mortais represas,
já estou morrendo como um rio em mim,
no leito seco desta terra: assim...
(Meus órgãos sonham flores malogradas.)
É meia-noite.  Hora eternamente
a bater em minha alma, um passo à frente,
como uma besta andando.  A chibatadas!

In: Nauro Machado.  Antologia poética, 1980.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

GIORGIO CAPRONI



APÓSTROFE
A UM IMPACIENTE POR EMBARCAR

       – Se acalme. Aonde acha que vai?
Uma certeza  lhe dou.
Jamais poderá chegar,
acredite, aonde já chegou.

                                   Tradução de Aurora Fornoni Bernardini


APOSTROFE
A UM IMPAZIENTE D’IMBARCO

         –  Si calmi.  Dove vuol mai andare?
Um ponto è assodato.
Lei non potrà mai arrivare,
mi creda, dove’è già arrivato.


 In: A coisa perdida: Agambem comenta Caproni. organização e tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Ed. UFSC


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

SOBRE POESIA...

Antonio Cícero:  É para ser fiel à poesia em si que o verdadeiro poeta se insubordina não somente contra a poesia convencional, mas contra o olhar ou a apreensão convencional da poesia.  Esse olhar, que é o olhar do falso poeta e do filisteu, pretende ser natural e não convencional, assim como pretende serem naturais as formas convencionais da poesia e naturais  os lugares em que convencionalmente espera encontrá-la, entre as amenidades da vida.  Contra essa concepção domesticada da poesia, o verdadeiro poeta se impõe uma tarefa dupla: por um lado, revelar a poesia em estado essencial e selvagem e, por outro, desmantelar as convenções que a elidem ou domesticam.  Essa decisão se radicalizou em alguns poetas da virada do século XIX para o XX, quando surgiram as vanguardas.
                                                                                                                      (In: Finalidades sem fim)





José Miguel Wisnik: Não é o tema que faz a poesia, pois todo assunto pode resvalar para a bobagem, o sentimentalismo e o clichê. O que faz a poesia é antes o rigor interno que não admite concessões aos discursos prontos — prontos para se apropriar de tudo o que é dito. Um poeta pode ser reconhecido por um único verso, pois uma palavra fora, uma palavra em falso, uma palavra falsa, põem abaixo o edifício todo. O poeta, nesse sentido, opera com todo o espectro das menores refrações semânticas e sonoras das palavras, fazendo com elas cálculos mentais e emocionais de alta complexidade.  (“Szymborska” in O Globo, 11/02/2012)



 ...e sobre vida literária:

Mário Faustino: Vida literária, emulação, reuniões sérias, leitura da poesia inédita, troca de experiências, debates, nada disso temos.  Quando se conversa sobre um poema, o que mais sai, em geral, é o “tá bom”, o “muito ruim”, o “uma beleza”.  Em lugar disso tudo, há o fenômeno amizade, o mesmo que se verifica em nossa administração, em nossa política: meu amigo escreve bem, meu inimigo escreve mal.  Você é um bom rapaz, simpático, não irrita a gente?  Seu poema está ótimo.  É um sujeito pedante, perigoso, lê mesmo os livros, é franco, implicante? Seu poema é, quando muito, “erudito”, “bem escrito”, mas não é poesia.
Mas afinal, dirá o leitor honesto, de que precisa a poesia brasileira? precisa de dinheiro.  De uma estrutura econômica estável como alicerce.  Precisa que o Brasil seja rico e autoconfiante e independente em todos os sentidos.  Precisa de universidades, enciclopédias, dicionários, editoras, cultura humanística, museus, bibliotecas, público inteligente, críticos de verdade, agitação, coragem.
                                                                               (in: De Anchieta aos concretos)











 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

JOSÉ PAULO PAES

LÁPIDE PARA UM POETA OFICIAL

a morte enfim torceu
o pescoço à eloqüência



ANATOMIA DO MONÓLOGO

ser ou não ser?
er  ou não  er?
r  ou não    r?
ou não?
onã?



LISBOA: AVENTURAS

tomei um expresso
                                   cheguei de foguete
subi num bonde
                                    desci de um elétrico
pedi um cafezinho
                                   serviram-me uma bica
quis comprar meias
                                   só vendiam peúgas
fui dar à descarga
                                   disparei um autoclisma
gritei “ó cara!”
                                   responderam-me “ó pá!”

                                   positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá



(20 de outubro, dia do poeta)
OFERENDAS COM AVISO

vamos pôr uma bengala de cego no túmulo de Homero
para que ele possa vagar em segurança pelas trevas do hades

vamos pôr um sapato de chumbo no túmulo de Dante
para que ele possa ascender mais depressa ao encontro de beatriz

vamos pôr uma corda de enforcado no túmulo de villon
para que ele possa balançar-se em boa companhia

vamos pôr um olho de vidro no túmulo de camões
para que ele possa assistir à volta d’el-rei d. sebastião

vamos pôr um pedaço de carniça no túmulo de baudelaire
para que ele possa sentir o cheiro da vida aqui fora

vamos pôr um silenciador no túmulo de maiakovski
para que o seu revólver não perturbe os planos qüinqüenais

claro que em cada túmulo junto com as oferendas
poremos também o aviso de praxe FIQUEM TODOS ONDE ESTÃO



A UM COLEGA DE OFÍCIO

você não gosta do que eu escrevo
eu até gosto do que você escreve

talvez eu não seja tão exigente quanto você



TEOLOGIA

A minhoca cavoca que cavoca
Ouvira falar da grande luz, o Sol.
Mas quando põe a cabeça de fora
A Mão a segura e a enfia no anzol.








        Já postei muito José Paulo Paes (1926-1998) aqui no Firma, mas até então apenas como tradutor.  Me toco de que está mais do que na hora de postar o poeta.  Soberbo tradutor, soberbo poeta.  Se aquele viajava em tempos e lugares os mais variados, atestando o arco de seus interesses e a extrema competência na difícil empresa da tradução (traduziu dos antigos gregos e latinos até os gregos modernos, passando ainda por diversas outras línguas e tradições, que incluíam a prosa de Sterne e Conrad, a poesia de Aretino, Blake, Éluard, Rimbaud, Whitman, Goethe, Apollinaire e muitos outros), o voo do poeta talvez engane os menos atentos, dada a  sua preferência pela agilidade do humor moleque, pela concisão epigramática  e pelo experimentalismo de ar frequentemente (auto)zombeteiro. Traços que dão a fisionomia própria de sua poesia, marcada frequentemente  pelo diálogo com aquilo  que em literatura é considerado grande ou  “respeitável”, ao mesmo tempo em que torna cômicos  justamente muitos desses diálogos através do contraste com o prosaico das situações: assim, como se lê acima, o lema musical-simbolista de Verlaine vira legenda para zombar post-mortem da retórica sempre tola dos “poetas oficiais”;  também Hamlet e o mito bíblico de Onã aliam-se em sua estratégica – e ferina? – apropriação  do experimentalismo concretista.  Em aulas introdutórias de poesia costumo provocar os alunos valendo-me  do poema  “Grafito”, em que a “subjetividade” do “mundo interior” do eu-poético (clichê que desde o Romantismo é difícil pôr em seus devidos termos para os que se aproximam muito ingenuamente da experiência de leitor de poesia) se revela na verdade uma engenhosa obra-prima a partir de um discurso falsamente grave que glosa um grafito de porta de banheiro.  Vale a pena falar rapidamente dessa experiência: pouquíssimos são aqueles que se tocam da brincadeira feita pelo poeta ao fazer a leitura; os que desconfiam sentem certo desconforto ante uma aula que, afinal, por se tratar de Teoria da Literatura,  e de poesia,  deve ser algo “sério”, onde tais molecagens não caberiam.
            Pois entre os não poucos méritos deste poeta está, a meu ver, ter dado um banho de humor na seriedade às vezes excessiva dos “highbrows” das nossas neo-vanguardas dos anos 50/60.  Se a obra dos concretistas é esplêndida, a verdade é que ela às vezes se ressente  um tanto da falta de humor: certo, a poesia de  Décio Pignatari é um pouco mais arejada sob esse aspecto que a dos Campos, pois nestes o humor se faz ferinamente presente mais nas intervenções polêmicas das entrevistas e das respostas a algum desafeto do que propriamente no trabalho poético.  Em seu livro de 1967, Anatomias, Paes se aproxima poeticamente do grupo, mas sua aproximação vem banhada – e isso ficará para sempre em sua poesia – de “amor humor”,  na melhor tradição oswaldiana.  José Paulo Paes polemiza sim, mas sua polêmica tem um tanto de surdina ou negaceio.  Talvez por não ter se vinculado programaticamente à Poesia Concreta, seu programa pessoal, se assim se pode dizer com perdão do humor fácil deste escriba,  seria mais um “programa humorístico” com o acréscimo de uma dose de auto-ironia. Mas sem nada de tolo ou bem-comportado  (é simples conjectura, mas seria essa diferença  que estaria por trás de  “A um colega de ofício”?).
            Voltando ao tradutor, me impressiona muito a seguinte passagem de Rodrigo Naves (que foi seu amigo muito próximo) no belo texto “Um homem como outro qualquer: José Paulo Paes”,  que serve de apresentação à Poesia completa, de Paes:
           
“Ele costumava dizer, e não era uma boutade, que traduzia porque não sabia ler em outra língua.  Quem nunca experimentou esse dilema não tem uma noção forte do que seja crítica, tradução, análise ou interpretação  - porque é sempre de traduções que se trata nessas atividades.  Zé Paulo nunca aprendeu nenhuma língua de forma sistemática.  Nenhuma.  De algumas delas, como o holandês, se aproximou por meios prosaicos: aquelas coleções de discos que prometiam um acesso indolor a línguas de pouca circulação.  E no entanto chegou a resultados formidáveis.  Enfim, desconfio que ele queria provar que qualquer um, desde que movido por um encanto sem limite para com um objeto cultural, poderia chegar a relacionar-se com ele de forma amorosa e dignificante.”

Este poeta, até pela sua formação, que nada tem de “especialista”, técnico em química que foi, profissão que exerceu até ir trabalhar como editor na Editora Cultrix, põe em evidência  o que Naves diz também acertadamente tanto sobre sua poesia quanto sobre os magníficos textos de crítica que  José Paulo deixou (reunidos postumamente em Armazém literário). Neles, Naves realça o fato de Paes “priorizar determinados aspectos do trabalho de escritor: clareza, correção, preocupação com o leitor, adequação aos meios em que escrevia e um quase desprezo a qualquer ostentação de brilhantismo ou erudição.  De certo modo – principalmente como crítico literário – Zé Paulo escrevia para pessoas que, como ele, se relacionavam com a cultura de maneira não profissional, e que nem por isso mantinham com a produção artística um vinculo superficial.”  Essa dimensão,  que tomei a liberdade de grifar no texto de Naves, é que me parece a tarefa mais urgente para os que trabalham profissionalmente na cultura, seja como criadores, seja nas universidades, nas editoras, na mídia, nas instituições de pesquisa: fazer com que a cultura seja não para especialistas, mas para a sociedade como um todo, como maneira de dar à produção simbólica da sociedade uma dimensão digna, que, cá entre nós, no Brasil, sempre parece ter sido relegada a segundo ou terceiro plano. As questões aí implicadas são inúmeras, difíceis de abordar aqui, na medida mesma em que difíceis de abordar em qualquer instância com a profundidade adequada.  Mas para não sair pela tangente: é comum, quando essa questão é levantada,  que os produtores de cultura acabem entrando em discussões mais autofágicas do que iluministas, por assim dizer: firmam posição na defesa de seus postos “conquistados” (?), acabam falando apenas entre si – muitas vezes apenas para o embate – e se resguardam em seu jargão cada vez mais intrincado.  De imediato vem o pior efeito: o jargão perde sua razão de ser, acirra-se, e até aquilo que nem jargão era acaba sendo lançado na vala comum da “conversação estéril e masturbatória” com que geralmente as discussões que poderiam ser produtivas são identificadas pela ignorância e o desinteresse generalizado das pessoas sobre o que de fato interessa.  Assim é que, para dar o melhor exemplo, muitas vezes fico pensando em como um autor tão brilhante, profundo e claro como Antonio Candido praticamente não é conhecido fora da área dos especialistas em Letras (uma vez, nos anos 80, conversando com um amigo, já morto, jornalista de razoável nomeada no campo da discussão cultural,  fiquei atônito quando ele me disse que nunca tinha sequer ouvido falar em Candido). Ainda que minhas palavras aqui possam exalar um nefasto pessimismo, penso que José Paulo Paes, pelas qualidades ressaltadas acima por Naves, honra a tradição do melhor, isto é, a tradição de Candido.  Que um e outro continuem praticamente ignorados fora dos estudos literários apenas indica a calamitosa situação em que parece que nos encontramos no Brasil quanto aos assuntos que em princípio deveriam interessar a todos os que participam de uma sociedade democrática que se queira minimamente esclarecida.
        O que me tocou particularmente no que  José Paulo Paes deixou foi  sobretudo a descoberta de dois impressionantes  poetas:  o maravilhosamente obsceno e herético renascentista italiano Pietro Aretino (neste blog: http://robertobozzetti.blogspot.com/2011/01/ah-um-soneto-estrambotico-e-luxurioso.html) e o grego moderno, do começo do século XX, Konstantinos Kaváfis (neste blog: http://robertobozzetti.blogspot.com/2010/12/dois-poemas-de-kavafis.html  e http://robertobozzetti.blogspot.com/2011/10/konstantinos-kavafis.html) : os dois, uma vez lidos, se incorporaram para sempre ao meu “fatal lado esquerdo”. Mas tudo em José Paulo Paes é muito bom, muito estimulante.  Assim também os livros de poesia dedicados a crianças, que começou a escrever ainda nos anos 80.  Dentre eles, É o bicho, o primeiro, alimentou a leitura de meus filhos em seus primeiros anos de vida.