quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

GARCÍA LORCA




 
 
BAILE

La Carmen está bailando
por las calles de Sevilla.   
Tiene blancos los cabellos
y brillantes las pupilas.

¡Niñas,
corred las cortinas!

En su cabeza se enrosca
una serpiente amarilla,
y va soñando en el baile
con galanes de otros días.

¡Niñas,
corred las cortinas!

Las calles están desiertas
y en los fondos se adivinan,
corazones andaluces
buscando viejas espinas.

¡Niñas,
corred las cortinas!

 

 

LORCA, Federico García.  Obras completas, Tomo I. Madrid: Aguilar, 1954.
 
 
Muchacha com mantón - Gonzalo Bilbao
 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CELSO JAPIASSU


O GESTO

 

Há em ti um gesto obscuro
que trazes sempre submerso
no movimento das mãos.

Está presente no espaço
que te cerca e onde constróis
o som de tuas palavras.

Está presente e no entanto
diverge do pensamento
como esta mão da outra mão.

Chegas ao teu gesto
como o telegrafista
que não dispõe mais de dedos.

É algo que aproveitas
do muito que te foi dado
e a seguir retirado.

 
            Celso Japiassu.  A região dos mitos.  RJ: Folhetim, 1975.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

CECÍLIA MEIRELES

Max Beckmann



 MEMÓRIA
 

                        A José Osório

 

Minha família anda longe,
com trajos de circunstância:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen;
alguns, de tanta distância,
nem têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.

Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os;
de repente, os mais exatos
perdem sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei reconhecê-la:
um cílio dentro do oceano,
um pulso sobre uma estrela,
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.
 
Minha família anda longe.
Reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros, lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
“É tudo imaginação!”
 
Mas sei que tudo é memória...


Cecília Meireles. Poesias completas v. 1; Viagem/Vaga música.  Civilização Brasileira, 1976.



sábado, 7 de fevereiro de 2015

JORGE DE LIMA: DE MIRA-CELI



Poema 16

Quatro enormes ventanias
seguem sempre alucinadas
enterrando noite e dia
comandantes e soldados.

Quatro enormes ventanias
roem o bronze das estátuas,
comem todos os vestígios
dos barões assinalados.

À face da terra estéril
fogem poeiras agoniadas;
restos dos grandes impérios
história e nome apagados.

Agora baixam do céu
quatro arcanjos operários:
afogam num charco abjeto
mil fabricantes de armas,
mil forjadores de guerra.

Depois nada?  quase nada:
bichos soturnos boiando
sobre o mar estagnado,
- um mar sem curvas de ondas

E depois?  depois vêm tontos
Lucífogo e Astorot
matando os outros demônios
se entredevorando ferozes.

Mas nada disso consegue
deter a rota perene,
milênio sobre milênio
do ciclo de Mira-Celi.


(de Anunciação e encontro de Mira-Celi. In: Poesia completa, v. 1. 2 ed.Nova Fronteira, 1980)

Zdzislaw Beksinski







segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AH, DOIS SONETOS... E O SÉCULO XVIII
















Observação inicial: o título desta postagem estava errado.  Agora foi feita a correção. Embora o século 18 seja central aqui, como ideário, a nortear os comentários a respeito dos dois sonetos, o do Parnasse Satyrique é do século 17, conforme se lerá ao final. Por isso mesmo, penso ser  fundamental proceder à correção. 

Ping...


... DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA


Não vês, Lise, brincar esse menino
Com aquela avezinha?  Estende o braço;
Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
A condena outra vez ao seu destino?


Nessa mesma figura, eu imagino,
Tens minha liberdade; pois ao passo,
Que cuido, que estou livre do embaraço,
Então me prende mais meu desatino.


Em um contínuo giro o pensamento
Tanto a precipitar-me  se encaminha,
Que não vejo onde pare o meu tormento.


Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Se me faltasse a mim o entendimento,
Como falta a razão a esta avezinha.


                                        Pong..!
                            

                            do PARNASSE SATYRIQUE

                            Amo flagrar nos bosques a aventura
                            da traseira a pastora ao pastor dando
                            tanto e tão bem que o gozo culminando
                            desmaiam mortos ambos na natura


                            amo dos campos ver não a pintura
                            mas um carneiro à fêmea então carcando
                            mesmo o bode que à cabra enfim montando
                            não lembra mais de prado e de verdura

                            amo ver na campina todo o empenho
                            da vaca sob touro tão ferrenho
                            que a vararia e em duas se pudesse


                            foder é a nossos olhos primavera
                            tão vária que se nada mais fodesse
                            campina campo e tudo mais já era
                       
(soneto do século 17 do Parnasse Satyrique, anônimo, traduzido por Marcelo Diniz)


J’ayme dedans un bois à trouver d’aventure,
Dessus une bergère un berger culetant,
Qu’il attaque si bien et l’escarmouche tant,
Qu’ils meurent à la fin au combat de nature.


     J’ayme voir dans les champs non la belle peinture,
     Mais un bélier cornu sa femmelle foutant
     Et le bouc éschauffé sur la sienne montant
     Par un si doux plaisir oublier sa pasture.
 


J’ayme voir sur un pré à un pareil effort
Le taureauqui se joint à la vache si fort,
Qu’il voudroit s’il pouvoit la percer d’outre en outre.

     Le foutre est à nos yeux un printemps diapré,
     Au coeur un paradis, mais si je ne vois foutre
     Je n’ayme point ny champs, ny campagnes, ny pré.












            Pensei em dar a  esta postagem o título de algo como “Viva o século 18!”.  Mas aí resolvi inseri-la na série “Ah, sonetos...” Seja como for,  o espírito dela  é mesmo de celebração do glorioso século quando se completou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, que nos deixou de herança o que de melhor se poderia ter feito da modernidade, com a separação das esferas do saber e o fim das crenças na “magia do Universo” ou coisa que o valha.  Se tanto se desvirtuou de seu legado, talvez possamos culpar de saída a moralidade burguesa que se estabeleceu pelo século seguinte e, que óbvio, é parte do mesmo legado.  Pois na verdade o soneto do Parnasse Satyrique, prenuncia com um século de antecedência o caráter libertário e libertador do ideário iluminista.  Ele se entronca numa tradição genealógica que vem subterrânea desde os gregos e passa por Rabelais, Ronsard, tanto outros.  No século 18 continua subterrânea, certo, mas o veio é muito forte (lembremos do português Bocage e o círculo neoclássico português).  Seja como for, aprendeu muito o homem no século 18, sobretudo por retomar a antiga lição racionalista grega ao observar as relações existentes no mundo natural e, em esforços especulativos, deslindar,  por rebatimentos e contrastes, natureza e cultura.  E quanto a aprendizados:  Cláudio Manuel da Costa, um dos nossos inconfidentes de Minas, aprende algo da vivência amorosa – em especial o sofrimento –  ao ver a perversidade mesmo que – ou justo porque – carinhosa da criança que brinca de aprisionar e libertar uma pobre avezinha. Lições de amor, agora em linguagem, digamos, menos decorosa, (que se manteria debaixo do tacão censório pelos tempos afora) é o que também está no poema anônimo francês traduzido por Marcelo Diniz, em que a primavera desperta o cio por toda parte - e ai se não despertasse!  A relação interior natureza/subjetividade, em tonalidade pré-romântica desponta neste deliciosamente obsceno soneto seiscentista (em tradução de cunho emulatório de Diniz,  que parece mesmo superar o original), tanto quanto os dilemas de fundo cultista entre razão e desrazão estão no de Cláudio Manuel.  Lógico que se sempre se poderá argumentar  qualquer coisa a favor do século 18 – e mesmo contra, que neste mundo nada é mesmo simples – mas convém não esquecer que a tônica aqui vai sobretudo para o sortilégio (palavra tão pouco iluminista!) verbal próprio de poesia tão boa – incluindo, claro, a excelência da tradução.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

PAISAGEM


Os homens indignos andam todos de cabeça erguida.
 

Os dignos não têm outra lembrança que não a de enterrar os filhos
e uma vez cumprido o terrível rito retiram-se para o ermo
em torno às cidades, onde em meio a resíduos de alumínio
cinábrio  pirita cacos diamantinos   limalhas em sangue pisado
ocorre-lhes contrair novas núpcias  e começar do zero
o projeto dos féretros em precipícios fatais
enquanto os ungidos lhes vendem pastorais e advertências
com promoções e abatimentos.
 

Um emissário das alturas fez ouvir a voz de suas insistentes promessas
até que passados alguns dias não se falou mais nisso
– abateu-se sobre  o orbe o silêncio de todos os antes e de todos os após:
não houve acordo possível com os patrocinadores.
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

M. CAVALCANTI PROENÇA, A AMIZADE E A MORTE DESEJÁVEL



      Esta postagem remete à postagem do dia 28 de dezembro de 2014, em especial ao que nela é  dito a respeito de M. (Manuel) Cavalcanti Proença.  Para quem quiser, linko a postagem aqui http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2014/12/militares-sergio-macaco-e-outros-dois.html

      Por ora apenas saúdo, ou mais que isso, festejo (quem ler a primeira postagem facilmente entenderá a razão) o que li em 3 Antônios e 1 Jobim recentemente.  Certo, o livro, assim como o documentário  que a ele se vincula, foi lançado há mais de 20 anos, em 1993, não sendo portanto uma novidade no mercado.  Para quem não sabe, tratou-se de uma reunião em fevereiro daquele ano  de Antônio Callado, Antonio Candido, Antônio Houaiss e Antônio Carlos Jobim.  Eu tinha  visto o filme  à época, agora ele circula na web (abaixo dou dois links que os leitores podem acessar; eu os acessei ainda hoje e neles está o filme completo).  O  livro, lançado ao mesmo tempo pela Relume-Dumará, uma espécie de transcrição do que foi filmado (mesmo o que não entrou na edição final), além de conter depoimentos individuais sob a forma de entrevista dos quatro Antônios, eu nem sabia que existia.  E ele guarda uma preciosidade que particularmente muito me gratificou, sobre Proença.  A cena ficou de fora da versão editada do filme, o que é pena.  É quando surge de repente nas palavras de Houaiss o nome de Proença, não por acaso no curso de uma conversa sobre as coisas brasileiras (quem leu o Roteiro de Macunaíma, do mestre Proença,  entende perfeitamente a conexão).  A fala  de Houaiss é imediatamente glosada por Antonio Candido,  e tudo o que se segue é uma delícia, de uma comovedora beleza que não resisto a transcrever aqui na íntegra.  Leia-se:

            “HOUAISS – Bem, eu queria contar uma história sobre o meu querido amigo Manuel Cavalcanti Proença.
            CANDIDO – Foi ele quem me disse a coisa mais bonita que já ouvi sobre a amizade... Certa vez José Aderaldo Castello organizou em São Paulo um curso sobre literatura e cangaço.  E eu fui ouvir a aula do Proença, mas tive que sair antes de terminar, por um trabalho a fazer...Passados dois dias encontro com ele e falo: ‘Proença, me desculpe, rapaz, você está dando aula há vários dias, eu só pude ir a uma;cheguei depois de começada, saí antes de terminar e além disso não te procurei...’ E ele me disse: ‘Não se preocupe.  Amizade boa é feito brasa embaixo da cinza, não precisa soprar, ela está sempre acesa.’
            HOUAISS – Um grande brasileiro. Eu o vi em 1964 no Clube Militar, indignado, coordenando uma reunião e se dirigindo aos militares como ‘seus gorilas’... e por aí afora... Foi uma admiração total. Era um conhecedor do Brasil como pouca gente.
            CANDIDO – Extraordinário conhecedor do Brasil e de literatura, um crítico de grande categoria, com uma capacidade analítica fora do comum.  O ensaio de interpretação crítica que ele lançou sobre Grande sertão: veredas logo após a publicação do romance é um monumento.  Manuel Cavalcanti Proença tinha um ouvido extraordinário para a prosa.
            HOUAISS – Tinha sim. 
            CANDIDO – Grande figura.  Quem o levou lá em casa foi o Francisco de Assis Barbosa.  Assim eu vim a conhecê-lo.  Ele tinha um jeito engraçado, de homem do interior. 
            HOUAISS – Você sabem que eu estava presente quando ele morreu?  Foi assim: Manuel estava no sofá, ao meu lado, com o braço estendido, conversando, e de repente ele tombou o rosto.  Supusemos que dormitava, tão tranqüila era a sua expressão.  E estava morto.
            CALLADO – Onde foi isso?
            HOUAISS – Nós estávamos numa casa, no Rio Comprido, entre familiares.  Foi uma das coisas mais pungentes que eu vivi... Ele estava literalmente morto e continuava sorrindo.  Não sofreu nada.
            CANDIDO – Que beleza de morte!
            HOUAISS – É a morte que a gente deseja.
            CANDIDO – É a morte que é desejável.

            HOUAISS -  Transitou de um papo para a morte sem nenhum escândalo para os companheiros. 

    (In: 3 Antônios e 1 Jobim: histórias de uma geração.  RJ: Relume-Dumará, 1993)




       Praticamente tudo o que é dito nessas poucas frases contém uma mistura generosa de dignidade, grandeza, sabedoria, tudo bem pesado entre a leveza da expressão e a gravidade do que é dito, mistura própria do brilho que emana de homens que foram grandes conversadores.  Mas além de tudo isso, chama-me ainda a atenção, pequeno detalhe, a afirmação  de Candido do “ouvido extraordinário para a prosa”, que ele  identifica no velho Manuel.    Em nossa atividade de professores de literatura quantas vezes recorremos a excessivas simplificações  - até porque os textos com que trabalhamos estão cheios delas, até porque é preciso mesmo muitas vezes ganhar tempo, até porque “ensinar literatura” ,  dependendo do ponto, não deixa de ser dobrar-se  de boa-fé a um logro com a só esperança de que aqueles  que "aprendem" descubram que é tudo infinitamente mais rico do que pensamos ensinar, até porque enfim... – e uma dessas simplificações é mostrar que uma das diferenças marcantes entre o verso e a prosa é que esta é guiada sobretudo pela semântica, pelo significado, ao passo que no verso  o som e o sentido tendem a se equilibrar.  É uma simplificação,  com fundo de verdade, claro, mas se levada às últimas conseqüências, ao pé da letra,  pode tornar surdo o leitor que não se abrir à sonoridade   que exigem obras em prosa do porte de Iracema, Os sertões, Macunaíma e Grande sertão: veredas, para ficarmos em alguns exemplos evidentes e  que mereceram a atenção analítica do mestre(assim como a áspera dicção “prosaica” dos versos de Augusto dos Anjos). 
         Pra encerrar, o dono deste blog sente-se um pouco mais confortado em se deparar com menção – de resto, hoje  tão rara... – a um autor  que preza tanto.  E aproveita para reiterar que, procurando uma fotografia na internet que patenteasse o caboclo de “jeito engraçado de homem do interior”, não encontrou uma só foto do velho Manuel.  Apenas fotografias de capas de algumas de suas obras, bem como retratos de seu filho Ivan, além de outros Proenças e nomes e assuntos conexos.  Mas fotografia não é tudo.  A obra de Proença fica.  Antônios sabem.
 Links para o documentário (acessados nesta data):