sábado, 7 de março de 2015

OS PRESENTES: AH, UM SONETO... DE ADRIANO NUNES E UMA CANÇÃO DE PAULINHO LÊMOS

(edição especial de aniversário)

             Cada ano que comemoramos ao perdê-lo traz como uma de suas compensações os presentes com que os que gostam da gente nos regalam.  Assim, tendo comemorado meus 59 (ou 69 menos 10), nesse último dia 3 ganhei, entre outros presentes adoráveis, alguns muito especiais,  porque feitos por quem os ofereceu.   Vejam só que maravilhas:

 
Presente 1: O soneto em versos hendecassílabos de Adriano Nunes; do poeta, aliás, recomendo mais uma vez o seu excelente blog

http://astripasdoverso.blogspot.com.br/

"No infinito do que dito pode ainda"

Sobre o branco que se expande logo cedo,
 Sob um incognoscível céu que se finca
 No infinito do que dito pode ainda
 Ser sobre o que pode ser de qualquer jeito,

Nasce um soneto para o amigo Roberto,
 Com onze soltas sílabas, pra que diga
 Ao poeta, no seu dia, quão antiga
 Nossa amizade, desde Troia, decerto
 
É. Com imenso prazer, canto a cantiga
 Da existência, do que comemora o estreito
 Laço que em nós cria a alegria e interliga

Verso a verso, o que não pode ser desfeito, 

 Como um contrato no qual o amor assina
 E deixa a sua irreconhecível firma.



O poeta Adriano Nunes



Com Paulinho Lêmos



 Presente 2: do amigo Paulinho Lemos, cancionista de primeira, há muitos anos radicado na Espanha (mais especificamente em Barcelona), recebi a preciosa melodia com que ele tratou um poema que anteriormente eu havia publicado aqui mesmo no Firma, em 5 de agosto de 2011:

http://robertobozzetti.blogspot.com.br/2011/08/noite-obliqua.html

Abaixo o poema e o link para o áudio da canção no youtube.


A noite oblíqua

 
Nem sonho nem vigília
serena inquietação
pelo que se quer
e não pode
ser a não ser
pleno agora
palma de mão
ilharga
pele macia
aos dedos os mamilos
sereno dentro e fora
o dia que não tarda
sobre os flancos da garoa
ilha redoma nicho
rede cama ninho
trama a iludir o sono
urdida pela saudade
fina linha de carinho
a hora de se ir já chega
à noite se achega
a manhã
devagarinho.
 

terça-feira, 3 de março de 2015

DÉCIO PIGNATARI


EUPOEMA

O lugar onde eu nasci nasceu-me
num interstício de marfim,
entre a clareza do início
e a celeuma do fim. 

Eu jamais soube ler: meu olhar
de errata a penas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se. 

Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém
são ecos do enlevo.





Décio Pignatari.  Poesia pois é poesia: 1950-2000.  Ateliê Editorial; Editora da Unicamp.









quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

GARCÍA LORCA




 
 
BAILE

La Carmen está bailando
por las calles de Sevilla.   
Tiene blancos los cabellos
y brillantes las pupilas.

¡Niñas,
corred las cortinas!

En su cabeza se enrosca
una serpiente amarilla,
y va soñando en el baile
con galanes de otros días.

¡Niñas,
corred las cortinas!

Las calles están desiertas
y en los fondos se adivinan,
corazones andaluces
buscando viejas espinas.

¡Niñas,
corred las cortinas!

 

 

LORCA, Federico García.  Obras completas, Tomo I. Madrid: Aguilar, 1954.
 
 
Muchacha com mantón - Gonzalo Bilbao
 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CELSO JAPIASSU


O GESTO

 

Há em ti um gesto obscuro
que trazes sempre submerso
no movimento das mãos.

Está presente no espaço
que te cerca e onde constróis
o som de tuas palavras.

Está presente e no entanto
diverge do pensamento
como esta mão da outra mão.

Chegas ao teu gesto
como o telegrafista
que não dispõe mais de dedos.

É algo que aproveitas
do muito que te foi dado
e a seguir retirado.

 
            Celso Japiassu.  A região dos mitos.  RJ: Folhetim, 1975.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

CECÍLIA MEIRELES

Max Beckmann



 MEMÓRIA
 

                        A José Osório

 

Minha família anda longe,
com trajos de circunstância:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen;
alguns, de tanta distância,
nem têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.

Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os;
de repente, os mais exatos
perdem sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei reconhecê-la:
um cílio dentro do oceano,
um pulso sobre uma estrela,
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.
 
Minha família anda longe.
Reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros, lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
“É tudo imaginação!”
 
Mas sei que tudo é memória...


Cecília Meireles. Poesias completas v. 1; Viagem/Vaga música.  Civilização Brasileira, 1976.



sábado, 7 de fevereiro de 2015

JORGE DE LIMA: DE MIRA-CELI



Poema 16

Quatro enormes ventanias
seguem sempre alucinadas
enterrando noite e dia
comandantes e soldados.

Quatro enormes ventanias
roem o bronze das estátuas,
comem todos os vestígios
dos barões assinalados.

À face da terra estéril
fogem poeiras agoniadas;
restos dos grandes impérios
história e nome apagados.

Agora baixam do céu
quatro arcanjos operários:
afogam num charco abjeto
mil fabricantes de armas,
mil forjadores de guerra.

Depois nada?  quase nada:
bichos soturnos boiando
sobre o mar estagnado,
- um mar sem curvas de ondas

E depois?  depois vêm tontos
Lucífogo e Astorot
matando os outros demônios
se entredevorando ferozes.

Mas nada disso consegue
deter a rota perene,
milênio sobre milênio
do ciclo de Mira-Celi.


(de Anunciação e encontro de Mira-Celi. In: Poesia completa, v. 1. 2 ed.Nova Fronteira, 1980)

Zdzislaw Beksinski







segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AH, DOIS SONETOS... E O SÉCULO XVIII
















Observação inicial: o título desta postagem estava errado.  Agora foi feita a correção. Embora o século 18 seja central aqui, como ideário, a nortear os comentários a respeito dos dois sonetos, o do Parnasse Satyrique é do século 17, conforme se lerá ao final. Por isso mesmo, penso ser  fundamental proceder à correção. 

Ping...


... DE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA


Não vês, Lise, brincar esse menino
Com aquela avezinha?  Estende o braço;
Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
A condena outra vez ao seu destino?


Nessa mesma figura, eu imagino,
Tens minha liberdade; pois ao passo,
Que cuido, que estou livre do embaraço,
Então me prende mais meu desatino.


Em um contínuo giro o pensamento
Tanto a precipitar-me  se encaminha,
Que não vejo onde pare o meu tormento.


Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Se me faltasse a mim o entendimento,
Como falta a razão a esta avezinha.


                                        Pong..!
                            

                            do PARNASSE SATYRIQUE

                            Amo flagrar nos bosques a aventura
                            da traseira a pastora ao pastor dando
                            tanto e tão bem que o gozo culminando
                            desmaiam mortos ambos na natura


                            amo dos campos ver não a pintura
                            mas um carneiro à fêmea então carcando
                            mesmo o bode que à cabra enfim montando
                            não lembra mais de prado e de verdura

                            amo ver na campina todo o empenho
                            da vaca sob touro tão ferrenho
                            que a vararia e em duas se pudesse


                            foder é a nossos olhos primavera
                            tão vária que se nada mais fodesse
                            campina campo e tudo mais já era
                       
(soneto do século 17 do Parnasse Satyrique, anônimo, traduzido por Marcelo Diniz)


J’ayme dedans un bois à trouver d’aventure,
Dessus une bergère un berger culetant,
Qu’il attaque si bien et l’escarmouche tant,
Qu’ils meurent à la fin au combat de nature.


     J’ayme voir dans les champs non la belle peinture,
     Mais un bélier cornu sa femmelle foutant
     Et le bouc éschauffé sur la sienne montant
     Par un si doux plaisir oublier sa pasture.
 


J’ayme voir sur un pré à un pareil effort
Le taureauqui se joint à la vache si fort,
Qu’il voudroit s’il pouvoit la percer d’outre en outre.

     Le foutre est à nos yeux un printemps diapré,
     Au coeur un paradis, mais si je ne vois foutre
     Je n’ayme point ny champs, ny campagnes, ny pré.












            Pensei em dar a  esta postagem o título de algo como “Viva o século 18!”.  Mas aí resolvi inseri-la na série “Ah, sonetos...” Seja como for,  o espírito dela  é mesmo de celebração do glorioso século quando se completou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, que nos deixou de herança o que de melhor se poderia ter feito da modernidade, com a separação das esferas do saber e o fim das crenças na “magia do Universo” ou coisa que o valha.  Se tanto se desvirtuou de seu legado, talvez possamos culpar de saída a moralidade burguesa que se estabeleceu pelo século seguinte e, que óbvio, é parte do mesmo legado.  Pois na verdade o soneto do Parnasse Satyrique, prenuncia com um século de antecedência o caráter libertário e libertador do ideário iluminista.  Ele se entronca numa tradição genealógica que vem subterrânea desde os gregos e passa por Rabelais, Ronsard, tanto outros.  No século 18 continua subterrânea, certo, mas o veio é muito forte (lembremos do português Bocage e o círculo neoclássico português).  Seja como for, aprendeu muito o homem no século 18, sobretudo por retomar a antiga lição racionalista grega ao observar as relações existentes no mundo natural e, em esforços especulativos, deslindar,  por rebatimentos e contrastes, natureza e cultura.  E quanto a aprendizados:  Cláudio Manuel da Costa, um dos nossos inconfidentes de Minas, aprende algo da vivência amorosa – em especial o sofrimento –  ao ver a perversidade mesmo que – ou justo porque – carinhosa da criança que brinca de aprisionar e libertar uma pobre avezinha. Lições de amor, agora em linguagem, digamos, menos decorosa, (que se manteria debaixo do tacão censório pelos tempos afora) é o que também está no poema anônimo francês traduzido por Marcelo Diniz, em que a primavera desperta o cio por toda parte - e ai se não despertasse!  A relação interior natureza/subjetividade, em tonalidade pré-romântica desponta neste deliciosamente obsceno soneto seiscentista (em tradução de cunho emulatório de Diniz,  que parece mesmo superar o original), tanto quanto os dilemas de fundo cultista entre razão e desrazão estão no de Cláudio Manuel.  Lógico que se sempre se poderá argumentar  qualquer coisa a favor do século 18 – e mesmo contra, que neste mundo nada é mesmo simples – mas convém não esquecer que a tônica aqui vai sobretudo para o sortilégio (palavra tão pouco iluminista!) verbal próprio de poesia tão boa – incluindo, claro, a excelência da tradução.