quarta-feira, 2 de março de 2011

BAUDELAIRE: ESPANQUEMOS OS POBRES!

de Honoré Daumier
             
            Durante quinze dias eu me enclausurara no meu quarto e cercara-me dos livros em moda naquele tempo (há dezesseis ou dezessete anos); refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, discretos e ricos em vinte  quatro horas.  Tinha, pois, digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos esses empreendedores da felicidade pública – daqueles que aconselham todos os pobres a fazerem-se escravos, e daqueles que os persuadem de que todos eles são reis destronados.  Não é, pois, de surpreender me achasse num estado de espírito vizinho da vertigem e da estupidez.
            Parecera-me somente que eu sentia, confinado no fundo de meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas as fórmulas de curanderia de que eu havia recentemente percorrido o dicionário.  Isso, porém, era apenas a idéia de uma idéia, alguma coisa infinitamente vaga.
            E saí com muita sede.  O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional de ar livre e de refrigerantes.
            Ia entrando numa taberna, quando um mendigo me estendeu o chapéu, com um desses olhares inesquecíveis que derrocariam os tronos, se o espírito movesse a matéria e se o olho de um magnetizador fizesse amadurecer as uvas.
            Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar-me ao ouvido, uma voz que reconheci perfeitamente;  era a de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda a parte.  Pois se Sócrates tinha o seu bom Demônio, por que não haveria eu de ter o meu Anjo bom, e por que não haveria de ter a honra, como Sócrates, de obter o meu diploma de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo atilado Baillager?
            Entre o Demônio de Sócrates e o meu há esta diferença: o de Sócrates não lhe manifestava senão para defender, advertir, impedir, e o meu se digna de aconselhar, sugerir, persuadir.  O pobre Sócrates não tinha mais que um Demônio proibidor; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, ou Demônio de combate. 
            Ora, a sua voz me cochichava isto:
            – Só é igual a outro aquele que disso dá prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la.
            Imediatamente me atirei sobre o meu mendigo.  Com um só murro lhe tapei um dos olhos, que se tornou, num segundo, do tamanho de uma bola.  Quebrei uma das unhas rebentando-lhe dois dentes, e, como não me sentisse bastante forte – pois sou frágil de natureza e não me exercitei bem no boxe – para moer de pancadas aquele velho, agarrei-o com uma das mãos pelo colete e com a outra empolguei-o pela garganta, e pus-me a sacudir-lhe vigorosamente a cabeça de encontro a uma parede.  Devo confessar que de antemão inspecionara, num lance de olhos, as adjacências, e verificara que naquele subúrbio deserto eu me encontrava, por um espaço de tempo bem longo, fora do alcance de qualquer agente de polícia.
            Depois, com um pontapé nas costas, bastante vigoroso para fraturar-lhe a omoplata, prostrei por terra o alquebrado sexagenário, e, apoderando-me de um grosso galho de árvore que se arrastava pelo chão, fustiguei-o com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bifesteque.
            Súbito – ó milagre! a alegria do filósofo que comprova a excelência da sua teoria! – vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com um vigor que eu jamais teria presumido em máquina tão singularmente desconjuntada, e com um olhar de ódio que se me afigurou de bom augúrio, o malandrim decrépito investiu contra mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes, e com o mesmo galho de árvore me bateu de rijo.  Com a minha enérgica medicação eu lhe restituíra o orgulho e a vida.
            Então, fiz-lhe compreender, por meio de muitos sinais, que dava por encerrada a contenda, e erguendo-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, disse-lhe:
            O senhor é igual a mim!  Dê-me a honra de partilhar da minha bolsa; e, se realmente é filantropo, lembre-se que é necessário aplicar a todos os seus  confrades, quando lhe pedirem esmola, a teoria que eu tive a dor de experimentar nas suas costas.
            Ele jurou-me que havia compreendido a minha teoria, e que ouviria os meus conselhos.


                         (In: Pequenos poemas em prosa. Trad. de Aurélio B. de Holanda Ferreira)



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

AH, UM SONETILHO DE VINÍCIUS DE MORAES

               Justamente célebre no Modernismo por seu sonetos de temática amorosa em corte camoniano,  renovados pela mescla estilística que brilha forte aqui e ali, Vinícius é autor também de alguns sonetilhos, que é como se chamam os sonetos escritos em versos de métrica curta, como o que posto abaixo, tetrassilábico.


Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pêra é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pêra:
Quem manda ser a?


                                            (in: Poesia completa e prosa.  Nova Aguilar, 1987)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

PAULINHO LÊMOS: BATO TAMBOR





BATO TAMBOR
Paulinho Lêmos e Agenor de Oliveira

Bato tambor pra anunciar
Que o samba começou
E não tem hora de acabar
Mando um sinal do coração
Será fundamental
Um tamborim na marcação
Vibra no ar dá diretriz
Não há nada mais belo
Do que um samba de raiz
Vem pra cantar e o povo diz
Se a vida é uma só
Ao samba eu peço bis

Fala de amor
Da tristeza do mar
Lua cheia estampada na retina
É um pescador
Das mentiras do olhar
Chororô de criança pequenina

Roda e vai improvisar
E zanza pandeiro e ganzá
E ginga daqui pra acolá
Sobra samba na veia
Acho melhor não esperar
É o samba em primeiro lugar
Um beijo gostoso e até já
Logo o dia clareia



Para que dizer que existe música Brasileira?
Existe o som de Paulinho, de Pixinguinha, de Sinhô, de Bororó,
de Nelson Cavaquinho, de Candeia e outros, como existe
o som das abelhas e o zumbido da alma de cada um.
(Capinan, texto para contracapa do 4º. LP de Paulinho da Viola, 1971)

O que há de extraordinário em versos como: “Não há nada mais belo/do que um samba de raiz”?  Aparentemente nada, não é mesmo?  Inclusive há, na minha maneira de ver, o equívoco da expressão “samba de raiz”, que eu particularmente detesto.  É uma expressão que se consagrou quando setores mais arraigadamente nacionalistas (em boa medida ou em bom número francamente xenófobos) do pensamento brasileiro se propuseram a pensar, a teorizar sobre samba (nada contra, tudo a favor), a querer ideologizá-lo enquanto símbolo representativo da nacionalidade ante a “ameaça da penetração cultural estrangeira ou imperialista” (o que carreou e carreia diversos equívocos), finalmente a querer “ensinar ao povo como fazer arte popular” (o que é hilariante e abominável).  O fato de ainda hoje se falar em “samba de raiz”, tendo a expressão se tornado mesmo uma etiqueta de mercado, indica que essa forma de enquadrar a questão permanece ativa. Mas eu posso – em alguns casos, devo – abstraindo tudo isso, trazer à memória a plena força dos sambas, enquanto “somente” sambas, “somente” canções, que se teima em abrigar sob o rótulo.  Aí me vêm ao ouvido afetivo Candeia, Nelson Cavaquinho, Cartola, Geraldo Pereira, Manacea, Xangô da Mangueira, Zé Kéti, Mauro Duarte, Dona Ivone Lara... e tantos outros. Não há nada mais puro do que o que eles compõem? Rejeito o adjetivo. Nada mais brasileiro? Não estou nem aí. Nada mais belo? Aí, eu concordo integralmente.  Levado pelo ouvido afetivo, ao ouvir o que é tão singela e diretamente dito em “Bato tambor”, todo o corpo se reconhece gozoso em versos tão verdadeiros: não há nada mais belo do que os sambas que vêm do “zumbido da alma” de Candeia, de Nelson, de Cartola...
            Procurei descrever acima uma das portas de entrada – a mais afetiva, isto é, a mais permeada de armadilhas – que me levou a uma entrega total a esse samba de Paulinho Lêmos e Agenor de Oliveira, que posto aqui para meus leitores ouvintes. O segredo desse samba a meu ver magnífico está na força de evocação que cada verso, cada nota, acorde, compasso, cada timbre, cada nuance da voz que canta carrega consigo nessa gravação. É uma canção e uma gravação plena do raro e interminável mistério que tem o samba, os grandes sambas dos grandes criadores de samba.  Neste CD gravado no Brasil em 2006 e lançado na Espanha, onde Paulinho mora e de onde recentemente (há muito tempo tínhamos perdido contato) me enviou pelo Correio o que segundo ele é um dos últimos exemplares que ainda tinha em seu poder, Paulinho se debruça sobre o samba e realimenta em nós o seu sortilégio.  Sortilégio: mistério, gozo e quebranto.  Há nisso muito de invocação também, que vai de braço com a evocação.  Num nível simples entende-se: há quase 30 anos morando fora do Brasil, Paulinho faz nas 12 faixas do CD um estupendo trabalho de ziguezaguear entre  sons que evocam aquilo que, luso ou afrobrasileiros, aprendemos desde sempre sob a rubrica da palavra “saudade”: nessa evocação, a invocação: por exemplo, ao refazer  “Timoneiro”,  de seu ilustre xará Paulinho da Viola (com Hermínio Bello), em ritmo angolano, que no arranjo mescla-se ao samba; ao homenagear em outra faixa, esta de sua autoria, Cesária Évora, na feliz síntese “filha de Clementina irmã de Amália”.  Entre uma e outra, e girando em torno delas, cada passo de cada um dos sambas aqui  evoca o samba como paradigma infinito, formando um dos mais estimulantes repertórios de sambas que tenho ouvido num único CD: e estou convencido que muito de sua força vem da nenhuma preocupação de Paulinho em fazer “samba de raiz”.  No mesmo passo, ele invoca os avatares (espirituais ou de carne e osso, pouco importa) do samba – afinal, o que significa “bater tambor”, não é mesmo? – para chegar a um produto límpido e digno como uma oferenda.  Na expressão feliz de Wisnik, pérolas aos poucos.  Poucos ouvintes talvez; mas também, aos poucos, pérolas que adquiriram uma extraordinária concreção, ao longo de quase 30 anos de estrada (vale notar de passagem que Paulinho se cercou de um grupo  de músicos de primeiro time: Arthur Maia, Marcos Suzano, Carlos Malta e outros do mesmo calibre).
            Essa nenhuma preocupação em obter um resultado a priori – de se fazer um disco de “samba de raiz”, repita-se – me parece um dos grandes achados do CD. É com a enorme familiaridade adquirida por ele  no interior de tal universo que somos levados a percorrer  os sons que nos evocam (e certamente a ele também, que os invocou) Tom Jobim, João Gilberto, Paulinho da Viola, João Bosco (que desmarcou por um imprevisto a participação especial que iria fazer numa faixa), João Nogueira, Gilberto Gil, Caymmi, Baden... não creiam que eu exagero, eu não exagero. E tem mais lá.  Na segunda estrofe  de “Bato tambor” (chamar de estrofes e dividir a letra em três delas é uma arbitrariedade conduzida por um “vício” literário) parece que somos conduzidos ao fraseado melódico característico de samba de terreiro, que se esparramava ainda pelos sambas-enredo até pelo menos uns 30 anos atrás. Isso conduz a um belíssimo fecho na 3ª. parte em que tudo “zanza” magnificamente no embalo de palmas magistralmente colocadas na solução final dada ao arranjo.
            A letra, que é de Agenor de Oliveira, é perfeita, ao operar de forma magistral os lugares-comuns da poética do samba, num sentido em que “lugar-comum” e “clichê” não são sinônimos.  Francisco Achcar, num livro excelente que trata da herança de alguns temas horacianos na poesia de língua portuguesa (Lírica e lugar-comum. EdUSP, 1994) ajuda-nos a entender a diferença entre uma coisa e outra, formulando como lugar-comum  a operação de buscar (ou achar) no interior de determinada tradição “os pontos de semelhança que ligam umas obras às outras”.  O clichê seria trabalhar de forma meramente convencional, inepta, subserviente tais pontos de semelhança, banalizando-os dentro da tradição e esclerosando-a. “Bato tambor”, inserindo-se como uma celebração do “samba de raiz”, numa obra (o CD em questão) que em absoluto não faz questão de navegar subservientemente e apenas nessas águas, se inicia com o samba abrindo clareira no espaço e no tempo (“começou e não tem hora de acabar”), invoca os instrumentos (além do tambor, tamborim, pandeiro e ganzá), pede passagem(“vem pra cantar e o povo diz”), tece a aliança com a ilusão, o desejo, instaura pela dança o império do corpo e só termina, com um breve “até já”, ou seja, promessa de curta interrupção, “quando o dia clareia” – o que é diferente de “ter hora” –, e  realiza o que Paulinho da Viola sintetizou em seu magnífico “Eu canto samba”:  “há muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo/ que o samba acabou/só se foi quando o dia clareou”.  Entenda-se: há um passeio aqui pela recorrência de motivos que permeiam o samba desde sempre.
Preciosa enquanto fatura, a canção (letra-melodia) aumenta sua fluidez na medida em que parte de uma entrada marcadamente percussiva de início, onde se destacam as sonoridades de travamento, oclusivas, acentuadas fortemente pelos tamborins no arranjo (“Bato tambor pra anunciar/que o samba começou/e não tem hora de acabar”), e acaba por desaguar nos versos que figuram o corpo entregue ao embalo de tocar-dançar o samba:  Roda e vai improvisar/E zanza pandeiro e ganzá/E ginga daqui pra acolá/Sobra samba na veia”.  A forma como Paulinho canta evidencia isso: sempre contido, a voz quase “encostada”, semi-sussurrante, de início ela destaca as sílabas, bem marcadas em sua diferenciação. No correr da canção, sem perder em nada a nitidez, como se não houvesse mais obstáculos a vencer, o conjunto melodia-letra-canto é tomado pelo irresistível apelo da integração do corpo ao canto mobilizador da dança, em sonoridades mais soltas, palatalizadas, sibilantes e chiantes – a letra “desliza” naqueles quatro versos destacados ali em cima, o leitor faça-se de cantor e experimente.  São as sonoridades suavizadas que  de fato conduzem a entoação da melodia e se sobrepõem às sonoridades mais duras ou fechadas que se resignam agora a um papel secundário.  Essas consoantes suavizantes vão de par com o predomínio das vogais abertas ou ainda suavizadas pela nasalização,  que atingem seu ponto máximo em “sobra samba na veia” e prossegue até o fim da canção, compondo um todo harmonioso em direção a uma espécie de princípio do prazer infinito ao menos enquanto dure.    Leia-se, cante-se:

Roda e vai improvisar
E zanza pandeiro e ganzá
E ginga daqui pra acolá
Sobra samba na veia
Acho melhor não esperar
É o samba em primeiro lugar
Um beijo gostoso e até já
Logo o dia clareia

Com uma segurança impressionante, que os anos de estrada, aprendizado e convívio lhe deram, Paulinho Lêmos – o circunflexo do sobrenome vale como uma tatuagem -  firma-se como cancionista de primeira linha, em  sambas que são de sua firma reconhecida e reconhecível.
                       
           




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RÃ COM BERTALHA, RIM COM JILÓ, MIOLO COM ESPINAFRE

           Achava que tinha lido no Ruy Castro ou no Hermínio, mas andei buscando e não encontrei, uma estorinha deliciosa com Tom Jobim como personagem principal: diz que ele saiu de uma gravação no começo da madrugada com um amigo, e iam os dois caminhando por uma ruazinha lá pelos lados do Jardim Botânico, quando se depararam com um boteco já meio que fechando as portas. Viram que o boteco servia refeição, estavam com fome, entraram. O atendente (boteco tem garçom?), naquela já de querer se mandar, amarrou a cara, mas como a fome apertava, Tom ficou firme, perguntou se dava pra sair alguma coisa pra eles comerem.  Resposta positiva, diz que o maestro perguntou: “E o que que dá pra sair?” “Tudo”, foi a resposta convicta, de dentro da irritação do cara.  “Tudo? Então me traz rã com bertalha.”
            Não sei se Tom gostava de rã com bertalha, provavelmente não.  Pois o inusitado do prato me atrai, qualquer dia arrisco fazer.  Separadamente adoro tanto rã quanto bertalha, a combinação deve ficar interessante, mesmo no meio da madrugada.  Até porque uma receita clássica pra curar ressaca é canja de rã, uma delícia – sei lá se funciona pra ressaca, mas é ótima.  Um partido que Aniceto do Império cantava sempre, Candeia gravou, tem lá: “Você já começa a beber/vou lhe dar caldo de rã...” Já bertalha, a prima pobre do espinafre, que nunca teve um Popeye pra incentivar ser despejada goela abaixo da garotada, a pobre bertalha as pessoas nem sabem mais o que é, difícil até de achar pra comprar. É uma folhinha maravilhosa, trepadeira de verão, sobe em qualquer armação que se faça pra ela, até mesmo pelas paredes, como eu tinha aqui no meu brejo antes que a chuvarada de janeiro levasse tudo.



           A foto que ilustra esta postagem, tosca por conta única e exclusiva do fotógrafo aqui, não é de rã nem de bertalha.  É de miolo de boi.  Envolvido numa mistura de farinha de trigo com cerveja, temperada com sal e salsa, e frito em óleo bem quente.  Fiz aqui pra comer com um cremoso arroz de espinafre, por falar nele.  Aliás, miolo também é difícil, dificílimo de se conseguir, tem que encomendar com antecedência. No Rio eu comia às vezes no Cervantes, que tinha no cardápio (ainda tem?), com batatas fritas.  Cervantes, bom também para se comer rim, que lá eles fritam inteiro, com uma fatia de bacon.  Tinha também no Lucas, no Posto 6, que acabou. Rim é ótimo, gosto de preparar no vinho e comer com jiló lascado fininho e passado na chapa com cebola.
            Deve ter gente que, enojada, já parou há algum tempo de ler isto.  Uma amiga minha, que aliás é seguidora aqui do “Firma”, usou uma expressão ótima do marido para se recusar a comer certas coisas – eu estava explicando como preparo polvo: diz que o marido dela se recusa a comer “comida explícita”.  Uma outra amiga, que adora camarão, se recusa a comer se ele estiver inteiro, “com os olhos me condenando”.  Em compensação, uma antiga sogra, senhora portuguesa, só comia coelho “se eu mesma puder matar ou se puder ver matarem”.  Não compra coelho morto de jeito e maneira, acha sempre que é gato.          
            Engraçadas as diferentes relações que as pessoas mantêm com o que comem.  Acho que pelo que eu digo e escrevo,  as pessoas me têm na conta de um ogro, esganado e pantagruélico.  Talvez seja, mas sou um ogro de alimentação muito balanceada e equilibrada, dentro dos meus padrões.  Como de tudo, desde que considere bem feito, incluindo botecos que sei que tenham comida (PF que seja) de feitura caprichada, embora ainda não tenha encontrado nenhum que sirva rã com bertalha.  Passei alguns meses da minha vida sem comer carne, e muitos legumes que adoro, por conta de um tratamento alternativo que fiz, e não sofri grande coisa: eu mesmo cozinhava e podia confiar.  Na rua, sabia os lugares de boa comida alternativa, macrô ou vegetariana.  Comida bem feita me dá prazer. As comidas explícitas de que falo lá em cima me habituei desde cedo a comê-las, muito antes de serem consideradas “exóticas” ou “bizarras” – aliás, tem um três anos, se tanto, que descobri num programa de TV que eu comia “comidas bizarras”. 
            Mas não sou um devorador de “comidas bizarras” exclusivamente. Se bem que as pessoas tendem a considerar “bizarras” coisas como bertalha, acelga, funcho, aipo, maravilhosos vegetais que freqüentam sempre a minha mesa ao lado dos mais comuns alface, couve, couve-flor, agrião, rúcula... Rúcula que até alguns anos provavelmente seria considerada “bizarra”.  Bizarro talvez fosse o hábito de voltar à noite de Campo Grande a Niterói, ao volante, Avenida Brasil quase inteira,  devorando um molho de rúcula hidropônica, que era cultivada pelo marido de uma colega, e que de vez em quando me presenteava com essa delícia. Tinha uma amiga que às vezes voltava comigo e era parceira nessas bizarrices. E viva o comer bem!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

EM TORNO D' "A MISSA" DE BEHR E DE MIM

            Postei aqui ontem o poema de Nicolas Behr, “A missa”.  É raro que me aconteça diante de um poema o que me acontece diante desse: é como se ao lê-lo, operando uma pausa absoluta no fluir do tempo, o poema fundasse de súbito uma ilha de memória, não exatamente uma ilha índice de solidão, porém sim de abrigo precário em meio a possíveis tormentas, logo, por precário, também sujeito a tormentas.  E principalmente: índice de alguém com quem eu possa dividir a ilha.
            Esse alguém não é o poeta Behr, que não conheço pessoalmente: é o seu poema e todas as vozes que o povoam. É  todo o mundo que essas vozes vão criando ao longo dos versos, assim disposto, esse mundo, de forma estudadamente desleixada em termos formais, meio que num fluxo um tanto à la poesia beat, num desatavio também muito próprio aos poetas que vêm da geração 70, como é o caso dele, Behr.  São as palavras da liturgia católica derrubadas de súbito aqui, ali, no rasteiro do chão pelos pensamentos do menino que não lhes capta o sentido ou o transfigura, são as vozes muitas da desatenção do menino ante o ritual, à espera de poder voltar à vida lá fora, fora da igreja, vozes de outras crianças que se entrecruzam, sussurradas no interior da nave, e que aqui o leitor lê em pé de igualdade – na verdade, superioridade – com as palavras vazias do padre. . Divido a ilha com esse poema, com essas vozes, na medida em que sei exato o que é isso. Ou seja, acho que na verdade o poema me faz compartilhar a ilha... comigo mesmo, com minhas memórias, que ele acende.
            “A missa” de Behr, poema que conheço há não muito tempo, me transportou, na primeira vez que o li, diretamente não tanto para as missas, poucas, que assisti na vida e das quais quase não tenho lembrança.  Levou-me sim de início a uma situação análoga, se bem que mais angustiosa, do jovem adulto perturbado pelo mundo das formas no poema de Murilo Mendes:

            “Não consigo ultrapassar a linha dos vitrais
            pra repousar nos teus caminhos perfeitos.
            Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas e ancas das mulheres, pronto.
(...)     
            Vestidos suarentos, cabeças virando de repente,
            pernas rompendo a penumbra, sovacos mornos,
            seios decotados não me deixam ver a cruz.

            Me desliguem do mundo das formas!”

“A missa” me levou aqui para a igrejinha próxima a este brejo, onde, não sei por que cargas d’água, me inscreveram há muito tempo para assistir às aulas de catecismo, numa segunda tentativa de fazer a primeira comunhão, visto que a primeira tinha sido frustrada por uma reprovação na São Paulo Apóstolo em Copacabana.  A segunda também se frustraria e justo pelo que está como no poema de Behr: todos os versos me são próximos, melhor, me são meus, em especial um dos últimos: “e eu não quero ser goleiro outra vez”.  Ruim de bola (doente do pé e ruim da cabeça também, vá lá), só me restava ir para o gol.  Agarrar no gol é destino de todo perna-de-pau nos rachas.  Agarrar no gol era muito melhor do que as aulas de catecismo. Muito antes de abandonar os rachas – que carioca chama de pelada – abandonei a idéia de comunhão católica.  Nem na segunda tentativa eu fiz a primeira.  No dia da cerimônia perdi por W.O.
           

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

NICOLAS BEHR

A MISSA

em nome do pai, do filho e do espírito santo
depois da missa vou jogar bola e pescar
cantemos todos o canto de entrada, de pé
tenho vara, linha, chumbada e isca boa, minhoca
bendito seja deus que nos reuniu no amor de cristo
eu e Inácio vamos pescar naquele trecho do rio, difícil
deus pai todo poderoso tenha compaixão de nós
mamãe veio me visitar e fomos tomar guaraná
leitura da carta de são Paulo apóstolo aos romanos
ela vem de novo mês que vem e vamos tomar
guaraná de novo, ela disse, ela prometeu
senhor tende piedade de nós
não sei o que faço para aprender matemática
evangelho de Jesus cristo segundo são Lucas
é tempo de manga na casa da dona alair
glória a deus nas alturas
só que na casa dela agora tem cachorro bravo
e paz na terra aos homens de boa vontade
só faltam três semanas pra gente sair de férias
nós vos damos graça por vossa imensa glória
meu irmão puxou minha orelha, sangrou, doeu
vós que tirais os pecados do mundo
tende piedade de nós
aquele cacho de banana que escondi na roça
dos padres deve estar bem maduro
vós que estais à direita do pai tende piedade de nós
vou lá sozinho comer aquele cacho de banana sozinho
vinde a mim os que têm fome glória a vós senhor
não subo mais em pé de abacate caí quase morro
segura na mão de deus que ele te sustentará
que pena vão derrubar o muro da casa do seu João
não vai mais ter graça roubar manga lá
oh meu bom Jesus que a todos conduz
olhai as crianças do nosso brasil
ah mas ainda tem muitos outros quintais
pra gente roubar manga
o senhor esteja convosco ele está no meio de nós
quando eu for na fazenda quero andar a cavalo
senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada
mas dizei uma só palavra e serei salvo
que palavra será essa meu deus! a palavra cavalo serve?
e se meu pai vendeu o cavalo?
cordeiro de deus que tirais o pecado do mundo
será que tô com bicho-de-pé de novo?
no amor e na comunhão do espírito santo
estou arrependido de ter tocado fogo no sapo
abençoai-vos deus todo poderoso
pai, filho e espírito santo
aleluia! aleluia! aleluia!
a missa está no fim
e eu não quero ser goleiro outra vez
ide em paz e o senhor vos acompanhe
amém! gol! amém! gol! amém! gol!

pela primeira vez meu time ganhou
do time dos anjos

            (in: Laranja seleta. Língua Geral, 2007)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

AH, UM SONETO... DE CRUZ E SOUSA

SINFONIAS DO OCASO

Musselinosas como brumas diurnas
Descem do ocaso as sombras harmoniosas,
Sombras veladas e musselinosas
Para as profundas solidões noturnas.

Sacrários virgens, sacrossantas urnas,
Os céus resplendem de sidéreas rosas,
Da Lua e das Estrelas majestosas
Iluminando a escuridão das furnas.

Ah! por estes sinfônicos ocasos
A terra exala aromas de áureos vasos,
Incensos de turíbulos divinos.

Os plenilúnios mórbidos vaporam...
E como que no Azul plangem e choram
Cítaras, harpas, bandolins, violinos...

            (in: Missal e Broquéis.  Martins Fontes, 2001)