Quando lancei em 2009 meu segundo livro,
Firma irreconhecível, tive a idéia de lançar junto com o volume um CD no qual eu lesse o poema-título, texto extenso que ocupava só ele 45 páginas das 170 totais. Executei a idéia tanto como uma forma de tentar aproximar o leitor do poema quanto, mais ainda, porque o poema em si foi construído movido sobretudo pela oralidade, pelo ritmo da fala acelerada que me acompanhou durante os quatro meses em que foi escrito – quase escrevo aqui “transcrito”, pois ele me vinha sobretudo pela voz interior, audível a cada vez que eu me re-conectava á célula rítmica que o move. A oralidade evidente do texto teria que ser complementada pela vocalidade da gravação em CD.
Feita a gravação, ficou ainda evidente que o poema precisaria ser dividido em faixas ao longo de seus mais de 30 minutos de duração. Sobretudo pelo aspecto prático: o ouvinte que não agüentasse ouvi-lo todo de uma vez (alguém agüenta?) poderia retomar de uma das faixas interrompidas e assim ir ouvindo-o aos poucos. A divisão das faixas foi pensada tendo em vista em primeiro lugar essa comodidade. Já a decisão de onde cortar, isto é, onde separar uma faixa de outra (acabaram sendo 10), obedeceu subjetivamente a alguns critérios de feitura que não sei explicar muito objetivamente não. Ofereço aqui aos leitores o segmento inicial do poema, isto é, na divisão final, aquela que ficou sendo a primeira faixa.
FIRMA IRRECONHECÍVEL (1º. segmento)
A assinatura não passa
de um aceno. Isto quer
dizer que menos do que
nomes o que vemos e nos
move é um sinal como
se fosse um senão ou
de herança ou de im-
perícia, um rabo de fo-
ra de gato escondido. U-
ma assinatura não pas-
sa do aceno de uma ca-
valgadura após assinalar
um tento tentando um ca-
valgamento que o livre
do cruel esquecimento
da prosa linear do mundo,
todo prosa sem mere-
cimento capaz de fixá-
-lo ao dorso do cavalo
convertido a si mesmo,
juramento de garbo,
galhardia, bazófia e vento.
Assinar não passa de
fixar um rabo de gato
escondido de fora na
bunda de um jumento
e acenar esperançoso de
que o ranço da eternidade
não o acometa de bolor
e sedimento acumulado,
bosta ao vento, dique fura-
do, previsão de chuva, pro-
visão de lérias que acome-
tem desde o começo
a biosfera e o firmamento,
abrigo do assassino que o a-
sinino assina assim
deixando lá ao anônimo
o relento. Impudicícia,
desídia, imprudência
ou mero descaso no manejo
do remo, o que nos move
às vezes como um mar-
ujo bêbado mais que o tom-
bo do navio é miragem,
mulher tatuada no ba-
lanço do músculo, ba-
fejo de fortuna ou de
promessa cumprida de â-
nus ao beijo circundante,
concha de molusco expro-
priada pela cunha do im-
potente. Assinar pode
ser só desejo de selar
seu forte olor de posse,
delimitar a margem de a-
certo igual a um desdenta-
do predador impraticável
ao qual só reste a coragem
e a lembrança e se conforma
com a tocaia ou a TV e a
poltrona donde se de-
leita com orcas, chitás,
águias e leoas, comoda-
mente dragão cobiçando
corças, fauno velho
ensinando xeta às ninfas,
sonhando ser caçado por
uma van cheia de lobas.
Quem assina sorri dian-
te do cano apontado para
si, sabendo a culatra por
onde o tiro vai sair,
duelo de um, miolo de
alcatra a desmanchar na
boca, açougue de alma,
ganho de massa ence-
fálica na frente de um
pelotão sanhudo de
burocratas. Auto-
grafar o vento, foto-
grafar o evento, peido
no elevador cheio do tér-
reo ao terraço, na torre sus-
pensa, na solidão do a-
partamento freqüentado
por todas as luzes do
ninguém por perto, donde
nenhum comprometimen-
to exceto a urbs rastreada
por holofotes, a assi-
natura se impõe seja aos
míopes ou aos pimpões.
Favor assinar ao lado
do xis, favor assinar
sobre a linha, é um favor
assinar reconhecendo a
dívida como quem não tem
outra sina, a quem não cabe
o que se diz, de boca a boca,
de esquina a esquina, pondo
pingos nos is, pondo pongos
nos os, até que os ossos
se esfarelem, da cartila-
gem ao tutano, da cre-
mação à cinza, do cigarro
ao rastro preto nos pulmões,
daí ao pó e ao pós e
depois de tudo assinar
a deixar um amor ras-
treável, DNA
de primata, gosma de ca-
racóis. Deixam rastro ca-
racóis no cimento, deixou
rastro na areia Anchieta,
craques deixam rastros na
camisa, assinatura é
flanar também no tempo, é a
anti-tatuagem por prin-
cípio e por fim é sempre prova
que se apaga. Vela prego
cova, assinar é inumar, res-
valar despercebido para o
limbo, deambular tomado
de delírio como os doidos
de pedra e de sarjeta, afer-
rados aos berros, aos de-
litos. Dos detritos dos nomes
sai aos gritos a assi-
natura, sai única e sai
rosa, breve ou grave e cai,
decapitada em pétalas e
cai, cagada sobre cágados
cai sobre a métrica
e o pé quebra, cai sobre
o soneto, o haicai, a écloga,
samba, rumba, hip-
hop, hurra, hippies,
beatniks, nerds, punks,
índios, colegas, cai uma
chuva, uma praga, uma
chusma, nuvem voraz
semeando desertos ali
onde depois de escrever
não mais nasce nada. Assi-
natura não serve de des-
culpa. A rubrica pode de-
cupá-la dos excessos do
prometimento, a reco-
lher rápido o rabo de fora,
mas não foge ao olho
atento, enquanto os hip-
opótamos atraves-
sam a tela à procura
de Buñuel, que cuida de
seus ursos e cordeiros,
entretanto que nubentes en-
laçam dedos para sem-
pre, não fosse a assinatura
livrá-los da eterna jura
da saúde e da doença,
da dança macabra na ceri-
mônia como recom-
pensa, os nomes para
sempre entrecosidos
no rol de roupa suja,
na lista da despensa.
(In:
Firma irreconhecível. Oficina Raquel, 2009. www.oficinaraquel.com )