quarta-feira, 16 de março de 2011

SILVIANO SANTIAGO


Você se lembra, tesão meu,
naquela suave manhã de verão,
o doce sol
esquentava o orvalho
das plantas
destruindo as gotas brilhantes
pelo perfume que exalavam,
você não se esqueceu,
ou já se esqueceu?
tesouro meu,
do objeto que de repente
vimos no meio do caminho:
a carniça de um corpo
de mulher.  Você se lembra,
deitada na cama semeada
de farpas, pedrinhas e formigas,
ela, com as pernas pro alto
qual puta velha,
era cozida ao ponto
pelo doce sol de verão
e espalhava pelos ares
o úmido veneno
das entranhas. *

* homenagem a Charles Baudelaire e a Carlos Drummond de Andrade

                                                                   
                                                                       In: Cheiro forte.  Rocco, 1995

segunda-feira, 14 de março de 2011

JANICE CAIAFA: DOIS POEMAS

ORAÇÃO DE MOÇA

            tenho um cipó no pulso esquerdo
            atado por Nossa Senhora

ai franciscano cortai-me o laço.
dai-me um raminho novo.
orai pela minha alma.

   olhai para o meu corpo agora
convosco quero viver
confesso meu langor pela vossa espádua

           
                        tão lisa, tão fina, tão sacra


                       
                        des-conta do meu rosário
                        verteu-se em suas verdadeiras          
                                   rosas

            ai desatai-me esse condão
            que a Virgem Rainha
                        compôs o meu decoro, e agora Salve.



FILTRO MÁGICO

                        ao meu pequeno puck

din-dins de pires
de leite,
confusões dos potes
            da casa –
gengibre-me o bolo
            que faço.
gnomo que guardo no leito
di-minuto gênio do quarto
            matéria e gema
                   das tigelas
jujuba mágica entre as muitas
gomas de mascá-la.
eu amo meu robin da cozinha
que me ajuda a pensar os séculos
secretamente sob a minha
            anágua.

                               In: Noite de Ela no céu. Três Corações, 1982.

sábado, 12 de março de 2011

GATO E PÁSSAROS

            Puxo uma cadeira para pôr os pés em cima e me vejo fazendo o gesto de incliná-la em solavanco súbito para a frente, como a fazer descer um gato que ali se tivesse aninhado.  Muitos anos da minha vida convivi com gatos, que amo.  Há quase dez não sei o que é ter um em casa. Perguntei-me surpreso de que gato se trataria.
            No horror das imagens dos tsunamis no Japão me chamaram atenção alguns poucos takes em que pássaros voam sobre a tormenta.  Imensas áreas portuárias destruídas, aves marinhas pairando inquietas – dá para ver que estão inquietas – entre as lentes das  câmeras e a devastação.

sexta-feira, 11 de março de 2011

RICARDO PINTO DE SOUZA

ABERTURA # 2

Era uma casa de grandes portas
Onde se convidava
Lembro-me também
Das pessoas conversando
Hoje não há mais nada

Seus fantasmas às vezes
Chegam até mim em tristes ecos
Acusam-me
“Não te vi aqui, lá
Você sumiu” – e sumi
“Não falou nada, não viu nada
Você desapareceu” – e desapareci.

Nossa adolescência
Ainda é um sonho tranqüilo
Lembro-me também
Da timidez, do tesão, da tíbia
Vontade de humilhar o mundo

Hoje há muita coisa
Mas as portas são mais estreitas
E a vida é um relógio
contínuo, presente, urgente
Cheirando a máquina e a óleo
Antes era um rio e suor, líquidos
Como o desejo e a angústia
Antes não havia fim do mundo
Os portos passaram

No entanto nunca fui tão sábio
Como quando não sabia nada
e mesmo assim
            mesmo assim
                        mesmo assim
                        assim

               

                              In: Culturas. Oficina Raquel, 2006
                             
                              www.oficinaquel.com


quarta-feira, 9 de março de 2011

AMARCORD




Uma bruma
Uma bruna
Uma loura
Uma espuma
De acordar
Azul azul azul
az

Um urina
Uma urina
Uma amanha
Uma doce
Ninfa, nume
Lume, linfa

Luz de bruxa luz ondeia
Sobre o mar e em cada veia
Vênus venérea Volpina
Vela rubra quero tê-la
Mas tocá-la contamina
Verterei mais uma vez
Rios de esperma só
de vê-la

As constelações e os vícios
Na cocaína da infância
Dançam vis entrelaçados
Num pátio de escola gris
Etruscos, motociclistas
Deixam nas pedras do cais
Vestígios sobre as espumas

As ameias
As neblinas
Desde a véspera
De ter uma
Uma espera
De verruma

Uma adulta
Branca e pura
Mia moglie
Nos seus trajes
De adúltera
Azul azul azul

Uma em curvas
Se perdendo
No azul azul azul
Vai em curvas
Me perdendo
Azul azul azul
az

Aves asas adriáticas
Viram pedras do hospício
Fronteiriço ao baldio
Dom lunático delírio
Chamo ele: tio tio
Que me responde do azul

Uma loba
Uma mãe
Duas tetas
Duas ancas
Trinta e tantas
Odaliscas
Outros tantos
De fascistas
Tantas curvas
Brancas, brunas

Azuis azul azul
Na nevasca
Pavão alvo
Azul pavana
Sua Alteza
Notívaga
Sinfonia
De pardais
Primas moças
Doces primas
Mandolins
Inenarráveis

Em fúria doce a concertina
Dentro da recordação
De noite me acordarei
Em febre sopor suor
Os seios girando azul
Azul azul azul
az


O jazz-band a dança a chuva
Transatlântica deriva

sábado, 5 de março de 2011

BLECAUTE, GENERAL DE CINCO ESTRELAS




“... o General da Banda tem até uma  história interessante... porque eu estava no Carnaval de... 49... já no final de 49, na terça-feira de Carnaval (...) mas havia uma batucada me perseguindo... era o General da Banda... me perseguia na rua,  com ritmo de macumba... ‘Chegou General da Banda ê ê... xic-gig-dig-DUM... chegou de General da Banda iê á...’ e eu digo, ‘Meu Deus do Céu, de onde é que vem essa canção, de onde é que vem essa música, de onde vem essa melodia?...’”
            Antropólogos, historiadores, aqueles que se dedicam ao estudo de tempos remotos, mitos, etc.  nunca chegaram a um  consenso sobre a origem do Carnaval, possível que nunca cheguem, “perdidos como chineses na genealogia das idéias”, para retomar a imagem oswaldiana.  O fascinante nessa fala de Blecaute, que canhestramente transcrevi acima e é possível ouvir no áudio postado,  é também o fato de ser uma fala às cegas na memória do nascimento do personagem carnavalesco que ele, Blecaute, acabou incorporando desde então: o General da Banda.
            Blecaute, “carioca de Pinhal, interior de São Paulo”, como o próprio deixa claro a seguir em sua fala, é um maravilhoso cantor.  Na minha memória afetiva a voz de Blecaute – e a de Jamelão – encarnavalizou-se para sempre: é a voz-corpo de antigos carnavais, como a de Neguinho da Beija-Flor é a voz-corpo dos atuais. Esse depoimento, com a interpretação subseqüente de “General da Banda” está no CD dedicado ao artista na série A música brasileira deste século [o XX] por seus autores e intérpretes, lançamento do SESC-São Paulo, sobre a qual voltarei a falar oportunamente.
            Se fica para uma futura postagem falar aqui da coleção e de seu grande idealizador, Fernando Faro, não posso deixar de anotar logo o seguinte: observe-se o insight de Faro diretor de TV ao iniciar o programa (pois os CDs são o registro do programa Ensaio da TV Cultura) aparentemente ao acaso, as palavras ainda meio indistintas na voz de cantor, para dizer de algo que é uma percepção também indistinta em sua memória: a idéia de que, em estado de batucada, em “ritmo de macumba”, o general da banda “o perseguia” num final de carnaval é uma imagem que sintetiza o mistério da genealogia do Carnaval, em várias dimensões, a começar pela dimensão pessoal do cantor ao desfiar a narrativa difusa de suas lembranças,  e estendendo-se para muito além.  Afinal: o que é um General da Banda, se não uma imagem ela mesma carnavalizada da hierarquia militar, que tanto susto causou aos brasileiros ao longo do século XX?  Veja-se Blecaute (grifado ainda “Blackout” em inglês “macarrônico”, a meio caminho do português hoje abrasileirado ou já dicionarizado) na foto da capa desse LP de 1959, incorporando já o personagem, comandando a desordem unida da folia.


O que é o General da Banda, o que é aquele “mourão, moirão”, que relação se estabelece entre esses farrapos de letra, vestígios de sentido, trapos de um desejo de sustentação e seu avesso (o general, que no entanto é da banda; o mourão, que catucado por baixo cai)?
            Vamos cantar!
GENERAL DA BANDA (Tancredo Silva – José Alcides – Satiro de Melo)

Chegou o general da banda ê ê
Chegou o general da banda ê á

Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, moirão
Catuca por baixo que ele vai

(deixa amanhecer!...)
           
todas essas perguntas tem o seu quê de apenas retóricas, na medida em que também não nos interessamos muito pelas possíveis respostas, nem teríamos por quê. O “general da banda” incorporou-se para sempre ao carnaval, como o zé-pereira e o abre-alas.
            Os anos que atravessamos de ditadura militar trouxeram alguns hábitos engraçados, de que ainda restam vestígios, de se querer interpretar “politicamente” (no pior sentido do termo) tudo o que fosse presumivelmente cifrado para passar pelas malhas da censura.  Lembro que eu ria muito quando mais de uma vez ouvi que “General da banda”, com a “misteriosa” alusão, seria na verdade uma sátira cifrada ao general Mourão Filho, famoso no anedotário do golpe por ter se declarado a “vaca fardada” do Exército brasileiro...
            Mas é bom saber que Blecaute é um cantor esplêndido.  Eu não sabia com segurança antes de ouvir esse CD. Porque afinal de contas o General da Banda acabou por engolir seu criador, e Blecaute passou a ser muito automaticamente associado a essa figura quase folclórica, de um folclore urbano no pleno sentido da expressão.  Sua figura, e a minha infância funciona fortemente como impulsionadora dessa lembrança difusa que acaba por se converter em imagem fixa, ainda que não nítida, de expressivos traços negros em cabelo liso (séculos antes dos modernos processos de alisamento de cabelo) o mais das vezes envergada na farda caricata, seu nome artístico, denunciando o “racismo bonachão” brasileiro (como Jamelão, Noite Ilustrada, igualmente esplêndidos cantores, ou o mais recente,  o jogador Grafite), também obscureceram durante muitos anos o que para mim se tornou claro quando adquiri há mais ou menos um ano este CD.  Com uma dicção muito peculiar (que lembra às vezes Itamar Assumpção, séculos distante de qualquer subserviência de “negro de alma branca”), com uma voz bonita, cálida e um vibrante senso de divisão, Blecaute é cantor de primeira.  Que passeia muito à vontade por um repertório de alta qualidade.  Essas revelações preciosas fazem deste CD e de toda a série um deleite monumental e documental sobre a música feita no Brasil.
            Bom carnaval!
           

quarta-feira, 2 de março de 2011

BAUDELAIRE: ESPANQUEMOS OS POBRES!

de Honoré Daumier
             
            Durante quinze dias eu me enclausurara no meu quarto e cercara-me dos livros em moda naquele tempo (há dezesseis ou dezessete anos); refiro-me aos livros que tratam da arte de tornar os povos felizes, discretos e ricos em vinte  quatro horas.  Tinha, pois, digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos esses empreendedores da felicidade pública – daqueles que aconselham todos os pobres a fazerem-se escravos, e daqueles que os persuadem de que todos eles são reis destronados.  Não é, pois, de surpreender me achasse num estado de espírito vizinho da vertigem e da estupidez.
            Parecera-me somente que eu sentia, confinado no fundo de meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas as fórmulas de curanderia de que eu havia recentemente percorrido o dicionário.  Isso, porém, era apenas a idéia de uma idéia, alguma coisa infinitamente vaga.
            E saí com muita sede.  O gosto apaixonado das más leituras engendra uma necessidade proporcional de ar livre e de refrigerantes.
            Ia entrando numa taberna, quando um mendigo me estendeu o chapéu, com um desses olhares inesquecíveis que derrocariam os tronos, se o espírito movesse a matéria e se o olho de um magnetizador fizesse amadurecer as uvas.
            Ao mesmo tempo, ouvi uma voz cochichar-me ao ouvido, uma voz que reconheci perfeitamente;  era a de um Anjo bom, ou de um bom Demônio, que me acompanha por toda a parte.  Pois se Sócrates tinha o seu bom Demônio, por que não haveria eu de ter o meu Anjo bom, e por que não haveria de ter a honra, como Sócrates, de obter o meu diploma de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo atilado Baillager?
            Entre o Demônio de Sócrates e o meu há esta diferença: o de Sócrates não lhe manifestava senão para defender, advertir, impedir, e o meu se digna de aconselhar, sugerir, persuadir.  O pobre Sócrates não tinha mais que um Demônio proibidor; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, ou Demônio de combate. 
            Ora, a sua voz me cochichava isto:
            – Só é igual a outro aquele que disso dá prova, e só é digno da liberdade aquele que sabe conquistá-la.
            Imediatamente me atirei sobre o meu mendigo.  Com um só murro lhe tapei um dos olhos, que se tornou, num segundo, do tamanho de uma bola.  Quebrei uma das unhas rebentando-lhe dois dentes, e, como não me sentisse bastante forte – pois sou frágil de natureza e não me exercitei bem no boxe – para moer de pancadas aquele velho, agarrei-o com uma das mãos pelo colete e com a outra empolguei-o pela garganta, e pus-me a sacudir-lhe vigorosamente a cabeça de encontro a uma parede.  Devo confessar que de antemão inspecionara, num lance de olhos, as adjacências, e verificara que naquele subúrbio deserto eu me encontrava, por um espaço de tempo bem longo, fora do alcance de qualquer agente de polícia.
            Depois, com um pontapé nas costas, bastante vigoroso para fraturar-lhe a omoplata, prostrei por terra o alquebrado sexagenário, e, apoderando-me de um grosso galho de árvore que se arrastava pelo chão, fustiguei-o com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bifesteque.
            Súbito – ó milagre! a alegria do filósofo que comprova a excelência da sua teoria! – vi aquela velha carcaça voltar-se, endireitar-se com um vigor que eu jamais teria presumido em máquina tão singularmente desconjuntada, e com um olhar de ódio que se me afigurou de bom augúrio, o malandrim decrépito investiu contra mim, contundiu-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes, e com o mesmo galho de árvore me bateu de rijo.  Com a minha enérgica medicação eu lhe restituíra o orgulho e a vida.
            Então, fiz-lhe compreender, por meio de muitos sinais, que dava por encerrada a contenda, e erguendo-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, disse-lhe:
            O senhor é igual a mim!  Dê-me a honra de partilhar da minha bolsa; e, se realmente é filantropo, lembre-se que é necessário aplicar a todos os seus  confrades, quando lhe pedirem esmola, a teoria que eu tive a dor de experimentar nas suas costas.
            Ele jurou-me que havia compreendido a minha teoria, e que ouviria os meus conselhos.


                         (In: Pequenos poemas em prosa. Trad. de Aurélio B. de Holanda Ferreira)