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segunda-feira, 9 de abril de 2018

CINCO POEMAS DE EDSON PEREIRA S.: marEmoto


Construí-los de água e sal
Dar-lhes movimentos de marés
Cores de oceano
E navegá-los

Cometer naufrágios
Dando-lhes mistérios

Construí-los com melodia de marulho
E silêncio abissal
Calcareamente brancos
Como coração de concha

Povoar de espécies
Plâncton, nécton, bentos

Construí-los reto horizonte
E deixar-los ir
Vela, vento
Asa

Linha, traço, rota
Solitude

2

Anoiteço
Sem estrelas, sem lua
Noite apenas

Navego
Escuro, só
Negras vagas

Até onde possa
Aportar
Manhã


3

Que saudade do trem
Trenzinho
Leopoldina
Caipira

Levava a gente
A Nictherói
Seis horas de viagem
Ansiedade e pó

Na partida
A despedida
Lenço branco de cambraia
De interior

Porto do Carro
Campo Redondo
Adeus ainda
Na nossa cabeça

Araruama
Sampaio Correia
Trilho
Fumaça

Na estação
Cidade grande
Olhos grandes
De espanto

Cabo Frio ficou
No convento
Na ponte
No anjo caído

4


Reside o vento em mim
Como nas palmeiras
Há muito faz
É dono do emaranhado do meu cabelo
Há muito faz
Nordeste, sudoeste
Nas velas do pensamento

Mas sou comandante desse barco
Não discernisse o rumo
Seria naufrágio
Donde reside o vento
Donde resido vento

Linha do sol, sextante, compasso
Traço a rota
Caço a vela
Miro a proa
Nessas águas de vento


5
Quando veio o vento
Eram noturnos e
Ébrios
Dançavam boleros

E quando vieram
Os peixes da chuva
Suas bocas morriam
Em inverno e verão
Tempo e frenesi
De libélulas

Até que veio a manhã
E fez deles
Uma rosa estiagem
De outono






        Sera lançado nesta terça-feira, dia 10 de abril, o livro de poemas de Edson Pereira S., para o qual tive a honra de ser convidado a escrever a orelha de apresentação, que posto a seguir:

Mar substantivo
         A escrita em marEmoto distingue-se de saída pela sobriedade, pela  inênfase da voz poética: dicção elíptica,  poucos adjetivos que, quando presentes, é como se quisessem passar despercebidos: via de regra, designam pouco mais que  a cor ou são apenas fantasmagoricamente visíveis em locuções adjetivas (“latitudes de auroras/longitudes de poentes”), ou ainda “disfarçados” em advérbios,  a qualidade rarefazendo-se em circunstância: “naufragarei navio”. Quando brilham em inventividade são ótimos achados de substantivos em função adjetiva, no que a antiga retórica cataloga como enálages: “amor nave”/”cabelos Atlânticos”.   Porque o que prevalece aqui é a concretude,  são os nomes que, frequentemente remetendo ao mar,  designam o  horizonte do todo, mais do que sua ambientação; em especial na segunda parte do volume os verbos deixam claro a que vieram,  respondendo pelo  efetivo movimento designado no título por “moto”, imagem axial  a comandar em  boa medida os principais efeitos da leitura do livro: veja-se, por exemplo, como  a ideia de estabilidade, de fundamento presente,  num dos melhores poemas do livro,  no correlato “residência”,   assim se resolve no  seu contrário : “Reside o vento em mim/Como nas palmeiras/Há muito faz/(...) Donde reside o vento/Donde resido vento”. Observe-se que não é “onde”, é “donde”, com uma implícita sugestão não da plácida ideia da estabilidade do morar, mas de ser proveniente de algum lugar, ou seja, habitar (n)a mudança, como a dizer que é tudo movente, de modo tal  que  os próprios significados de águas e de vento entram na íntima relação de aproximação amorosa, o  que é uma das pedras de toque de toda boa poesia: “Nessas águas de vento”.  Em marEmoto o horizonte é o movimento. Do mar à terra,  daí às anotações da vida social na terceira parte do volume, quando, nos últimos poemas,  o acidental parece atingir a própria dimensão gráfica dos textos. Poética da concretude que parte do mar e dele e nele lança suas redes: Pancetti e Caymmi sempre souberam da substantiva  inextricabilidade de mar e movimento.”





          Amigo de longa data que sou do autor, deixo que ele mesmo se apresente, tal como está em marEmoto:

Edson Pereira da Silva assina aqui Edson Pereira S. para não incomodar soletrando tanto alemão da primeira versão (ou seria judeu, digo, novo cristão?). Nascido em Cabo Frio, onde foi criado, sua terra virou quimera (em todos os maus sentidos). Hoje exilado em Niterói, está longe um oceano donde viveu sete anos e lhe trouxe de volta um avião, embora a alma ainda nade em indecisas águas. E a poesia? Como diria Mário de Andrade:

Todo escritor acredita na valia do que escreve
Si mostra é por vaidade
Si não mostra
É por vaidade também.

Resolvida, então, esta questão (?). Quanto às musas, estão todas implícitas, quanto às crenças, estão todas explícitas e não se fala mais nisso. Não tem celular, navega mal na internet (tantos naufrágios...), mas tem e-mail para correspondência (gbmedson@vm.uff.br) embora seja preciso um pouco de paciência, se a pessoa desejar, realmente, uma resposta. Todos os poemas daqui são antigos, como já está ficando ele mesmo.


Edson Pereira da Silva. marEmoto.  Rio de Janeiro: Editora Texto Território, 2018. 


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

GUTO LEITE


       
 


       Talvez um instrumento o que se houve ao fundo, o sexto livro de poemas de Guto Leite, mineiro de BH radicado em Porto Alegre, onde é professor de Literatura Brasileira na UFRGS, começa a ser corajoso pela provocação contida na homofonia do  título.  Provoca o leitor, claro que a pressupor um leitor dado às frequentações da poesia.    E continua a ser corajoso em seu texto de abertura, “A queda”, toda uma primeira seção do volume feita de um bloco maciço de prosa poética sem pausas,  a exigir fôlego, controle da respiração e da volúpia,  a exigir uma familiaridade com um tipo de texto pouco comum entre nós (só entre nós?) já um século depois de Joyce, que se faz presente somente  nos raros e rarefeitos vislumbres atingidos por, pra ficar na prata da casa, o Leminski de Catatau, o Waly de Me segura que eu vou dar um troço, Gramiro de Mattos (Ramirão ão ão) de Urubu-Rei e poucos mais, sem falar nas Galáxias de Haroldo de Campos.  Difícil recortar algo para dar de exemplo ao leitor aqui dessa descida do poeta às várias mortes de seu Inferno, sugerido pela epígrafe do Canto I da Comédia (sem designação de autoria) e pela afirmação do prefaciador, que nos assegura estarmos diante de um todo que dialoga com a obra máxima de Dante.

         Mas “A queda” oferece súbitas  recompensas de intenso prazer epifânico, entremeado com árduos esforços da escalada (para baixo é escalada?).  Na dificuldade de tomar um trecho bem delineado como exemplo dessa aventura inicial, dou ao leitor sua página de abertura:

da primeira vez que morri foi uma
espécie de  susto puxei o ar inutil
mente ar não era o problema e cai

como do sono no horror macio da c
ama da segunda de súbito uma dor
aguda rasgou-me do peito para cá f
ora farpa extensa e pontuda quede
i esquecido feito estopa velha da
terceira descobri tarde que estava
morrendo uma centena de células pó
r vez apodreciam no tronco jeito
que deus inventou pra matar a clãs
se média não há o que fazer lembro
de ouvir antes da vertigem e entre
o que fora e o que era formou-se
uma ponte fina de ataduras soros
analgésicos choros de familiares d
a quarta intervi magroexasperado m
e leve logo cortemos o papo derr
ame sua foice do modo que for cond
uza-me rápido para o outro lado do
rio  retire-me já dos demais  viv
entes a morte premente que é o a
caso enlutado cansou-se de mim e
em uma voz de mil séculos  bradou


        Mas o melhor nem é buscarmos  confirmar e reconhecer – ou não – nas diversas “estações” de Guto o diálogo cheio de negaças também, por exemplo,  com as estações de Rimbaud:  o melhor será se entregar de início ao gozo de seu livro, fruindo cada texto em sua singularidade. Assim a segunda seção, toda em rascantes textos curtos (veja-se no recorte que fiz abaixo os dois primeiros e os dois últimos poemas, todos sem título),  bem como a terceira seção, onde o poeta permite se espraiar mais em extensão e diálogos explícitos (veja-se o extraordinário “Poema tirado de duas notícias de jornal”, a que o ilustrador Talarico deu aqui sua valiosa contribuição).  O leitor nem tão familiarizado assim com um universo poético muito vasto poderá, ele também, ter muito a fruir de todo o convívio – e poesia é arte de convívio, longo, fiel e amoroso – com os poemas deste Talvez um instrumento o que se houve ao fundo.


         E como isto não é uma resenha, pretendendo ser mais uma apresentação o mais digna possível deste poeta (por sinal, ele é também cancionista, tendo já dois CDs lançados, mas a isso volto em outra ocasião)que conheci pelas redes sociais (o lado bom da coisa), vai aqui uma breve mostra de sua poesia:

         se teu verso não causa
         náusea ou suicídio
         é propaganda

x

         os nascidos até hoje
         menos os vivos
         morreram

         quando é a tua esperança



POEMA TIRADO DE DUAS NOTÍCIAS DE JORNAL

no dia 25 de outubro de 1975
um próprio cinto
casado
pai de dois filhos
apresentou-se no paraíso
para esclarecimentos

no dia seguinte
constrangido
pelas relações que não tinha
com o partido
enforcou-se
nas grades da cela

para isso
usou o pescoço
cheio de roxos
de vladimir herzog

hoje o paraíso é tombado

segundo o Condephaat
a construção
aspas
possui apelo estético
particular
e carrega uma difícil simbologia
política

fecha aspas




VALERÁ A PENA

valerá a pena
criarmos códigos
memórias juntos
filhos & ódios

se um dia os lábios
de um dos dois
fossem fissurados
por ausências

valerá a pena
amarrar afetos
dividir espasmos
e concretos

se um dia a vida
de um dos dois
estiver submersa
de pretéritos


VALERÁ A PENA

valerá a pena
parear destinos
combinar tecidos
temperos & agendas

se um dia a tarde
para um dos dois
impuser seu corpo
vagarosimensa

valerá a pena
sobrepor os panos
suspender os planos
suspirar os sábados

se um dia imóvel
um dos dois
compulsoriamente
romper com o pacto


x

não gaste anestesia
com a negrinha

x

isso não é poesia
por isso é poesia


Guto Leite.  Talvez um instrumento o que se houve ao fundo. Belo Horizonte: Moinhos, 2017.






sábado, 7 de outubro de 2017

NUNO RAU: CINCO POEMAS DE MECÂNICA APLICADA





ZEITGEIST, OU PARAPSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

                            para Roberto Bozzetti

o Espírito do Tempo eu nunca vi:
devo estar cego, ou ando desfocado,
se pra cavalo deste santo irado
não mostro vocação nem pedigree.
Não sei se escrito ou psicografado,
me dizem que ele anda por aí
disperso, esparso em tudo o quanto li,
e eu procurando aqui, bem do meu lado.
Mas não me cabem passos nesta dança,
só a sensação de ter perdido o bonde
e visto as tais flores no ar [sem hastes],
quando, virando cabos e esperanças,
uma voz sussurrava não sei onde:
“Ainda é cedo, amor, mal começaste...”




SÁBADO EM COPACABANA

a menina olha o mar
do outro lado da avenida  Ela está parada
no calçadão enquanto
os carros passam
as noites passam
as suas chances
passam enquanto seu olhos
trilham o meio do breu das águas
e se perguntam onde foram parar
os dólares e os euros
que clientes americanos e italianos
largavam por cima
do lençol molhado de suor
e esperma  Ela não sabe que a máquina
de imprimir notas verdes
está emperrada no além
do breu das águas e os gringos
andam agora com as mãos
nos bolsos no olho
da rua  Ela tem sonhos
psycho em que dança
nua com as colunas de uma igreja
abandonada entre
orgasmos
numa batida trance
numa batida trance
numa batida trance  Ela
tem sonhos ácidos em que seus dedos
gozam quando tocam as notas
verdes que saltam de uma pauta
como cédulas de cinquenta
na batida
do funk  Ela tem sonhos
mínimos em que seu corpo
acende feito neon quando milhões
de mãos se esfregam
em suas pernas
perfeitas de cleópatra
do subúrbio
e seus poros aspiram moedas
que douram seus pelos
como água oxigenada e vão
direto para a conta
bancária do paraíso
fiscal através de cabos
subterrâneos  Copacabana
é um delírio nas retinas, este lugar
é um sonho em que você
não consegue dormir uma noite
que seja, ela
pensa de dentro
do inferninho da beira da praia
à meia-luz  Ela tem sonhos
turvos com um nirvana
cheio de lojas que seu dinheiro
pode comprar porque Copacabana
tatuou em sua pele
com saliva
todas as línguas
que o mundo fala
quando  não quer
dizer nada








FRAGMENTAÇÃO


tenho escrito poemas
aos pedaços, espalhados
por e-mails, contra-
capas,  guardanapos, mensagens
instantâneas, na verdade
qualquer pedaço de papel
que me olhe com sua interrogação
branca, seu jeito
de esfinge dando bandeira em cima
de um móvel, mata-
borrão de palavras fazendo
pose de papiros, tenho
escrito poemas
em pedaços que não quero
juntar, tenho pedido às canetas
que falhem, às teclas
que emperrem quando
envio cada fragmento
a um destino diferente, rasurando
os vínculos, perdendo
a linha como quem deleta
um telefone importante, tenho
esperado que os amigos
se distraiam entre as amenidades
com que disfarço o contrabando
das palavras, tenho lido
muitos poemas e sinto
tédio frente ao presente
que ainda pretende
chocar quando retiro
os andaimes e o impacto
não penetra além
da película, imagem.  Então, pra ver tudo
melhor arranquei
meus olhos e joguei no fundo de um copo
sem fundo – é de lá que passei
a interrogar o abismo
dos céus como um burocrata afogado
em papéis velhos enquanto anjos
sem pedigree entoam salmos
punks de três acordes, distorção
amplificada e loop
frenético diante da parede
transparente onde rabisco
versos com uma tinta
tão negra que a grande noite
dos séculos não vai deixar
ninguém ler.



NO ALÉM DO LABIRINTO

                   para Antonio Cícero

agora o mar, um útero, me aguarda
gelado, e o choque logo transformado
em asfixia [e dela, num só passo
áspero e rápido, ao balé que as algas
fantasmagóricas desenham na água]
não assusta, nem antes o sol claro
contra o azul infinito recortado
com seu halo, nem a visão das vagas
e das terras ao longe que eu tanto
quis um dia conhecer, nem a brisa
que do calor do sol me distraía.
Tudo isso pensava ontem quando
olhava seu rosto e algo me vinha
do futuro, num susto, e você ria.



ARS POÉTICA

diga logo e que você tem a dizer e saia


Nuno Rau.  Mecânica aplicada.  São Paulo: Patuá, 2017.


domingo, 1 de outubro de 2017

CINCO POEMAS DE ELESBÃO RIBEIRO (1946)

MACHADIANA

tantas missas assisti
tantos braços perdi



TERAPIA

é mesmo impagável a minha amada
trouxe-me para casa do hospital
tinha operado o joelho
trouxe uma garrafa de vinho
acendeu um charuto
abriu as pernas
anda
vamos cuidar desse joelho



PROJEÇÕES

os deuses que os homens criam são mais bonitos
mais garbosos mais sublimes
do que os homens que os deuses criam




De “Cantigas para ninar raparigas românticas tanto quanto eu”

5

de tanto ouvir histórias
que lhe contava a mãe
andava a pobre menina pobre
para desespero do pai
pobre sapateiro da aldeia
a caçar sapos pelos charcos

não percas tempo menina
o sapo que procurar é príncipe
no palácio real
disse-lhe a bruxa

se queres tanto beijar o príncipe
faço-te uma bela princesa
assim fez

foi a pobre menina rica princesa
beijar o príncipe
o rico príncipe voltou a sapo

então não sabias que sou má
disse a bruxa à pobre menina



PARTILHAMENTO

pegou-a nua na cama com outro
nu também
nus estavam nus saíram correndo
ficou fulo da vida
queria tanto partilhar


         Os três primeiros poemas, de Estação Piedade (2013); os outros dois são de Namorada anarquista (2014), todos editados pela Editora Texto Território.  Neste dia 03 de outubro, eu e Elesbão lançaremos nossos livros mais recentes, respectivamente Despreparação para a morte e Abnegação (v. capa), no auditório do PAT, na UFRRJ, campus Seropédica às 18:00 h, com leitura de poemas e debate. Os dois livros são editados pela Editora Texto Território.