terça-feira, 27 de janeiro de 2015

PAISAGEM


Os homens indignos andam todos de cabeça erguida.
 

Os dignos não têm outra lembrança que não a de enterrar os filhos
e uma vez cumprido o terrível rito retiram-se para o ermo
em torno às cidades, onde em meio a resíduos de alumínio
cinábrio  pirita cacos diamantinos   limalhas em sangue pisado
ocorre-lhes contrair novas núpcias  e começar do zero
o projeto dos féretros em precipícios fatais
enquanto os ungidos lhes vendem pastorais e advertências
com promoções e abatimentos.
 

Um emissário das alturas fez ouvir a voz de suas insistentes promessas
até que passados alguns dias não se falou mais nisso
– abateu-se sobre  o orbe o silêncio de todos os antes e de todos os após:
não houve acordo possível com os patrocinadores.
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

M. CAVALCANTI PROENÇA, A AMIZADE E A MORTE DESEJÁVEL



      Esta postagem remete à postagem do dia 28 de dezembro de 2014, em especial ao que nela é  dito a respeito de M. (Manuel) Cavalcanti Proença.  Para quem quiser, linko a postagem aqui http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2014/12/militares-sergio-macaco-e-outros-dois.html

      Por ora apenas saúdo, ou mais que isso, festejo (quem ler a primeira postagem facilmente entenderá a razão) o que li em 3 Antônios e 1 Jobim recentemente.  Certo, o livro, assim como o documentário  que a ele se vincula, foi lançado há mais de 20 anos, em 1993, não sendo portanto uma novidade no mercado.  Para quem não sabe, tratou-se de uma reunião em fevereiro daquele ano  de Antônio Callado, Antonio Candido, Antônio Houaiss e Antônio Carlos Jobim.  Eu tinha  visto o filme  à época, agora ele circula na web (abaixo dou dois links que os leitores podem acessar; eu os acessei ainda hoje e neles está o filme completo).  O  livro, lançado ao mesmo tempo pela Relume-Dumará, uma espécie de transcrição do que foi filmado (mesmo o que não entrou na edição final), além de conter depoimentos individuais sob a forma de entrevista dos quatro Antônios, eu nem sabia que existia.  E ele guarda uma preciosidade que particularmente muito me gratificou, sobre Proença.  A cena ficou de fora da versão editada do filme, o que é pena.  É quando surge de repente nas palavras de Houaiss o nome de Proença, não por acaso no curso de uma conversa sobre as coisas brasileiras (quem leu o Roteiro de Macunaíma, do mestre Proença,  entende perfeitamente a conexão).  A fala  de Houaiss é imediatamente glosada por Antonio Candido,  e tudo o que se segue é uma delícia, de uma comovedora beleza que não resisto a transcrever aqui na íntegra.  Leia-se:

            “HOUAISS – Bem, eu queria contar uma história sobre o meu querido amigo Manuel Cavalcanti Proença.
            CANDIDO – Foi ele quem me disse a coisa mais bonita que já ouvi sobre a amizade... Certa vez José Aderaldo Castello organizou em São Paulo um curso sobre literatura e cangaço.  E eu fui ouvir a aula do Proença, mas tive que sair antes de terminar, por um trabalho a fazer...Passados dois dias encontro com ele e falo: ‘Proença, me desculpe, rapaz, você está dando aula há vários dias, eu só pude ir a uma;cheguei depois de começada, saí antes de terminar e além disso não te procurei...’ E ele me disse: ‘Não se preocupe.  Amizade boa é feito brasa embaixo da cinza, não precisa soprar, ela está sempre acesa.’
            HOUAISS – Um grande brasileiro. Eu o vi em 1964 no Clube Militar, indignado, coordenando uma reunião e se dirigindo aos militares como ‘seus gorilas’... e por aí afora... Foi uma admiração total. Era um conhecedor do Brasil como pouca gente.
            CANDIDO – Extraordinário conhecedor do Brasil e de literatura, um crítico de grande categoria, com uma capacidade analítica fora do comum.  O ensaio de interpretação crítica que ele lançou sobre Grande sertão: veredas logo após a publicação do romance é um monumento.  Manuel Cavalcanti Proença tinha um ouvido extraordinário para a prosa.
            HOUAISS – Tinha sim. 
            CANDIDO – Grande figura.  Quem o levou lá em casa foi o Francisco de Assis Barbosa.  Assim eu vim a conhecê-lo.  Ele tinha um jeito engraçado, de homem do interior. 
            HOUAISS – Você sabem que eu estava presente quando ele morreu?  Foi assim: Manuel estava no sofá, ao meu lado, com o braço estendido, conversando, e de repente ele tombou o rosto.  Supusemos que dormitava, tão tranqüila era a sua expressão.  E estava morto.
            CALLADO – Onde foi isso?
            HOUAISS – Nós estávamos numa casa, no Rio Comprido, entre familiares.  Foi uma das coisas mais pungentes que eu vivi... Ele estava literalmente morto e continuava sorrindo.  Não sofreu nada.
            CANDIDO – Que beleza de morte!
            HOUAISS – É a morte que a gente deseja.
            CANDIDO – É a morte que é desejável.

            HOUAISS -  Transitou de um papo para a morte sem nenhum escândalo para os companheiros. 

    (In: 3 Antônios e 1 Jobim: histórias de uma geração.  RJ: Relume-Dumará, 1993)




       Praticamente tudo o que é dito nessas poucas frases contém uma mistura generosa de dignidade, grandeza, sabedoria, tudo bem pesado entre a leveza da expressão e a gravidade do que é dito, mistura própria do brilho que emana de homens que foram grandes conversadores.  Mas além de tudo isso, chama-me ainda a atenção, pequeno detalhe, a afirmação  de Candido do “ouvido extraordinário para a prosa”, que ele  identifica no velho Manuel.    Em nossa atividade de professores de literatura quantas vezes recorremos a excessivas simplificações  - até porque os textos com que trabalhamos estão cheios delas, até porque é preciso mesmo muitas vezes ganhar tempo, até porque “ensinar literatura” ,  dependendo do ponto, não deixa de ser dobrar-se  de boa-fé a um logro com a só esperança de que aqueles  que "aprendem" descubram que é tudo infinitamente mais rico do que pensamos ensinar, até porque enfim... – e uma dessas simplificações é mostrar que uma das diferenças marcantes entre o verso e a prosa é que esta é guiada sobretudo pela semântica, pelo significado, ao passo que no verso  o som e o sentido tendem a se equilibrar.  É uma simplificação,  com fundo de verdade, claro, mas se levada às últimas conseqüências, ao pé da letra,  pode tornar surdo o leitor que não se abrir à sonoridade   que exigem obras em prosa do porte de Iracema, Os sertões, Macunaíma e Grande sertão: veredas, para ficarmos em alguns exemplos evidentes e  que mereceram a atenção analítica do mestre(assim como a áspera dicção “prosaica” dos versos de Augusto dos Anjos). 
         Pra encerrar, o dono deste blog sente-se um pouco mais confortado em se deparar com menção – de resto, hoje  tão rara... – a um autor  que preza tanto.  E aproveita para reiterar que, procurando uma fotografia na internet que patenteasse o caboclo de “jeito engraçado de homem do interior”, não encontrou uma só foto do velho Manuel.  Apenas fotografias de capas de algumas de suas obras, bem como retratos de seu filho Ivan, além de outros Proenças e nomes e assuntos conexos.  Mas fotografia não é tudo.  A obra de Proença fica.  Antônios sabem.
 Links para o documentário (acessados nesta data):


 





domingo, 18 de janeiro de 2015

GONÇALVES DIAS

DEPRECAÇÃO





[“Porque os índios saíram das florestas e passaram a descer nas áreas de produção.”  Kátia Abreu, ministra da agricultura, em entrevista à Folha de S. Paulo em 05 de janeiro de 2015, numa demonstração tenebrosa de ignorância histórica e insensibilidade]






Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto
Com denso velâmen de penas gentis;
E jazem teus filhos clamando vingança
Dos bens que lhes deste da perda infeliz!



Tupã, ó Deus grande! teu rosto descobre:
Bastante sofremos com tua vingança!
Já lágrimas tristes choraram teus filhos,
Teus filhos que choram tão grande mudança.



Anhangá impiedoso nos trouxe de longe
Os homens que o raio manejam cruentos,
Que vivem sem pátria, que vagam sem tino
Trás do ouro correndo, voraces, sedentos.



E a terra em que pisam, e os campos e os rios
Que assaltam são nossos; tu és nosso Deus:
Por que lhes concede tão alta pujança,
Se os raios de morte, que vibram, são teus?



Tupã, ó Deus grande!  cobriste o teu rosto
Com denso velâmen de penas gentis;
E jazem teus filhos clamando vingança
Dos bens que lhes deste da perda infeliz.



Teus filhos valentes, temidos na guerra,
No albor da manhã quão fortes que os vi!
A morte pousava nas plumas da frecha,
No gume da maça, no arco Tupi!



E hoje em que apenas a enchente do rio
Cem vezes hei visto crescer e baixar...
Já restam bem poucos dos teus, qu’inda possam
Dos seus, que já dormem, os nossos levar.



Teus filhos valentes causavam terror,
Teus filhos enchiam as bordas do mar,
As ondas coalhavam de estreitas igaras,
De frechas cobrindo os espaços do ar.


Já hoje não caçam nas matas frondosas
A corça ligeira, o trombudo coati...
A morte pousava nas plumas da frecha,
No gume da maça, no arco Tupi!



O Piaga nos disse que breve seria
A que nos infliges cruel punição;
E os teus inda vagam por serras, pos vales,
Buscando um asilo por ínvio sertão!



Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto:
Bastante sofremos com tua vingança!
Já lágrimas tristes choraram teus filhos,
Teus filhos que choram tão grande tardança.



Descobre o teu rosto, ressurjam os bravos
Que eu vi combatendo no albor da manhã:
Conheçam-te os feros, confessem vencidos
Que és grande e te vingas, qu’és Deus, ó Tupã!




In: Poemas de Gonçalves Dias.  Ediouro, s/d.






quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

JORGE GUILLÉN


LOS NOMBRES


Albor. El horizonte
entreabre sus pestañas,
y empieza a ver. ¿Qué? Nombres.
Están sobre la pátina


de las cosas. La rosa
se llama todavía
hoy rosa, y la memoria
de su tránsito, prisa.


Prisa de vivir más.
A lo largo amor nos alce
esa pujanza agraz
del Instante, tan ágil


que en llegando a su meta
corre a imponer Después.
Alerta, alerta, alerta,
yo seré, yo seré.


¿Y las rosas? Pestañas
cerradas: horizonte
final. ¿Acaso nada?
Pero quedan los nombres.


O poema “Los nombres” foi retirado do ótimo site de poesia em língua espanhola “Poesia em español – Spanish poetry”, cujo link dou abaixo.  http://www.poesi.as/Jorge_Guillen.htm







terça-feira, 6 de janeiro de 2015

CAMINHADA PISANA




Era dia, torso e fibra
era uma visão despida
aquela que eu perseguia
sem guia imagem enigma
(A tarde toldava os becos
vivazes do sol de Pisa
de uma luz sem atropelo
de um sossego comedido
quase próximo da morte:
Muralha entrada e saída).
Por entre blocos de pedra
onde é ranhura é que medra
a palavra poliedra
espraiando-se, e ao fazê-lo
enreda motos e séculos
o que é ponte e é edifício
passo cálculo comércio
sacerdócio e turismo
numa fala multiplexa
moçárabe macarrônica
doce e no entanto toscana
mercantil e piedosa.
No largo das avenidas
caminho pro cemitério
como quem vai a passeio
- e eu vou mesmo a passeio
mas o falcão sobre a pomba
atira-se da cimalha
e célere a arrebata
ao pé da estátua do Dante
- em que círculo a colomba
foi se entregar gotejante
à volteada rapina
do bico de seu verdugo?
Pergunto e sigo a passeio
ao campo santo adiante
entre estreituras de becos
e epifanias de nesgas
o sol em fachadas sólidas
aqui e ali esboroando-se
como kebabs na lâmina
do solícito hindu
que me serve o mata-fome
e não me nega a cerveja.
Gatos e mais gatos sornas
me olham desentendidos
junto aos bares junto às torres
junto às muralhas, ruínas
onde Ugolino e seus filhos
recendendo em embutidos
sorvetes tripas e pizzas
reencarnam sua vermina.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A ÚLTIMA DO ANO; EXPLORANDO AMIGOS

  
     Como acontece com certa freqüência, e é ótimo que assim seja, ao entrar numa espécie de transe tradutório que o acomete de tempos em tempos, o poeta professor  e amigo Marcelo Diniz costuma me conceder o privilégio de conhecer em primeira mão muito daquilo que vai traduzindo, seja via telefone, internet ou mesmo pessoalmente.  Desta vez, aproveitei oportunisticamente o fato de ele me enviar alguns sonetos e epigramas, nos quais anda trabalhando, de uma coletânea de poesia satírica do século XVII francês, para elaborar – com pouco esforço de minha parte  e com muito talento alheio, considerando que juntei ainda outro amigo explorado por mim, conforme se verá – a última postagem do ano.  Achei que valia a pena lançar mão de um epigrama dos que Marcelo me enviava, que afinal fala da assinatura ausente, anônima e irreconhecível - e que pouco importa, no fundo,  para o gozo da poesia.  Bom para lembrar que se fecha um  ano e se reabre outro.  Fechar e abrir de olhos, enquanto ao menos assim for.  
      Passo a palavra ao profeçor  Marcelo, para que ele mesmo explique as circunstâncias do pedido e do que se trata:

 “A pedido de meu querido Proffezzor Bozzetti, partilho com os amigos um epigrama de um estudo recente e divertido. Ele foi colhido no Le parnasse satyrique, minha leitura de férias, entre o prazer e o compromisso. Trata-se de um recolho de textos libertinos e satíricos publicado em Paris pela primeira vez em 1622. Théophile Viau (1590-1626) é quem organiza esta edição contendo 166 peças (sonetos, odes, epigramas, epitáfios), todos anônimos. Esta edição ficou notória por motivar debates teológicos quando à natureza do riso. Vemos no epigrama certa risoterapia que decerto afirma a metafísica carnavalesca e satírica da medicina rabelaiseana."
 
     Em seguida, ele envia generosamente o link para acesso aos originais.  Veja-se aqui, como ele diz, "le pdf du Parnasse":
    


     E aqui a sua tradução e o original:

  

EPIGRAMA
 

o riso amigo da saúde

dos mortais sabedoria

eu curti sempre que pude

pois desopila e alivia

o poeta cuja poesia

nos faz rir se divertindo

anônimo todavia

aqui libo bebo e brindo

 

épigramme

 
le ris compaignon de santé

est propre à la race mortelle

j’ay souvent expérimenté

qu’il fait grand bien à la ratelle

ce poëte n’est pas sans cervelle

qui nous fait rire en esbatant

je ne sait pas comme il s’apelle

mais je vait boire à luy autant

 

     Então reforço os votos do Marcelo, o qual acrescenta em seu bilhete que 
 
 “Faço do pedido de meu querido Proffezzor a oportunidade de meus votos que, em dois mil e       quinze, o riso nos salve de novo na prova dos nove!”

 E considerando por fim que resolvi explorar mesmo os amigos nesta mensagem  final,  pedi o arremate do arremate ao Talarico, que compareceu presto e mandou esta graça aí
 
 


                                                   Bom 2015 pra nós todos!

                                                                       

domingo, 28 de dezembro de 2014

MILITARES: SERGIO MACACO E OUTROS DOIS HOMENS


     Pra começo de conversa: esta postagem não se propõe a ser relatório de nenhuma pesquisa exaustiva, nem de pesquisa nenhuma;  são alinhavos de pouco mais do que mera memória pessoal; mas  ela pode ser tomada também como quase um desagravo ao que muitas vezes  parece ser de minha parte um constante sentimento de aversão aos militares – adiante eu explico um pouco melhor;  e pra fim de conversa, uma explicação desnecessária mas de bom tom, considerando os dias que correm: claro que o título, ao falar em “dois homens”,  não propõe nenhum louvor à macheza ou algo do tipo, sendo de início somente  um contraponto provocativo da palavra  “homem” às palavras “macaco” e "militar", com as implicações daí decorrentes, buscando-se, de resto, bem entendido, o sentido de homem em  sua máxima dignidade, digamos, hum.. ontológica.  As três palavras relacionam-se, digamos, como uma constelação de recíprocas provocações latentes. Quanto ao que ficar ainda por esclarecer, paciência.  Recorro mais uma vez à lamentação resignada de Brás Cubas: “é preciso explicar tudo”.  A seguir, o que interessa.
 
     Foi o blog (muito bom) do professor, poeta e amigo Nonato Gurgel, Língua do Pé,  que chamou minha atenção para o portal Memórias da Ditadura (cf. links ao final), realização de “Vlado Educação – Instituto Vladimir Herzog”.  Copio aqui o que Nonato sintetizou sobre sua importância:
“O site Memórias da Ditadura é uma leitura imprescindível num país cujas dificuldades de lidar com a história são evidentes. O site tem problemas de redação e faltam referências bibliográficas, mas isso não tem a menor importância. Criado pela Comissão da Verdade, este espaço merece ser visitado por quem tenta entender o nosso passado violento, autoritário e contraditório.
Manifestações recentes pediram o retorno de um regime político que não permite manifestações. Seria muito bom se a garotada que deseja a volta dos militares desse uma olhadinha."

     Faz muito bem Nonato em chamar atenção para as falhas do portal – temos de ter sempre esse tipo de cuidado, ainda mais nós, professores – mas suas qualidades compensam com sobras seus senões, o que ele obviamente também reconhece. Deixo ao leitor a sua própria descoberta pessoal do valor do ótimo endereço eletrônico.

     Mas, visitando seu conteúdo o que me chamou a atenção  foi a seção “Militares que disseram NÃO”, logo em “História da Ditadura”, a primeira grande subdivisão do portal.  Ali, após o nome de Sérgio Macaco (o capitão Sergio Miranda de Carvalho), surgem outros militares que se recusaram a participar da ilegitimidade do golpe de estado e de seus desdobramentos, como  o herói da Segunda Guerra, Rui Moreira Lima, o general Euryale Zerbini, o coronel Jefferson Cardim e o almirante Candido Aragão.  Todos merecem as referências e reverências pelo glorioso ato da desobediência, na contramão da lei suprema da cegueira militar, a da obediência a todo custo – como sabemos, ela de nada valeu no Tribunal de Nuremberg, que condenou os oficiais nazistas que “apenas cumpriam ordens”.  E se de fato desenvolvi uma profunda aversão aos militares, por todas as razões que podem ser invocadas por quem cresceu durante a ditadura, a aversão mais profunda não foi exatamente aos militares em si, a suas pessoas, como poderiam pensar os mais ingênuos, mas ao militarismo, entendido como o senso da obediência cega.   É  à obediência cega que nutro verdadeiro horror.  E, no meu modo de entender, a mais nobre desobediência de todos os militares que viveram os acontecimentos do golpe foi a desobediência  do capitão Sérgio Macaco. Sua estatura é a de um verdadeiro herói.  Os brasileiros muito devemos a ele, em termos mesmo de existência física.  Mas antes de me deter um pouco mais em sua figura e sua decisiva atuação num episódio medonho, o intuito desta postagem é lembrar também  de dois militares que aprendi a admirar às voltas com o que escolhi fazer da minha vida, (a atividade voltada para os estudos humanos, em especial as letras), os quais, quando do golpe, já não estavam na ativa – e que não foram  vistos com bons olhos por aqueles que se apossaram do poder de forma torpe em 1964.  Refiro-me a dois generais: o historiador Nelson Werneck Sodré e o polígrafo M. Cavalcanti Proença. 

Sergio Macaco e o indianista Cláudio Villas Boas
 
 Capitão Sérgio Miranda de Carvalho, o Sérgio Macaco
 
    Mas vamos ao capitão. Se não me engano, foi com o fim do período militar, em 1985, que o “Caso Para-Sar” e o Capitão se tornaram  do conhecimento do grande público. À época do ocorrido, ou melhor,  do felizmente não ocorrido, em 1968, o caso  chegou a ser ventilado pela imprensa, mas o regime estava entrando em sua fase mais brutal, e mesmo com a defesa do capitão feita por uma figura do porte do brigadeiro Eduardo Gomes, tudo foi abafado.  Em resumo tratava-se do seguinte: Sergio era capitão no Para-Sar, um regimento de paraquedistas de elite da FAB,  especialistas em salvamento na selva e outras operações de altíssimo risco.  Em 1968, uma figura celerada, um fanático anticomunista chamado João Paulo Burnier, brigadeiro,  arma um plano terrível e emite ordens para que o Para-Sar o cumpra: explodir o gasômetro no Rio de Janeiro – hoje nem existe mais, ficava ali na Avenida Francisco Bicalho, próximo ao entroncamento com a Avenida Brasil,nas imediações da Rodoviária Novo Rio.  A idéia do fanático Burnier era explodir o gasômetro e atribuir a culpa do atentado aos comunistas.  A destruição do Rio, parte do seu Centro e Zona Norte teria dimensões catastróficas, consequentemente com a morte de milhares de pessoas.  Foi quando Sergio Macaco, o bravíssimo Capitão Sergio Miranda de Carvalho disse NÃO.  Militar de não tão alta patente, mas de altíssima estirpe, recusou-se, como alguém especializado em salvar vidas humanas em perigo, a exterminá-las e em larga escala. Transcrevo aqui um texto em homenagem a seu gesto, escrito pelo jornalista  Fritz Utzeri,  que li no blog Encontro Radical do músico Ricardo Moreno de Melo:
“Com a coragem, determinação e desassombro de quem tem alma e caráter disse não ao criminoso e evitou o que poderia ter sido a maior tragédia humana de nossa História. A ira dos criminosos no poder caiu sobre ele como um raio. Tiraram-lhe quase tudo. Não adiantou figuras históricas como o Brigadeiro Eduardo Gomes, lutarem por ele e tomarem a sua defesa. O arbítrio e o crime mandavam naquele triste Brasil dos anos de chumbo.
Sérgio perdeu a farda, o trabalho e a alegria. Só não puderam quebrar sua integridade e honra, sua firmeza de homem e soldado, um soldado que dizia preferir a pior das democracias à melhor das ditaduras.
Sérgio jamais pleiteou anistia por considerar que anistia é esquecimento, perdão, e julgava – com absoluta razão – que seu gesto de resistência, sua desobediência a uma ordem criminosa eram exemplos a serem seguidos.”
    Como a indignidade no Brasil não campeia apenas em períodos de ditadura formal – é inclusive, creio, o que faz com que seja sempre uma possibilidade posta no horizonte quando vivemos a normalidade institucional – o Estado brasileiro, através do Ministério da Aeronáutica, não fez justiça de imediato ao grande Capitão, quando acabou o arbítrio militar em 85.  Seu processo arrastou-se durante anos, mesmo com vitória no STF, restabelecendo-lhe os direitos plenos em 1992.  Ao morrer, em 1994, de câncer aos 64 anos,  a promoção de Sergio  a brigadeiro – a que fazia jus pelo tempo que transcorrera desde que fora cassado em 69 -,ainda não havia saído, o que só ocorreu em 1997, postumamente portanto.  Foi só então que seus herdeiros puderam receber o que o Estado lhes havia roubado desde o episódio, em 1968.
      A compositora Joyce Moreno e o letrista Fernando Brant, em homenagem a este verdadeiro herói brasileiro compuseram “Capitão”, que Joyce gravou com Chico Buarque e pode ser ouvido aqui na Rádio UOL:
 
Nelson Werneck Sodré
 
 

     A admiração pelos outros dois militares é de ordem diversa, tem a ver não com heroísmo, talvez nem tenha a ver muito com desobediência – pelo menos não no plano trágico que adquiriu para o Capitão; tem a ver  com a atividade  intelectual – respeitável  – de ambos.  Nelson Werneck Sodré (1911-1999) era militar e historiador, de formação marxista, filiado ao PCB desde os anos de 1940, tendo chegado a Chefe do curso de História Militar da Escola de Comando e Estado Maior do Exército em 1950.  Participou da diretoria  nacionalista do Clube Militar ao longo de toda essa década.  Como suas posições políticas eram conhecidas de todos e sua obra de historiador já se desenvolvia ao longo de vários anos, seu convívio com os militares conservadores, como se pode deduzir, nunca foi pacífico, o que fez com que ficasse à mercê de inúmeras transferências e represálias ao longo da carreira. Foi o que aconteceu quando da renúncia de Jânio Quadros em 1961.  Seus colegas de farda, os  ministros militares,  não queriam a posse do sucessor legal, João Goulart.  Werneck Sodré bateu de frente com eles. Foi preso e depois destacado para servir em Belém.  Preferiu passar para a reserva, e como tinha o curso da Escola de Estado Maior, reformou-se como general.  Após o golpe militar, seus direitos políticos foram cassados por dez anos.  
     Foi quando pôde dedicar-se mais plenamente à sua obra. Lançando títulos sobre títulos, entre seus livros considerados  mais importantes do período estão a História militar do Brasil (1965) e História da imprensa no Brasil (1967).  Até pouco antes de morrer estava em plena atividade, como atesta seu último livro, A farsa do neoliberalismo, de 1995 – segundo o CPDOC da FGV, sua atividade de escritor totalizaria no total 58 títulos.
     Não posso dizer que tenha maior familiaridade com o que escreveu.  Há um bom punhado de anos adquiri num sebo,  além da história militar e da história da imprensa, o História da literatura brasileira: seus fundamentos econômicos, cuja primeira edição – acabei de saber e estou deveras surpreso – é de 1938 (a que adquiri é a 6ª edição,  de 1976). A ortodoxia marxista que permeia  sua obra era visível no pouco que havia folheado do que escrevera.  Mas não tem dez anos que, preparando uma aula sobre o fim do século 19 no Brasil, senti carência de um embasamento maior sobre algumas questões vinculadas à política econômica dos primeiros anos da república.  Lembrei de Sodré e lá fui a ver se achava o que queria.  Não apenas encontrei, com sobras, como me espantei  com sua lucidez – segundo avalio, claro - para explicar certos traços renitentes de nossa “mentalidade”, que – estou relendo aqui no meu exemplar literalmente caindo aos pedaços – permanecem válidos para “lermos’ o que se passa ao nosso redor.  Como a nossa vocação brasileira para a ostentação e para o pavor de sermos confundidos com aqueles que julgamos inferiores a nós.  Leia-se o ótimo parágrafo do capitulo 12 (“Os problemas da forma”):
“Numa sociedade dividida em classes, os homens diferenciam-se através de muitas e variadas exterioridades, que podem ir do vestuário ao modo de falar.  Quando a divisão de classes é tão profunda que aparece em sinais visíveis, ninguém necessita afirmar a sua condição – ela transparece ao primeiro olhar.  O senhor veste-se de maneira diversa da do escravo, usa calçado e o escravo anda de pés nus, sabe ler e o escravo não sabe.  Na medida em que os traços exteriores se generalizam – o homem livre embora pobre se confundindo com o proprietário de terras, com o direito e às vezes a possibilidade de trajar-se como este  -, há que transferir os traços de distinção a outros planos.  Quando isso começa a ocorrer é que já existe uma luta entre as classes e não apenas uma contradição de interesses.  A classe dominante precisa lançar mão de diferenças que assinalem os seus elementos. A ostentação do saber é uma dessas diferenças." 
     A pergunta a ser feita para os dias de hoje é  apenas se ainda se poderia hoje falar em “ostentação do saber” ou se apenas da ostentação pura e simplesmente boçal, uma vez que, em tempos de inclusão social via consumo,  o saber passou a contar muito menos, ainda que - e a ironia é paradoxal -  apenas como ostentação.  Já o pavor com ser confundido com a ralé permanece forte, principalmente nos que sentem – real ou imaginariamente - ,  a decadência batendo à porta.  Como não lembrar de texto recente de Danuza Leão,  a lamentar que perdeu a graça ser rico se você encontra o zelador do prédio em que você mora em Paris?  Ou da passageira em vias de embarcar em vôo  a zombar do “sujeito de chinelos”  no aeroporto, “como se fosse uma rodoviária” e que, soube-se depois, era na verdade um juiz em férias  – e ela, uma professora da PUC do Rio. 
     Surpreendeu-me ainda em Sodré, além da análise fina e penetrante  – embora de fato presa categorialmente a um marxismo por vezes muito redutor – o texto límpido, texto que se lê com prazer, além da seriedade da reflexão e da pesquisa, esta fundamentada em alentadas notas.  Há alguns anos não leciono mais literatura brasileira, dedicando-me à teoria da literatura, mas repito sempre que do ponto de vista de uma historiografia literária que repute importante os “fundamentos econômicos” da sociedade – a  “infraestrutura”,  no vocabulário marxista – a leitura de Sodré é referência.
 
M. Cavalcanti Proença
 


 
     Algo bastante diverso é o que se passa com o terceiro militar que homenageio: M. Cavalcanti Proença.  Primeiro que,  à diferença em relação à obra de Sodré, tenho com a sua bem mais familiaridade; é grande a admiração que lhe devoto.   Seus  trabalhos dedicados à literatura e à poesia  são  excepcionais,  estudos solidamente embasados na estilística,  sobre os mais diversos assuntos e autores, da poesia popular a Guimarães Rosa, passando por Augusto dos Anjos, Alencar, Lima Barreto, Mário de Andrade e outros mais .  Fico em falta com sua obra de ficção, que não conheço, nunca a li.  Mas Proença é autor de dois estudos  que reputo fundamentais para o que me interessa saber no mundo:  são eles Roteiro de Macunaíma e Ritmo e poesia.  Quanto ao primeiro, que veio à luz em 1955, costumo dizer que ensinou a mim e a muita gente melhor do que eu a ler a obra-prima de Mário sobre o herói sem nenhum caráter, que tinha sido publicada 27 anos antes, e que causara grande impacto e muito mais rejeição do que compreensão. Assim a quem quer que seja que se disponha a uma  leitura disposta a ser minimamente cuidadosa e aprofundada da saga do “herói de nossa gente” deve começar pelo livro de Proença.  Ritmo e poesia é um estudo da mais alta complexidade sobre a arte do verso e da poesia, sobre o artesanato poético, passeando da poesia medieval portuguesa aos modernistas. 
     Como eu já disse lá em cima, este texto não tem a menor intenção de ser “pesquisa”, e aliás já está bastante grande, muito maior do que era a minha intenção inicial.  E  para rabiscar sem maiores pretensões estas linhas, fui juntando  memória, vivência e, claro,  uma consulta rápida aqui e ali nos meus livros e na internet.  E então veio,  com relação a Proença, o espanto.  Não se consegue informação nenhuma na internet sobre ele, nem uma mísera foto.  M. era abreviação de Manuel.   Cavalcanti Proença, cuiabano de 1905, morreu moço ainda, em pleno vigor de suas atividades, no Rio,  em 1966. Era general, reformado desde 1961.  Entrara para o exército via Colégio Militar do Rio de Janeiro aos 14 anos.  No exército cursa uma carreira brilhante, inicialmente estudando veterinária, a seguir lecionando na Escola de Veterinária do Exército, depois ingressando no curso de biologia do Instituto Oswaldo Cruz (que concluiu com absoluto destaque, ganhando medalha de ouro), mais tarde como professor concursado de português no Colégio Militar.  A  partir de 1944 começa sua carreira propriamente dita de escritor, numa obra muito vasta, que abrange trabalhos que vão da zoologia e biologia à crítica literária e crítica textual, passando por artigos para jornal, coletâneas de contos e romances, além da organização de antologias.  Nada dessas informações, nem mesmo as mais básicas de cunho biográfico, consegui  obter na internet. Os dados mais substanciosos que compulsei aquidevo  ao prefácio escrito por Antônio Houaiss, seu amigo,  para a coletânea de ensaios Estudos literários, lançado pela José Olympio em 1969 (tenho segunda edição, de 1974).
       Assim também se explica por que, ao contrário do que fiz com o capitão Sérgio ou com Sodré, não consegui uma foto de Proença para postar aqui, e por isso postei a capa da primeira edição do Roteiro Não consigo atinar para a solução desse mistério da falta de informações.  Nem foto de Proença, por que será?  Quando há fotos são de Ivan, seu filho, também professor e escritor.  Do velho Manuel, nada.  Não sei de que maneira se articularia – se é que  se articula – essa ausência com o fato de que, ao longo de praticamente todo o tempo que passei até hoje nos estudos de letras, da graduação ao doutorado,  pouquíssimas vezes esbarrei com a leitura de textos de Proença, recomendados por professores.  O Roteiro de Macunaíma surgia em cursos que tratavam mais de perto da rapsódia marioandradina. E só.  Ou melhor: quase.  Nas aulas que assistia, ainda no começo da graduação, da professora Marlene Castro Correia lembro que ela trabalhava textos de Proença dedicados ao estudo do verso.  Claro que esses silêncios da academia não ocorrem apenas relativamente a ele – do próprio Nelson Werneck Sodré, que não escreveu tanto assim sobre literatura, nunca ouvi em sala sequer  uma única menção a seu História da literatura brasileira.  Isso tem a ver – e muito – com o fato de que continuamos culturalmente, mesmo na academia,  sendo assistemáticos, indo aos trancos e solavancos e ao sabor de modas e autores que conseguem se manter em evidência – o que obviamente não implica que sejam autores ruins, por supuesto.  Nem bons. Cada caso é um caso.
     Mas chega de roçar a perigosa fronteira dos truísmos. Voltando ao impulso inicial, quero apenas repisar aqui a importância, sobretudo para os mais jovens, de se consultar, ler, ter como referência indispensável o portal Memórias da Ditadura.  Que embora tudo indique que a mentalidade militar, até por conta do peso positivista historicamente presente em nossas forças armadas, tenha de fato uma tendência a ser não apenas conservadora e reacionária mas amiga de soluções espúrias, principalmente se ditadas por cega obediência,  isso não pode ser a regra, nem pode ser a força dogmática de onde emane a atividade da profissão, acima de quaisquer outros valores, principalmente aqueles que devem regular a saudável vida democrática.  Sérgio, Nelson e Manuel cumpriram uma trajetória na carreira que os levou bastante longe em termos de patente.  eram, tudo indica, grandes militares, honravam a instituição a que pertenciam.  É de se deduzir também o quanto devem ter se defrontado e confrontado com situações de conflito pessoal e de relacionamento no dia-a-dia de suas atividades.  No caso do capitão Sérgio avulta a dimensão limite, que acabou selando seu trágico destino.  Por tudo isso, os três não merecem companheiros de farda obtusos e descerebrados.  Os mais jovens, sobretudo os que ingressam nas forças armadas, precisam conhecer suas trajetórias (o que terá a dizer o discurso oficial vigente no interior dessas instituições sobre eles?) e  pensar nisso.


Os links citados:
1. Língua do pé (Nonato Gurgel): http://linguadope.blogspot.com.br/

2. Memórias da ditadura:  http://memoriasdaditadura.org.br/

3. Encontro radical (matéria sobre o Capitão Sergio): http://encontroradical.blogspot.com.br/2010/05/o-meu-capitao-nao-aceita-ordem-de-matar.html

4. CPDOC da FGV (sobre Sodré): http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/biografias/nelson_werneck_sodre