domingo, 13 de maio de 2012

DOIS POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA







 A MULHER DE LOT

Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice.  O afastamento.
A futilidade da errância.  Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus – simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento bateu,
despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não.  Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivesem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.



PRIMEIRA FOTO DE HITLER

E quem é essa gracinha de tiptop?
É Adolfinho, filho do casal Hitler!
Será que vai se tornar um doutor em direito?
Ou um tenor da ópera de Viena?
De quem é essa mãozinha, essa orelhinha, esse olhinho, esse narizinho?
De quem é essa barriguinha cheia de leite, ainda não se sabe:
de um tipógrafo, padre, médico, mercador?
Quais caminhos percorrerão estas pernocas, quais?
Irão para o jardinzinho, a escola, o escritório, o casório
com a filha do prefeito?

Anjinho, pimpolho, docinho de coco, raiozinho de sol,
quando chegou ao mundo um ano atrás,
não faltaram sinais na terra nem no céu:
gerânios na janela, um sol primaveril,
a música de um realejo no portão,
votos de bom augúrio envoltos em papel crepom rosa,
pouco antes do parto, o sonho profético da mãe:
sonhar com uma pomba - sinal de boas-novas,
se for pega - vem uma visita muito esperada.
Toc, toc, quem é, é o coração do Adolfinho que bate.
Fralda, babador, chupeta, chocalho,
o menino, com a graça de Deus e bate na madeira, é sadio,
parecido com os pais, com um gatinho no cesto,
com os bebês de todos os outros álbuns de família.
Não, não vai chorar agora,
o fotógrafo atrás do pano preto vai fazer um clique.

Ateliê Klinger, Grabenstrasse Braunau,
e Braunau é uma cidade pequena mas respeitável,
firmas sólidas, vizinhos honestos,
cheiro de massa de pão e de sabão cinzento.
Não se ouve o ladrar dos cães nem os passos do destino.
Um professor de história afrouxa o colarinho
e boceja sobre os cadernos.

            Tradução de Regina Przybycien

Wislawa Szymborska.  Poemas.  Companhia das Letras, 2011.

           
         Atordoado. Acho que a palavra define bem como fiquei ao travar contato, não faz nem um ano, com a poesia dessa polonesa, ganhadora do Nobel em 1996, morta no começo deste 2012,  aos 90 anos.  Me deparei  numa livraria com os poemas de Szymborska traduzidos por Regina Przybycien,  e desde então  não me canso de lê-los e de neles descobrir sempre algo que me atordoa.
Tinha tomado aqui a firme decisão de escolher apenas um poema como representativo do que eu gostaria que os leitores deste blog conhecessem ao travar contato com  Szymborska.  Não consegui.  Foi difícil deixar de publicar quatro de uma vez.  Acabei me fixando em apenas dois:   “A mulher de Lot” toma a si, com sucesso, a jubilosa tarefa de tirar de cima das mulheres o epíteto bíblico nada lisonjeiro da desobediente curiosidade feminina a ser punida pela crueldade divina. As razões por que ela teria olhado para trás não incluem a incontinente bisbilhotice gratuita, nem demonstram necessariamente que seu espírito ainda estaria ligado em pecado a Sodoma (as duas interpretações mais freqüentes, quero crer, do mito bíblico pelos cristãos), mas são desfiadas com uma naturalidade impressionante de hipóteses – todas – plausíveis e algumas terríveis: o verso 11, neste particular me lembra, por sua desolação, o terrível escrito do pórtico do Inferno em Dante.  Já “Primeira foto de Hitler” reúne os elementos magistrais de sua poesia, com um inequívoco, porque explícito, acréscimo de humor cruel da mais alta potência.
Creio que o atordoante nessa poesia  vem muito de sua dicção coloquial (lógico que confio aqui às cegas na competência da tradução – que já li ser de fato muito boa) e de portar um não-sei-quê do olhar de uma pessoa comum, que só não o fosse por se obrigar a exercitar um olhar insensato sobre o mundo.  Não sei se me faço entender.  Acho que não. Não importa.  Importa ler Wislawa Szymborska.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

ERNST JANDL


BRINDE

e se o beijar
ela irá então beijar
também uísque

e se não o beijar
ele irá então beber
mesmo sem beijo.

TOAST

und wenn sie ihn küsst
dann wird sie eben
auch whiskey küssen

und wenn sie ihn nicht küsst
dann wird er eben
ohne kuss trinken.

            Tradução de José Paulo Paes

 
In: José Paulo Paes. Gaveta de tradutor: versões de poesia. 1996.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

LUÍS ARANHA

Avenida São João, centro de São Paulo, nos anos 20







COCKTAIL

HOTEL                    RESTAURANT                   BAR
A cadeira guincha
Garçon
No espelho “Experimente nosso COCKTAIL”
Champagne cocktail
Gin cocktail
Whisky cocktail
Álcool
Absinto
Açúcar
Aromáticos
Sacode num tubo de metal
É frio estimulante e forte
Cocktail
Cocteau
Cendrars
Rimbaud cabaretier
Espontaneidade
Simultaneísmo
O só plano intelectual traz confusão
Associação
Rapidez
Alegria
Poema
Arte moderna
COCKTAIL PARA UM!
Não; para todos
Vinde encher o copo do coração com o meu cocktail sentimental
Sentimental?!

In: Luís Aranha.  Cocktails.  Brasiliense, 1984.

            Devemos sobretudo ao poeta Nelson Ascher o fato de a obra poética  de Luís Aranha (1901-1987) não ter caído em total esquecimento.  O poeta ainda era vivo quando Ascher tomou a si a iniciativa de editar, pela Brasiliense, em 1984, Cocktails, coletânea de poemas escritos nos anos 20, que haviam sido entregues por Aranha a Mário de Andrade nos anos 20,  e que desde então, à exceção de quatro poemas publicados na revista modernista Klaxon, permaneciam inéditos.
            Aranha, muito jovem,  era um poeta inquieto, ativo participante das discussões e iniciativas modernistas em torno da Semana de 22.  Depois foi se afastando da atividade literária, mas deixou em Cocktails, no meu entendimento, o melhor da apreensão por parte dos nossos modernistas de primeira hora da poética futurista-cubista (Marinetti, Appolinire, Cendrars) que agitava a Europa desde os anos de 1910.
            Embora os três longos poemas de Cocktails , “Drogaria de éter e de sombra”, “Poema Pitágoras” e “Poema giratório”, sejam de fato, Ascher o diz com acerto, o melhor de Luís Aranha, pela proximidade com o espírito estrepitosamente urbano dos longos poemas futuristas de, por exemplo,  Appolinaire, Álvaro de Campos  e Cendrars, nos quais avultam as questões da velocidade e do simultaneísmo mais do que apenas como temas mas com o valor de princípio estrutural, como diz Marjorie Perloff (em O momento futurista, editado entre nós pela EdUsp em 1993), espraiados por textos de larga extensão nos quais a “imaginação sem fios” solta-se,  como então preconizavam os postulados vanguardistas,   num poema como “Cocktail” tais questões também comparecem – mesmo numa clave metalingüística, ainda que ingênua e sem que venha a estender-se por muitos versos.  Observe o leitor que a presentificação dos elementos da vida cotidiana,  da vida externa à arte,  se faz no poema à semelhança de um  procedimento de colagem de materiais que, na pintura cubista, eram literalmente colados à tela:  assim como um guardanapo era colado numa tela de Braque ou do Picasso cubista, no poema temos o letreiro de entrada “HOTEL RESTAURANT BAR”  indicados como portada para o “ambiente” em que se desenvolve o misto de auto-reflexão paródica e etílica do poeta – antecipando, se é lícito dizer, aquele cognac que comoverá o Drummond no “Poema de sete faces” alguns anos depois. Exemplo melhor ainda seria a tabuleta de drogaria que abre o “Drogaria de éter e de sombra”, mas o poema, por sua extensão, é impraticável de ser aqui postado.
            Espero que o leitor  que porventura ainda não tenha conhecimento da pequena mas significativa obra poética de Luís Aranha procure ler este poeta, sua obra atua como um poderoso reforço à compreensão do primeiro Modernismo entre nós e de seus laços com a poética vanguardista de então.

Os modernistas da fase heróica: sentado, na poltrona ao centro, Luís Aranha, logo atrás de Oswald (no chão)



 

terça-feira, 1 de maio de 2012

WILLIAM CARLOS WILLIAMS


A CHAMINÉ AMARELA

Há uma pluma
de fumaça cor
de carne pálida no azul

do céu.  Os aros
prateados que circundam
a longos intervalos

os tijolos amarelos da
chaminé cintilam
nesta luz

ambarina – não
do sol não do
pálido sol mas

de seu irmão
nato o
outono

 
THE YELLOW CHIMNEY

There is a plume
of fleshpale
smoke upon the blue

sky.  The silver
rings that
strap the yellow

brick stack at
wide intervals shine
in this amber

light – not
of the sun not of
the pale sun but

his born brother
the
declining season

            Tradução de José Paulo Paes

In: William Carlos Williams: poemas.  Companhia das Letras, 1987.