domingo, 7 de dezembro de 2014

MANOEL DE BARROS



O MORTO

 I

A chuva lavou
As pessoas do morto
E lavou o morto
Com a sua fisionomia
De torto
E com seus pés de morto
Que arrastava um rio seco
E suas mãos de morto
Onde se dependurou
Insistente, um gesto oco.
À noite enterrou-se
O homem
Na raiz de um muro
Com sua roupa no corpo.
E a chuva regou no horto
Desse vitorioso
Homem morto
Enormes violetas
E uns caramujos férteis...
 
 
II

Veja esse morto como esgotou um por um seus segredos.
Sentando como um doutor
Veja que respeito nutre pelo silêncio...
Que morto!
Um piano dormindo no fundo de um poço
Não é mais cômodo que um homem morto num porto.
Veja que comodidade:
Ele não usará seus dedos nunca mais para pegar em moças...
Que morto!
 
 
Manoel de Barros. Gramática expositiva do chão (poesia quase toda). Civilização Brasileira, 1990.

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O COMENSAL


 
Alguns poetas precisam de atenção.
Só isso explica vê-los afoitos
a quererem o aval
a leve vitualha
à guisa de consoada
 
ou apenas a dedicatória
num apenas versinho do confrade mais célebre
às vezes apenas um aceno.
 
Os poetas deviam conhecer mesmo
procurar
o silêncio
conviver com o silêncio
viver o silêncio
 
afinal há alguns séculos a leitura se faz para olhos mudos
bocca chiusa
 
isso sem falar no silêncio anterior
ao poema: este mudo tagarela
zombeteiro
das pregas da eternidade.
 
O som não se propaga no vácuo.
Lembrar disso
 
- nem mesmo se formos lidos.

 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

MURILO MENDES

Óleo de De Chirico


 

INSÔNIA

 
Ao longe um cão branquíssimo latindo
Divide a noite em duas.
Se aquele cão fosse negro
Talvez que eu pudesse dormir.

Pressinto uma bomba atômica
Adormecida no bosque.

Vivo ou morto estarei, inculpe ou réu?
Visito-me ao espelho: sem algemas.
Munido de passaporte para este mundo, ou não?

 
          

                        Murilo Mendes. Poesia completa e prosa.  Rio: Nova Aguilar, 1994.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

VERA LÚCIA DE OLIVEIRA seis vezes

Ilustração de Talarico


1.

certas coisas é melhor olhar de longe
ver pela janela distante
ver pelo semáforo com pressa
ver pela fresta fria da noite
ver pelo meio no  lusco-fusco
ver sem ver, fazer que ver
 

2.

ver pela televisão o resto do mundo
ver nas vitrines o resto das coisas
ver nos cabides das lojas
o resto das roupas
ver o corpo frio do filho

 
3.

viu o fiapo da teia
e na ponta o inseto
lutando para viver
o corpo emaranhado
quanto mais preso
mais se debatia

pensou um salvar o bicho
lidou com o fio pegajoso
e o animal caiu
mas não voou
já estava dentro da morte
e não sabia

 
4.

saiu cedo para a missa
todo mundo dormia, só viu cães
farejando esquinas de casas
pardais em bandos e outros pássaros
festejando juntos aquele dia de Natal

 
5.

esperou que a dor parasse
quieto num canto
ninando o membro roto
esperou que o vissem gemer na noite
que o ouvissem morrer na noite
 

 
6.

como via um gato
miar de fome
se definhar
virar pelo e osso
Deus devia de vê-lo


Vera Lúcia de Oliveira.  O músculo amargo do mundo.  SP: Escrituras, 2014.

 
 
 


domingo, 16 de novembro de 2014

AH, UM SONETO... DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS

Iberê Camargo (foto de Fabio Del-Re)


Muitas vezes, ao poente, a minh’alma de enfermo
É triste: o enterro passa, os vultos vão, de tochas
Que tremeluzem como estrelas rubras, do ermo
De um céu que se prolonga entre montes e rochas.

Segues naquele esquife, um anjo vem dizer-mo.
Uma essa erguida no alto, enfeitada de frouxas
Cortinas de galões amarelos, é o termo
Do caminho talhado entre açucenas roxas.

Triste sonho de quem vive a sonhar na vida
Com a eterna e doce paz de uma cova esquecida,
E traz no peito morto uma alma quase morta...

Suplício imemorial de quem estando vivo,
A receber no olhar todo o céu compassivo,
Vê passar o seu próprio enterro pela porta!

 

Alphonsus de Guimaraens.  Melhores poemas. 4 ed. SP: Global, 2001.

sábado, 8 de novembro de 2014

JANICE CAIAFA


CHEGADA DO SACI

 

Chega o guri
em plena ventania,
varrendo a cena,

vindo vindo
longe  no horizonte
abrindo caminho,

quem sabe onde está
o cachimbo do Saci
dentro do redemoinho?
 
é  procurar a centelha
brilhando na confusão,

e a carapuça vermelha?
no olho arregalado

do furacão, do tornado
vem o garoto pirado

surfando em todos os ventos.
 
Se fecha o Saci na garrafa
 
ele se safa em dois tempos.









 
Janice Caiafa.  Estúdio.  RJ: 7Letras, 2009.



 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

D’ O LIVRO DAS HORAS DE RILKE




Deus, que será de ti, quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu.

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus,
que com quentes palavras te acolhia.
Perdem teus pés exaustos as macias
sandálias: também elas eram eu.

De ti desprende-se o teu longo manto.
O teu olhar, que a minha face, quente
coxim acolhe, virá entrementes,
virá procurar-me longamente
e deitar-se depois, ao sol poente,
entre pedras estranhas, nalgum canto.

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


                                                       Tradução de José Paulo Paes







Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe,
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel lässt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.




 in: Rainer Maria Rilke [poemas].  Tradução e introd. José Paulo Paes. Companhia das Letras, 2009.