sexta-feira, 29 de abril de 2011

TRÊS POEMAS DE ORIDES FONTELA

CORUJA

Vôo onde ninguém mais – vivo em luz mínima
ouço o mínimo arfar – farejo o sangue
e capturo
a presa
em pleno escuro.



BUCÓLICA

Vaca
mansamente pesada

vaca
lacteamente morna

vaca
densamente materna

inocente grandeza: vaca

vaca no pasto (ai, vida,
simples vaca).



(sem título)
Semeio sóis
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.

                        In: Trevo (1969-1988).  São Paulo: Duas Cidades, Col. Claro Enigma

quarta-feira, 27 de abril de 2011

AFFONSO ÁVILA

ANTI-ROMANCEIRO DAS MULHERES BRASAS

            Um grupo de senhoras e moças da sociedade mineira acaba de fundar a Liga da Mulher Manda-Brasa, associação que terá como programa a luta contra os preconceitos e a opressão.  (Resumo de notícia publicada no Correio da Manhã, 1965)


1

Fé de fidalguia
prosa de prosápia
fada fenecida
prónubo da pátria
por detrás da destra
glosa de Gonzaga
o disse-que-disse
dúvida devassa

Quem é quem no fio
torcido da infâmia
quem a mãe do filho
torto da mucama
formou-se a quizília
em  torno da cama
fornicou Marília
ou Emerenciana

Ávilas e Silvas
Brandões e Ferrões
aúlicos e cívicos
brasões e florões
o prêmio pela prima
Marília ou sua irmã
honra de família
glória barregã


2

Musa museu
cama camafeus
brincos biscuís
brocados baciinhas
cálices cristais
cruzes castiçais
ouro de oratório
per sexo seculorum

Beja balneável
cândida cameável
fênix fescenina
reversa ressupina
vício de visconde
comida de conde
genuflexório
per sexo seculorum

Pública poliandra
safo salamandra
régula respeitosa
vulva virtuosa
barro do Barreiro
ares do Araxá
água de aspersório
per sexo seculorum

            In: Código de Minas & poesia anterior, 1969.

domingo, 24 de abril de 2011

GREGÓRIO DE MATOS, O FERO

Waly Salomão no papel de Gregório, no filme de Ana Carolina T. Soares

A CERTO FRADE NA VILA DE SÃO FRANCISCO, A QUEM UMA MOÇA FINGINDO-SE AGRADECIDA  A SEUS REPETIDOS GALANTEIOS, LHE MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE UMA PANELA DE MERDA

Reverendo Frei Antonio,
se vos der venérea fome,
praza a Deus, que Deus vos tome,
como vos toma o demônio:
uma purga de antimônio
devia a moça tomar,
quando houve de vos mandar
um mimo, em que dá a entender,
que já vos ama, e vos quer
tanto, como o seu cagar.

Foste-vos mui de lampeiro
vós, e os amigos de cela
ao miolo da panela,
e achastes um camareiro
de que vos desenganásseis,
e foi bem feito, que achásseis
cagalhões, que então sentistes,
porque, aquilo, que não vistes,
quis o demo que cheirásseis.

A hora foi temerária,
o caso tremendo, e atroz,
e essa merda para vós
se não serve, é necessária:
se a peça é mui ordinária,
eu de vós não tenho dó:
e se não dizei-me: é pó
mandar-vos a ponto cru
a Moça prendas do cu,
que tão vizinho é do có?

Se vos mandara primeiro
o mijo num panelão,
não ficáreis vós então
mui longe do mijadeiro:
mas a um Frade malhadeiro
sem correia, nem lacerda,
que não sente a sua perda,
seu descrédito, ou desar,
que havia a Moça mandar,
senão merda com mais merda?


Dos cagalhões afamados
diz esta plebe inimiga,
que eram de ouro de má liga
não dobrões, porém dobrados:
aos Fradinhos esfamiados,
que abrindo a panela estão,
dai por cabeça um dobrão,
e o mais mandai-o fechar;
que por isso, e por guardar,
manhã sereis guardião.

Se os cagalhões são tão duros,
tão gordos, tão bem dispostos,
é porque hoje foram postos
e ainda estão mal maduros:
repartam-se nos monturos,
que nas enxurradas dos tais
é de crer que abrandem mais,
porque a Moça cristamente
não quer que quebreis um dente
mas deseja que os comais.

(in: Gregório de Matos: Antologia.  org. Higino Barros. Porto Alegre: L&PM)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

AH, UM SONETO... DE LÊDO IVO

SONETO DO EMPINADOR DE PAPAGAIO

A nada aceito, exceto a eternidade,
nesta viagem ambígua que me leva
ao altar absoluto que, na treva,
espera pela minha inanidade.

O que sonhei, menino, hoje é verdade
de alva estação que em meu silêncio neva
o inverno de uma fábula primeva
que foi sol, cego à própria claridade.

Na hora do fim de tudo, separados
fiquem os dois comparsas do destino
que sabe a cinza após o último alento.

E a morte guarde em cova os injuriados
despojos do homem feito; que o menino
empina o papagaio, vive ao vento.
                                                  Lêdo Ivo



Duas anotaçõezinhas:
1.    Postei no dia 20, anteontem, o “Bonde”, meu poema favorito de Oswald de Andrade, e me lembrei, quase que por antonomásia, de Lêdo Ivo, que por ser um dos “top” da Geração de 45, se situa poeticamente bem longe do genial antropófago modernista.  E lembrei, claro, do divertido episódio “calcanhar de Aquiles X chulé de Apolo”, que tinha lido certa vez em Haroldo de Campos.  Posto aqui o trecho da entrevista de Haroldo, que colhi no site “Tiro de Letra” 

2.    Junto aqui um poeta a outro também porque a Folha de S.Paulo publicou recentemente uma entrevista de Lêdo Ivo, e eu concordo integralmente com sua posição quanto à prática cada vez mais comum de herdeiros parasitarem o nome de seus parentes célebres, que fizeram por onde ser célebres. Vai aí o link: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/04/familia-nao-devia-herdar-obras-diz-ivo.html

quarta-feira, 20 de abril de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

BUCY MOREIRA ILUMINADO PELO FAROL DE FARO



Psiu. Ouça isso aqui. Mais até do que leia. Se quiser ler, aí vai a letra:
NÃO PÕE A MÃO
(Bucy Moreira – Mutt – Arnô Canegal)
Não põe a mão
No meu violão
Não não põe a mão
No meu violão

Você pode sambar se quiser
Com a minha mulher
Mas por favor
Não põe  a mão
No meu violão

Se você quiser eu dou
Um cigarro pra fumar
Empresto a minha mulher
Se você quiser sambar
Se você quiser dinheiro
Também posso emprestar
Faço qualquer sacrifício
Pra poder lhe agradar
Mas por favor
Não põe a mão
No meu violão
(Tira a mão daí)
Não põe a mão
No meu violão...

                Essa preciosidade de picardia, ginga e competência na composição ,na execução e no canto,  típica dos negaceios do samba malandro carioca é uma gravação de Bucy Moreira, grande compositor e ritmista – um dos pandeiros que ouvimos na gravação é dele – raro caso de sambista que faz o elo entre o samba “primitivo” da Praça Onze (era neto da legendária Tia Ciata) e a turma do Estácio, que frequentava.  Bucy (que é também grafado Buci Moreira) nasceu em 1909 e morreu em 1982.  A gravação aqui postada é de 1973 e foi feita para o programa MPB Especial, produzido e dirigido por Fernando Faro.


                Não são muitos os registros em que Bucy aparece com destaque, embora como ritmista sua atuação anônima em gravação dos grandes astros do disco e do rádio, desde a década de 1930, tenha proporcionado um considerável número de gravações.  Em seu disco de 1978, Paulinho da Viola gravou “Miudinho”,  e Bucy, ao lado de Raul Marques – outro nome proeminente do samba – e de Monarco, participou cantando os versos e atuando como ritmista, naquela que talvez tenha sido sua última gravação.
                É possível que existam imagens de Bucy em atuação aí pelos youtubes da vida. Eu nunca vi, mas adoraria.  A gravação que postei acima faz parte – a exemplo da de Blecaute, postada em 05/03/2011  http://robertobozzetti.blogspot.com/search/label/Blecaute  – do 1º. Volume da coleção “A música brasileira por seu autores e intérpretes”, lançada pelo SESC-SP, reunindo o acervo dos programas MPB Especial e Ensaio, criados e dirigidos por Fernando Faro.
                É hora de falar um pouco que seja de Faro, o Baixo.
                Fernando Faro é uma figura admirável.  Quem se interessa por música na TV brasileira sabe disso – e quem está chegando agora e ainda não sabe deve procurar saber logo.  É urgente, pois não saber quem é ele faz mal, só por isso. Um pouco de sua atuação, de sua vasta experiência e de sua vasta e cosmopolita cultura pode ser comprovada pelo leitor nesta interessante entrevista que achei num site de memória da TV no Brasil: http://www.tudosobretv.com.br/histortv/depo/faro/




               Há mais de cinqüenta anos dirigindo musicais na TV (entre eles, o explosivo “Divino, Maravilhoso”,  que os tropicalistas apresentaram para escândalo da audiência no finado 1968), Faro dirigiu palco também, e entre seus grandes êxitos está a primeira caravana de artistas brasileiros em Angola no começo dos anos 80, que reuniu entre outros Chico Buarque e Dona Ivone Lara.  Hoje com mais de 80 anos, olhar em retrospecto tudo o que ele fez é contemplar algo não menor do que uma proeza. Que o diga a coleção lançada pelo SESC.
                O Ensaio – ouço falar que a TV Cultura de São Paulo acabou com o programa e parece que dispensou os seus serviços, o que já é motivo suficiente para... rogar pragas terríveis para quem o fez, se for verdade – é a grande marca registrada de Fernando Faro.  Pela imagem e pelo som.  Pela imagem: Faro criou uma técnica de focalizar o entrevistado em close e em big-close, sempre sob uma fotografia de alto contraste, que acaba por captar com riqueza de detalhes as reações dos entrevistados na situação de entrevista, certamente diante das perguntas que generosamente lhes possibilitam discorrer sobre sua vida, narrar suas estórias.  E aqui o grande achado de Faro (não sei se inventado por ele, mas não importa): as perguntas dirigidas àquele que está em foco, nós, espectadores,  não ouvimos.  Elas são feitas em off, Faro, já por si só baixinho (ele carrega desde sempre o apelido de Baixo e dele fez outra de suas marcas: só se refere a seus interlocutores como “Baixo”), senta-se no chão na frente do  entrevistado e pergunta,  sem que ouçamos.  Ficam uns claros, umas hesitações, ou – pelo contrário – um entusiasmo, uma pressa às vezes, que contribuem esplendidamente para que ao final de cada entrevista tenhamos uma imagem audível bastante rica de cada artista enquanto conversador. 
                Alguns dos números que compõem a coleção já foram lançados em DVD – o de Elis Regina, inclusive, parece que com uma venda estupenda –,  não sei se o de Bucy saiu.  Não é o caso, mas ainda que fosse,  de várias de suas passagens já serem bem conhecidas do público – o que seria estupendo – ao postar aqui alguns fragmentos desse riquíssimo acervo não pretendo nenhum ineditismo ou coisa do gênero.  Eu quero é que os leitores aqui deste blog compartilhem esses momentos comigo. Como se fosse uma música que, ao tomarmos um amigo pelo braço, queremos que ele se comova com a gente e como a gente se comove.  Vou postando aos poucos grandes momentos do que está disponível. E vou postar sobretudo com esse intuito.  Que é proporcionado pelo grande farol que é Fernando Faro.






terça-feira, 12 de abril de 2011

FIRMA IRRECONHECÍVEL, 1º. SEGMENTO



Quando lancei em 2009 meu segundo livro, Firma irreconhecível, tive a idéia de lançar junto com o volume um CD no qual eu lesse o poema-título, texto extenso que ocupava só ele 45 páginas das 170 totais. Executei a idéia tanto como uma forma de tentar aproximar o leitor do poema quanto, mais ainda, porque o poema em si foi construído movido sobretudo pela oralidade, pelo ritmo da fala acelerada que me acompanhou durante os quatro meses em que foi escrito – quase escrevo aqui “transcrito”, pois ele me vinha sobretudo pela voz interior, audível a cada vez que eu me re-conectava á célula rítmica que o move. A oralidade evidente do texto teria que ser complementada pela vocalidade da gravação em CD.
Feita a gravação, ficou ainda evidente que o poema precisaria ser dividido em faixas ao longo de seus mais de 30 minutos de duração. Sobretudo pelo aspecto prático: o ouvinte que não agüentasse ouvi-lo todo de uma vez (alguém agüenta?) poderia retomar de uma das faixas interrompidas e assim ir ouvindo-o aos poucos. A divisão das faixas foi pensada tendo em vista em primeiro lugar essa comodidade. Já a decisão de onde cortar, isto é, onde separar uma faixa de outra (acabaram sendo 10), obedeceu subjetivamente a alguns critérios de feitura que não sei explicar muito objetivamente não. Ofereço aqui aos leitores o segmento inicial do poema, isto é, na divisão final, aquela que ficou sendo a primeira faixa.

FIRMA IRRECONHECÍVEL (1º. segmento)
A assinatura não passa
de um aceno. Isto quer
dizer que menos do que
nomes o que vemos e nos
move é um sinal como
se fosse um senão ou
de herança ou de im-
perícia, um rabo de fo-
ra de gato escondido. U-
ma assinatura não pas-
sa do aceno de uma ca-
valgadura após assinalar
um tento tentando um ca-
valgamento que o livre
do cruel esquecimento
da prosa linear do mundo,
todo prosa sem mere-
cimento capaz de fixá-
-lo ao dorso do cavalo
convertido a si mesmo,
juramento de garbo,
galhardia, bazófia e vento.
Assinar não passa de
fixar um rabo de gato
escondido de fora na
bunda de um jumento
e acenar esperançoso de
que o ranço da eternidade
não o acometa de bolor
e sedimento acumulado,
bosta ao vento, dique fura-
do, previsão de chuva, pro-
visão de lérias que acome-
tem desde o começo
a biosfera e o firmamento,
abrigo do assassino que o a-
sinino assina assim
deixando lá ao anônimo
o relento. Impudicícia,
desídia, imprudência
ou mero descaso no manejo
do remo, o que nos move
às vezes como um mar-
ujo bêbado mais que o tom-
bo do navio é miragem,
mulher tatuada no ba-
lanço do músculo, ba-
fejo de fortuna ou de
promessa cumprida de â-
nus ao beijo circundante,
concha de molusco expro-
priada pela cunha do im-
potente. Assinar pode
ser só desejo de selar
seu forte olor de posse,
delimitar a margem de a-
certo igual a um desdenta-
do predador impraticável
ao qual só reste a coragem
e a lembrança e se conforma
com a tocaia ou a TV e a
poltrona donde se de-
leita com orcas, chitás,
águias e leoas, comoda-
mente dragão cobiçando
corças, fauno velho
ensinando xeta às ninfas,
sonhando ser caçado por
uma van cheia de lobas.
Quem assina sorri dian-
te do cano apontado para
si, sabendo a culatra por
onde o tiro vai sair,
duelo de um, miolo de
alcatra a desmanchar na
boca, açougue de alma,
ganho de massa ence-
fálica na frente de um
pelotão sanhudo de
burocratas. Auto-
grafar o vento, foto-
grafar o evento, peido
no elevador cheio do tér-
reo ao terraço, na torre sus-
pensa, na solidão do a-
partamento freqüentado
por todas as luzes do
ninguém por perto, donde
nenhum comprometimen-
to exceto a urbs rastreada
por holofotes, a assi-
natura se impõe seja aos
míopes ou aos pimpões.
Favor assinar ao lado
do xis, favor assinar
sobre a linha, é um favor
assinar reconhecendo a
dívida como quem não tem
outra sina, a quem não cabe
o que se diz, de boca a boca,
de esquina a esquina, pondo
pingos nos is, pondo pongos
nos os, até que os ossos
se esfarelem, da cartila-
gem ao tutano, da cre-
mação à cinza, do cigarro
ao rastro preto nos pulmões,
daí ao pó e ao pós e
depois de tudo assinar
a deixar um amor ras-
treável, DNA
de primata, gosma de ca-
racóis. Deixam rastro ca-
racóis no cimento, deixou
rastro na areia Anchieta,
craques deixam rastros na
camisa, assinatura é
flanar também no tempo, é a
anti-tatuagem por prin-
cípio e por fim é sempre prova
que se apaga. Vela prego
cova, assinar é inumar, res-
valar despercebido para o
limbo, deambular tomado
de delírio como os doidos
de pedra e de sarjeta, afer-
rados aos berros, aos de-
litos. Dos detritos dos nomes
sai aos gritos a assi-
natura, sai única e sai
rosa, breve ou grave e cai,
decapitada em pétalas e
cai, cagada sobre cágados
cai sobre a métrica
e o pé quebra, cai sobre
o soneto, o haicai, a écloga,
samba, rumba, hip-
hop, hurra, hippies,
beatniks, nerds, punks,
índios, colegas, cai uma
chuva, uma praga, uma
chusma, nuvem voraz
semeando desertos ali
onde depois de escrever
não mais nasce nada. Assi-
natura não serve de des-
culpa. A rubrica pode de-
cupá-la dos excessos do
prometimento, a reco-
lher rápido o rabo de fora,
mas não foge ao olho
atento, enquanto os hip-
opótamos atraves-
sam a tela à procura
de Buñuel, que cuida de
seus ursos e cordeiros,
entretanto que nubentes en-
laçam dedos para sem-
pre, não fosse a assinatura
livrá-los da eterna jura
da saúde e da doença,
da dança macabra na ceri-
mônia como recom-
pensa, os nomes para
sempre entrecosidos
no rol de roupa suja,
na lista da despensa.

(In: Firma irreconhecível. Oficina Raquel, 2009. www.oficinaraquel.com )