quinta-feira, 27 de novembro de 2014

MURILO MENDES

Óleo de De Chirico


 

INSÔNIA

 
Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez que eu pudesse dormir.

Pressinto uma bomba atômica
Adormecida no bosque.

Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?

 
          

                        Murilo Mendes. Poesia completa e prosa.  Rio: Nova Aguilar, 1994.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA seis vezes

Ilustração de Talarico


1.

certas coisas é melhor olhar de longe
ver pela janela distante
ver pelo semáforo com pressa
ver pela fresta fria da noite
ver pelo meio no  lusco-fusco
ver sem ver, fazer que ver
 

2.

ver pela televisão o resto do mundo
ver nas vitrines o resto das coisas
ver nos cabides das lojas
o resto das roupas
ver o corpo frio do filho

 
3.

viu o fiapo da teia
e na ponta o inseto
lutando para viver
o corpo emaranhado
quanto mais preso
mais se debatia

pensou um salvar o bicho
lidou com o fio pegajoso
e o animal caiu
mas não voou
já estava dentro da morte
e não sabia

 
4.

saiu cedo para a missa
todo mundo dormia, só viu cães
farejando esquinas de casas
pardais em bandos e outros pássaros
festejando juntos aquele dia de Natal

 
5.

esperou que a dor parasse
quieto num canto
ninando o membro roto
esperou que o vissem gemer na noite
que o ouvissem morrer na noite
 

 
6.

como via um gato
miar de fome
se definhar
virar pelo e osso
Deus devia de vê-lo


Vera Lúcia de Oliveira.  O músculo amargo do mundo.  SP: Escrituras, 2014.

 
 
 


domingo, 16 de novembro de 2014

AH, UM SONETO... DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS

Iberê Camargo (foto de Fabio Del-Re)


Muitas vezes, ao poente, a minh’alma de enfermo
É triste: o enterro passa, os vultos vão, de tochas
Que tremeluzem como estrelas rubras, do ermo
De um céu que se prolonga entre montes e rochas.

Segues naquele esquife, um anjo vem dizer-mo.
Uma essa erguida no alto, enfeitada de frouxas
Cortinas de galões amarelos, é o termo
Do caminho talhado entre açucenas roxas.

Triste sonho de quem vive a sonhar na vida
Com a eterna e doce paz de uma cova esquecida,
E traz no peito morto uma alma quase morta...

Suplício imemorial de quem estando vivo,
A receber no olhar todo o céu compassivo,
Vê passar o seu próprio enterro pela porta!

 

Alphonsus de Guimaraens.  Melhores poemas. 4 ed. SP: Global, 2001.

sábado, 8 de novembro de 2014

JANICE CAIAFA


CHEGADA DO SACI

 

Chega o guri
em plena ventania,
varrendo a cena,

vindo vindo
longe  no horizonte
abrindo caminho,

quem sabe onde está
o cachimbo do Saci
dentro do redemoinho?
 
é  procurar a centelha
brilhando na confusão,

e a carapuça vermelha?
no olho arregalado

do furacão, do tornado
vem o garoto pirado

surfando em todos os ventos.
 
Se fecha o Saci na garrafa
 
ele se safa em dois tempos.









 
Janice Caiafa.  Estúdio.  RJ: 7Letras, 2009.



 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

D’ O LIVRO DAS HORAS DE RILKE




Deus, que será de ti, quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu.

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus,
que com quentes palavras te acolhia.
Perdem teus pés exaustos as macias
sandálias: também elas eram eu.

De ti desprende-se o teu longo manto.
O teu olhar, que a minha face, quente
coxim acolhe, virá entrementes,
virá procurar-me longamente
e deitar-se depois, ao sol poente,
entre pedras estranhas, nalgum canto.

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


                                                       Tradução de José Paulo Paes







Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe,
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel lässt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.




 in: Rainer Maria Rilke [poemas].  Tradução e introd. José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2009.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

HAROLDO DE CAMPOS




O ANJO ESQUERDO DA HISTÓRIA

 

os sem-terra afinal
estão assentados na
pleniposse da terra:
de sem-terra passaram a
com-terra:     ei-los
enterrados
desterrados de seu sopro
de vida
aterrados
terrorizados
terra que à terra
torna
pleniposseiros terra-
tenentes de uma
vala (bala) comum:
pelo avesso afinal
entranhados no
lato ventre do
latifúndio
que de im-
produtivo re-
velou-se assim u-
bérrimo:    gerando pingue
messe de
sangue vermelhoso
lavradores sem
lavra ei-
los: afinal com-
vertidos em larvas
em mortuá-
rios despojos:
ataúdes lavrados
na escassa madeira
(matéria)
de si mesmos: a bala assassina
atocaiou-os
mortiassentados
sitibundos
decúbito-abatidos pre-
destinatários de uma
agra (magra)
re (dis)(forme)forma
   fome  − a-
grária:  ei-
los gregária
comunidade de meeiros
do nada:


enver-
gonhada a-
goniada
avexada
− envergoncorroída de
imo-abrasivo re-
morso −
a pátria
(como ufanar-se da?)
apátrida
pranteia os seus des-
possuídos párias −
pátria parricida:
 

 
que talvez só afinal a
espada flamejante
do anjo torto da his-
tória cha-
mejando a contravento e
afogueando os
agrossicários sócios desse
fúnebre sodalício onde a
morte-marechala comanda uma
torva milícia de janízaros-já-
gunços:
somente o anjo esquerdo
da história escovada a
contrapelo com sua
multigirante espada pó-
derá  (quem dera!)  um dia
convocar do ror
nebuloso dos dias vin-
douros o dia
afinal  sobreveniente  do
j u s t o
a j u s t e  de
contas


Haroldo de Campos. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. Perspectiva, 2004.

sábado, 25 de outubro de 2014

AH, UM SONETO... DE BRECHT


SOBRE OS POEMAS DE DANTE A BEATRIZ

 
Ainda hoje,na cripta onde jaz
Aquela que ele não pôde fazer sua
Por mais que a seguisse pela rua
Uma emoção forte seu nome nos traz.

Pois ele cuidou de nos mantê-la na memória
Ao dedicar-lhe verso tão sublime
E não pode haver quem não se anime
A acreditar inteira em sua história.

Ah, que mau costume ele inaugurou então
Ao cobrir de louvor arrebatado
O que havia apenas visto e não provado!

Desde que versejou a uma simples visão
Tudo de aparência bela e casta, a qualquer ensejo
Cruzando uma praça, tornou-se objeto de desejo.

 

                                   Tradução de Paulo César Souza

In: Brecht – poemas 1913-1956.  SP: Brasiliense.