ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus! – o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Ponto grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –
As tias velhas, os primos diferentes e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos..
In: Fernando Pessoa, Obra poética. Nova Aguilar, 1965.
poesia, literatura, música, futebol, comes e bebes, humor, bom humor, mau humor...
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
TORQUATO NETO TRÊS VEZES
1. De “literato cantábile”
a) A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe:
acabe logo comigo
ou se acabe.
b) A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe –
estão no fim, no início
da chave.
c) Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe:
é nela propriamente que eu me ligo,
nem disco, nem filme:
nada, amizade. Chuvas de virtude:
chaves.
d) (amar-te/a morte/morrer:
há urubus no telhado e a carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta da saída).
e) A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?
f) A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
“como dois mais dois são cinco”
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospicio
É refúgio. Fuja.
2. COGITO
Eu sou como eu sou
pronome
pessoal instranferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
Eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
Eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
Eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
3. PESSOAL INTRANSFERÍVEL
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena, etc. difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar: citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.
(In: Os últimos dias de paupéria, 1973)
Torquato Neto (1944-1972) era piauiense, ligado ao grupo tropicalista, trabalhava como jornalista e agitador cultural, sendo ainda um letrista importante, com parcerias de vulto com Caetano Veloso (“Mamãe, coragem: “Ai de mim Copacabana”...), Gilberto Gil (“Geleia Geral”, “Domingou”...), Edu Lobo (“Pra dizer adeus”...), Jards Macalé (“Let’s play that”), entre outros.
Torquato suicidou-se no dia de seu aniversário de 28 anos. Tinha diversas internações em hospitais psiquiátricos, e seus escritos dispersos (poemas, letras, cartas, anotações, diários etc) foram reunidos pela primeira vez por Waly Salomão na obra póstuma Os últimos dias de paupéria, cuja primeira edição foi lançada no ano seguinte ao de sua morte (uma 2ª. edição, revista e ampliada, saiu em 1982). Em 2004, Paulo Roberto Pires lançou Torquatália, em dois volumes (Do lado de dentro e Geleia geral) reunindo muito material inédito que se acrescentou ao que já havia antes saído.
Torquato é um poeta-letrista dos mais ricos de sua geração: como poeta, é nitidamente marcado por Drummond, a que eu acrescentaria ainda Oswald e a presença do experimentalismo concretista. Mas talvez o mais interessante do que deixou escrito é a constante preocupação de enlaçar ética e estética, fazer da linguagem um território a ser explorado de forma inseparável dos compromissos éticos com os quais severamente sua geração – e sua “turma “ – teve que se haver. Essa postura, “vitalista”, por assim dizer, faz com que possa pensar em Torquato como um nome chave (talvez junto com Waly) de transição entre a geração experimentalista das neovanguardas dos anos 60 e a geração dos poetas marginais da década seguinte.
No disco Cinema transcendental, de 1979, Caetano inclui “Cajuína”, uma canção homenagem-recordação de/a Torquato. Sérgio Brito, dos Titãs, põe melodia no texto de “Go back”, até então inédita, e a canção vira um dos grandes sucessos da banda em 1988.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
ERA 1973, ERA GILBERTO GIL
(1a. parte)
Fiquei sabendo graças à postagem do meu amigo Marcelo Méndez no seu ótimohttp://www.pastilhascoloridas.com/2011/12/albuns-classicos-gilberto-gil-ao-vivo.html
Voltando ao “noticiário”: ao baixar os CDs e ouvir o show (dada a precariedade dessas produções na época, é surpreendente a boa qualidade do som) creio ser perceptível haver uma evidente, ora mais explícita ora mais velada, tensão na relação de Gil com a platéia. Na verdade, naquele momento o próprio Gilberto Gil parecia lidar com um feixe de questões, se não dilacerantes, que pelo menos teriam o poder de ser uma espécie de motor de suas inquietações, de onde ele parecia retirar estímulos mesmo para criar. Musicalmente, Gil está, em 1973, ainda muito longe de conseguir “dissolver” sua “aura clara” no transe coletivo das grandes celebrações tribais-pop que nortearão sua pegada e sua carreira artística na década de 80. Vendo de hoje, conhecendo bem a trajetória cumprida por ele ao longo de todos esses anos, os indícios que ele trilharia decididamente esse caminho talvez possam parecer claros esporadicamente: por exemplo, quando ele considera a possibilidade dessas grandes celebrações, ao final, na apresentação de “Filhos de Ghandi” (volto ao assunto mais pra frente). Mas naquele momento tratava-se sobretudo de percorrer os caminhos do experimentalismo: Gil não era mais o representante da intervenção tropicalista de cinco anos antes; há muito deixara também de ser, e isso desde o tropicalismo, o cantor de protesto (”Roda”, “Viramundo”, “Procissão”); nem mesmo prosseguia com suas canções crispadas do imediato pós-tropicalismo e primeiros anos de exílio (“Cérebro eletrônico”, “Mini-mistério”, “Língua do P”). Naquele momento ele está exercendo com ampla liberdade a experimentação de formas, entendida enquanto prática de exercícios criativos com vistas a expandir as possibilidades da composição e da performance em cena, no sentido de seu desenvolvimento no canto e na execução instrumental. E mais: Gil mostra-se interessado, chegado havia um ano e pouco de seu exílio londrino, em estabelecer ali na USP uma espécie de clareira para reflexão com os estudantes, ainda que o preço a pagar seja por vezes certo desconforto, um quê de confronto, sem prejuízo no entanto do gesto amoroso com a plateia.
Fiquei sabendo graças à postagem do meu amigo Marcelo Méndez no seu ótimohttp://www.pastilhascoloridas.com/2011/12/albuns-classicos-gilberto-gil-ao-vivo.html
de alguns fatos que envolveram esse quase mítico show de Gilberto Gil para os estudantes da Politécnica da USP em maio de 1973. Então, antes de mais nada, cabe dizer que para o mínimo de informação que os mais novos precisem sobre as circunstâncias imediatas do show e o contexto da época, recomendo a leitura do ótimo texto do Marcelo ali mesmo no link. O repertório completo do show vai aqui:
1. ORIENTE (Gil)
2. CHICLETE COM BANANA (Gordurinha – Almira Castilho)
3. MINHA NEGA NA JANELA (Germano Mathias)
4. SENHOR DELEGADO (Germano Mathias)
5. EU QUERO UM SAMBA(Haroldo Barbosa – Janet de Almeida)
6. MEIO DE CAMPO (Gil)
7. CÁLICE (Gil – Chico Buarque)
8. O SONHO ACABOU (Gil)
9. LADEIRA DA PREGUIÇA (Gil)
10. EXPRESSO 2222 (Gil)
11. PROCISSÃO (Gil)
12. DOMINGO NO PARQUE (Gil)
13. UMEBOSHI(Gil)
14. OBJETO SIM OBJETO NÃO (Gil)
15. ELE E EU (Gil)
16. DUPLO SENTIDO (Gil)
17. CIDADE DO SALVADOR (Gil)
18. IANSÃ (Gil – Caetano Veloso)
19. SÓ QUERO UM XODÓ (Dominguinhos – Anastácia)
20. EDITH COOPER (Gil)
21. BACK IN BAHIA (Gil)
22. FILHOS DE GANDHI (Gil)
23. PRECISO APRENDER A SÓ SER (Gil)
24. CÁLICE (Gil – Chico)
Nota Pessoal 1: Posso dizer que eu venho daquelas eras, já que em 1973 eu tinha 17 anos, estava no ensino médio, e procurava acompanhar com interesse o que ia pelo Brasil e pelo mundo. Talvez eu fosse até um pouco além da média, numa época em que a circulação de informações, com a censura oficial nas redações dos jornais, era dificultada sob qualquer pretexto pela ditadura Médici. No plano mais corriqueiro do cotidiano corriam soltas as ameaças ostensivas ou veladas (por exemplo, a constante presença ou ameaça de presença de agentes disfarçados de alunos nas faculdades). Seja como for, eu era o que se dizia um “jovem bem informado”. Assim, por exemplo, mesmo morando no Rio, fiquei sabendo que tinha acontecido esse show de Gil em São Paulo (lembrem-se que falo de um tempo pré-pré-pré-internet e parem de se espantar com o conceito de “bem informado”!) e que tinha dado o que falar. Mas o grosso da coisa, o tutano, a substância e a sustança do que rolou ali eu ignorava quase que completamente. Entre as coisas que eu ignorava, e ignorava até ler o texto do Marcelo outro dia, está o fato de que o show foi acertado entre Gil e os estudantes como forma de protesto contra a morte sob tortura, pela repressão do governo militar, de Alexandre Vannuchi Leme, que estudava Geologia lá mesmo na USP. Na época ouviram-se rumores sobre essa morte, uma daquelas que se conseguia a custo muito alto individuar em termos de um nome (pelo menos isso!) a ser pranteado, e uma das razões por que se conseguiu dar alguma visibilidade a esse assassinato foi a missa oficiada pelo corajoso arcebispo de São Paulo, Dom Evaristo Arns, na Catedral da Sé para 5.000 pessoas. Teria sido esta a primeira manifestação pública de protesto contra a ditadura dos militares a ter alguma repercussão naqueles aterrorizantes tempos em que se vivia sob o tacão tacanho do AI-5. Outra coisa que eu ignorava é que o episódio serviu como ponto de partida para que o jornalista Caio Túlio Costa escrevesse Cale-se (Ed. A Girafa, 2003), ao que parece uma espécie de depoimento de quem viveu de perto os acontecimentos. Não conheço até o presente momento o livro de Caio, que estudava na USP na época.
Adendo: outra apresentação de Gil para estudantes que se tornou célebre foi no Colégio Equipe (também em SP) em 1977, em contexto até um tanto parecido – só que na volta das passeatas, quando começa a engrossar pra valer (lembro que se chegou à Lei de Anistia em 1979) a insatisfação da sociedade civil com a ditadura. Digo célebre porque a repercussão foi bastante polêmica na imprensa, num momento em que as acusações de “alienação” contra Gil (e Caetano, diga-se) atingiram um alto grau de estridência. Será que não haveria por aí uma fita desse show no Equipe?
Fim da Nota Pessoal 1.
Voltando ao “noticiário”: ao baixar os CDs e ouvir o show (dada a precariedade dessas produções na época, é surpreendente a boa qualidade do som) creio ser perceptível haver uma evidente, ora mais explícita ora mais velada, tensão na relação de Gil com a platéia. Na verdade, naquele momento o próprio Gilberto Gil parecia lidar com um feixe de questões, se não dilacerantes, que pelo menos teriam o poder de ser uma espécie de motor de suas inquietações, de onde ele parecia retirar estímulos mesmo para criar. Musicalmente, Gil está, em 1973, ainda muito longe de conseguir “dissolver” sua “aura clara” no transe coletivo das grandes celebrações tribais-pop que nortearão sua pegada e sua carreira artística na década de 80. Vendo de hoje, conhecendo bem a trajetória cumprida por ele ao longo de todos esses anos, os indícios que ele trilharia decididamente esse caminho talvez possam parecer claros esporadicamente: por exemplo, quando ele considera a possibilidade dessas grandes celebrações, ao final, na apresentação de “Filhos de Ghandi” (volto ao assunto mais pra frente). Mas naquele momento tratava-se sobretudo de percorrer os caminhos do experimentalismo: Gil não era mais o representante da intervenção tropicalista de cinco anos antes; há muito deixara também de ser, e isso desde o tropicalismo, o cantor de protesto (”Roda”, “Viramundo”, “Procissão”); nem mesmo prosseguia com suas canções crispadas do imediato pós-tropicalismo e primeiros anos de exílio (“Cérebro eletrônico”, “Mini-mistério”, “Língua do P”). Naquele momento ele está exercendo com ampla liberdade a experimentação de formas, entendida enquanto prática de exercícios criativos com vistas a expandir as possibilidades da composição e da performance em cena, no sentido de seu desenvolvimento no canto e na execução instrumental. E mais: Gil mostra-se interessado, chegado havia um ano e pouco de seu exílio londrino, em estabelecer ali na USP uma espécie de clareira para reflexão com os estudantes, ainda que o preço a pagar seja por vezes certo desconforto, um quê de confronto, sem prejuízo no entanto do gesto amoroso com a plateia.
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| Foto colhida em lucyinthesky.wordpress. |
Confira-se: na primeira fala dele, ao se perguntar (fazendo o triângulo com a plateia, claro) sobre as razões de sua presença ali, Gil parte da consideração das expectativas daquela plateia. Essas expectativas eram imensas, posso assegurar – eu não estava no show, mas fazia parte das platéias da época – e em geral se vinculavam a uma ansiedade, a uma carência no sentido de se esperar que o compositor (não apenas Gil) dissesse as verdades que o estado repressivo geral impedia que fossem ditas, ainda mais num show pensado com um sentido de protesto contra a morte de Vannuchi Leme. Os artistas acabavam por canalizar esses anseios generalizados, e na medida em que os atendessem, o que frequentemente acontecia, pois, dado o sufoco geral, era um anseio do artista também, acabavam por promover talvez mais descarga catártica do que reflexão propriamente dita. Porque os anseios eram muito mais pelo passado que esses artistas traziam do que por suas aventuras presentes. Gil parece estar bem consciente disso ao dizer em sua primeira fala: “Não era um negócio marcado, estereotipado na minha cabeça o tipo de relação que podia haver entre o fato de estar aqui cantando, e como pensar nisso e planejar isso (...) dentro daquilo que é mais atual, exercitável, dentro do meu repertório...”
Assim, o experimentalismo de Gil nesse período (e o registro do show é precioso quanto a isso também) deve ser entendido – é assim que eu o entendo – como o caminho em direção ao que sempre fora o sonho nada secreto dos tropicalistas: encontrar a fórmula (ainda que provocativa e naquele momento às voltas com a herança das vanguardas e neovanguardas) para se fazer uma canção de qualidade estética e que ao mesmo tempo tivesse apelo pop, sem deixar de dialogar com a tradição da música brasileira. Afinal, não custa lembrar que até então Gil só conhecera um grande sucesso de massa: o samba “Aquele abraço”, lançado ao deixar o Brasil rumo ao exílio londrino – e muito desse sucesso se devera ao fato de que “Aquele abraço” parecia um retorno arrependido à “verdadeira tradição do samba” (o segundo sucesso de massa de sua carreira está apresentado no show, é o xote “Só quero um xodó”, de Dominguinhos, canção que por sinal ocupava o lado B do disco onde fora lançada – mas no momento do show ela ainda não tinha “estourado”). Na trajetória do autor de “Oriente”, essas tensões todas – especialmente na década de 70 – compõem muito da substância mesmo do que ele produz. E não apenas do que produz como compositor, cancionista: do que ele apresenta em shows, do que decide gravar e do que expõe no trato cotidiano das apresentações, entrevistas e depoimentos em geral. As tensões, os impasses e a resolução dessas tensões muitas vezes vieram estampadas em seus discos, shows e declarações públicas, como se houvesse um freqüente exercício de exposição e de risco, que não poucas vezes levantou a suspeita de um calculismo oportunista na qual se deleitam seus detratores. Em nenhum outro de seus pares geracionais isso é colocado de forma tão decisiva, nem mesmo em Caetano. Do meu ponto de vista, isso define a visada ao mesmo tempo generosa e ambiciosa do artista Gilberto Gil. Assim, se as questões daquele momento pareciam cruciais, mais se ressalta a sensação assimétrica de uma tensão partindo da platéia em direção à postura distensa, muito à vontade, de Gil, tão à vontade que o contraste salta à vista: naquele momento, o distanciamento assumido por aquele baiano orientalizado pop macrobiótico que posso imaginar no palco também apinhado por receber os excedentes da platéia abarrotada, aquela figura serena (isso é audível) ali no centro daquele feixe de tensões parece assumir a imagem sobretudo da sabedoria. Quase oracular. Não apenas quanto à sua carreira, mas a todo o desenvolvimento posterior de nossa canção popular.
Falei em “Oriente”, e foi justo com ela que o show foi aberto – e para mim este é o melhor registro dessa extraordinária canção, superior mesmo à do disco Expresso 2222, e por isso resolvi postá-lo aqui: podemos ouvir que depois de apresentá-la na íntegra com a letra, Gil começa uma longa improvisação em voz e violão, como era comum que fizesse na época e é perceptível em vários outros momentos do show, incorporando, num arremedo de gemedeira de cantador nordestino, outros versos (“esse canto é o mesmo lamento mesmo sofrimento nas terras malditas do nordeste e da Arábia Saudita...”) que se colam a um canto que explora os limites do tonal, lembrando ao mesmo tempo o que parece ser a vocalização de um muezim. De repente ouvimos: “Ih, para com isso, rapaz! Vem você com esse negócio de nham-nham-nham, fica tirando essa chinfra ai de oriente, nós tamos no Brasil rapá...” e a voz de Gil ganha uma inflexão que se poderia dizer policialesca, a acusar o cantor de não cantar coisas brasileiras, de não cantar “aquela da novela”, de querer, sendo baiano, ficar tirando onda de oriental (“... então vai pra Índia, entendeu? Isso aqui é lugar de produtividaaade!”). A performance vocal, extraordinariamente inventiva, torna-se mesmo intimidatória, e a canção, uma espécie de baião permeado de cromatismos e de sonoridades mouras, é cantada mais uma vez na íntegra e chega ao seu final depois de quase 9 minutos, pontuada por um violão ágil que mantém a base de baião e explora os limites do dedilhado numa extensão raras vezes vista até então na música brasileira. Ao final de “Oriente”, conversando com a platéia, Gil assim se refere ao que se passou: “É sempre importante a gente falar com o alter-ego, né?” Poderia perfeitamente ser uma conversa com o super-ego. A voz outra que de dentro interrompe Gil está levantando as tensões remanescentes da aventura tropicalista (“por que é que não canta coisa nossa, um sambinha?”), aventura para sempre incorporada ao seu trabalho, bem como as tensões diante do viés contracultural orientalista com que Gil travou contato em Londres para daí não mais se afastar, e, o que parece mais fundo, não à toa ele escolhe para abrir sua apresentação para uma platéia de estudantes uma canção cuja letra é um chamado para o livre-arbítrio, com todas as suas responsabilidades, um chamado para o abrir-se para o mundo, ir à nascente das coisas, exercer o poder de decisão entre o “cair fora” das expectativas criadas na estufa familiar (“ir pro Japão/num cargueiro do Lloyd lavando o porão”) ou romper com elas, ou ainda, fazer uma possível conjunção de todas essas opções: “determine, rapaz, onde vai ser seu curso de pós-graduação”. Uma pós-graduação na vida, uma pós-graduação feita por ele próprio após a graduação no protesto e na tropicália, ou seja, no básico das discussões em tela no Brasil naquele momento. Agora, o salto será maior, mas levaremos ainda alguns anos para saber. Em certo sentido, melhor, em muitos sentidos, Gilberto Gil é um desses artistas que antecipam nesse momento o que o Brasil virá a ser. Leia-se a estupenda letra:
Se oriente, rapaz
pela constelação do Cruzeiro do Sul
se oriente, rapaz
pela constatação de que a aranha
vive do que tece
vê se não se esquece
pela simples razão de que tudo merece
consideração
considere, rapaz
a possibilidade de ir pro Japão
num cargueiro do LLoyd lavando o porão
pela curiosidade de ver
onde o sol se esconde
vê se compreende
pela simples razão de que tudo depende
de determinação
determine, rapaz
onde vai ser seu curso de pós-graduação
se oriente, rapaz
pela rotação da Terra em torno do Sol
sorridente, rapaz
pela continuidade do sonho de Adão.
![]() |
| Gil no exílio londrino, 1971 |
Vinte anos depois, no belo Gilberto Gil: todas as letras, organizado por Carlos Rennó para a Companhia das Letras (1992), o compositor assim se refere a essa canção:
“O fato de eu ter feito o projeto da família, a faculdade, de ter recusado uma pós-graduação na Universidade Michigan, nos Estados Unidos, para assumir o trabalho na Gessy lever e ficar em São Paulo, perto de Caetano, de Bethânia, de Gal, do projeto pessoal, a música; e de o trabalho na Gessy lever ter sido uma espécie de pós-graduação também, assim c Omo a situação do exílio tinha para mim um significado de pós-graduação. Por tudo isso, ‘Oriente’ é a música minha que eu considero mais pessoal e auto-solidária, mais solitária. Não sou eu em relação a uma mulher ou a uma cidade: sou eu em relação a mim mesmo, a um momento de vida.”
Nota Pessoal 2:
Em 1971, virando já para 72, aconteceu o celebérrimo show Gal – Fa-tal – no Teatro Thereza Raquel no Shopping da Siqueira Campos, em Copacabana. Ficou uns 15 ou 20 dias em cartaz, depois teve uma interrupção, de um mês, talvez, e voltou (acho que já em 72) para uma segunda temporada curta. Sim, meninos, eu vi. Nas duas vezes. Acontece que quando retornou, Gal apresentou se não me engano três canções enviadas de Londres por aqueles dias por Gil e Caetano, que se encontravam por lá, exilados. Uma dessas canções era “Oriente”, que Gal interpretou acompanhada ao violão por Pepeu Gomes (que substituíra Lanny Gordin, o guitarrista da primeira temnporada) . Lembro de ter saído do teatro completamente atordoado pela beleza da canção. É uma das minhas canções favoritas de Gil. Existe CD com os dois LPs que originalmente foram lançados com a gravação ao vivo do show. É uma pena mas não há o registro de “Oriente” entre as canções de Gal - Fa-tal - (o jeito é vocês acreditarem em mim).
Fim da Nota Pessoal 2.
Tão estimulantes quanto as canções e a performance são os inúmeros momentos em que Gil conversa com a plateia, o que acontece entre uma canção e outra. São extremamente reveladores dessa tensão que venho tentando captar aqui. A audição do show gravado, por mais atenta, sempre perde o que não se consegue ouvir, assim como perde às vezes a fala do que a plateia diz. Mas a gente percebe diversas vezes, pelo descabido de certas risadas, o seguinte: a plateia suspeita constantemente de que Gil está sendo irônico, as pessoas querem captar o que estaria, como se dizia na época, “nas entrelinhas”, e ninguém quer passar recibo de desinformado ou “alienado”. Isso virou uma verdadeira mania, que acabou ficando em grande medida colado a muitos artistas e canções da época (quem nunca ouviu dizer que “Abacateiro, acataremos teu ato...” de “Refazenda” seria uma mensagem cifrada anti-forças armadas? Eu inclusive já até li essa bobagem. E outras do mesmo nível). Então surgem situações inusitadas – a mim causam certo desconforto, aliás, sempre me causaram – como quando Gil após cantar “Minha nega na janela”, do repertório do sambista paulistano Germano Mathias, um samba que pinta uma desavença doméstica em tom racista e sexista (será impensável ouvi-la cantada hoje?) ao dizer tratar-se de “a cristalização mais clara e radiante do pensamento popular”, ouvem-se risos. E há outras ocasiões ainda mais claras do que esta, reveladoras de uma curiosa falta de sintonia Gil-plateia. Mas não se trata de nada que venha a comprometer o resultado geral do que se ouve, nada que prejudique a busca de interação própria de uma apresentação desse tipo (ao contrário do que muitas vezes acontecia nas apresentações tropicalistas e parece ter acontecido no show já mencionado no colégio Equipe, em 77). Sobre isso voltarei mais tarde também.
Seria surpreendente que Gil atendesse à voz intimidatória do “alter-ego” (ou do superego) no meio de “Oriente” e passasse a cantar sambas? Porque ele canta numa enfiada sete sambas (depois de anunciar que cantaria cinco) seus e alheios, “porque samba é um negócio muito da gente...” Na verdade isso só surpreenderia os que nada tivessem entendido e nada estariam entendendo do que Gil propunha e propusera até ali em sua carreira. Nunca esteve no horizonte dos tropicalistas a “negação” ou o “assassinato” do samba, como se pensou e às vezes ainda se pensa. Nem poderia, não faria sentido, se tomarmos o samba como uma forma. A discussão tropicalista e pós-tropicalista propôs, isso sim, repensar o universo ideológico ligado à compreensão do samba, o que é coisa muito diferente de querer seu desaparecimento. E o que se ouve nesse show, nessa sequência de sambas, é um “performer” muito mais desenvolto como instrumentista do que quando fora para Londres, alguém que afinal de contas houve por bem honrar o samba, evoluindo como instrumentista. Sobre esse desenvolvimento, assim Gil havia se pronunciado numa entrevista de 1972:
“Eu me lembro do dia em que resolvi mexer os dedos pra desenvolver, lá em Londres, a guitarra. No primeiro dia do ano de 1970 (...) eu comecei a fazer escala. Fiquei até as três fazendo escala, e naquele dia eu decidi que ia soltar meus dedos. Sabe? Porque já tava cheio daquela... não agüentava mais aquela coisa presa, de ficar fazendo acorde. Resolvi que ia tocar, solar alguma coisa na guitarra. E assumir um pouco aquela coisa de solista, de músico pop.”
Veja-se que é bem o processo tropicalista, informado aqui pela postura experimental. Pôr em tela as questões relativas à música brasileira (entre elas a técnica de execução) chegando por um aprendizado e uma solução não convencionados dentro da tradição. Acontece que isso já estava no Gil de início de carreira, pré-tropicalista, num depoimento de Torquato Neto na contracapa do primeiro LP: “Há muitas maneiras de se fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas.” A frase acabou ficando célebre por conta da intuição quase profética que a ilumina. Assim, se o violão de Gil já era o mais suingado de sua geração quando eles despontam (à parte o de Jorge Ben, que é outro caminho), agora ele se ultrapassara. A “libertação dos dedos” para tocar guitarra enriqueceu de vez a técnica violonística do Gil. E isso é muito visível na apresentação dos sambas.
Recomendo quando da audição do show, aos que forem baixar o CD, atenção especial sob esse aspecto a “O sonho acabou”, mas gostaria de fechar a primeira parte deste texto, com um samba composto por aqueles dias, “Ladeira da Preguiça”. A extrema agilidade na divisão, a melodia surpreendente, além das anotações – muito peculiares à poética de Gil – ao seu universo e ao seu espaço familiar, tudo faz com que este seja um dos meus preferidos em sua vasta obra. Dia desses retomo este texto, mas por ora deixo a letra e o áudio:
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
CASSIANO RICARDO
O BANQUETE
Em meu quarto, o silêncio
e a lâmpada que me divide em dois.
O meu quarto é mais pobre que o de Jó;
duas vezes eu e uma lâmpada só.
No salão do vizinho,
que não me convidou, a mesa alva;
e os convivas bebendo um vinho triste.
Será sangue de Orfeu? Lacrima-cristi?
Porém, se o vinho é triste,
há estrelas líquidas em copos altos
que cintilam, qual geométricos lírios,
erguidos no ar à hora dos delírios.
Sinto-me bem, assim,
não convidado, pois não bebo estrela
nem sangue; sou enteado da alegria.
A tristeza é o meu pão de cada dia.
Seria eu, na festa,
um insulto aos demais, algo de cômico.
Uma pedra aos que têm, no ombro, uma asa.
Um carvão quando tudo, ali, é brasa.
Sinto-me bem, porque
sou um cacto com folhas de silêncio.
Não troco por nenhum gole de vinho
este meu ser noturno e submarinho.
Que só me cheguem, pois,
o terrincar das taças, o confuso
gorjeio das bacantes. Só me agrada
beber – rosa num copo – a madrugada.
Ah, se soubessem, todos,
o bem que me fizeram, excluindo-me
do banquete – o mais lógico dos olvidos –
ergueriam um brinde aos excluídos.
In: Cassiano Ricardo. Antologia poética, 1964.
sábado, 28 de janeiro de 2012
DOIS POEMAS DE A TAL CHAMA O TAL FOGO
A VOLUPTUOSA
me des
abotoava de alto a
baixo e em cada
beijo entre-
me dizia: só
curiosidade
(mais o desejo que
(ela não dizia (entre
/meteu a mão as beijo)sim/
retilínea e in
greme infrene
foi até o fim
entre
colando língua olho
glande
-cortando
sedosaesguiame
des
(AINDA) DA CRUELDADE
ela disse que me amava uma
duas e outra vez ainda
jurei segui-la a vida toda esquina
a esquina
o trote bêbado do cara
que eu já tinha visto em seu encalço
noturno
ecoou tímpano e (de soslaio)
retina – o bastante
o seu adeus meu
tchau nevermore c’est la vie
que plagia e assina
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
70 ANOS EM 2012 É O MÁXIMO
não, eu não vi ainda o filme de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim
certamente o verei. se eu tivesse 20 e poucos anos já o teria visto
porque não me desculparia que ele estivesse em cartaz há alguns dias
e eu ignorante dele.
(é bom nos desfazermos das urgências que não o são.
mas me recuso a falar como um velho).
25 de janeiro: aniversário de Tom Jobim, que era de 1927
é tanta informação e informação acumulada , além de falsa informação, de des-
-informação, que me sinto obrigado a anotar uma que é fundamental
pro que eu pretendo rabiscar aqui
– reeditando a tentativa canhestra de imitar a prosa de Augusto de Campos –:
não sei se todos sabem
sei que muitos dos que me lêem são muito novos
mas saibam com urgência que
Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto são a bossa nova.
informação fundamental
19 de janeiro: Nara Leão teria feito 70 anos
a mais charmosa e inteligente cantora brasileira, musa da bossa nova
que se lançou gravando de cara os caras que nada tinham a ver com a bossa nova
– sambas da tradição carioca pré-bossanovística
e que depois veio abrindo as portas para a geração dos que estão aí comemorando ou prestes a comemorar 70 anos:
a turma do imediato pós-bossa nova
é motivo de orgulho pra qualquer um ser um compositor lançado por Nara Leão
ou mesmo se não for o caso, fazer 70 anos este ano, assim como
Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Jorge Ben
porque na esteira da bossa nova
porque na esteira do que havia antes da bossa nova
porque na esteira do que havia ao mesmo tempo que a bossa nova
eles ensinaram a cantar quem quis aprender a cantar
o que de melhor se pode cantar para compor e compôs o nosso habitat
– dados os sons que freqüentamos desde que nascemos
e quando eu digo sons eu falo das madeiras
cordas couros metais teclas peles ossos carnes
marfins vogais consoantes hiatos ditongos tritongos
sílabas barbarismos solecismos acertos
todos os muitos acertos incluídos aí os erros
eles nos ensinaram o que é ecologicamente correto
porque com eles não tem conversa mole

claro que é preciso juntar aos setentões
o caçula da turma, Chico, de 1944 – e isso pra ficar só nos 6 grandes
firmados pra valer na década de 70
(quem não acredita ou não conhece que vá conferir – hoje é fácil – os discos
que esses 6 aí fizeram nos anos 70)
mas pra ficar só no mainstream é preciso ainda juntar Edu Lobo, que é de 43
e pra ser verdadeiramente abrangente e pleno de gozo
eu junto a todos a respeitável turma de 1937:
Baden, Menescal, Elomar e Tom Zé – e só a rica diversidade da turma de 37
já fala da força desses todos que andam aí na casa dos 70
e junto ainda os um pouquinho
mais velhos Sérgio Ricardo e Vandré e os um pouquinho
menos velhos
Carlos Lyra
Francis Hime
Martinho da Vila
Jorge Mautner
Roberto & Erasmo (e ainda Tim Maia, que em setembro próximo também se tornaria setentão)
e outros que em breve serão setentões também:
Dori
Marcos Valle
Macalé
– Sidney Miller, que não será, por ter ido cedo demais (ele também lançado por Nara) –
acrescento o canto de Nana, Elis, Gal e Bethânia
mais os poetas Torquato, Capinam e Waly Salomão
pronto: desenhei o que tanto para mim significa
ter aprendido para sempre com o dístico de Paulinho da Viola
“AS COISAS ESTÃO NO MUNDO/
SÓ QUE EU PRECISO APRENDER”
(para mim a frase síntese, projeto geracional)
a frase síntese do projeto geracional:
ela é o fecho da canção que recusa
todo aprendizado cediço, toda visão preconcebida do mundo
- e isso dentro do samba, quer dizer, dentro
de um ambiente propício à proliferação de estereótipos
mas Paulinho porta ainda
a bandeira: ecolongínquo da primeira bossa nova:
CHEGA DE SAUDADE
CHEGA DE SAUDADE
e este é o ponto dos que até hoje são os melhores dentre eles
(sim, porque muitos se perderam no caminho – cada ouvinte sabe de si
tem aí entre eles alguns que eu não suporto ouvir há muito tempo)
mas este é o ponto, o ponto é este:
aprender as coisas do mundo para não se render à saudade
à auto-compaixão, à auto-comiseração.
quando aflora a saudade nas suas canções
quando aflora a saudade nas suas canções
– repito: falo dos melhores dentre eles –
é de um ponto distanciado, é um olhar que fala na verdade de uma
meta-saudade
é comentário
não é queixume.
Waly sempre atento
sabia bem o que dizer quando dizia:
Saudade é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
(...)
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.
essas canções elas mesmas brilham seu metal
inoxidável imunes à ferrugem ao enxurro
de tudo o que as cerca – agora também dos velhos fãs
que pensam ser legítimo sentir saudade
– “que estamos todos velhos”
e eu queria ter 70 anos como eles para não ser nem um pouco velho
ou sê-lo apenas fisicamente
e não repetir o triste espetáculo que era comum ver
nos anos 60, 70, de quando se trazia à cena um dos grandes
dos anos 30 ou 40 e a regra era chorar
lamentar o tempo que se foi
o mundo que tanto mudara
a juventude que se extraviara
nada parecido com isso faz a dignidade desses grandes
nem mesmo a saudade inerte e inerme da garotada
de novo permeável à choramingação de sempre
que não parece à altura do metal de suas melhores canções
(Waly também: “Súbito/a reprimida resplandece/Re-nova cobra rompe o ovo/Da casca velha”)
o que eu faço com os que acabaram não sendo tão grandes como pareciam?
eu ouço o que eles fizeram quando eram grandes
um ouvir sem nenhuma saudade
um ouvir que procura estar à altura dos everests kilimanjaros aconcáguas atingidos
para não lamentar o hoje talvez amiudado
mesquinho
acanhado
que é melhor mesmo apenas silenciar
de volta, pra fechar: Nara, a musa da bossa nova
só veio a gravar bossa nova mesmo pra valer em 1971
- álbum duplo: Dez anos depois, estúdio, ambiência, design parisiense
(foi aí que pela primeira vez eu me detive e fui descobrir a bossa nova pra valer)
Nara exemplifica o gesto dos setentões de, como queria Eliot,
inventar com suas intervenções não apenas o passado
como seus antepassados:
assim
a bossa nova (que é Tom, João e Vinícius, lembram?) é também uma invenção posterior de Nara
Paulinho da Viola inventou Cartola, Wilson, Nelson, a Velha Guarda da Portela
e tantos outros mais
Caetano também inventou João e o anti-João, além de Carmen, Orlando, Roberto
Gil tirou da gruta da Mangabeira Jackson e Gonzagão, Gordurinha e Batatinha
Chico inventou Tom – com auxílio de Edu – e mais Noel e Ismael e
assim sucessivamente todos inventaram
- invenção e intervenção
(além de Elomar, inventado por vários deles e que os inventou de volta)
é certo que depois dos setentões vieram os que já estão quase lá
mas entre uns e outros há uma distância que eu não sei precisar
(já que sou eu que estou inventando aqui o meu recorte)
mas que já são outra história: Gonzaguinha, Ivan, Melodia, Djavan, João Bosco, Guinga, Aldir, Sérgio Sampaio, Moraes Moreira, Raul, Lô, Fagner, Alceu...
mas nem de longe quero cobrir com o verniz do ideal
ou com as lantejoulas da louvaminhice a existência tão real que quase inacreditável
dessa turma
que por si só rompeu com todo esse desejo gagá (que acomete todo mundo, mesmo gente muito mais nova, mas não os jovens setentões), no primeiro dia de 1995, quando
reunidos em torno da celebração da arte e da memória de Jobim na praia de Copacabana
( a visão que remetesse à meta da perfeição só poderia mesmo ser desejada nunca atingida)
aquele ideal se desfez
e parece que um desentendimento doloroso, vindo do fundo histórico coletivo e individual do esplendor da luz e do horror do breu entre eles se instalou e talvez um outro país tenha que vir a ser inventado para que se conserte
– os desconfortáveis ante idealizações e saudades diremos:
Que ótimo!
não tenho 70 anos: não celebro nada em mim
e não tenho 20 anos nem tenho um cinema perto de mim. mas em quaisquer circunstâncias
se os tivesse ia correndo, tarefa urgente, ver o filme de Nelson sobre Tom Jobim e tentar aprender para sempre com mais vagar os detalhes dessa história que apenas se começa a contar.
isso se for interessante se interessar pelo mundo.
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