Na época do lançamento nos cinemas de Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, o documentário sobre Wilson Simonal, eu saí tão impressionado da sessão que escrevi o texto a seguir, que posto abaixo com pequenas alterações no detalhe. O filme já existe em DVD e o Canal Brasil o tem passado. Vale como um momento para esta postagem.
Wilson Simonal era um sujeito escroto. Quanto a isso não parecem restar muitas dúvidas. Ou, pelo menos, passou boa parte do auge de sua curta carreira investindo na imagem do sujeito escroto. O documentário recém-lançado sobre sua trajetória não parece estar muito a fim de limpar a barra dele por esse lado. É extraordinário o filme, é extraordinário o personagem que dele emerge. Com toda a sua escrotidão.
Que acaba ficando em segundo plano, acrescente-se. Em primeiríssimo plano, o filme põe, merecidamente, o seu não menos extraordinário talento de cantor, de entertainer de enorme carisma, enxertado de ingenuidade e cafajestagem em exata dosagem midiática. E mais que tudo isso: o filme registra dolorosamente a lembrança de tempos de intransigência, intolerância e cafajestagem a torto, à direita e à esquerda. Tempos escrotos, enfim. Tempos que relegaram Simonal a um terrível castigo, o da morte em vida. O da morte pela distância que dele fizeram questão de manter seus antigos companheiros de showbizz e de meio musical, de boicote desses mesmos meios e da mídia, que o arrastaram da difamação ao anonimato, daí à pestilência, à vergonha perante o público, enfim ao ostracismo e à morte. E à impiedade post-mortem. Que o filme, de forma extremamente lúcida e conseqüente, vem tentar consertar.
Não estou ainda na “melhor idade” (melhor só do que a próxima), mas lembro de uma entrevista no Pasquim, na primeira vinda de Caetano do exílio londrino, em 71 portanto, em que Tarso de Castro tenta de todas as maneiras que ele fale mal de Simonal. E Caetano se recusa, eximindo-se de início de conhecer as circunstâncias que naquele momento cercavam a figura do cantor – quando Caetano e Gil foram para o exílio londrino, Simonal estava no auge – e a seguir afirmando taxativamente que o que ele sabia de Simonal era que se tratava de um excelente cantor – e ponto. Por si só uma recusa como essa era um ato de enorme coragem naquela época, ainda mais no Pasquim. Caetano sempre foi corajoso.
Ao dizer que Simonal era um escroto, estou tranqüilo quanto aos velhos vícios escaramuçados no homo brasiliensis: nada a ver com o fato de ser o negro que deu certo, de ser o crioulo marrento, o analfabeto que ganha mais do que quem estuda, nada disso. Simonal era um escroto porque a atitude que o levou ao cadafalso foi uma atitude escrota: chamar uns amigos ligados às forças da repressão, uns pés de chinelo, pra “dar uma dura” num empregado que ele julgava estar lesando-o. E a coisa saiu de seu controle. Agora, e isso é fundamental frisar, trata-se uma atitude absolutamente corriqueira em nossa sociedade de pessoas escrotas, em nossa sociedade escrota. Que acontece a torto e a direito e à esquerda (alguém duvida?), mas que no caso dele, melou... e ele era um ótimo bode pra pagar os pecados da tribo.
Simonal não tinha ligação alguma com as forças da repressão, todos os que depõem no filme o reconhecem – e mais uma escrotidão: mesmo na época, todos pareciam ter a mesma certeza. O fato de ter, como escrevi acima, “amigos ligados” a elas não quer dizer nada também. Eram meganhas de segunda categoria, de décima quinta hierarquia. O problema, quem viveu naqueles tempos sabe, é que qualquer meganha de esquina ostentava mais poder do que os juízes. E entre estes, também, quantos eram e são escrotos...
País da escrotidão, país escroto. Saí do filme pensando que Simonal é um personagem brasileiro de tragédia grega. Tomado pela desmedida de si, cometeu a sua falha fundamental e pagou caríssimo por ela, muito mais do que merecia. E recebeu uma terrível punição sem volta. Agora, fico também pensando se ele seria de fato um personagem trágico... será que lhe faltaria para isso a grandeza que, segundo Aristóteles, seria elemento primordial para a catarse, isto é, teríamos como de fato nos condoer de sua sorte? Não, não tenho dúvida de que sim, a tentação da escrotidão nos ronda a todo momento.
O documentário toca pela primeira vez na ferida de um personagem específico, na ferida funda de uma questão incômoda para todos. Há muita coisa a ser trazida a tona ainda. Bem que se poderia começar pelo lançamento de seus discos em CDs. Em meio a muita bobagem – sim, eu tinha alguns LPs de Simonal – tem coisas também excelentes ali.