sábado, 11 de dezembro de 2010

Brecht no blog de Antonio Cicero

Coincidentemente, hoje também Antonio Cicero postou um extraoridnário poema de Brecht em seu blog.  Confiram em:

O VIZINHO

Eu sou o vizinho. Eu o denunciei.
Não queremos ter aqui
Nenhum agitador.

Quando penduramos a bandeira com a suástica
Ele não pendurou nenhuma bandeira.
Quando lhe falamos sobre isso
Ele nos perguntou se no cômodo
Onde vivemos com quatro crianças
Ainda há lugar para um mastro de bandeira.
Quando dissemos que acreditamos novamente no futuro
Ele riu.

Nós não gostamos quando o espancaram
Na escada.  Rasgaram-lhe o avental.
Não era necessário.  Temos poucos aventais.

Mas agora ele se foi, há sossego no edifício.
Já temos preocupações demais
É preciso ao menos haver sossego.

Notamos que algumas pessoas
Viram o rosto quando cruzam conosco.  Mas
Os que o levaram dizem
Que agimos corretamente.

                                               Bertolt Brecht
                                               (tradução de Paulo Cesar Souza)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

BUCÓLICA

A carne começa nos olhos.
Esta é a hora de levar a ração dos lobos
e é em vão que procuro distingui-los
na campina noturna onde não se deslinda
noite e noite
terra e céu.

Agora no meio de um tão-só
imenso
compreendo que não há lobos
mas reses que se oferecem fáceis
a olhos que as intentam.

A carne começa nos olhos.


                                                 Roberto Bozzetti

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ZUMBIDO E LÁGRIMAS

               Não é comum que me venham lágrimas ante performances artísticas.  Mas é infalível quando está em cena a Velha Guarda da Portela, e assim é desde a primeira vez que a vi em ação nos idos dos 70.  Lembro do espanto que senti da primeira vez que me peguei chorando,  e lembro também  não liguei para o meu espanto.  Ainda hoje se for vê-la já sei o que me espera.  E com prazer imenso me entrego. Quarenta anos depois de sua criação, por Paulinho da Viola, são outros os integrantes – à exceção, quero crer, de Monarco e Casquinha – e o efeito é o mesmo.  Revi em DVD O mistério do samba, o extraordinário documentário que Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda dirigiram sobre essa instituição do samba carioca.
                Um trabalho de câmera com um olhar tão amoroso sobre o mundo captado, acho que só me lembro de semelhante no Morango e chocolate de Gutiérrez Alea. Quando o vi, lembro que me emocionei demais com o que a câmera-olho captava da arquitetura colonial da Velha Havana, endossando as lições que o professor dava sobre o sentido do amor pelo lugar de pertencimento – naquele caso, acossado por uma ameaça oficial fundamentada na intolerância.  Olho no casario e ouvido nos boleros derramados e proscritos. Tão diferente do olhar estetizante de Wenders sobre a mesma Cuba em Buena Vista Social Clube, isso a despeito da importância e da grandeza de seu filme. Mas aqui, no filme de Carolina e Lula,  a beleza emana do zumbido – ouvido e olho – da alma do subúrbio carioca, do zumbido da alma de cada um dos integrantes – presente e passado – da Velha Guarda.  São cenas de arrebatadora beleza: o casario de Oswaldo Cruz e suas cores, o interior e o exterior dos botequins, as negras peles vincadas das pastoras e dos velhos mestres, o baú de tesouros de Manacea, a beleza fulgurante de Áurea, sua filha, o canto coral no Portelão, e mais do que tudo, um momento de puro enlevo: a lépida e esguia senhora que,  indo à feira ou ao mercado, larga tudo para “perder tempo” num magistral miudinho à porta do bar onde rola o samba – e a seguir, com familiaridade e integração total com aquele mundo, retoma sua marcha, sabendo que,  mais do que esta o que vale é o samba;  a prosa guarda a irrupção cintilante da poesia, para retomar aqui os termos de Valéry.
                Só uma coisa me incomoda em O mistério do samba, mas tem mais a ver com a apresentação do filme, a sua embalagem: não lembro como foi no cinema, mas na capa do DVD vêm em destaque os nomes de Marisa Monte, Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho.  Nada a objetar, são três presenças de capital importância em tudo o que cerca o filme e enobrecem demais a tela sempre que aparecem.  Mas falta o nome de Monarco.  Nosso olhar e nosso ouvir de espectadores são guiados por Monarco, hoje mais do que nunca a Voz – e que voz! – da Velha Guarda.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

[CUIDA SENHOR DE MADONNA]

Cuida Senhor de Madonna,
que é bonita como uma ave de origami,
que usa sandálias com meias de estampas floridas,
que bebe café com biscoitos amanteigados na hora do desjejum,
que beija o irmão com os lábios molhados de leite,
que corta as unhas meticulosamente para não cortar a carne e depois as pinta de vermelho,
que fuma Derby ao acordar,
que faz sexo como um anjo,
que aos 14 usava anfetaminas,
que aos 16 foi violentada pelo tio e abandonada pela mãe,
que grávida aos 20 deu a luz a Kelly na cama de um hospital psiquiátrico,
que é prostituta na casa de amor 23,
que tem tatuado no ombro direito uma libélula,
que nunca foi beijada,
que seca as lágrimas do rosto com um lenço verde-piscina,
que tem uma gata chamada Marilyn Monroe,
que cheira a Dove,
que tem olhos de âmbar,
que gosta de caminhar no outono,
que pela manhã comeu cereja,
que pôs os cabelos ruivos sobre meu peito,
que chupou meu pênis antes de sair,
que levou meu Flores do mal e irá respirá-las até envelhecerem,
que esqueceu seu batom na pia do banheiro
Amém!

                                                                   Anderson Fonseca

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

GRACILIANO EM DOIS FRAGMENTOS

                
                 Livro bom de ler é Graciliano: retrato fragmentado, escrito por seu filho, o também escritor Ricardo Ramos, morto em 1992 (Graciliano morreu em 1953).  Sem pretender ser uma biografia, para além de ser um depoimento de filho sobre o pai ilustre,  é um enriquecedor depoimento de um escritor filho de escritor.  Há várias passagens marcantes sobre a figura de Graciliano; abaixo vai uma, deliciosa:
                “E no cinqüentenário do Correio da Manhã, comemorado com larga programação, transformado em feriado, meu pai ficou em casa, de pijama, para no outro dia chegar ao jornal e ouvir de Paulo:
                − Graciliano, você me fez uma!
                − Quê?
                − Não foi à missa.
                − Eu sou lá homem de missa?
                − Não foi ao banquete.
                − Eu não sabia.
                − Seu lugar ficou vazio, ao meu lado.
                − Bem feito.  Eu não me sento ao lado de patrão.
                − Mas eu sou um patrão diferente.
                − Você que pensa.  Todo patrão é filho da puta.
               
                Paulo Bittencourt deu uma gargalhada.  Papai também.  Depois, muito provavelmente, foram beber.”

                Quanto ao aspecto de ser um livro de escritor sobre o pai escritor, vai esta passagem:
               
                “Creio que todos nós, perturbados pela literatura, muitas vezes nos interrogamos sobre as intenções do autor. Não me refiro às centrais, mais ou menos óbvias, mas às secundárias e, particularmente, àquelas que ficam na sombra e pouco se revelam.  Esse lado um tanto obscuro, que na obra de Graciliano é território vasto.  E a respeito do qual ele falava muito.
                Vidas secas, por exemplo.  O soldado amarelo representa a força que sustenta o fazendeiro, que não faz as contas direito, e a sequência inteira, até a prisão do vaqueiro e a surra, está bastante clara.  Já não fica tão fácil, de um prisma histórico, localizar a mulata sinha Vitória e o alourado Fabiano em plena ascensão do fascismo, com o mito da superioridade racial ariana, ela cafuza e inteligente a dirigir o marido branco e bruto.  Mais que isso, o que poucos percebem, capaz de enganá-lo. (Como é que ia saber da cama de couro de seu Tomás da bolandeira?).”

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

DE NELSON RODRIGUES

        "Depois de passar pelos casos miúdos, redigi a minha primeira tragédia.  Uma mulher matara o marido.  Não me lembro onde (talvez na rua Mariz e Barros).  E, na polícia, quando perguntaram pelas razões do crime, foi sucinta: − “Não gostava do meu marido.”.  Não entendi, ninguém entendeu.  Matar porque não gostava, e só por isso?  Eu ainda não sabia que não gostar do marido, simplesmente não gostar, é pior do que o ódio.  Numa palavra: − não fora o ódio, que não existia, mas a simples e terrível falta de amor.  Na delegacia, na embriaguez da primeira grande chance profissional, tomei todas as notas.  E fui para a redação escrever.”
                                                                               (Nelson Rodrigues.   A menina sem estrela)