quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DE SOL A SOL

 o sol
o que é
do sol
e ao sol
se espalha

não vale
para mim
a minha amiga
(a sós,
sob o lençol)
mais que
migalha

                        Duda Machado
(in: Crescente)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

NEYMAR E ESTE VELHO

                Velho, cochilo diante da TV: sequências infinitas de imagens de gente chorando, lama, destruição, gente chorando, resgates... cochilo, cochilo... velho. Repórteres puxam mais lágrimas, fazem chorar os que já choram e os que presumivelmente estão do lado de cá, chafurdam na lama do sentimentalismo fétido (uma sorte a TV não ter cheiro), não querem que parem de chorar os que  conseguem se conter, berram e atravancam resgates, desfiam estatísticas pouco confiáveis, plantam informações suspeitas, cochilo, cochilo... acordo aqui e ali, estou velho velho, me sinto nauseado, cochilo, estou velho...
                Com medo de cochilar me planto diante da TV à meia-noite para ver Neymar estrear no Sul-Americano sub 20 diante do Paraguai.  O jogo começa e nem sombra de sono, dirá de cochilo, Neymar por pelo menos quase duas horas, quatro gols e fintas infinitas restaura o equilíbrio do mundo, restaura o meu  regime de sono, me faz ficar acordadíssimo, jovem jovem, instaura uma harmonia plena no mundo.  Menos entre os paraguaios.
                Na verdade Neymar instaura uma desarmonia também na seleção brasileira sub-20, ele está muito além, muito além de seus fracos co-adjuvantes, assim como instaura uma desarmonia no torneio, nos 20 anos, tomara que não instaure uma desarmonia nele mesmo com todo o massacrante bombardeio da glória ambígua que lhe cai sobre os ombros. Mas vou dormir velho e sábio.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SIMONAL - A DURA QUE LHE DERAM

            Na época do lançamento nos cinemas de Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, o documentário sobre Wilson Simonal, eu saí tão impressionado da sessão que escrevi o texto a seguir, que posto abaixo com pequenas alterações no detalhe.  O filme já existe em DVD e o Canal Brasil o tem passado.  Vale como um momento para esta postagem.

            Wilson Simonal era um sujeito escroto.  Quanto a isso não parecem restar muitas dúvidas.  Ou, pelo menos, passou boa parte do auge de sua curta carreira investindo na imagem do sujeito escroto. O documentário recém-lançado sobre sua trajetória não parece estar muito a fim de limpar a barra dele por esse lado.  É extraordinário o filme, é extraordinário o personagem que dele emerge.  Com toda a sua escrotidão.
            Que acaba ficando em segundo plano, acrescente-se.  Em primeiríssimo plano, o filme põe, merecidamente, o seu não menos extraordinário talento de cantor, de entertainer de enorme carisma, enxertado de ingenuidade e cafajestagem em exata dosagem midiática. E mais que tudo isso: o filme registra dolorosamente a lembrança de tempos de intransigência, intolerância e cafajestagem a torto, à direita e à esquerda.  Tempos escrotos, enfim. Tempos que relegaram Simonal a um terrível castigo, o da morte em vida. O da morte pela distância que dele fizeram questão de manter seus antigos companheiros de showbizz e de meio musical, de boicote desses mesmos meios e da mídia, que o arrastaram da difamação ao anonimato, daí à pestilência, à vergonha perante o público, enfim ao ostracismo e à morte. E à impiedade post-mortem.  Que o filme, de forma extremamente lúcida e conseqüente, vem tentar consertar.
            Não estou ainda na “melhor idade” (melhor só do que a próxima), mas lembro de uma entrevista no Pasquim, na primeira vinda de Caetano do exílio londrino, em 71 portanto, em que Tarso de Castro tenta de todas as maneiras que ele fale mal de Simonal. E Caetano se recusa, eximindo-se de início de conhecer as circunstâncias que naquele momento cercavam a figura do cantor – quando Caetano e Gil foram para o exílio londrino,  Simonal estava no auge – e  a seguir afirmando taxativamente que o que ele sabia de Simonal era que se tratava de um excelente cantor – e ponto.  Por si só uma recusa como essa era um ato de enorme coragem naquela época, ainda mais no Pasquim.  Caetano sempre foi corajoso.
            Ao dizer que Simonal era um escroto, estou tranqüilo quanto aos velhos vícios escaramuçados no homo brasiliensis: nada a ver com o fato de ser o negro que deu certo, de ser o crioulo marrento, o analfabeto que ganha mais do que quem estuda, nada disso. Simonal era um escroto porque a atitude que o levou ao cadafalso foi uma atitude escrota: chamar uns amigos ligados às forças da repressão, uns pés de chinelo, pra “dar uma dura” num empregado que ele julgava estar lesando-o.  E a coisa saiu de seu controle. Agora, e isso é fundamental frisar, trata-se uma atitude absolutamente corriqueira em nossa sociedade de pessoas escrotas, em nossa sociedade escrota. Que acontece a torto e a direito e à esquerda (alguém duvida?), mas que no caso dele, melou... e ele era um ótimo bode pra pagar os pecados da tribo.
            Simonal não tinha ligação alguma com as forças da repressão, todos os que depõem no filme o reconhecem – e mais uma escrotidão: mesmo na época, todos pareciam ter a mesma certeza. O fato de ter, como escrevi acima, “amigos ligados” a elas não quer dizer nada também.  Eram meganhas de segunda categoria, de décima quinta hierarquia.  O problema, quem viveu naqueles tempos sabe, é que qualquer meganha de esquina ostentava mais poder do que os juízes.  E entre estes, também, quantos eram e são escrotos...
            País da escrotidão, país escroto.  Saí do filme pensando que Simonal é um personagem brasileiro de tragédia grega.  Tomado pela desmedida de si, cometeu a sua falha fundamental e pagou caríssimo por ela, muito mais do que merecia.  E recebeu uma terrível punição sem volta. Agora, fico também pensando se ele seria de fato um personagem trágico... será que lhe faltaria para isso a grandeza que, segundo Aristóteles, seria elemento primordial para a catarse, isto é, teríamos como de fato nos condoer de sua sorte?  Não, não tenho dúvida de que sim, a tentação da escrotidão nos ronda a todo momento.
            O documentário toca pela primeira vez na ferida de um personagem específico,  na ferida funda de uma questão incômoda para todos.  Há muita coisa a ser trazida a tona ainda.  Bem que se poderia começar pelo lançamento de seus discos em CDs. Em meio a muita bobagem – sim, eu tinha alguns LPs de Simonal – tem coisas também excelentes ali.

domingo, 16 de janeiro de 2011

QUEM ME LÊ NA ESLOVÊNIA? E EM CINGAPURA?

             Depois de mais ou menos 40 dias de blogueiro, começo a pensá-lo. Descubro aqui pelo blogger que é possível rastrear meu público leitor pelo mundo e uma coisa me intriga: a maior parte dos meus leitores - que têm sido em maior número do que eu pensava atingir - claro está, acessa o blog do Brasil.  Mas... há acessos frequentes da Espanha e Portugal (tenho amigos lá, acho que eles me leem com alguma frequência), nos Estados Unidos (dá-se o mesmo), na Alemanha (o que já me intriga em certa medida), e fico pasmo em descobrir que tem sempre leitores da Eslovênia e da Croácia, além de um acesso fortuito de Cingapura e, mais recentemente, da Dinamarca.  Situar-me aqui neste brejo e falar para o mundo é algo que... bem, me sinto um pouco o Caetano no documentário sobre ele descobrindo num mosteiro budista no Japão um monge capaz de cantar "Coração vagabundo"!
             Por favor, quem me lê nesses brejos, quero dizer, rincões longínquos? 
             Alô! Tem alguém aí?

sábado, 15 de janeiro de 2011

AH, UM SONETO... ESTRAMBÓTICO E LUXURIOSO

Fodamos, meu amor, fodamos presto,
Pois foi para foder que se nasceu.
E se amas o caralho, a cona amo eu:
Sem isto, fora o mundo bem molesto.

Fosse foder após a morte honesto,
“Morramos de foder!” seria o meu
Lema, e Eva e Adão fodíamos por seu
Invento de morrer tão desonesto.

É bem verdade que se esses tratantes
Não comessem do fruto traidor,
Eu sei que ainda fodiam-se os amantes.

Mas caluda e me enfia sem temor
Esse pau, que à minha alma, em seus rompantes,
Faz nascer ou morrer, dela senhor.

                               E se possível  for,
Quisera eu pôr na cona estes colhões
Que de tanto prazer são espiões.


                 Os Sonetos luxuriosos do italiano Pietro Aretino são na verdade estrambotes ou sonetos estrambóticos: aos 14 versos  do soneto acrescentam-se mais 3: o primeiro, curto, deve rimar com o último do soneto propriamente dito; os outros dois, maiores, rimam entre si.O livro de Aretino ganhou no Brasil uma primorosa tradução com estudo crítico de José Paulo Paes, edição da Record, bilíngüe, Sonetos luxuriosos, de onde se extraiu o poema acima.
                               Pietro Aretino (1492-1556)
                               Tradução de José Paulo Paes




               

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

EXÍLIO

No sexto andar daquele edifício não medravam morangos
apenas quatro apartamentos por andar dois banheiros azulejos
decorados vista para o parque etc. mas não
não medravam morangos nem corriam rios de néctar e leite
apenas quatro por andar e da janela debruçados para fora
uma nesga, até quando? da baía
e uma fuga de Bach para abafar lá dentro o pânico da rua
o riso rouco

Assim foi que se passou aquele ano até novembro
e, de repente, saídas não se sabe de onde,
inesperadas borboletas amarelas invadindo toda a casa
aquela praga – amarelas e brancas – miudinhas
devastando famintas os pesados tomos das obras de Marx e Marcuse

Foi então que Anita retomou a leitura dos cantos de Davi
e eu me senti sem pátria como quem perde a memória da infância
e às vésperas do Natal compramos flores
amarelas e brancas
para enfeitar o prato de amêndoas e miséria
de um mundo vazio de deuses

                Jayro José Xavier (in: Enquanto vivemos, 1980)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

De CLARA DOS ANJOS

                 Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas.  Todo material para essas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato.
                Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas, nas coroas dos morros, que as árvores e os bambuais escondem aos olhos dos transeuntes.  Nelas, há quase sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto.  Toda essa população, pobríssima, vive sob a ameaça constante da varíola e, quando ela dá para aquelas bandas, é um verdadeiro flagelo.
                (...)
                Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes públicos o deixam.  Pelas primeiras horas da manhã, de todas aquelas bibocas, alforjas, trilhos, morros, travessas, grotas, ruas, sai gente, que se encaminha para a estação mais próxima; alguns morando mais longe, em Inhaúma, em Caxambi, em Jacarepaguá, perdem amor a alguns níqueis e tomam bondes que chegam cheios às estações.  Esse movimento dura até as dez horas da manhã e há toda uma população da cidade, de certo ponto, no número dos que nele tomam parte.  São operários, pequenos empregados, militares de todas as patentes, inferiores de milícias prestantes, funcionários públicos e gente que, apesar de honesta, vive de pequenas transações, de dia a dia, em que ganham penosamente alguns mil-réis. O subúrbio é o refúgio dos infelizes.  Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão se aninhar lá; e todos os dias, bem cedo, lá descem à procura de amigos fiéis que os amparem, que lhes dêem alguma coisa, para o sustento seu e dos filhos.
                (...)
                O viajante que se detém um pouco a olhar aqueles campos de vegetação rala e amarelada, aqueles morros escalavrados, cobertos de intrincados carrascais, onde pasta um gado magro e ossudo, fica confrangido e triste.  Não há nenhuma cultura; as árvores de porte são raras; nas casas, é raro uma laranjeira virente, nem um mamoeiro espontâneo desce-lhe à entrada.
                Os córregos são em geral vales de lama pútrida, que, quando chegam as grandes chuvas se transformam em torrentes, a carregar os mais nauseabundos detritos.  A tabatinga impermeável, o barro compacto e a falta d’água não permitem a existência de hortas; e um repolho é lá mais raro que na Avenida Central.
                O Rio de Janeiro, que tem, na fronte, na parte anterior, um tão lindo diadema de montanhas e árvores, não consegue fazê-lo coroa e cingi-lo todo em roda.  A parte posterior, como se vê, não chega a ser um neobarbante que prenda dignamente o diadema que  lhe cinge a testa olímpica...

                               Lima Barreto (1922)