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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NOITE ESCURA

        Apago às vezes todas as luzes e fico na varanda.  Todo o quintal fica no escuro, fica tudo praticamente indistinguível mergulhado dentro da noite.  Quase total silêncio, não fossem vozes esparsas de animais no brejo ao pé dos meus degraus.  Então reparo na tristeza dos cachorros, os três vira-latas se recolhem na  falta de motivação comum de correr junto à cerca, de latir para alguém que passe na estrada - gente ou cavalo extraviado -, não passa por algum tempo nem sequer um carro à medida que se chega mais próximo da madrugada.  Os cães não têm para quem mostrar serviço.  Fica uma coisa próxima da morte, como no longo tempo, muitos anos,  em que fiquei sem vir por aqui, fica como no tempo em que nada disso existia, e como num tempo em que não mais existirá.  Os cães adivinham talvez quando se quedarão em definitivo silêncio, adivinhado  nesse escuro provisório mas persistente.  O que engolirá por fim este brejo, esta noite, estes cães, este morador? Que bocarra devorante entrevejo nesses segundos em que pareço vislumbrar, sem que me vejam,  os séculos vindouros, testemunhos de que não deixei os rastros que me assinariam?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

DA SOLIDÃO

                 As pessoas mais sábias do que eu, de alma mais forte e elevada, podem criar para si um repouso inteiramente espiritual.  Eu, que a tenho como todo mundo, preciso que as comodidades do corpo me ajudem.  E, tendo chegado à idade de perder as que mais me apeteciam, procuro as que me permite ainda esta época da vida, e arranjo-me para as aproveitar.  É preciso, por todos os meios possíveis, inclusive unhas e dentes se necessário, que conservemos o gozo das satisfações da vida que os anos nos arrancam aos poucos, umas após outras, das mãos: “gozemos; somente os dias que damos ao prazer são nossos; brevemente não serás mais que cinza, sombra, fábula.” [Persio]
                Plínio e Cícero sugerem-nos como objetivo a glória.  Não me interessa nem de longe. A disposição de espírito mais contrária à vida solitária está na ambição.  Glória e repouso são incompatíveis entre si.  Plínio e Cícero somente livraram o corpo da multidão; mais do que nunca a ela pelo espírito e a intenção: “velho pândego, então só trabalhas para divertir o povo?” [Persio]; recuaram para melhor saltar e mediante violento impulso caíram em cheio no rebanho.

                                               Montaigne
                                               Tradução de Sérgio Milliet