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terça-feira, 25 de agosto de 2015

MEMÓRIA


                                        MARIA TERESA HORTA (1937)

 

Retenho com os meus
dentes
a tua boca entreaberta

 
e as palmas das mãos
dormentes
resvalam brandas e certas

 
As tuas mãos no meu peito

 
e ao longo
das minhas pernas

 

 

Maria Teresa Horta. Antologia pessoal + 22 inéditos. RJ: 7 Letras, 2006.

 
 

domingo, 29 de março de 2015

HERBERTO HELDER







               

         Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado.  Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro.  Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe.  Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

         O problema do artista era este:  obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que  fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava.  Assim, os elementos do problema constituíam-se n a própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1º. – peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2º. – peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

         Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação.  Essa lei seria a metamorfose.  Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.

 

                                              (do livro Vocação animal, 1971)

 

In: MENÉRES, M. Alberta e MELO E CASTRO, E. M. (org.).  Antologia da novíssima poesia portuguesa. 3 ed. rev. e atualizada.  Lisboa: Moraes, 1971.


sexta-feira, 16 de março de 2012

MARIA TERESA HORTA






PEQUENOS DIZERES SOBRE A MULHER

I
Não come da
fome
nem come do medo

nem guarda na
arca
com a roupa o segredo


II
No armário
não tem vestido
mas também não tem o medo

na fome
os dentes vão lendo

no corpo
o frio vai cedendo


III
Há quem diga da mulher
e há quem conte a sua vida

Conforme o pão
a mulher

conforme a luta
é nascida

Há quem diga  dos seus
olhos
e há quem conte do seu ventre

conforme o peso
que arrasta

conforme o país
que sente


IV
Acolhe a mulher
o cântaro

na água acolhe
os joelhos

debruçada sobre
o balde
os anos acolhe inteiros

Acolhe a água
no cântaro

nos joelhos
a camisa

debruçada sobre
o tempo
acolhe a mulher a vida


V
Não há pranto que se ajuste
à fome de uma espingarda

nem porcelana que parta
os olhos da sua água

A mulher na sua casa
põe a frescura no cântaro

e o poente dobrado
depõe-no ela a um canto


in: Cem poemas [Antologia pessoal] + 22 inéditos.  7Letras, 2006.