segunda-feira, 19 de novembro de 2012

MANOEL DE BARROS

De MATÉRIA DE POESIA


Muita coisa se poderia fazer em favor da poesia:

a – Esfregar pedras na paisagem.

b – Perder a inteligência das coisas para vê-las.
            (Colhida em Rimbaud)

c – Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.

d – Mesmo sem fome, comer as botas.  O resto em Carlitos.

e – Perguntar distraído: – O que há de você na água?

f – Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas de Mário-pega-sapo era nua.  Por isso as crianças e as putas do jardim o entendiam.

g – Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, teréns de rua e de música, cisco de olhos, moscas de pensão...

h – Aprender a capinar com enxada cega.

i – Nos dias de lazer, compor um muro podre para os caramujos.

j – Deixar os substantivos passarem anos no esterco, deitados de barriga, até que eles possam carrear para o poema um gosto de chão – como cabelos desfeitos no chão – ou como o bule de Braque – áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro – um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de folhas.

l – Jogar pedrinhas nim moscas...

Manoel de Barros. Gramática expositiva do chão (Poesia quase toda). Civilização Brasileira, 1990.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

ZUCA SARDAN



LUNDU DO GATO PRETO

A Dama de Touca
s'agarrava ao Gato Preto
que vivia fumando charuto
debruçado na janela.
Ou era a velha quem
fumava charuto e se
debruçava ao peitoril
e o gato é quem usava
uma touca de anil?
Ou será que será
diria lá Chico Buarque
ou, quiçás, Manitas de Plata...
que el gato era de porcelana
y la vieja una hortelana…


Zuca Sardan (Carlos Felipe Saldanha).  Osso do coração.   Ed. Unicamp, 1993.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

SEBASTIÃO UCHOA LEITE



Anotação 1:
O pássaro crítico


Mozart tinha um estorninho
Que imitava a música dele
Não só: uma paródia
Ou desafino
De ave zombeteira
Certa vez achou-se uma peça
Do próprio Mozart
E era desarmônico
Espirro musical
Qual se o compositor
Zombasse de si mesmo
Era o próprio músico agora
Seu escárnio estorninho

                                               1992

Sebastião Uchoa Leite.  A ficção vida.  Ed. 34, 1993.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

UMA CANÇÃO INÉDITA COM FRED MARTINS

http://www.mallarmargens.com/2012/11/mallarmusicbox-1-fred-martins.html

   A ótima revista eletrônica Mallarmargem estreou uma nova coluna, a Mallarmusicbox, com uma matéria com o meu amigo e parceiro Fred Martins, músico e compositor de altíssimo gabarito, que reside atualmente na Galícia.  No link que postei acima, a entrevista com Fred, além de dois vídeos nos quais ele interpreta duas canções: uma em parceria com o poeta Manoel Gomes, a outra uma parceria comigo, "Terras do Sem-Fim".  Um dos editores da revista, o poeta Nuno Rau me pediu ainda um pequeno texto falando dessa parceria, o qual ele gentilmente anexou à matéria.  É com grande alegria que remeto vocês para lá.  

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

BUENO DE RIVERA



A MÃO RECEBE O SALÁRIO

A face de lua negra
sobre as moedas vermelhas,
o pagador nos espera.

Somos apenas um número
e a dúvida. Vamos em fila
como os mendigos num sábado.

Lá fora, o pássaro voando,
a rosa crescendo, um cão
no alpendre, um peixe no azul.

Nosso nome declamado.
Os algarismos se dobram
como acrobatas na cena.

A mão recebe o salário,
confere as cédulas: não chega!
Não chega.  O mundo escurece...

Vejo piscinas no céu,
autos voando, navios
partindo para o nunca mais.

Escuto as risadas amplas
no prédio ao lado.  Adivinho
a alegria dos meus donos.

Observo de novo as cédulas:
retratos de heróis, cidades,
as guanabaras em flor...

Cédulas inúteis, não cobrem
a dor dos dias perdidos.
Conto de novo, não chega...

Volto ao lar como um vencido.
O vento do sul nos cabelos,
o soluço dos pés na pedra.

Vergonha das mãos vazias.
Penso no filho, a merenda
escolar entre os cadernos.

Vejo a mulher, Mao no rosto,
os olhos na esquina, à espera
de um vulto lento na tarde.

E teu brinquedo, meu filho?
Mulher doente, e o remédio?
Quero gritar, mas não devo.

Brusco, atravesso a sala
sento à mesa, peço o prato,
mastigo a dor em silêncio.

Mãe e filho chegam tímidos,
sentam-se ao lado, me olham.

Calados, compreenderão.


                        In: Antologia da nova poesia brasileira, 2 ed., Orfeu, 1970.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

MARGUERITE YOUNG



A MORTE PELA RARIDADE

 

Eu temo, temo a raridade

do falcão da noite, graça, goela de rubi: temo extintas

(por inimigo não sabido)

a íbis rosada bico-de-espátula e alva garça real: mortos

 

por uma guerra oculta de extermínio

contra todos, contra um, o galo-tímpano, o flamingo

e o selvagem cisne-clarim, por mais que se escondam, são

onde encontrados, alvo de caça e chacina,

 

pois a raridade precede a extinção, como a doença

a morte, há cansaço na

perfeição da concha e a ave perfeita

não vai nascer nunca,

 

e eu temo a raridade que oprime os encantados

pássaros com nomes de poemas

e a raridade deste sangue tão íntimo

 

- duro gelo em veio de ouro.

 

                                               Tradução de Décio Pignatari


In: Décio Pignatari. Poesia pois é poesia.  Ateliê/Unicamp. 2004