sexta-feira, 22 de julho de 2011

AH, UM SONETO... DE BAUDELAIRE

A GIGANTA

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça – eis do que eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.

Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos  enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,

Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.
                                                    
                                                         Trad. Décio Pignatari
                                                          (in: Poesia pois é poesia: 1950-2000)




LA GÉANTE

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J'eusse aimé vivre auprès d'une jeune géante,
Comme aux pieds d'une reine un chat voluptueux.

J'eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement de ses terribles jeux ;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux ;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes ;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s'étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l'ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d'une montagne.

Charles Baudelaire por Nadar

domingo, 17 de julho de 2011

SEIS NOTURNOS DO BINGEN

Ela é virtual ela me deixa insone
Cafeinômana e tão bonita
Acordo cedo e grogue
Tomo o meu café mas quero o dela
Ela deve ser tão gostosa e nem o cheiro
dela e nem o do café preenchem o sono
que ela me furta e que eu entrego
sem resistência e sem recompensa
e sem sombra de dúvida ou certeza




II
Súbito ela some
se apaga
silencia
Uma ave noturna ecoa e pousa
mas é lá fora, longe dos meus umbrais
Ela está viva, mas não aqui
Adivinho-lhe a carne, doce como bom vinho
para quem até ao fundo vai
de uma taça de onde a noite escoa
e só de manhã revela seus resíduos.  




III
Noctâmbula na névoa que desfaz
a sinuosidade do rio conduzindo postes
ela acrescenta à minha névoa a fumaça
dos cigarros, e eu me confundo
como se fosse o tempo
que indistinguisse o que passei
o que amarei, o que serei
na bruma – sem drama! – que apenas me toma
pela mão e que me diz seu nome:
ausência.



IV
O que é rascunho é isso assim
é este isso é não ter um fim o óbvio de ir
vivendo e não ter como aprender e tanto
se afastar do que se traça ao ver
que as traças aproveitam mais dos livros
do que a pretensa sabedoria que eles me infundissem
quando me vejo na noite, só – e vão ruindo
em estardalhaço de silêncio
todos os sentidos das palavras
Por mais que eu apure os sentidos
ficam só os sons, ficam só os sons
ficam só os sons




V
As estruturas cumulativas da língua
todas as aditivas, a cambulhada, a pletora
a entropia, o aluvião, tudo varre
Se acaso eu achasse um lugar-comum a salvo
onde me agarrasse como a uma costela
de prata e isso me patenteasse que o Bingen
é apenas uma lembrança de névoa, lama
e fantasmagoria, que mesmo ela é só
um pouco mais que isso, mas que agora
se tornou estranhamente espessa
nesta tela onde a entrevejo e lhe escrevo
e a quero
como a quero




VI
Nem as traças tirarão proveito
(Da eternidade não ouço que elas riam)
É provável que vírus  farão melhor
do que o café e o vinho poderiam dar
 – que nem bebi –  já que apenas resíduos
de suas letras são proveito para mim
que não creio na eternidade
Já que amanhece, também a hora de noturnos
passou

sexta-feira, 15 de julho de 2011

AS QUATRO ESTAÇÕES DO BREJO


Primavera
A oferta é tanta
- que cornucópia! –
Tenho tempo nem
De tocar punheta

Verão
Tanta canícula
Tanta modorra
Que até o mosquito
Pede o ventilador:
- Antes que eu morra!

Outono
Rebentam frutos:
O mundo não cai
Na luz
Flutua

Hiver
Faz tanto frio
Que não se tira o cachecol
Nem pra sentar
No vaso


terça-feira, 12 de julho de 2011

DISPLICENTE



A falta corta por todos os lados
e nunca diz seu nome
deixa-se confundir
num equívoco eco de canção longínqua
se diz Lígia
ou Helena
Ariadne ou prosaica Adriana
Emília
aparece mil vezes na telinha plana
com o nome saudaaaaaade...
em quem nem sequer sente saudade
mas nunca diz seu nome
vejo-a enquanto caminha displicente
pelos lugares que lhe eram habituais
sei não
mas tenho a impressão que suas coxas eram mais grossas
ou estão agora mais morenas?
tem o mesmo bom gosto quanto à lingerie
os ombros estão livres da alça do sutiã
não há nesga enganosa em seu cabelo louro
ou será que não seria louro
será que mudou o estilo de depilação?
ou a frequência?
rasgou o que é meu
ou só esqueceu
como eu fiz com as juras
como nunca fiz com as malas
das viagens adiadas
enquanto tento manter tépida a sala
do aroma das ervas e do vinho
num fogo brando
brando
e imperecível

sábado, 9 de julho de 2011

BRASILEIROS, TODOS JUNTOS: “MESSI É MELHOR DO QUE MARADONA”





           Tenho lido e ouvido falar, e com muita insistência, que os argentinos andam irritadíssimos com a performance de Messi na Copa América, “envergando” o uniforme da seleção deles.  É uma queixa que já vinha da Copa do Mundo, quando também o astro do Barcelona teria ficado muito abaixo das expectativas, apesar de toda a paparicação que Dieguito Maradona lhe devotou.  A que se pode acrescentar  o fato de que,  na mídia esportiva do mundo todo, aumenta a intensidade das comparações entre os dois supercraques argentinos
            Agora, parece que a patriotada se manifesta antipatizando Lionel Messi por ele não cantar o hino quando perfilado antes do início da partida.  Ou seja, a farda de chuteiras não se conforma.  Acho tudo isso muito divertido e, como acontece em geral com o que é muito divertido, deprimente.  Como estou cada vez mais convencido de que os confrontos entre seleções nacionais já perdeu todo o sentido, que em nome do futebol bem jogado o melhor mesmo é ver os melhores times em confronto (por exemplo, um argumento ululante: o Barcelona é muito melhor do que a seleção espanhola porque tem... Messi, e não Fernando Torres) e não seleções armadas às pressas, esbagaçadas pelos calendários e sem nenhum entrosamento, acho que Messi faria melhor se naturalizando espanhol logo de uma vez.
            Engraçado é que esse tipo de argumento patrioteiro-hidrófobo-futebolístico
anti-Messi, é brandido por meio mundo, o mesmo meio-mundo que por sinal se comove às lágrimas com a baladinha de Lennon, “Imagine”, que sonha com um mundo sem religiões e sem fronteiras.  Fico aqui nessas digressões, pensando ainda que é um tipo de argumento de gente que deve achar também melhor um mundo sem o próprio Lennon, afinal um cadáver ilustre pra ser pranteado sempre que possível é ótimo.
            Mas sem tergiversar mais, volto ao trilho. Que é o seguinte: argentinos pra espicaçarem brasileiros há uns 30 anos repetem o bordão “Maradona é melhor do que Pelé!”.  Pois agora, em troco, podemos fazê-los provar do próprio veneno.  Sugiro que se adote o bordão título lá de cima, e sempre que quisermos mexer com os brios patrioteiro-futebolísticos dos hermanos mandemos: “Messi é melhor do que Maradona!”  Mesmo que ele não venha jamais a se naturalizar espanhol, argentino nenhum jamais admitirá a hipótese da inferioridade de Don Diego. Aliás, acho mesmo que se Messi se naturalizasse a piada até perderia um pouco da graça.
            Seja como for, as duas maiores escolas futebolísticas do planeta, Brasil e Argentina, assistem neste momento a um ocaso do futebol de seleções, que acabará sendo, espera-se, em prol do verdadeiro futebol bem jogado, de preferência sem patriotadas. Imagine, como diria John.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

"FIRMA IRRECONHECÍVEL",4o. SEGMENTO

               Como já informei aqui, "Firma irreconhecível" é o longo poema que dá título a meu segundo livro, lançado pela Oficina Raquel em 2009. O livro foi acompanhando de um CD com o poema dito por mim, dividido em 10 faixas para comodidade do ouvinte. Postei anteriormente os três primeiros segmentos, posto hoje o quarto. Ao final do texto, os links para os segmentos anteriores.





Tudo o que se ou-
ve na esquina é digno de
assinatura, por ti eu
lavo privada, contigo eu
subo no andaime, privo
contigo e me privo do
mais mísero sorriso,
compro fralda, crio filho
afirmo que adoto, fraudo,
reconheço, trato, assumo, se-
ja menina ou menino, me
dependuro na broxa, an-
do no arame farpado, na-
do amarrado, me afogo,
sumo no oco do mundo,
ateio fogo escondido no
rabo do gato de fora,
bajo las botas del ogro
faço o sogro bater as botas,
penduro a mim mesmo
num poste, lavro liquido
o epitáfio: morto em paz
eis que aqui jaz o sumo
dos borra-botas. Lapidar
como se a lápis assinasse
para sempre: Descanse em paz
(já vai tarde) (filho da puta),
que exemplo! Pai extremado
(corno, quebraste) o filho
querido (que-traste!), Dorme
(no inferno) teu sono, Amor
eterno (pois sim), Chorosa Es-
posa (putana), Orai por Ri-
cardo (ão), Amparai (Brás
das apólices), Na viuvez
apoiei (não deu conta),
Feliz com você (comborço)
para sempre fiel fui
(se fudeu), Pratiquei
a verdade (sei), Admira-
ção sem fim de todos
os amigos e parentes
(-teses), mas não assina
só dita, mata a cobra
e sob a terra o pau
se esfarela na argila e
na cremação a família
se reúne, espalha as cinzas,
mas capricho da viração
por sobre o mar faz
a curva, enquanto ao cosmos
torna o pó e vai escolher
seu nicho entoando seu re-
quiém depositado no
lixão. Assinar se assina
tudo em terra onde se aprende,
desde a tenra idade implume,
que não se paga ou se pune
credor, revisor, ladrão
que não honra o que assina,
se o nada é o minto que é tudo,
como recitava o fanho,
todo ganho já se perde,
gadanho e mais bico adunco,
furunculose, apostema,
estilo à procura de assunto,
tudo se assina, prefácio
de poetastro, obra-prima
de bestunto, microcéfalo
corcunda, neve de limpar
a bunda, ai como seria bom
assinar, livrar pra sempre
do peso da autoria e ao
rabisco atribuir o ris-
co no rabo de fora,
currídicículo tes-
tirrículhão de porco ron-
colho ciscado por pinto
arisco, tudo no mesmo
monturo, obra completa de
sarney, disparate de aluno,
mesa-redonda de domingo,
crime hediondo perdoado,
josué montello pelado,
affonso romano de cue-
ca, na ABL a soneca
é sagrada no estatuto
de feijão com couve e chá
no lugar da pinga, pinga
a tinta em folha branca,
se arma a assinatura, mas
falta tinta na cara e ela
não ruboriza, cor de sangue
é a camisa e dá a luz
certa pra foto e quem assi-
na não escreve e quem
escreve não lê o pau
não come e tudo fica por
isso mesmo, vai assim do
ermo ao esmo a esmola
do esmoler.












segunda-feira, 4 de julho de 2011

DOIS POEMAS DE RENATO CAMARGO

           O livro Ofício do fogo, que comprei no escuro em 1990, é a única referência que tenho deste poeta, cujo nome nunca vi citado, cuja poesia nunca vi comentada.  É possível que seja pura e simples desinformação de minha parte, além do fato de que nunca o saí buscando pelos googles da vida.  Mas não importa. Sempre que pego para folhear Ofício do fogo vale o prazer  de me deparar com esta poesia excelente.  Se algum leitor me puder acrescentar alguma informação, agradeço. Vão aí dois poemas do livro.

AVENIDA LÁCTEA
            Semi-nuas
expõem o cu
            de luz
            na noite crua.

Vermelhiúmidas
            por pouca prata
            revelam-se às ruas.

Mas por que prata se dão
senão,
            pela própria prata da lua?

            Estrelas,
                        meras estrelas.
        Por um triz
            poderia come-las.




POR QUEM?

Com que ponta toquei
o pêndulo de teu sino?
            com a       língua
       com o                tórax
com o                             riso?

Sinuosos seios.
                        Negras senóides de pelos.
O fogo do instante a pino.

O sim-não dos sinos.
O jato-arroio minando entre as pernas:
               é por mim que elas dobram.

Os ritos do pêndulo.
Os gritos do sino.

In: Ofício do fogo.  Taurus, 1985.