sábado, 27 de junho de 2015

MÁRIO DE ANDRADE


Ilustração de Talarico


CANTO DO MAL DE AMOR

       (1924)

Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor.
Senti que vinha... Seus braços
Era fatal me chamavam,
Parti... Cheio de vontade
E já não tenho vontade,
Percorro a noite, percorro
A noite com mal de amor...

É tarde já... Zero grau.
Hesito mais, indeciso...
Meus irmãos desaparecem
Nos corredores com luz
Donde saltam na calçada
Muitos palhaços de riso,
Até rio... Vaia o jazz.
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo. A frase não pára
No meio: com mal-de-amor.

Ironia do contraste,
Militares linhas retas,
Praças claustros seculares
Nunca amaste! nunca amaste!
Névoa filha-de-Maria,
Névoa fria... vida fria...

Não vale a pena ficar
Torturando a minha carne
Com o cilício da esperança,
Arrasto gozos perdidos,
Vim buscar os corredores
Os corredores com luz,
E o eco desses braços nus
Resvalando no céu baixo,
Atordoando os meus ouvidos,
Corro cambaleio azoinam
Meu corpo corpos rangentes,
Estalidos de desejos,
Beijos, ecos estridentes
De braços nus me chamando,
Eu quero! eu quero... Seus braços
Teus abraços boca pele
Seios olhos seios dentes
Corro. O eco explode já perto
Muito, perto muito, forte,
Vejo perfume de fome
Muito forte, muito perto,
Agora... Ela me abre os braços
Viro a esquina, estendo os braços,
Meus abraços nos espaços.
Rua reta, rua reta,
Rua reta, que deserto!...
Os lampiões bem regulares
Com um só olho. São ciclopes.
São eunucos dum harém,
Odalisca, o lampeão pisca,
Não tem mais nada niguém...

O sino cai sobre mim.

São três horas já.... Percorro
A noite com mal de amor...
Pedaços de minha carne
Pelos punhais das esquinas
Vão ficando, vou caminho
Sigo... amor... Sei que não morro,
Vou sigo caminho... é tarde...
É mais adiante! Na esquina!...
Já sei que não é... Aquela
Janela sempre acordada,
É uma puta me chamando,
Dez milréis, mercadoria,
Alfândega, porto de Santos
Oceano atlântico, grande
Mar monótono monótono,
As ondas que vão e vêm,
Os cadáveres nos naufrágios
Serão jogados na areia...
E há praias muito bonitas
Com palmeiras guaranis...
As invenções de Alencar
Ficaram muito inferiores
A esses oásis das praias
Tão verdes, tão verdes, tão,
Tão horrível solidão!...
E o mar ondula e desmaia,
Depois me empurra é fatal
O mar me empurra pra areia
Sou atirado na praia
Das palmeiras, minha rua...
Minha rua das Palmeiras...
Vou sigo caminho.... Longe
Meu quarto... quarto vazio...

Um vago marulhar de ondas
Sai dos meus ouvidos... O eco
Morreu. Um marulhar de ondas...

A miragem se dispersa.

Os braços nem chamam mais...
Sangue da aurora... O padeiro
Passou.
            Última esquina.
                                     Perto
O olho frio do meu quarto...
Nem não tenho carne mais...
Carne mais... Sigo. Caminho...
Destroços de ossos batendo...

Triste triste do andarilho
Carregando para o quarto
Os lábios secos. Inúteis...

 




                   Mário de Andrade. Poesias completas. 4 ed. SP: Martins, 1974.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

AH, UM SONETO... de e.e. cummings




Não será sempre assim... Quando não for,
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior

Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando;

Se tal acontecer, fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
“Goza a ventura de que já gozei.”
 
Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.

 
                   Tradução de Manuel Bandeira

                   In: Estrela da vida inteira. 20 ed. RJ;SP: Record, s/d.

 
 

 
 
 it may not always be so; and i say
 that if your lips, which i have loved, should touch
 another's, and your dear strong fingers clutch
 his heart, as mine in time not far away;
 if on another's face your sweet hair lay
 in such a silence as i know, or such
 great writhing words as, uttering overmuch,
 stand helplessly before the spirit at bay;
 
 if this should be, i say if this should be—
 you of my heart, send me a little word;
 that i may go unto him, and take his hands,
 saying, Accept all happiness from me.
 Then shall i turn my face, and hear one bird
 sing terribly afar in the lost lands.
 
E.E. Cummings, from 100 Selected Poems. Grove Press, 1954
 
 
 

 
 

sábado, 13 de junho de 2015

ADRIANO NUNES



 
 
RECADO FIXO À PORTA DA GELADEIRA

 

Eros, por favor, ao saíres, recolhe
As lembranças ardentes que em mim deixaste
De outra boca, as intermináveis tardes
Que ainda ardem sobre o colchão e as colchas,
Todas as fotos rasga, em diversos cortes,
Lança-as no fogo do olvido, a vista é tola,
Pode querer reaver o que não vale
Simples sinapse, outra ilusão, saudade.
Porém, ouve bem, deixa a prova dos nove –
As fendas das flechadas abertas, todas!
Pra que em busca de catarse bem me mova.
E também por mim último ato faze:
Leva o cão para passear, lava a louça,
E volta, à madrugada. Será que podes?
 
 

Adriano Nunes. Quarenta contente cantante. Porto Alegre: Vidráguas, 2015.

          Para o livro de quarenta  poemas com que comemora seus 40 anos , o poeta Adriano Nunes gentilmente convidou-me a que escrevesse a orelha, o que muito me alegrou,  e o fiz nos seguintes termos:

         “Numa redoma antibárbara do mundo virtual, no meio da mais torpe barbárie, costumo encontrar Adriano, o poeta de báratros e empíreos,  o estudioso incansável, o tradutor aceso,  o curioso infindo, laboratorista de acasos.  
         Muito me orgulha sempre que me diz que adoraria ter tido a chance de ser  meu aluno.  E mais: vivendo nós dois na casa na poesia-amizade, ele diz generoso: “No fundo, creio na humanidade. Por isso escrevo”  Ai de nós se não crêssemos ou se pararmos de crer, lhe digo.  Ou melhor: ai do mundo se Adriano Nunes parar de crer.”

          Com o livro em mãos, de fatura belíssima, capa de Gal Oppido e projeto gráfico ao mesmo tempo muito arrojado e elegante a cargo de Niura Fernanda, a edição muito caprichada da Vidráguas me pôs diante do impasse de escolher entre três dos poemas de minha especial predileção.  Acabei optando por este “soneto disfarçado” – chamo-o assim quase como uma desculpa por  não incluí-lo na seção “Ah, um soneto...” aqui do blog, onde não faz muito tempo postei um  do poeta.  É um soneto inteiriço, esteado sobre a cantante sonoridade – para fazer jus ao título do livro – do hendecassílabo, com um ar, quer  imagético, quer  do próprio fraseado, (sem dúvida nenhuma tem a ver com a maneira como se apropria do tema), um ar que remete à poesia beat, certamente movido, mesmo que um tanto  à revelia – conjeturo – de processos conscientes, pela larga  intimidade do poeta  com o idioma inglês. É belíssimo o  recado de Adriano a um, quiçá, disponível Eros.

 

domingo, 7 de junho de 2015

ROGÉRIO BATALHA: DOIS POEMAS E UMA CANÇÃO


MIRRA E MERDA

 
negroazul
do cós
ao cu

rapsodo
de nós
todos
 
exposto
(cara a cara)
entre a pelúcia
e a piaçava

costurar
mirra
e merda
é o que mais me interessa.

 

PROVAR

sentar
na tinta fresca
provar
inóspitas belezas

 

                            Rogério Batalha. Inventário.  RJ: TextoTerritório, 2014.
 
 
 
 
 
 
 

ALIÁS

 
(Paulinho Lêmos – Rogério Batalha)

Então escapar
do absurdo vendaval
Como meliante ou retirante nau
Depois juntar
os farelos da ilusão,
os apelos do coração
E se atirar novamente ao mar...
Se o medo não tem esperança
No fundo, quem é que pode mais?
Se De La Mancha bordou com sua lança
devaneios imortais...
É, quem foi que disse
que de nada adianta
debater-se sobre mares irreais?
Se afinal de contas
Desvarios à boca
Já alimentaram um cais, aliás.

 

 

sábado, 30 de maio de 2015

LEILA MÍCCOLIS: DOIS POEMAS


PENA DE MORTE

 

Eram bastante bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois veio o amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.


Ilustração de Talarico

 
CAMISA BRANCA
 
Seria talvez pelo que eu tivesse consentido
na noite que passava
ou pelo que eu queria,
sem saber como fazer.
seria talvez pelo que eu supunha
sem coragem de dizer-me,
pelo que eu negava,
com medo de enfrentar.
Seria pela inutilidade do que fazia,
pela imensa maioria
que me olhava hostil
como se olha os galos na rinha,
ou porque na véspera
eu tinha vestido
uma camisa branca
e bebido vinho ao invés da água
ou do café.
Seria talvez pelo desencontro
que pressenti ocorreria,
pela febre que me tomou por filha e amante,
ou seria talvez por simples acaso
que dei por mim
olhando a mosca no meu prato,
fria,
afogando-se na sopa.
 






In: Abertura poética: primeira antologia de novos poetas do Novo Rio de Janeiro. Org. Walmir Ayala e César de Araújo. RJ: C. S. Editora, 1975.

 


terça-feira, 26 de maio de 2015

PAULO MENDES CAMPOS


 
MOSCOU-VARSÓVIA
(26 de maio de 1956)

 
 
Se este avião caísse, crispado entre os ouros, as copas e as espadas eu ficaria; sarrafos nas pálpebras, para que se mantivessem abertas durante o incêndio, colocaria;

 
Se este avião caísse, as madrugadas de meu filho de um terror violeta se elucidariam; na tarde calcinada, a sombra de minha mulher se inflamaria; minha filha não me encontraria deitado sobre o feno, escondido atrás da porta, acima dos cata-ventos com os braços carregados de bonecas; mais do que a minha garra em um livro e um lírio não encontraria; um gesto no espelho, uma espátula de osso, um pensamento; 

 
Se este avião caísse, em uma esquina de Ipanema, eu nunca mais esperaria;

 
Se este avião caísse, só uma pessoa não diria “que pena” (a que caía e se esquecia e se consumia, e só se libertaria quando de todo caísse e se esquecesse e se consumisse);

 
Se este avião caísse, de mim o firmamento em torvelinho se afastaria; os mortos da Lituânia e da Masuria a mim viriam, e no silêncio rodeado de verdura me receberiam; soldado quase desconhecido, mãos desligadas do corpo – exangues e sem armas – ah, a terra de ninguém eu atravessaria;

 
Se este avião caísse, de arquitetar a condição de criatura um arquiteto a mais desistiria; certos de que outros chegarão a construir a humana arquitetura (o que se faz há muitos anos e se fará em um dia);  pousado sobre o meu peito o pássaro cruento do meio-dia; o criptógrafo egípcio afinal se explicaria; em fragmentos candentes, a minha carne emigraria; espantalho em farrapos, só o vento de leve me espantaria;

 
 Se este avião caísse, sob as arcadas do pátio a poça de sal se extinguiria; a minha túnica amarela entre os anjos se sortearia; sob as telhas dos dragões dourados, os seus flocos, indiferente, a paineira sacudiria;  na colina resplendente, quem soubesse ler, leria: “aqui pousou uma criança que quase nada compreendia”; até que outra morte nos separe, o meu nome no tronco se resignaria;

 
Se este avião caísse, este papel em cinzas arderia; a estrela rubra do poema nenhum jornal publicaria; fosse cair daqui a pouco, ainda assim o escreveria; a vida e a morte são as amantes, são a esposa, da poesia;

 
Se este avião caísse, os meus vizinhos compreenderiam; lembrando-se dos meus cabelos no elevador, uma intuição qualquer no ar lhes diria que só não fui um amigo por falta de tempo ou covardia; mas pode alguém perfeitamente amar o seu vizinho se apenas, grave, pela manhã lhe diz “bom dia”; e então, sentimentais e sem razão, de mim, coitados, se apiedariam; e de se sentirem tão sensíveis, em fino prazer espiritual tudo (de mim) enfim se acabaria;

 
Se este avião caísse, a música de meu apartamento ensurdeceria; os volumes nas estantes, de já não ter quem os lesse como eu os lia, pardos e fechados ficariam; outros mais sábios vir e servir-se poderiam; mas o meu jeito de ler e pensar desapareceria; no entanto, se este avião caísse, daquilo que é apenas meu a orgulhar-me não chegaria;

 
Se este avião caísse, já ninguém mais meditaria na ave que passou gemendo contra o vento na bruma fria; o segredo que não cheguei a tocar a ninguém mais preocuparia; só se a meu filho legasse a vocação da tristeza e o heroísmo da alegria;

 
Se este avião caísse, decerto me compadeceria dos que caíssem comigo sem a coragem da poesia; embora talvez fosse eu quem mais saudades levaria; poentes roxos de Minas, praias aéreas da Bahia; chapéu de palha de Leda, olhos castanhos de Lilia; pubescência de Teresa, experiência de Maria; prosadores da Irlanda, poetas da Andaluzia; Etna fumegando em Taormina, em Siena a Piazza della Signoria; manhãs de iodo na praia, noites etílicas de boemia;  bailarinas de Leningrado, gaivotas da Normandia; sorriso da menina, do menino a euforia; Wagner compondo o Parsifal, Nietzsche uivando em Sirls Maria; a mulher que foi comigo, a que não foi mas iria; tantas que, mais houvera, para que de vez caísse, pediria;

 
Se este avião caísse com ele cairia um homem que pelo menos entenderia a fábula da folha que se desprendeu e desaparecia; e assim seu coração na terra, no mar e no céu, como de triste e maduro caísse, não se surpreenderia, nem reclamaria; pois esse aflito coração, de ter amado e sofrido, na amplitude da morte se conformaria;

 
Se este avião caísse, em um domingo azul do mar um peixe até a pedra nadaria;  não encontrando o meu anzol, ao alto-mar regressaria; desse desencontro tecido de tão lindos equívocos, a sua carne se salvaria; e o domingo azul do mar ainda mais azul reluziria.
 

 
In: Fernando Ferreira de Loanda (Org.). Antologia da nova poesia brasileira. 2 ed. Orfeu, 1970.
 

sábado, 23 de maio de 2015

ADAUTO DE SOUZA SANTOS (RAS ADAUTO)


 
 

 

telefonei assim que soube que ele havia sido solto.  romilda sua mulher pediu-me que fosse até lá conversar com ele porque estava muito deprimido e nervoso e eu como seu velho amigo talvez pudesse distraí-lo um pouco.
encontrei-o estirado no sofá, o rosto magro, os olhos fundos cadavéricos.  Abraçou-me beijou-me desesperadamente como se eu fosse sua única saída mostrou as marcas de porrada que levou no dops no corpo todo, falei q ele precisava descansar um pouco fazer uma viagem com a mulher transar pessoas. mas ele me disse q não. q voltaria a ativa e q mataria todos os “filhos da puta do poder”.  então tentei convence-lo  de q o desespero é uma forma de suicídio  e q a melhor arma neste momento é sentar & esperar.  disse-lhe também q estávamos em vantagem porq não acreditávamos em eternidade e q qualquer governo totalitário mais dia menos dia se não fosse destruído pelas forças da história se destruiria a si mesmo.
então li meus poemas para ele. contei das novas. falei dos amigos. dos meus planos. da minha mulher e da minha filha. contei também das minhas angústias. Abrimos uma garrafa de conhaque e quando menos esperávamos estávamos completamente bêbados. ele caiu no sofá como uma criança desamparada. levantei-me. Despedi-me de romilda e saí prometendo voltar no dia seguinte.
na rua fui tentando me convencer de tudo o q havia dito ao meu amigo.  tentando acreditar q era aquilo mesmo q eu acreditava.
tive de repente uma imensa pena de mim...
 
in: Folha de rosto (vários).  Rio, 1976.