terça-feira, 8 de novembro de 2011

GREGÓRIO DE MATOS

A UMA DAMA QUE LHE PEDIU UM CRAVEIRO

O craveiro, que dizeis,
não vo-lo mando, Senhora,
só porque não tem agora
o vaso, que mereceis:
porém se vós o quereis,
quando por vós eu me abraso,
digo em semelhante caso,
sem ser nisso interesseiro,
que vos darei o craveiro,
se vós me deres o vaso.

In: Gregório de Matos - Antologia.  L&PM Pocket, 2002.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

FIRMA IRRECONHECÍVEL, OITAVO SEGMENTO



                   

                Tem quem lê
assinatura mas não lê
o que tá escrito, toda a his-
tória da poesia vira
caso de polícia, liga
pro disque-denúncia,
liga logo o logogrifo,
toda história da perfídia
vira logo entropia,
catálogo telefônico é
resultado do bicho,
relação aristotélica 
pra platônico cochicho,
falei que não era pra en-
trar, não deixa entrar que é no-
civo, festeja depois de
morto pra não ter que a-
turar vivo, a tia não mos-
tra o sexo, o pai não faz
cunnilingus, a vó pen-
sava boquete é um tipo
de salgadinho, a mãe
gemia de noite como
cadela no cio, infâmia
da famulagem é que afinal
forma família, progênie
de proxenetas que alimenta
inventários, aduba a
genealogia,  poda
fodas interditas, irmana
a humana estirpe da qual
os poetas são o ramo
aparentado aos parasitas.


            Para visualizar o fragmento anterior do poema “Firma irreconhecível” (que estou postando aos poucos em dez segmentos), clique em  http://robertobozzetti.blogspot.com/2011/10/firma-irreconhecivel-setimo-segmento.html.  A partir dele é possível acessar os fragmentos anteriores.


POR QUE AS GALINHAS CRUZAM AS ESTRADAS?


           Nestes tempos de pesadas nuvens obscurantistas, uma obra para ajudar a dissipá-las.  Convite para o lançamento e a leitura. 

domingo, 30 de outubro de 2011

NO CENTENÁRIO DE DRUMMOND: agora com errata indispensável.


TRAPAÇAS DA MEMÓRIA SOBRE O CENTENÁRIO DE DRUMMOND

                Eis que de início a dúvida me assaltou sibilina, insidiosa... será que já estaríamos em 2012 e ninguém me avisou?  Corri ao reloginho do computador e não tive dúvidas... ainda estou, e portanto todos os que comigo compartilham o calendário gregoriano também,  em outubro de 2011... Então, por que diabos estaria eu aqui postando coisas sobre o centenário de Drummond? Eu sempre soube que o poeta nascera em 1902, como Murilo Mendes, logo o centenário será no ano que vem... vou lá no “Pergunte ao João” (também conhecido como Google) e confirmo o que já sabia – a nossa dependência dessas informações de rede está ficando cada dia mais doentia.
                Aí a dúvida de insidiosa passou a francamente alarmante e alarmista: como será comemorar em 2012 o centenário de quem nasceu em 1902?  Mudou a matemática ou mudei eu? Enfim... pane total!  Mas me intriguei com o acontecido e vi que toda a badalação atual em torno do aniversário de Drummond, mais que merecida, não deve estar por aí falando em centenário.  Tem a ver com o fato de alguns de seus livros estarem sendo relançados pela Cosac-Naify e os direitos de sua obra terem sido comprados pela poderosa Companhia das Letras, segundo me informou bem informada amiga. O centenário inventei eu, por sugestão sabe-se lá de que demo...
                Enfim, que viva Drummond, com 99, 100, 109, 110, quantos anos ele tiver: “Morreu para vocês, itabiranos ingratos, mas não no coração daqueles que o amam...” diria a reencarnação da múmia de Benedito Valadares!  Enfim, o centenário de que me lembrei outro dia e que até linkei no Facebook foi o de outro grande, Nelson Cavaquinho.  Vou aproveitar para remeter o leitor para a postagem que fiz em fevereiro de um dos seus mais pungentes sambas: http://robertobozzetti.blogspot.com/2011/02/nelson-cavaquinho-pode-sorrir.html
                Perdão, leitores!
(Nota posterior à postagem original, aí embaixo).

Celebrando os cem anos de Drummond, a serem festejados neste 31 de outubro, resolvo re-postar um dos poemas do meu Firma irreconhecível, no qual, meio que num exercício de pastiche,  me arrisquei a tentar trabalhar o octossílabo um tanto conversacional do poeta, métrica e ritmo que no meu entender mais se aproximam, em sua poesia, do andamento de sua prosa "conversada".  O resultado fica aí, os leitores avaliem. 
É certamente um poema que se quer mais afeto - e afeito - à poesia do que às estátuas, inclusive à dele.


A ESTÁTUA E OS ÓCULOS

Analfabeto não usa óculos
Careca não usa pente
Pra que que o banguela
Vai querer pasta de dente?
(quadra popular)

Os jornais falam sem alarde
que noite dessas, outra vez
defraudaram o velho gauche.
Coloquial, mas afinal
estátua, ainda que sem pose
e pedestal, não se conforma
condenado ao quieto no banco,
itamórfico, pétreo ante
a perpétua prisão do mar
às costas e os aposentados
do Posto Seis jogando damas.
Será que pode agora a mídia
fazê-lo de seu bom velhinho
finalmente Quintana avô
da Bruna? Detido que está
em fôrma, solidário às levas
de pingüins que traz o mar, ele,
velho urso vindo das geraes,
dispõe-se a retratos, no entanto
escassos se desoculado.
Ora, Drummond se emputeceu
e ele mesmo escondeu os aros
e as hastes da armação de bronze.
Será a terceira ou quarta vez
que desaparece a relíquia,
súbito patrimônio histórico.
Da primeira vez manhã cedo
alguém notou e trombeteou,
jornalistas deram alarme
muito embora os pombos à tarde
nem dessem pelo sucedido
sugerido pelo sardônico
ar titânico do poeta.
Mais uma vez a mídia em ohs!
pranteou a deseducação
endêmica e tão brasileira,
e nós, que ao longo desses anos
deveríamos ter fingido
melhor amar essa poesia
farmacéltica e farmacêutica.
Castelo que foi à penhora,
ao longo do século cético,
a estátua não declarou nada
mas de dentro dos versos duros
tão pouco dúcteis quanto doces
a forma impalpável de Carlos
solidária sorriu aos vândalos.
Claro, não disse nada, não
assim diretamente como
o insubordinado mental
incorrigível de Friburgo.
Achou que o roubo contumaz
rotinizaria as retinas
cansadas dos concidadãos
e lhe parece haver ainda
muito barulho por tão pouco.
O poder público promete
24 horas por dia
monitoração eletrônica
e se a promessa for cumprida
a estátua do gauche fará
ao vivo o tresloucado gesto.


                                                                      (in: Firma irreconhecível. Oficina Raquel, 2009)

sábado, 29 de outubro de 2011

NO BREJO BRASIL

Teiús, calangos, camaleões – lagartos treinam nossos olhos, são  mais rápidos que a circulação do ar pelos caminhos internos do corpo. Não chega a susto, não chega a sobressalto já que suas proporções estão longe de serem gigantescas, mas a repentina percepção que temos deles  – e agora nesta passagem para o definitivamente verão é a hora deles– nos suspende súbito a respiração.  Se se fizer a experiência da observação diária – fundamental para os que os estudam – é fácil no caso dos teiús, já que tendem ao mesmo percurso assim que o sol principia a canicular.
Também no limiar do definitivamente verão chega a época dos gaviões.  O que para nossa percepção vale no chão para os lagartos vale no ar para essas belas aves.  Mas com um acréscimo: aqui nos condoemos.  Acostumados à doçura e beleza dos tiés, sanhaços, juritis, ao período final de sua cria dos filhotes, nem vemos quando são arrebatados pelas rapinas, que também não vemos quando do momento do ataque.  Que são belas, a profusão de imagens à disposição de todos nas TVs, na internet etc nos informa o suficiente.  Ou se às vezes as vemos pousadas.  Mas para entender o que se passou no vazio onde havia um passarinho, preenchido agora só de penas que parecem lentas flutuar em remoinho... é preciso acreditar nas aves de rapina.

As observações aí de cima, querendo manter um ar de certa anotação lírica, são feitas na franja, no árduo exercício de equilíbrio entre este brejo onde moro, e que já foi uma roça, e hoje é uma nesga, uma estreita faixa, uma “orilla” entre o inacabado de uma cultura agrária que na verdade nunca vingou no Brasil, e a coalescência da disforme modernidade brasileira, que a tudo sitia com sua profusão de detritos e que pelo menos não nos deixa esquecer que qualquer bucolismo é convenção.  Me lembro ainda mais uma vez de Tom Jobim, lamentando a má fama dos urubus e defendendo-os: “quando urubu começa a aparecer é um alerta pra se limpar melhor a área, eles indicam isso.” Nunca vi tanto urubu por aqui como tenho visto por esses dias. 
Bate um-grande-medo-quase-certeza de que daqui há pouco não haja mais lagartos, nem as aves que alimentem as rapinas, de que os exercícios da aguda percepção do olho se tornem obsoletos e a calma contemplação do belíssimo vôo dos urubus sinalize o verão definitivo e não apenas o definitivamente verão. Me lembro de Caetano: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína.”

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

AH, UM SONETO: DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


AS TRÊS PARCAS

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos,
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.

In: Mar novo, 1958.

domingo, 23 de outubro de 2011

EVARISTO CARRIEGO

A SURRA

Deixou de castigá-la, por fim cansado
de repetir a diária bandidagem.
e que logo contará, congratulado,
lá na roda insolente da malandragem.

- Como sempre, o motivo da punição
será, talvez, o mesmo que o levara
há pouco, a impor-se com um bofetão
que lhe deixou lembranças rubras pela cara -,

Depois saiu cuspindo, rude, insultante,
os termos mais torpes de um calão imundo
que como uma asquerosa náusea incessante
vomita a cloaca desse baixo mundo.

No armazém em frente cresce o vozerio,
porque está se discutindo o sucedido,
e, provando a todos, alguém concluiu
que esse direito tem só o marido...

Enquanto que a pobre espancada tenta
ocultar bem fundo sua vergonha íntima,
ouve, lá do seu quarto, que se comenta
a façanha, rindo-se da pobre vítima.

E se cura chorando suas lesões
- rastros da dor sobre seu corpo doente... -,
pois não lhe faltam as resignações
de animal agonizando sob rebenque!

Enquanto escuta, só e desesperada,
como gritam as outras... teimosas e toscas,
gozando sua vergonha de castigada,
deboches vis de suas bocas... tão porcas!...

(foto de Rodrigo Herraz, in:olhares.uol.com.br)



EL AMASIJO

Dejó de castigarla, por fin cansado
de repetir el diario brutal ultraje,
que habrá de contar luego, felicitado,
en la rueda insolente del compadraje.

-Hoy, como ayer, la causa del amasijo
es, acaso, la misma que le obligara
hace poco, a imponerse con un barbijo
que enrojeció un recuerdo sobre la cara-.

Y se alejó escupiendo, rudo, insultante,
los vocablos más torpes del caló hediondo
que como una asquerosa náusea incesante
vomita la cloaca del bajo fondo.

En el cafetín crece la algarabía,
pues se está discutiendo lo sucedido,
y, contestando a todos, alguien porfía
que ese derecho tiene sólo el marido...

Y en tanto que la pobre golpeada intenta
ocultar su sombría vergüenza huraña,
oye, desde su cuarto, que se comenta
como siempre en risueño coro la hazaña.

Y se cura llorando los moretones
-lacras de dolor sobre su cuerpo enclenque...-
¡que para eso tiene resignaciones
de animal que agoniza bajo el rebenque!

Mientras escucha sola, desesperada,
cómo gritan las otras... rudas y tercas,
gozando de su bochorno de castigada,
¡burlas tan de sus bocas!...¡burlas tan puercas!...

In: Poesia herege.  Org. e trad. Claudio Cruz e Liliana Reales. Ed. UFSC, 2010.