domingo, 12 de julho de 2015

DESDE A SUPERFÍCIE


Centro aonde não se vai
ao dentro que não se atinge
o corpo que não se trai
carne de esfinge

O gozo que o outro apaga
no jogo que outro esconda
espuma arisca na frágua
cerne de esponja
 
Leito nubente
corpo onde corpo
outra alma frange
 
Plangem miasmas
corpo onde corpo
jorra no peito.
 
 

 

Roberto Bozzetti.  Firma irreconhecível.  RJ: Oficina Raquel, 2009.

domingo, 5 de julho de 2015

GUILHERME ZARVOS




THEREZA

 

Visito minha mãe no Jardim Botânico
Faz dois anos que ela morreu
Parece que faz uma vida
Tenho tanta saudade
Das conversas
Do uisquinho, até do barulho nervoso do gelo
O excesso de uísque ajudou a matá-la
Pena que os excessos matem
Já conheci quem morreu de amor
De excesso e de falta

A árvore que eu e minha irmã escolhemos para depositar suas
Cinzas não tem nada de excepcional
É uma Tiliaceae da Malásia
Ela me parece velha
Foi um descuido espalhar as cinzas numa
Árvore que pode tombar logo
Mesmo antes da minha morte
Me parece um canto agradável
Ela deve estar contente no céu
Estou aqui na terra
 
Depositar cinzas de cremação no Jardim Botânico
É proibido.  Tirar fotos de casamento pode
Imagino se todos depositassem seus mortos no
Jardim Botânico assemelharia-se ao Ganges
Todo humano deveria passar uma tarde
Olhando uma cremação no Rio Ganges, na Índia
Depois de pôr fogo no morto, com a presença da
Família, com um pedaço de pau dilacera-se os
Ossos e o crânio que são muito resistentes ao
Fogo.  Tudo é calmo e sagrado.  As cinzas vão para o rio
 
Minha mãe não sofreu muito ao morrer
Eu e minha irmã ficamos contidos.  Nossa família é
Assim. Fatalista.  Já me falaram que é um resquício
Aristocrático.  Sempre nos orgulhamos da
República.  Em volta da Tiliaceae nasceram cogumelos
Cada vez que visito minha mãe tem novidade
Em volta da árvore.  Minha mãe está sempre
Presente e o chão sempre apresenta surpresas
Os cogumelos formam um ajuntamento como uma ninhada
Do meio salta uma flor! É da raça das Therezas. 
 

 

         In: Guilherme Zarvos por Renato Rezende.  Coleção Ciranda da Poesia. RJ: EdUERJ, 2010.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

CZESLAW MILOSZ


À Senhora Professora em defesa da honra do gato e não só
 
     (Por ocasião do artigo “Contra a crueldade” de Maria Podraza-Kwiatkowska)

 
Meu amável ajudante, pequeno tigrinho,
Dorme docemente sobre a mesa perto do computador
E sequer imagina que a Senhora está ofendendo sua linhagem.

Os gatos brincam com o rato ou a toupeira meio morta,
Mas a Senhora está enganada, não é por crueldade.
Eles simplesmente vêem uma coisa que se mexe.

Pois é bom lembrar que só a consciência
Pode por um instante transferir-se para o Outro,
Com-partilhar a dor e o pânico do rato.

E assim como o gato, é toda a natureza,
Infelizmente indiferente ao mal e ao bem,
Receio que aqui se esconde um dilema.

A história natural tem seus museus.
Não levemos ali as crianças. Para que lhes mostrar os monstros,
A terra dos répteis e anfíbios por milhões de anos?
 
A natureza que devora, a natureza devorada,
Dia e noite aberto o matadouro de sangue.
E quem foi que o criou? Será um deus bonzinho?

Sim, sem dúvida, eles são inocentes:
As aranhas, os louva-a-deus, os tubarões, os pítons.
Só nós dizemos: crueldade.

O nosso saber e a nossa consciência
Solitários num pálido formigueiro de galáxias
Depositam suas esperanças num Deus humano.

Que não pode não sentir e não pensar,
Que nos é familiar, pelo calor e pelo movimento,
Porque a Ele, como declarou, somos semelhantes.
 
Mas sendo assim, ele se compadece
De cada rato pego, de cada pássaro ferido.
O universo é para Ele como a Crucificação.
 
Eis aí quanto resulta do ataque ao gato:
Um esgar teológico agostiniano,
Com o qual, a Senhora sabe, não é fácil andar na terra.

 

             Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza

          Czeslaw Milosz. Não mais. Seleção, trad. e introd. de  Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza.  Brasília: Ed. UnB, 2003.
 
 

sábado, 27 de junho de 2015

MÁRIO DE ANDRADE


Ilustração de Talarico


CANTO DO MAL DE AMOR

       (1924)

Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor.
Senti que vinha... Seus braços
Era fatal me chamavam,
Parti... Cheio de vontade
E já não tenho vontade,
Percorro a noite, percorro
A noite com mal de amor...

É tarde já... Zero grau.
Hesito mais, indeciso...
Meus irmãos desaparecem
Nos corredores com luz
Donde saltam na calçada
Muitos palhaços de riso,
Até rio... Vaia o jazz.
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo. A frase não pára
No meio: com mal-de-amor.

Ironia do contraste,
Militares linhas retas,
Praças claustros seculares
Nunca amaste! nunca amaste!
Névoa filha-de-Maria,
Névoa fria... vida fria...

Não vale a pena ficar
Torturando a minha carne
Com o cilício da esperança,
Arrasto gozos perdidos,
Vim buscar os corredores
Os corredores com luz,
E o eco desses braços nus
Resvalando no céu baixo,
Atordoando os meus ouvidos,
Corro cambaleio azoinam
Meu corpo corpos rangentes,
Estalidos de desejos,
Beijos, ecos estridentes
De braços nus me chamando,
Eu quero! eu quero... Seus braços
Teus abraços boca pele
Seios olhos seios dentes
Corro. O eco explode já perto
Muito, perto muito, forte,
Vejo perfume de fome
Muito forte, muito perto,
Agora... Ela me abre os braços
Viro a esquina, estendo os braços,
Meus abraços nos espaços.
Rua reta, rua reta,
Rua reta, que deserto!...
Os lampiões bem regulares
Com um só olho. São ciclopes.
São eunucos dum harém,
Odalisca, o lampeão pisca,
Não tem mais nada niguém...

O sino cai sobre mim.

São três horas já.... Percorro
A noite com mal de amor...
Pedaços de minha carne
Pelos punhais das esquinas
Vão ficando, vou caminho
Sigo... amor... Sei que não morro,
Vou sigo caminho... é tarde...
É mais adiante! Na esquina!...
Já sei que não é... Aquela
Janela sempre acordada,
É uma puta me chamando,
Dez milréis, mercadoria,
Alfândega, porto de Santos
Oceano atlântico, grande
Mar monótono monótono,
As ondas que vão e vêm,
Os cadáveres nos naufrágios
Serão jogados na areia...
E há praias muito bonitas
Com palmeiras guaranis...
As invenções de Alencar
Ficaram muito inferiores
A esses oásis das praias
Tão verdes, tão verdes, tão,
Tão horrível solidão!...
E o mar ondula e desmaia,
Depois me empurra é fatal
O mar me empurra pra areia
Sou atirado na praia
Das palmeiras, minha rua...
Minha rua das Palmeiras...
Vou sigo caminho.... Longe
Meu quarto... quarto vazio...

Um vago marulhar de ondas
Sai dos meus ouvidos... O eco
Morreu. Um marulhar de ondas...

A miragem se dispersa.

Os braços nem chamam mais...
Sangue da aurora... O padeiro
Passou.
            Última esquina.
                                     Perto
O olho frio do meu quarto...
Nem não tenho carne mais...
Carne mais... Sigo. Caminho...
Destroços de ossos batendo...

Triste triste do andarilho
Carregando para o quarto
Os lábios secos. Inúteis...

 




                   Mário de Andrade. Poesias completas. 4 ed. SP: Martins, 1974.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

AH, UM SONETO... de e.e. cummings




Não será sempre assim... Quando não for,
Quando teus lábios forem de outro; quando
No rosto de outro o teu suspiro brando
Soprar; quando em silêncio, ou no maior

Delírio de palavras desvairando,
Ao teu peito o estreitares com fervor;
Quando um dia, em frieza e desamor
Tua afeição por mim se for trocando;

Se tal acontecer, fala-me. Irei
Procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
“Goza a ventura de que já gozei.”
 
Depois, desviando os olhos, de improviso,
Longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
Cantar no meu perdido paraíso.

 
                   Tradução de Manuel Bandeira

                   In: Estrela da vida inteira. 20 ed. RJ;SP: Record, s/d.

 
 

 
 
 it may not always be so; and i say
 that if your lips, which i have loved, should touch
 another's, and your dear strong fingers clutch
 his heart, as mine in time not far away;
 if on another's face your sweet hair lay
 in such a silence as i know, or such
 great writhing words as, uttering overmuch,
 stand helplessly before the spirit at bay;
 
 if this should be, i say if this should be—
 you of my heart, send me a little word;
 that i may go unto him, and take his hands,
 saying, Accept all happiness from me.
 Then shall i turn my face, and hear one bird
 sing terribly afar in the lost lands.
 
E.E. Cummings, from 100 Selected Poems. Grove Press, 1954
 
 
 

 
 

sábado, 13 de junho de 2015

ADRIANO NUNES



 
 
RECADO FIXO À PORTA DA GELADEIRA

 

Eros, por favor, ao saíres, recolhe
As lembranças ardentes que em mim deixaste
De outra boca, as intermináveis tardes
Que ainda ardem sobre o colchão e as colchas,
Todas as fotos rasga, em diversos cortes,
Lança-as no fogo do olvido, a vista é tola,
Pode querer reaver o que não vale
Simples sinapse, outra ilusão, saudade.
Porém, ouve bem, deixa a prova dos nove –
As fendas das flechadas abertas, todas!
Pra que em busca de catarse bem me mova.
E também por mim último ato faze:
Leva o cão para passear, lava a louça,
E volta, à madrugada. Será que podes?
 
 

Adriano Nunes. Quarenta contente cantante. Porto Alegre: Vidráguas, 2015.

          Para o livro de quarenta  poemas com que comemora seus 40 anos , o poeta Adriano Nunes gentilmente convidou-me a que escrevesse a orelha, o que muito me alegrou,  e o fiz nos seguintes termos:

         “Numa redoma antibárbara do mundo virtual, no meio da mais torpe barbárie, costumo encontrar Adriano, o poeta de báratros e empíreos,  o estudioso incansável, o tradutor aceso,  o curioso infindo, laboratorista de acasos.  
         Muito me orgulha sempre que me diz que adoraria ter tido a chance de ser  meu aluno.  E mais: vivendo nós dois na casa na poesia-amizade, ele diz generoso: “No fundo, creio na humanidade. Por isso escrevo”  Ai de nós se não crêssemos ou se pararmos de crer, lhe digo.  Ou melhor: ai do mundo se Adriano Nunes parar de crer.”

          Com o livro em mãos, de fatura belíssima, capa de Gal Oppido e projeto gráfico ao mesmo tempo muito arrojado e elegante a cargo de Niura Fernanda, a edição muito caprichada da Vidráguas me pôs diante do impasse de escolher entre três dos poemas de minha especial predileção.  Acabei optando por este “soneto disfarçado” – chamo-o assim quase como uma desculpa por  não incluí-lo na seção “Ah, um soneto...” aqui do blog, onde não faz muito tempo postei um  do poeta.  É um soneto inteiriço, esteado sobre a cantante sonoridade – para fazer jus ao título do livro – do hendecassílabo, com um ar, quer  imagético, quer  do próprio fraseado, (sem dúvida nenhuma tem a ver com a maneira como se apropria do tema), um ar que remete à poesia beat, certamente movido, mesmo que um tanto  à revelia – conjeturo – de processos conscientes, pela larga  intimidade do poeta  com o idioma inglês. É belíssimo o  recado de Adriano a um, quiçá, disponível Eros.

 

domingo, 7 de junho de 2015

ROGÉRIO BATALHA: DOIS POEMAS E UMA CANÇÃO


MIRRA E MERDA

 
negroazul
do cós
ao cu

rapsodo
de nós
todos
 
exposto
(cara a cara)
entre a pelúcia
e a piaçava

costurar
mirra
e merda
é o que mais me interessa.

 

PROVAR

sentar
na tinta fresca
provar
inóspitas belezas

 

                            Rogério Batalha. Inventário.  RJ: TextoTerritório, 2014.
 
 
 
 
 
 
 

ALIÁS

 
(Paulinho Lêmos – Rogério Batalha)

Então escapar
do absurdo vendaval
Como meliante ou retirante nau
Depois juntar
os farelos da ilusão,
os apelos do coração
E se atirar novamente ao mar...
Se o medo não tem esperança
No fundo, quem é que pode mais?
Se De La Mancha bordou com sua lança
devaneios imortais...
É, quem foi que disse
que de nada adianta
debater-se sobre mares irreais?
Se afinal de contas
Desvarios à boca
Já alimentaram um cais, aliás.