segunda-feira, 4 de julho de 2011

DOIS POEMAS DE RENATO CAMARGO

           O livro Ofício do fogo, que comprei no escuro em 1990, é a única referência que tenho deste poeta, cujo nome nunca vi citado, cuja poesia nunca vi comentada.  É possível que seja pura e simples desinformação de minha parte, além do fato de que nunca o saí buscando pelos googles da vida.  Mas não importa. Sempre que pego para folhear Ofício do fogo vale o prazer  de me deparar com esta poesia excelente.  Se algum leitor me puder acrescentar alguma informação, agradeço. Vão aí dois poemas do livro.

AVENIDA LÁCTEA
            Semi-nuas
expõem o cu
            de luz
            na noite crua.

Vermelhiúmidas
            por pouca prata
            revelam-se às ruas.

Mas por que prata se dão
senão,
            pela própria prata da lua?

            Estrelas,
                        meras estrelas.
        Por um triz
            poderia come-las.




POR QUEM?

Com que ponta toquei
o pêndulo de teu sino?
            com a       língua
       com o                tórax
com o                             riso?

Sinuosos seios.
                        Negras senóides de pelos.
O fogo do instante a pino.

O sim-não dos sinos.
O jato-arroio minando entre as pernas:
               é por mim que elas dobram.

Os ritos do pêndulo.
Os gritos do sino.

In: Ofício do fogo.  Taurus, 1985.


quinta-feira, 30 de junho de 2011

NOIVADO

Minha namorada é noiva. Ela mora na Tijuca, estudou nos Santos Anjos e tem um nome a zelar. Ao qual em breve se juntará o do afortunado consorte.  O fuzileiro naval sonha em ser mariner, mas por enquanto é apenas noivo.
Nas domingueiras no Tijuca Tênis Clube ela sabe que mulher não pode dançar com mulher, nem mãe com filha a pretexto de comemorar por exemplo as bodas de ouro daqueles que já foram noivos um dia.  Os seguranças se aproximam e com muito tato dizem: “é pra não abrir precedentes pra atitudes lésbicas”.
Ele, muito longe, sonha com os US Corps, com o retorno à base mutilado e zumbizado e com um futuro de corno de guerra.  Sabe que dificilmente se realizará.
Eu nunca fui noivo mas a minha namorada é.  Nunca morei na Tijuca, onde ela mora.  Nunca sonhei ser mariner mas meu comborço também não será.   Provavelmente ele trará de seus giros pelo mundo muitos badulaques, que talvez com o tempo, juntos,  aprendam a discernir do que é ourivesaria.  Ela abrigará tudo no patrimônio do casal, não se desfará nunca de nada, pois em tudo ela identificará sinceridade e gratidão de corações mútuos, e tudo lhe recordará o feliz momento: das longes terras em que ele se encontrava, quando dela ele se lembrou, do arroubo que o fez comprar, da forma de pagamento que adotou, do embrulho que mandou caprichar, do carinho quando lhe ofertou, de quão bonita ela ficou ao usar.
Do varejo de Copacabana ou de Madureira trago prendas que ora lhe ofereço: borboletinhas clitorianas, lingeries comestíveis, bolinhas de sabores variados para o sexo oral.  E trepamos toda a noite, enquanto a Via-Láctea como um pálio aberto cintila. Ele saberá guiar-se pelas constelações.
Ela ensina inglês e já explicou bilhões de vezes para um monte de idiotinhas a diferença entre o present tense e o present continuous.  Namorar e noivar para eles são ações contínuas.  Para mim, namorar é sempre present tense.  Noivar, não tenho idéia.
Mas estou adorando namorar uma noiva.  Quando ela casar, talvez me separe.  Talvez procure outra noiva.



 


In: Firma irreconhecível. Oficina Raquel, 2009.


terça-feira, 28 de junho de 2011

DOROTHY PARKER






EM SUMA

Navalhas doem,
ácido mancha,
o rio molha,
drogas dão cãibra;
arma é ilegal,
laço desfaz-se,
gás cheira mal.
Viva: é mais fácil.
                       
            Tradução de Nelson Ascher



RÉSUMÉ

Razors pain you – ,
Rivers are damp:
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


In: Nelson Ascher. Poesia alheia: 124 poemas traduzidos, Imago, 1998.

sábado, 25 de junho de 2011

ANTÓNIO GEDEÃO

POEMA DO ALEGRE DESESPERO

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

In: António Gedeão. Obra poética, 2001.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

AH, UM SONETO... DE DANTE MILANO

          (Dedico esta postagem a Márcia Rios, com quem outro dia eu conversava sobre o poeta.)


O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho, mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

Dante Milano. Poesia e prosa, 1979.

domingo, 19 de junho de 2011

RASCUNHO PARA UMA BAILADORA QUASE LUSA

Como as bailarinas
amadas por Cabral
ela tem o peso audível
ao fugir do chão
e ao chão tornar.

Nunca a vi pairar
nunca lhe vi corola
aura, auréola nem
aquela fímbria entre o corpo
esguio e o mundo etéreo.

Com pentelhos, veios
e furor, fulgura
ante o átimo da carne
pousa na memória
como num fundo de coral

e aos destruí-lo, e à areia
revolver,   e esfacelar
mesmo a âncora, incorpora
o que é ferro e à flor
d’água paira,  mas

tangível à vista:
o logro da leveza
submerge para sempre.
O que nela é vero
dá-se a ver à tona.

sábado, 18 de junho de 2011

EUGENIO MONTALE

SEGUNDO TESTAMENTO

Não sei se um testamento equilibrado
entre a prosa e a poesia triunfará sobre o nada
do que nos sobrevive.
O tom oracular da versificação
não cairá na indiferença,
e um fragmento, uma parte da minha
impotência, me vingará do anterior
e do ignoto.  Nunca escolhi a estrada
mais batida, porém aceitei o fato
em seu engodo de sempre.
E agora que o fim se aproxima atiro
minha garrafa que talvez dará lugar
a uma bela algazarra.
Nunca nos restou um vácuo onde desaparecer
já outros graças à recordação ressurgiram,
deixai em paz os vivos para reviverem
os mortos: no além eu quero é divertir-me.



SECONDO TESTAMENTO

Non so se um testamento in bilico
tra prosa e poesía  vincerá el niente
di ciò che sopravvive.
L’oraculare tono della versificazione
non cadrà nell’indifferenza
e un brandello, una parte dela mia
impotenza farà vendetta del prima
e dell’ignoto.  Non scelsi mai la strada
più battuta, ma accettai il fato
nel suo inganno di sempre.
Ed ora che s’approssima la fine getto
la mia bottiglia che forse dará luogo
a um vero parapiglia.
No vi è mai un nulla iu cui sparire
già altri grazie al ricordi son risorti,
lasciate in pace i vivi per rinvivire
i morti: nell’aldilà mi voglio divertire.

 IN: Diário póstumo, Eugenio Montale.  trad. Ivo Barroso, 2000.