terça-feira, 11 de janeiro de 2011

DÁ MEIA-NOITE

Alb..........

Dá meia-noite; em céu azul-ferrete
Formosa espádua a lua
Alveja nua,
E voa sobre os templos da cidade.

Nos brancos muros se projetam sombras;
Passeia a sentinela
À noite bela
Opulenta da luz da divindade.

O silêncio respira; almos frescores
Meus cabelos afagam;
Gênios vagam,
De alguma fada no ar andando à caça.

Adormeceu a virgem; dos espíritos
Jaz nos mundos risonhos –
Fora eu os sonhos
Da bela virgem... uma nuvem passa.

                Sousândrade

domingo, 9 de janeiro de 2011

OS FANTASMAS DE LOBATO E TWAIN AMEAÇAM A CORREÇÃO POLÍTICA

“Passei a gostar de ler lendo Monteiro Lobato e Mark Twain.  Com eles aprendi a odiar para sempre duas coisas: preto e racista.”  A frase é a fala de um personagem de uma peça teatral que ensaiei escrever lá por meados dos anos 80 com um amigo, e sua intenção é evidentemente humorística ao apontar para um paradoxo aporético. Bom, a peça nunca saiu dos primeiros rascunhos. O meu amigo, Paulo Murilo,  morreu pouco tempo depois e nunca mais voltei ao texto.  Mas a frase ficou comigo.  Claro que se sai da aporia facilmente, ao reconhecer-se seu absurdo ideológico.  E este reside basicamente no fato de que a leitura de Twain, Lobato e outros bons escritores poderá ter diversos efeitos, mas nunca o de confinar o leitor no descaminho lógico e ideológico de um tal “postulado”.  Quer dizer, lendo bons autores aprendemos a distinguir o que é idiotice do que não é. Assim com as ironias, os chistes, as blagues, tudo o que em alguma medida porta uma intenção humorística.  Na peça acima, que não escrevemos, o absurdo do personagem, cuja intenção nossa era de que fosse o protagonista,  provinha exatamente do fato de que ele falava a frase a sério, configurando o que gostaríamos de caracterizar, em tom meio rodrigueano, de idiota fundamental.
Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Twain, Reinações de Narizinho, Caçadas de Pedrinho, A reforma da Natureza, Memórias da Emília, O saci e O picapau amarelo (esses dois últimos os meus preferidos), e todos os demais títulos da obra para crianças de Lobato foram e são – quando as folheio ainda hoje – livros fundamentais para mim.  O site UOL de hoje, 9  de janeiro, transcreve um ótimo artigo de Michiko Kakutani, do The New York Times, sobre a edição expurgada de Huck Finn lançada recentemente por uma universidade do Alabama, a cargo de um professor.
No Brasil tivemos recentemente, em novembro,  caso parecido de encheção de saco em nome do politicamente correto com Caçadas de Pedrinho, de Lobato. Ao ouvir a notícia pela manhã de que o CNE (Conselho Nacional de Educação) havia recomendado que o livro fosse retirado de uma lista de obras indicadas na educação básica, imediatamente enviei um email para  o programa (era o noticiário matutino da BandNews FM com Ricardo Boechat), que acabou sendo lido no ar.  É o primeiro dos textos abaixo:
1.
“Não, não há o que justifique banir Monteiro Lobato. A não ser o desapreço tipicamente brasileiro pela leitura, incluindo aí a literatura e por qualquer tipo de reflexão, que começa - este desapreco sim- na alfabetização. Há muito de datado e equivocado, sob o ponto de vista das relações raciais, em Lobato? Sim, há. Mas... e nos seus contemporâneos? E nos escritores do século XIX e anteriores? Sim, sim, sim... vamos deixar de lê-los, o Brasil vai dexiar de lê-los? Não, não vai deixar, pois ninguém os lê, não se lê neste país, da alfabetização à pós-graduação. Pois, se lêssemos, se fôssemos uma sociedade de leitores, saberíamos discernir numa obra tão esplêndida como a de Lobato para crianças o que merece reparos e saberíamos situá-los. Teríamos não apenas boas edições, anotadas, teríamos professores capazes de discutir essas questões com seus alunos e fazer ver a estes o quanto aquele mundo ficcional é rico e estimulante. Mas... afinal, Pedrinho caça uma onça! isso também hoje é condenável pelo politicamente correto! e o que dizer do Saci, que além de negro e trapaceiro ainda era deficiente? Proiba-se! Pensando bem... não, é melhor não pensar bem no Brasil.”

Pessoas ouviram, amigos e desconhecidos vieram falar comigo, muita gente gostou, alguns colegas torceram o nariz, enfim, e eu acabei ficando receoso de ter sido levado, no calor da hora, a cometer alguma injustiça contra pressões legítimas e democráticas de segmentos da população que teriam por que se julgar atingidos por práticas textuais discriminatórias, se bem que, em se tratando de literatura, qualquer ingenuidade nesse sentido é sempre potencialmente mortal.  .  Enfim, a escabrosa notícia ficou atrás de mim ainda vários dias e acabei postando nos meus perfis no Orkut os outros dois textos, que depois postei como nota no Facebook.  Pedindo licença por sua extensão, vai a seguir a íntegra deles:
2.
LOBATO E O “FEDOR BRASIL” 
“Pode ser que seja estupidez pura e simplesmente: assim será se Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, for pura e simplesmente banido das bibliotecas escolares em nome de uma “educação antirracista”, como indicado no parecer do Conselho Nacional de Educação repercutido pela mídia.
                Talvez não seja isso exatamente.  Leio na mídia, mas não localizei o documento oficial, que parece que a conselheira do CNE recomenda que seja feita uma edição com posicionamento crítico na edição do livro que for distribuída às bibliotecas escolares.  Em função disso, parece que o MEC  formaria uma comissão para examinar o caso e opinar.  Melhorou.
                De minha parte, eu gostaria de entender a mecânica da coisa.  Parece que um mestrando da UnB denunciara o “conteúdo racista” da obra ao Conselho, que aí se pronunciou.  Tudo bem, penso que faz parte da vida democrática a pressão legítima sobre as instâncias de decisão daqueles que, em grupo ou individualmente, se sintam prejudicados por práticas sociais que venham a atingir  o coletivo como um todo.
Mas não sei... tem um “fedor brasil” nessa coisa toda, que eu juro que não consigo captar lá muito bem.
                Há muito tempo eu não leio os livros infantis de Lobato.  E não leio porque... bem, adiante eu explico. Mas a obra infantil de Lobato precisa ser editada e muito editada porque literariamente ela é primorosa. São livros que precisam continuar circulando, interagindo com novos leitores, produzindo novos e novos sentidos.  Assim é que se faz a literatura.  E a de Lobato para crianças é das grandes.  Seus aspectos datados em termos de relações raciais – mas não apenas – podem e devem ser observados em notas de edição que enfoquem corretamente quando surgirem.  Mas... e aí o tempo que fiquei sem ler Lobato pode me trair... é que é  preciso observar não apenas o tal “contexto histórico” em função do qual essas notas podem se justificar, mas sobretudo analisar bem o jogo ficcional onde essas “falas” e “opiniões” supostamente (vá lá) preconceituosas se inscrevem.  Eu tenho medo que alguma coisa de próprio do jogo ficcional aí venha a se perder. 
                Quanto ao fato de há muito tempo eu não ler Lobato, toquei na questão ali em cima e explico por quê.  Porque durante muito tempo seus livros não foram reeditados.  Criei três filhos, hoje já adultos, e pouco consegui comprar de Lobato para eles porque – ouvia dizer, não sei se isso se mantém – os livros não eram editados por questões de direitos autorais com a família do escritor. 
                Circulo em meio a colegas e estudantes que se dedicam a tratar da “literatura infanto-juvenil” – que é como se chama isso nos cursos de letras – e não se fala em Lobato ou pouco se fala.  Que eu saiba, não é obra oferecida às crianças nas escolas.  Outro lado também cruel disso é que provavelmente a maioria dos professores não saberia lidar com o “problemático” da obra e fazer render em discussões de sala de aula com seus pequenos alunos.  Não é nem caso de culpar os colegas, claro, a relação professor/alunos hoje talvez mais do que nunca é cercada por problemas terríveis por todos os lados, do estupidificante bombardeio midiático de todo dia à familiaridade cada vez maior com a bandidagem e a violência,  que se traduz o mais das vezes num  salvar-a-pele cotidiano do trajeto da casa à escola e vice-versa.
                Por isso também estranho que um sujeito – que pode até ser bem qualificado – entre com um processo no CNE contra um livro específico e possa vir a conseguir bloquear o acesso de leitores a esse livro.  Isso não cheira bem.  Como não cheira bem que mesmo uma edição recomendada com notas e tal, como parece que consta da íntegra (não da súmula)  do parecer da conselheira do CNE acabe não sendo feita.  O burocrata diga: “Olha, deixa pra lá, recomenda outra coisa, dá menos trabalho e despesa...” E o veto se concretize.  O “fedor brasil” mais uma vez sairia vitorioso.” 
Vai daí então que alguns dias depois eu conseguia acessar o parecer do CNE em função do qual escreveria o terceiro texto, que também postei no orkut, e que vai abaixo:
3.
AINDA LOBATO E O CNE
                “Fui ler o parecer do CNE sobre a questão de Caçadas de Pedrinho, de Lobato, cuja adoção nas escolas foi denunciada por um mestrando em Educação da UnB a partir da constatação feita por ele de que o livro, adotado numa escola da rede particular do DF (!), conteria conteúdo racista e portanto em desacordo “com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível”.  Meu texto aqui assumiu esse caráter oficialesco do jargão burocrático contaminado que foi pela leitura custosa daquilo que do processo  consegui acessar.  E acessei somente pelo Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-brasileiros) em www.ipeafro.org.br, que aliás manifestou apoio à decisão do CNE.
                Pois é.  A não ser que haja ainda algumas coisas que eu não consegui saber, a primeira constatação é:
- que não houve da parte do CNE sugestão clara ao MEC de censurar ou de banir de currículos o livro de Lobato; diferente do que houve, da parte do denunciante, o mestrando em Educação, que propôs sim a censura, nos seguintes termos: “O solicitante encaminha denúncia no sentido de se abster a Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal de utilizar livros, material didático ou qualquer outra forma de expressão que, em tese, contenham expressões de prática de racismo cultural, institucional ou individual na Educação Básica e na Educação Superior do Distrito Federal.”
A segunda constatação:
-  que o CNE, reconhecendo coerência na argumentação que lhe foi enviada,  não endossou a censura, mas... sugeriu que o MEC cumpra pelo setor competente, a indicação de obras que “primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor;”  na prática, isso equivaleria à mesma coisa, isto é, à censura, ou não?  Creio que sim, mas passa a bola para o setor do Ministério encarregado de definir as indicações bibliográficas.  Agora, o CNE reconhece que se faz necessário que o   MEC  efetivamente atue junto às universidades no sentido de “formar professores que sejam capazes de lidar pedagogicamente e criticamente com obras consideradas clássicas presentes na biblioteca das escolas que apresentem estereótipos raciais.”  E se propõe mais: “exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante.”  
                Olha, é uma gloriosa maneira, a meu ver, primeiro, de fingir coragem onde não há coragem: “abster-se de”, como pediu o requerente, ou “não selecionar”, como (não) quer o CNE significa sim censurar, banir do currículo.  É não dizer o nome.  É também uma maneira de reconhecer que a formação de professores está deixando muito a desejar e não por culpa somente das universidades.  Professores que saibam lidar com essa questão de fato são poucos, porque essas questões existem na sociedade e não serão livros não recomendados que respondem por isso. É uma falta de formação geral que parece que inclui em primeiro lugar ausência de leitura e de reflexão. E não são somente professores que devem ler e não lêem – é um conhecido desamor pela leitura de textos mais exigentes, o que é um sintoma antigo e fundo entre nós.  E é ainda uma modesta maneira de reconhecer a derrota afinal de contas para a literatura, para a fruição artística, literária, para aquilo que é indomável aos olhos de uma prática pedagógica ou moralizante bem ou mal intencionada. Afinal, restaria por provar que o preconceito de raça no Brasil, que a subalternização das populações negras e descendentes deve ter sua conta paga por obras artísticas que teriam levado a esse estado de coisas. 
Enfim, é isso.  Como lido profissionalmente com o ensino de literatura - não a infanto-juvenil - como tenho entre alguns livros fundamentais da minha vida alguns de Monteiro Lobato, que não me incutiram nenhum tipo de preconceito racial nem distorceram decisivamente nenhum traço da minha personalidade - não que eu não tenha distorções, mas podem ser "de nascença" ou imputáveis a outros autores e não necessariamente de livros, rá!, - senti que eu devia me pronunciar de alguma forma, já que há um bom tempo eu pergunto a alunos e colegas que lidam com literatura infanto-juvenil se Lobato é trabalhado nessa linha de pesquisa e invariável e inexplicavelmente o que ouço de volta é "Não".”
Relendo-os agora, pouco tempo depois de escritos, acho que pelo menos mais duas observações se impõem:
1ª.)- Defendi nos textos acima  “edições bem anotadas” a serem adotadas para os currículos escolares e tal... penso se tratar de ingenuidade minha.  Um livro com boas notas editoriais é sempre uma preciosidade, mas penso que o melhor é mesmo abrir mão delas, não apenas em nome de se excluir pedagogês no trato da literatura, mas o difícil está justo na questão de se conseguirem de fato “boas notas”, ainda mais em se tratando de obra a ser adotada – ou recomendada – nos currículos oficiais.  Meu medo é que equívocos em nome do “politicamente correto” acabem entrando por outra porta, ainda mais quando sei que tenho colegas, e não são poucos,  que defendem as posições de cerceamento (inclusive, vale lembrar que a moção partiu de um mestrando em Educação).
2ª)- Os exemplos de passagens, frases e até mesmo palavras que deveriam ser “expurgados” montam ao infinito quando se trata do patrimônio da literatura acumulado ao longo de tantos séculos.  Mesmo em dimensão modesta, se pensarmos por exemplo na tradição bem menos numerosa da canção brasileira – na linhagem do samba carioca, por exemplo, mas não apenas – também aí a lista de expurgos haveria de ser imensa.  O melhor mesmo é deixar que a arte ganhe seu sentido ao ser apropriada por cada um de seus leitores, de seus fruidores.  O resto é chilique insuportável.

sábado, 8 de janeiro de 2011

AH, UM SONETO...

Na série "Até segunda ordem", Paulo Henriques Britto elabora, em cinco sonetos, uma divertida narrativa epistolar de bandidagem, como numa estória de gangsterismo.  Que os bilhetes trocados entre os integrantes da quadrilha sejam sonetos é um espetacular achado de irrealismo, que comprova o virtuosismo do poeta, um virtuosismo aqui a serviço da demonstração de que tudo é possível no soneto, como tudo é possível em qualquer forma de arte que o artista senhor de sua linguagem domine.  


(19 DE JANEIRO)

Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,

e àquela moça – a dos “quatorze dígitos” –
o embrulho que ficou com o teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquetes back-up estão comigo.

Até mais.  Heroísmo não é a minha.
A barra pesou.  Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,

mas deixei um revólver na cozinha,
com uma bala.  Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.

                                               Paulo Henriques Britto (in Trovar claro, 2006)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

DE "DIVAGAÇÃO SOBRE AS ILHAS"

               Por aí se observa que a ilha mais paradisíaca pede regulamentação, e que os perigos da convivência urbana estão presentes.  Tanto melhor, porque não se quer uma ilha perfeita, senão um modesto território banhado de água por todos os lados e onde não seja obrigatório salvar o mundo.
                A idéia de fuga tem sido alvo de crítica severa e indiscriminada nos últimos anos, como se fosse ignominioso, por exemplo, fugir de um perigo, de um sofrimento, de uma caceteação.  Como se devesse o homem consumir-se numa fogueira perene, sem carinho para com as partes cândidas ou pueris de si mesmo, que cumpre preservar principalmente em vista de uma possível felicidade coletivista no futuro.  Se se trata de harmonizar o homem com o mundo, , não se vê por que essa harmonia só será obtida através de um extermínio generalizado e de autopunição  dos melhores.  Pois, afinal, o que se recomenda aos homens é apenas isto: “Sejam infelizes, aborreçam o mais possível aos seus semelhantes, recusem-se a qualquer comiseração, façam do ódio um motor político.  Assim, atingirão o amor.” Obtida a esse preço a cidade futura, nela já não haveria o que amar.
                Chega-se a um ponto em que convém fugir menos da malignidade dos homens do que da sua bondade incandescente.  Por bondade abstrata nos tornamos atrozes.  E o pensamento de salvar o mundo é dos que acarretam as mais copiosas – e inúteis – carnificinas.
                Estas reflexões descosidas procuram apenas recordar que há motivos para ir às ilhas, quando menos para não participar de crimes e equívocos mentais generalizados.  São motivos éticos, tão respeitáveis quanto os que impelem à ação o temperamento sôfrego.  A ilha é meditação despojada, renúncia ao desejo de influir e de atrair.  Por ser muitas vezes uma desilusão, paga-se relativamente caro.  Mas todo o peso dos ataques desfechados contra o Robinson moderno, que se alongou das rixas miúdas, significa tão-somente que ele tinha razão em não contribuir para agravá-las.  Em geral, não se pedem companheiros, mas cúmplices.  E este é o risco da convivência ideológica.  Por outro lado, há certo gosto em pensar sozinho.  É ato individual, como nascer e morrer.
                A ilha é, afinal de contas, o refúgio último da liberdade, que em toda parte se busca destruir.  Amemos a ilha.

                             Carlos Drummond de Andrade (In: Passeios na ilha)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

NOITE ESCURA

        Apago às vezes todas as luzes e fico na varanda.  Todo o quintal fica no escuro, fica tudo praticamente indistinguível mergulhado dentro da noite.  Quase total silêncio, não fossem vozes esparsas de animais no brejo ao pé dos meus degraus.  Então reparo na tristeza dos cachorros, os três vira-latas se recolhem na  falta de motivação comum de correr junto à cerca, de latir para alguém que passe na estrada - gente ou cavalo extraviado -, não passa por algum tempo nem sequer um carro à medida que se chega mais próximo da madrugada.  Os cães não têm para quem mostrar serviço.  Fica uma coisa próxima da morte, como no longo tempo, muitos anos,  em que fiquei sem vir por aqui, fica como no tempo em que nada disso existia, e como num tempo em que não mais existirá.  Os cães adivinham talvez quando se quedarão em definitivo silêncio, adivinhado  nesse escuro provisório mas persistente.  O que engolirá por fim este brejo, esta noite, estes cães, este morador? Que bocarra devorante entrevejo nesses segundos em que pareço vislumbrar, sem que me vejam,  os séculos vindouros, testemunhos de que não deixei os rastros que me assinariam?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DUAS ASSINATURAS

                  Em 1966, depois de muitos dias de chuva,  o Arno transborda e causa o que foi a maior catástrofe natural que até hoje atingiu Florença.  O que os bombardeios da 2ª Guerra Mundial pouparam a água faz com a cidade-monumento: uma devastação sem precedentes, um rastro inacreditável de destruição. Na alcova de um daqueles palazzos milenares o arquiteto Melandri está prestes a conseguir seduzir em definitivo a bela Apolonia, galharda e altiva como uma Virgem de Rafael, os dois entregues às preliminares – ele, um sátiro profissional; ela, uma guardiã das virtudes cristãs – sem nada saber do que se passa lá fora. É quando chegam da rua os gritos dos vizinhos, que se deparam com a catástrofe no dia que amanhece.  Prestes a sucumbir aos apelos eróticos de Melandri, Apolonia encontra forças para agradecer aos céus o dilúvio que interrompe o ato antes de sua definitiva consumação.  Enxergando a dimensão do estrago feito pelas águas, Melandri lhe grita indignado: “Imbecil! Então você acha que para preservar a virgindade de uma idiota, Deus ia destruir Florença inteira?!” Na frase, a assinatura de Mario Monicelli. O filme é O quinteto irreverente, a sequência de Meus caros amigos.  Mas atenção: foi feito um Meus caros amigos 3, sem Monicelli.  É lixo.
                Ao final de Era uma vez no Oeste, Jason Robards, na pele do pistoleiro Cheyenne diz a Claudia Cardinale,  a ambígua heroína Jill, que ela deveria ir lá fora servir água aos homens que naquele momento, exaustos,   começam a fazer chegar os trilhos da ferrovia até sua propriedade: “Só de olhar para uma mulher como você qualquer homem já se sente bem.  E se algum mais empolgado lhe passar a mão na bunda, finja que não é nada.”  A seguir, após o duelo em que Charles Bronson/Harmônica  se vinga de Henry Fonda/Frank , Cheyenne e Harmônica seguem caminho, aquele para morrer logo adiante, longe dos olhos da mulher e fora da vista do próprio Bronson, a quem pede que não o veja morrendo.  E o último ato de Cheyenne (só ele sabe se sabe agonizante,  por um tiro que o atingiu e que nem nós nem os demais em cena sabemos) ao deixar a casa foi justamente passar a mão na bunda de Jill.  Esse gesto e o “finja que não é nada” são a assinatura italiana, mais que do próprio Leone, dessa obra-prima do western, gênero paradigmático do cinema americano.  Uma assinatura que jamais veríamos num western americano, muito menos em 1968.

domingo, 2 de janeiro de 2011

TUDO TEU

Para abrir 2011 uma pequena, no tamanho, e grande, na realização, obra-prima de Fred Martins e Marcelo Diniz.
            Gravação ao vivo do DVD Tempo Afora, na Bourbon Street, São Paulo, 2007.  Canção incluída também no CD de Fred, Guanabara, de 2009.
TUDO TEU

Tudo teu
o que eu tenho
todo o céu
sobre a casa
a casa
tudo teu
o que eu quero espero é teu

Não tenhas dedos
medos
não me toques
leva o que deus me deu
até o anel que tu me deste
e o que mais me reste
é teu