segunda-feira, 30 de maio de 2011

De Drummond, "ROMARIA"

ROMARIA

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

                             Carlos Drummond de Andrade

(poema incluído em Alguma poesia, 1930)

sábado, 28 de maio de 2011

RELÓGIOS, TERMÔMETROS E UM IDIOTA

         Não sei quando começaram a aparecer pelas ruas do Rio aqueles relojões digitais que informam muito mais a temperatura... do que a hora.  Sim, as informações são alternadas no visor, e sempre me intrigou por que a informação de temperatura fica exposta muito mais tempo aos olhos de quem passa do que a informação da hora.  Acho que nunca falei disso com ninguém, mas seja dentro de confortáveis automóveis ou socado em pé num ônibus nunca me ocorreu que a alguém seja mais útil a informação da temperatura do que a da hora.  Útil aqui, bem entendido, dentro da lógica capitalista.  A preocupação em não chegar tarde ao trabalho parece de fato comandar a tirania do relógio com sua pretensa utilidade na cabeça do morador de cidade grande.  Acho que foi Baudelaire, fantástico cultor de inutilidades, quem primeiro soube captar a dramaticidade expressa nesse objeto tão prosaico, esse “dieu sinistre, effrayant, impassible”:

                               “Tantôt sonnera l’heure où le divin Hasard,
                               Où l’auguste Vertu, ton épouse encore vierge,
                                Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
                               Où tout te dira: Meurs, vieux lâche! Il est trop tard!”

                               (“Virá a hora em que o Acaso, onde quer que te aguarde,
                               Em que a augusta Virtude, esposa ainda intocada,
                               E até mesmo o Remorso (oh, a última pousada!)
                                Te dirão: “Vais morrer, velho medroso! É tarde!”
                                               - na tradução de Ivan Junqueira)

Fadados bovinamente a não chegar jamais a tocar a Virtude e fadados ainda a morrer advertidos pelo Remorso, saberemos todos que não extraímos nada ou quase nada do ouro que estava aí à nossa disposição.  Assim, a insistência em exibir mais a temperatura – lembro que uma vez eu cotejei o tempo da hora com o da temperatura e a discrepância era enorme – do que o tempo que escoa digitalmente na feia ampulheta – não existem ampulhetas feias, mas os relógios digitais do Rio são horrorosos – acaba sendo um favor  à disponibilidade de quem por acaso quiser sair da marcha do tempo medido capitalista para o flanar irresponsável.  Claro que isso pode ser assim não porque os nossos geniais administradores tenham lido Baudelaire, mas por incompetência mesmo.  Hélas, viva a incompetência!
                Minhas reminiscências têm maior gratidão ao termômetro do que ao relógio.  Moleque, adorava pretextar uma febre para não ter de ir à aula, e quando descobri que friccionando-se a pontinha mercurial do termômetro poderia obter um aumento de temperatura, passei descaradamente a adotar o expediente.  Dava certo algumas vezes, poucas, principalmente se meu pai estivesse em casa.  A mão dele na testa era infalível, desmentia qualquer temperatura falsificada em termômetro.  Dizer se alguém tinha febre ou não, se era muita ou pouca sempre foi um tiro certo para ele com sua mão na testa de quem quer que seja, nunca o vi errar. 
Sou, como quase todo mundo, tiranizado pelo relógio, objeto pelo qual nunca tive nenhuma simpatia.  Nem nunca tive por que ter algum nível de gratidão a ele.
            Quando casado, eu tinha diversos relógios espalhados pela casa, cada um marcando uma hora diferente, para irritação ou desespero da azarada consorte.  Não horários totalmente discrepantes, mas, digamos, se o da sala marcava 7 e meia, o da cabeceira marcava 7:33, o da parede do quarto 7:27, o da cozinha 7:35 e um outro qualquer, sei lá, 7:25.  Meu pretexto era que seria sempre um exercício matemático, saudável para o cérebro, tirar a média para chegar a uma conclusão e ao mesmo tempo a uma aproximação não íntima com o louvável  Meridiano de Greenwich, esse Cérbero da racionalidade capitalista.  Lógico que era pretexto, tratava-se na verdade de idiotice mesmo.
             E a prova é que até hoje isso é assim, sigo sempre sendo um idiota.  Aqui neste brejo, morando sozinho,  o padrão continua. Comprovo: olho agora para o relógio do computador: 00:01; do quarto: 23:53; da cozinha: 00:06.  Sobejamente provado, nem vou ver a hora no celular, até porque nem desconfio onde esteja.
              Já com os termômetros, a relação comprova a minha idiotia.  Não sei de algum poema eloquentemente dedicado ao termômetro, se alguém souber ou lembrar me diga.  Mas tenho um termômetro só, na sala, que marca infalivelmente 20 graus.  O que me é muito conveniente no verão, pois se ele marcasse os 38 ou 40 que às vezes acontecem nos janeiros  por aqui, eu certamente providenciaria de imediato uma viagem ao hemisfério Norte.  Na estação fria, é muito conveniente essa constância aos eventuais visitantes friorentos.  Nos 11 graus que andou fazendo por aqui essas últimas noites de fins de maio, alguma alma mais temerosa podia se assustar e suspeitar de alguma massa de ar polar e iniciar um discurso desmentindo o aquecimento global, etc.   Agora se essa alma na verdade é corpo, como disfarçavam os poetas românticos, uma temperatura mais fria é sempre um pretexto a mais para o aquecimento não diria global, mas mútuo.
              Se bem que outro dia, frio pacas, eu conferi o termômetro e ele marcava: 18 graus (devia estar uns 12, que  é quando o frio começa a me incomodar).  Acho que terei de ver algum lugar onde se consertem termômetros.
                              
                              

quarta-feira, 25 de maio de 2011

AH, UM SONETO... DE NELSON ASCHER

Um dos “Quatorzes” de Parte alguma, hexossílabo:

FUMAÇA

Acordo de manhã nico-
tinado e, ao ver meus dentes
outono-sorridentes
no espelho, intuo a pane co-

lossal, o dano orgânico
que, em ambos reincidentes
pulmões, venho entrementes
causando e sinto pânico

por ter, com a fumaça
hostil que me repassa
como inexorcismável

espírito incorpóreo,
construído, em meu cadáver
futuro, um crematório.

            In: Parte alguma.  Companhia das Letras, 2005.

domingo, 22 de maio de 2011

SAMPA MIDNIGHT E OUTROS TESOUROS DO OCEANO ITAMAR




SAMPA MIDNIGHT


Sampa midnight
eu assessorado de mais dois chegados
          Bartolomeu Pitolomeu
partimos pra comemorar
                               não lembro o que
        numa boa boate


Escabrosa noite
deu black-out na Paulista
         breu no Trianon
cadê o vão do Museu?
                       Sumiu
Meu Deus do Céu
                         (que escuridão!)


Três seres transparentes baixaram
                     não sei de onde
imobilizando a gente e gritando: “Não somos gente!”


Brilhavam
não tinham dentes
traziam cortantes tridentes
incandescentes nas frontes
três chifres
falavam rapidamente
com gestos intermitentes
simultaneamente
sons estridentes
incríveis!


Sampa midnight
eu chumbado com mais dois embriagados
            (vários...)
                   Pitolomeu Bartolomeu
quisemos levá-los prum bar
mas qual o que
            tomamos xeque-mate


Tenebrosa noite
Faltou light na Paulista
              breu no Trianon
cadê a Consolação?
         escureceu
                o Museu
                             Meu Deus do Céu
aonde está o chão?

Um trio intrigante
desceu do céu num instante
intimando a gente e gritando: “Não somos gente!”


Cantaram de trás pra frente
letras fortes e indecentes
músicas bem excitantes
provocantes
rumbas funks
cantaram de trás pra diante
uns reggaes
bregas de breque
chiques
bastante pique
sambas de roda
chocantes!


Sampa midnight
eu assessorado de mais dois chegados
                 Bartolomeu Pitolomeu
partimos pra comemorar
                                         não lembro o quê




             Itamar Assumpção (1949-2003) é muito menos conhecido do que deveria – pelo menos para quem mora no Rio. Mas longe de cair em lamentações por conta disso, o que é sempre tão corriqueiro, melhor é apostar no que vaticina Luiz Tatit, de que por muito tempo ainda e cada vez mais ouviremos falar de sua música. Porque a obra de Itamar Assumpção é assustadora em sua abissal beleza.
             E é uma obra relativamente grande, da qual tudo indica ainda restar muita coisa inédita. De 1981, com o LP Beleléu, Leléu, Eu(Nego Dito), até 1998 com o CD Pretobrás, Itamar lançou 9 discos, sendo um deles, Pra sempre agora (1995) dedicado aos sambas de Ataulfo Alves. Ano passado (ou retrasado?), assistindo ao excelente “O som do vinil”, programa de Charles Gavin no Canal Brasil, fiquei sabendo que o SESC-SP (sempre ele!) estava lançando a Caixa Preta de Itamar Assumpção, reunindo todos os discos do compositor. Na ocasião não dava pra eu comprar, deixei para quando desse. Aí... como costuma acontecer no Brasil: quando eu fui, já não tinha. Mas foi lançada recentemente uma segunda tiragem e eu finalmente adquiri meu exemplar. São 12 CDs, incluindo os póstumos Isso vai dar repercussão (com Naná Vasconcelos) e Pretobrás II e III. Estão disponíveis na loja do SESC-SP, inclusive pela internet.
             Empolgado pelo contato revigorado com Itamar – alguns dos discos que eu possuía tinham-se ido sei lá para onde – fiquei sabendo também que em 2006, a Ediouro, com organização de Luiz Chagas e Mônica Tarantino, e com o patrocínio da Petrobrás, Itaú Cultural e revista Istoé, lançou Pretobrás: por que que eu não pensei nisso antes?, definido como “livro de canções e histórias de Itamar Assumpção”, reunindo em dois volumes magnificamente produzidos um excelente material que vai de depoimentos pessoais de quem conviveu com o artista até uma ótima análise feita por Luiz Tatit, além, claro, das transcrições musicais a cargo de Clara Bastos, contrabaixista que tocou em vários de seus discos.



               Aliás, contrabaixo era o instrumento de Itamar. A primeira vez que vi sua esguia figura de porte altivo foi empunhando o instrumento na apresentação de “Sabor de veneno”, num festival da extinta TV Tupi em 1979, composição de Arrigo Barnabé. Saudades do futuro aqui: um tempo em que ainda havia espaço para surpresas estéticas pela TV. A sensacional canção era apresentada por Arrigo e banda, com três cantoras (seriam Tetê Espíndola, Vânia Bastos e Neusa Pinheiro, acho) e Itamar, com sua voz grave e firme, ajudava também nos vocais. Depois disso... depois disso foi uma história que entrou para a história da canção no Brasil, mas à qual pouca gente prestou atenção. Era a Vanguarda Paulistana, efervescente agitação criativa em torno do Teatro Lira Paulistana na primeira metade dos anos 80: além de Arrigo e Itamar, o Premeditando o breque, o Grupo Rumo (de Luiz Tatit e Ná Ozzetti), e ótimas figuras circundantes, como o divertidíssimo humor escrachado do Língua de Trapo e as privilegiadas gargantas de Vânia Bastos e Tetê Espíndola. Era difícil acompanhar do Rio o que acontecia na cena paulistana naqueles anos, era difícil conseguir seus discos, assim como era difícil acompanhar o trabalho também maravilhoso que Tom Zé não tinha parado de produzir e que viria a ser redescoberto por Byrne no fim daquela década. Na minha cabeça eu achava que o velho baiano e os novos paulistanos iriam acabar se encontrando, e desse encontro sairiam os frutos que revigorariam os caminhos da invenção na MPB.
             Não foi o que aconteceu. Nos anos imediatamente seguintes o que veio foi o rock principalmente carioca, o BRock dos anos 80. Com seu sucesso avassalador e de baixo custo para uma pré-falida indústria fonográfica, o rock dos 80 deu as cartas do visível/audível na cena pop brasileira. O pessoal de São Paulo ficou mesmo restrito, circulando em espaços praticamente alternativos. Uma inventiva e sofisticadíssima – no melhor sentido da palavra – música acabaria relegada quase ao anonimato. Tenho horror a martirológios e longe de mim querer bater nessa tecla aqui, até porque houve muita coisa de bom também no BRock. Mas ficou uma espécie de moda tola entre alguns roqueiros e sua “entourage” midiática – principalmente no Rio – de passar a considerar “chata” a música do pessoal em São Paulo. E isso a despeito de Itamar ter mostrado, numa apresentação no Rio no Teatro Carlos Gomes, acho que em 84, a mais bela interpretação que ouvi de “Fullgás”, obra-prima e mega-sucesso de Marina Lima e Antonio Cícero. Mas o jeitão blasé típico do Rio converteu em moda Cult desdenhar de Arrigo, Itamar e tal.
             “Sampa midnight” aqui postada é a minha canção preferida do grande Itamar – e não é fácil optar por uma “preferida” no seu repertório. Dá título ao seu terceiro trabalho, de 1985. Os desalojados da “maloca” pela aceleração brutal do progresso paulistano, captados por Adoniran nos anos 50, assim como os deserdados de Vanzolini, rondando o bas-fond, depois de darem lugar à utopia nova-baiana da “Sampa” caetânica, eram agora os três chumbados embriagados às voltas com as rondas ostensivas de extra-terrestres aterrorizando os periféricos que se aventuram na nobre região do Trianon e do MASP. Estávamos nos estertores do regime militar e mal sabíamos que pouca coisa melhoraria, ao contrário do que sempre queriam fazer crer as canções utópicas de Chico Buarque – menos por responsabilidade dele, diga-se, essa “crença”, do que daqueles que o viam como o arauto do que ele mesmo acabou configurando como “loucura”, “delicadeza perdida”, como novo estado (permanente?) do Brasil e dos brasileiros.
             Em Itamar, e nesse sentido “Sampa midnight” é exemplar, aprendemos a distinguir de vez o prolífico do prolixo. Prolífico: os CDs de Itamar vêm sempre com grande número de faixas (à exceção de Bicho de 7 cabeças, dividido em 3 CDs), algumas às vezes dando a impressão de rascunhos, anotações à margem, vinhetas. Mas nunca prolixo, Itamar é paradoxalmente econômico ao lançar mão de recursos musicais, tanto nos achados da feitura de seu “rock de breque” (como diz Tatit), quanto nas letras, cortantes, enxutas, de sonoridades paronomásticas exatas como corte ou perfuração de arma branca. Tudo em reforço também da economia de seu canto, contido, sussurrado, voz de quem precisa falar baixo e se subdividir, prismatizar em ecos e ressonâncias, antes de se desafogar aqui e ali – e quando possível – em grito. E ainda por paradoxal que possa parecer, embora geralmente acompanhado de grandes bandas, com 7 músicos ou mais, tudo parece detalhadamente calculado, pensado, executado para fugir aos tuttis e às grandiloqüências. Certamente músicas de difícil execução, a exigir muito dos músicos. Músicaletras nas quais reconhecemos, à frente do baixo funky de Itamar (mesmo quando não é ele que o toca, o arranjo é), elementos de rock (quando surgiu Itamar era para a imprensa o “Hendrix de Vila Madalena”), reggae, rap, funk, batuques diversos, samba, além de uma levíssima – mas presente, estou certo – impregnação caipira (no sentido próprio do termo), perceptível a partir de seu sotaque de Tietê (berço de grandes artistas da música caipira) e de suas letras fundamentadas em sua maioria em redondilhas, embora em emprego sempre surpreendente.
            Itamar é uma imensidão, um oceano, um mundo a ser ainda descoberto em plenitude por bons nomes de nossa cena musical. Cássia Eller o gravou, assim como Zélia Duncan, bem como outros nomes mais identificáveis apenas – e muito infelizmente – à cena musical paulistana. Sua obra resistirá por muito tempo, revigorada, sampleada, apropriada em muito do que a cultura hip-hop, por exemplo, pode também dela haurir. No pós-colapso da indústria fonográfica, que estamos assistindo, a pulverização de novos criadores e novos públicos permite pensar com muito otimismo no quanto ainda ouviremos do que Itamar compôs em sua rápida trajetória. Querido leitor-ouvinte, ouça aqui na minha “vitrolinha” e procure conhecer mais desse artista excepcional.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

BOI MORTO, MANUEL BANDEIRA



BOI MORTO

Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido
Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvores da paisagem calma,
Convosco – altas, tão marginais! –
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado.  O que foi
Ninguém sabe.  Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto!

In: Manuel Bandeira – 50 poemas escolhidos pelo autor.  CosacNaify, 2006.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Um poema para Hermínio e Elton

SEMINÁRIO  DE OUTONO
            para Hermínio e Elton


O forno em torno
interno
concha de aconchego
terno

fora
a terra em pródiga promessa
dentro a casa dia e noite
alecrim tomilho

em casa
no mundo encantado  
canteiros

aquece o forno
em torno a horta esquece em cinza a brasa
  sofrimento
do verão recém-findo

agora é outro o fogo
interno e brando
outono é o mundo
brotando

pressentimento
este é o tempo
de semear felicidade

domingo, 15 de maio de 2011

ALIMENTANDO UM MITO: NEYMAR


              Foi quase tudo como objetivamente se esperava na final do Campeonato Paulista.  O mediano time do Santos, de novo sem Ganso,  superando o muito fraco time do Corinthians, graças sobretudo às manhas do manhoso, simpático e competente técnico Muricy Ramalho. Surpreendia um pouco a superioridade muito nítida do time santista, acima do esperado, no primeiro tempo, virado com um gol de vantagem.  Objetivamente também dava pra adivinhar o que viria no segundo tempo, especialmente na parte final: o Santos sem pernas ia passar um cortado com a pressão corinthiana.
            Não resisto, aqui vão dois parêntesis:
(o time do Santos está visivelmente baleado fisicamente por conta de uma partida decisiva atrás da outra, não só no campeonato que acabou de acabar, como na Libertadores de América. Aí volta e meia a gente ouve o pessoal venal da imprensa esportiva – nem todos o são, mas um bom número é – dizer que isso é fita, que não se justifica, que o glorioso Barcelona faz o mesmo número de partidas que o Santos, que o calendário europeu com tantas copas continentais também sacrifica os jogadores de lá e tal... sejamos objetivos:  riquíssimo, o Barcelona, assim como seus pares de primeira linha na Europa,  tem um total de jogadores (em futebolês: plantel) que forma fácil dois times de altíssimo gabarito entre titulares e reservas, o que não é o caso dos empobrecidos clubes brasileiros; objetivamente 2: os asnos que dizem isso nunca tiveram aula de geografia, quer dizer, devem ter matado todas elas: se soubessem um tiquinho da matéria,  saberiam quantas Europas cabem no Brasil ou na América Latina, daí a diferença de distância percorrida, daí...)
(assisti pela Band, o que sempre é garantia de diversão com os comentaristas de lá. O Neto, que aliás enxerga bem futebol, fala coisas completamente estapafúrdias.  Hoje, analisando estilisticamente o rapaz, descobri que o que o mata são os pronomes relativos – o que o faz bem brasileiro, diga-se. Mas é um horror o acúmulo de adjetivas explicativas que ele se  vê na obrigação de dizer e aí se enrola todo, como aqueles jogadores ruins que se atrapalham com a bola, ele que era bom jogador.  Teve uma hora que ele, por conta do maldito “que”, chegou a dizer que “Neymar, que é um excelente goleiro...” querendo se referir ao goleiro do Corinthians...)
            Bom, mas chega de objetividade: o fato é que, quando parecia que o caldo santista ia entornar de vez por conta do cansaço, Neymar recebe uma bola na esquerda, pra ficar com ela e desafogar a pressão, e vai indo, vai indo, ninguém chegando perto com medo do “come”, até que ele perde o ângulo e, no bagaço, sem pernas firmes,  chuta fraquinho... a bola entra, segundo gol do Santos, campeonato garantido.
            Claro que em nome da objetividade todos dirão, como já dizem pela TV e rádio, que foi um tremendo frango do goleirinho do Corinthians, que o chute saiu errado, que foi um tolo preciosismo que acabou dando certo, enfim... tsk tsk... Pois não viram que Neymar, num átimo, percebeu que no lamaçal em que se movia o pobre goleiro, com dificuldade até para manter-se de pé, haveria um ponto exato em que, batendo numa saliência do terreno, a bola escaparia das mãos de qualquer goleiro que ali estivesse, fossem Yashin, Sepp Mayer, Gordon Banks ou Mazurkievicz?  Não sabem que nessa hora pela cabeça do Gênio passaram duas leis não escritas mas sempre repetidas do futebol, a de que o montinho artilheiro tem alta produtividade e a de que o goleiro é um ente tão desgraçado que onde ele pisa a grama não nasce?  Só um idiota da objetividade não saberia que na hora exata de pôr o pé na bola, esfalfado, extenuado, o altivo Neymar, sabedor em detalhes e desde sempre desses caminhos,  potencializou-os no ato do chute.  De nada adiantam as 5.780 câmeras que as TVs espalham por todos os desvãos mais recônditos do estádio e da torcida.  Nenhuma delas mostrará o que eu digo.  Todas confirmarão a “falha” do goleirinho.  De nada sabem, no entanto.  Meninos, eu vi!
            Objetivamente ainda se pode dizer que com o gol no finalzinho, o Corinthians tomou novo ânimo e quase empatou, poderia ter empatado e tal.  Claro que a mística do Timão, assim como a mística do Flamengo alimenta o mito de “se deixar chegar o Mengão não perde”, alimenta o histórico de sofridas vitórias, conquistadas a suor e sangue nos estertores e tal... mas não diante de Neymar: aqui um valor mais alto se alevanta.  E o Corinthians prossegue na sua sina de ser o maior time pequeno do mundo. E que, como tal, a todos nos diverte.
            E um vaticínio final (com condicionante); se o Santos mantiver Muricy, Neymar e Ganso para o campeonato brasileiro, os demais times podem ir se preparando pro campeonato de 2012. O de 2011 já tem dono.