quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

BUCÓLICA FINAL


baratas bem sabem esgueirar-se junto ao rodapé
dissimuladas
enquanto não encontram o todo
do rebanho

morcegos hematófagos revoam ao meio-dia
no pomar
enquanto a seara morre de arrependimento
e troncos pendem dos galhos
gotejantes

na hora de levar a ração aos lobos
reses assistem ao sorteio
enquanto na lixeira ratazanas provocam gatos
esquálidos
intimidados

cardumes de pandorgas são dizimados a esmo
por pedras perdidas em fuga de estilingues
enquanto lamentamos nada
poder fazer
o padre surdo é amasiado com o delegado
dizimador de viados

sou o corpo ao sol
sou a ração dos lobos
no lixão.
não há lobos
na alcatéia de hienas.

 

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

AH, UM SONETO... DE PAUL VERLAINE


MEU SONHO FAMILIAR

 

Sonho às vezes o sonho estranho e persistente
De não sei que mulher que eu quero, e que me quer,
E que nunca é, de fato, uma única mulher
E nem outra, de fato, e me compreende e sente.

Compreende-me, e este meu coração transparente
Para ela, não é mais um problema qualquer,
Só para ela, e meu suor de angústia, se quiser,
Chorando, ela transforma em frescura envolvente.
 
Se é morena, ou se é loira, ou se é ruiva – eu ignoro.
Seu nome? É como o nome ideal, doce e sonoro,
Dos amados que a Vida exilou para além.

Seu olhar lembra o olhar de alguma estátua antiga,
E sua voz longínqua, e calma, e grave, tem
Certa inflexão de emudecida voz amiga.

 

                            Tradução de Guilherme de Almeida

 

 

MON RÊVE FAMILIER

 
Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur, transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d’être um problème
Pour elle seule, et lês moiteurs de mon front blame,
Elle seule les sait refraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? – Je l’ignore.
Son nom? Je me souviens qu’il est doux et sonore
Comme ceux des aimés que la Vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des vois chères qui sont tues.

 

 


Verlaine.  A voz dos botequins e outros poemas.  Tradução de Guilherme de Almeida. SP: Hedra, 2009.

sábado, 2 de janeiro de 2016

DOIS POEMAS DE O VISIONÁRIO (1937), MURILO MENDES


A VAMP

 

A camisinha de rendas
Que usava
A irmã que morreu de amor.
Ligas misturadas
Antes da paixão
Com uma lata de talco
E um retrato de Nossa Senhora
Construído com borboletas.
Uma flauta no cabide
Fez a guerra do Paraguai
Quando não havia petróleo
- Pertenceu a meu avô –,
A dama chegou no tufão,
Vestida de dominó
Despe o dominó
Tem quatro braços
Traz a vertigem
Está com febre
Me pega o amor
Tem quatro braços
Não posso mais
Quatro sovacos
Aí vem a manhã
Clareia o quarto
Allegro aleluia
Allegro da Aurora
O sol ilumina
O mundo sem amor.


"Mulher sentada com ramo de flores", Ismael Nery, 1927



 

FIM E PRINCÍPIO

 

Espírito pavoroso do século,
Não te dedicaria pianos
Nem harmonias de sirenes
Se os demônios não quisessem.
Entretanto chora o mar,
Choram noivas, peixes, mães,
Desde o princípio do mundo;
Apitos de máquinas levarão
Desde o pólo ao equador
Até o final dos tempos
Lamentações de novilhas,
De cegos, órfãos e plantas.



 
Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1994.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

SEIS POEMAS DE NYDIA BONETTI

1.
caminho arranhando meus pés sobre as pedras
da rua
gosto do som das rodas que se arrastam sobre
concreto
fatídicas
vias (de fato)
gosto de ouvir o som da vida – eterno arrastar
se sobre
tudo

2.
memória: - é apenas um nome
inscrito
na sola dos pés

vai se perdendo na caminhada


3.
o tempo insiste em arrastar 
móveis pesados
há sempre um piano
que não passa na porta
notas suspensas. cordas frágeis
que sempre ruem. antes 
que seus pés toquem a rua
em áspero ruído

 






4.
Talvez leve um buquê de cactos. E uma canção
de Leonard Cohen.
Quem sabe uma rosa
do povo
de Hiroshima
de Gertrud
de ninguém.
As flores do mal
as flores do bem. As flores
afinal, carregam — todas — a náusea de existir.


5.
quando a noite me olha, na sua hora mais escura
e o silêncio me encara
com seus olhos de pedra
e murro
                   paraliso
pela vidraça
chuva negra de ferpas e granizo
estilhaços de vidro
e vento
tentam furar meus olhos
                   aquários vazios
onde o último peixe
morreu de sede e medo
do gato imaginário – olhos de fogo e faca – fera
que jamais existiu



6.

fogo apagou!
gritava o pássaro da minha infância
pressagiando as cinzas que viriam







                A preciosa e precisa poesia de Nydia Bonetti (1958) tem marcado presença em diversas publicações online (onde foram colhidos estes seis poemas), entre as quais http://www.mallarmargens.com/ 
(Mallarmargens revista de  poesia e arte contemporânea), revista Nerval ( http://issuu.com/revistaflaubert/docs/nerval004), Cronópios  (http://www.cronopios.com.br). 

                Nydia publicou ainda minimus cantus (Coleção Instante Estante – Projeto de incentivo à leitura, RS, 2012), Sumi-ê (Ed. Patuá, 2013), tendo ainda integrado a antologia Desvio para o vermelho: 13 poetas brasileiros contemporâneos, organizadaem 2013  por Marceli Andresa Becker para o Centro Cultural SP.  É de Nydia ainda o excelente blog Longitudes (http://nydiabonetti.blogspot.com.br/).

                As ilustrações da postagem, respectivamente "Duas" e "O pássaro saciado do dia", são do artista português radicado em Bruxelas Rui Cavaleiro Azevedo, que fez em 2013 uma série de desenhos inspirados na poesia de Nydia. 




sábado, 12 de dezembro de 2015

TRÊS BÁRBAROS E LIVRES DE MARCELO DINIZ

Duas mãos - foto de Marcelo Diniz


         Marcelo Diniz postou, como volta e meia o faz, poemas novos em seu perfil no Facebook – não eram sonetos, modalidade em que sua mestria é absoluta e à qual tem se dedicado com quase exclusivismo. No corre-corre,  os dois que li – não sei se postou mais - eram poemas extraordinários, e acabei pedindo uns dias depois a ele   que mos enviasse, que eu gostaria de ter a primazia de posta-los aqui no Firma.  Gentilmente ele me enviou três, a que chamou de”seleta pro firma de rascunhos bárbaros e livres”.  Dou-os aqui,  com muita alegria e orgulho – e a admiração de sempre.  Talarico ilustrou.


1. 
é possível encontrar palavras sem procurá-las
as bárbaras cambalhotas de um guarda-chuva aberto pela calçada
e o que se tem à mão ao abri-lo sempre nos trai como um morcego estropiado
palavrões sempre são encontrados em semelhantes circunstâncias
a nódoa no brim o rasgo dos fundilhos
há palavras que parecem arrancadas de nós
o que falamos sem saber por mais que pensemos depois
fazendo brotar o sentido como uma vegetação atrasada
o que por mais que pensemos vaza sem efígie
um significado inusitado e ao mesmo tempo tão antigo
tropeçamos a todo momento no murmúrio
não que sejamos necessariamente atrapalhados com as palavras
nunca as estudamos tanto nunca enxergamos tanto através delas
existência mais consistente do que a mudez que nos rodeia
lixo espacial de antigos satélites
e que risca o céu quando algum pedaço cai
e esfria seu metal na terra e enferruja
as palavras estão sempre onde não as supomos
topada martelo no dedo língua entre dentes
capazes de dizer eu te amo na hora mais adversa
as palavras nos dizem
é preciso escutá-las e lê-las como uma camisa ao avesso
ver-lhes o oco articulado
ver-lhes a corda o mecanismo a chave e ainda
ouvi-las com risco e encanto
lê-las com lento maravilhamento e súbita revelação
a que repetida se torna real
e a que repetida perde o sentido
a que grita e propaga
a que sussurra hesita e naufraga

no travesseiro no elevador


2.
– vô

como fosse o adão das coisas
substantivos na boca e dêiticos no indicador
como se me ensinasse a língua
que sabia com orgulho e gosto
de um mundo vasto e repleto de motivos
como se toda palavra fosse um fruto
macio mordido pela primeira vez
como se sua fala colasse à coisa falada
e ria satisfeito e me traduzia
o que não me era nítido ainda
e não eram os passos temerosos de colono recém chegado
e não era a inocência imaginada dos colonizados
nem era a catequese do cosmos
não havia ainda a palavra astúcia
havia a interjeição com o fato de cada coisa cor
responder ao som que repetisse e eu repetia
como se repetindo provasse do mesmo fruto
como se a flor do pequeno jardim fosse
o sabor da vogal extraída
e as pétalas coubessem o imaculado esplendor
na cor de uma única sílaba
de fato o mundo começara ali
a satisfação de fazer sentido
nada mais tinha história naquele vocabulário abrupto
cuja sintaxe se desenhava entre prosódia e gesto
quando enfim me deu nome




Ilustração de Talarico

3.
a água que me lavou o corpo é um desperdício
desce pelo ralo com meus resquícios para sempre
vejo as pessoas passando e percebo muitas
não se acham belas e a beleza é um desperdício
a incidência de restar paralelo como um segredo
cultivando certa voz que lhe soprasse sempre
a verdade que mais se estima do que é inútil
o brilho de alumínio da embalagem descartada
que reflete o céu aleatório de seu destino
o que respiram as cerdas da vassoura enquanto
chiam no chão da barbearia no meio da tarde quente
o clarão de um fósforo riscado em cômodo escuro
a consistência da bolha de luz que arrasta pelos móveis
o rumor de sombra de sua pele oscilante
o desperdício sempre foi sua insistente atenção
à musa que visita os alvéolos efêmeros dos fungos
à cultura de poeira e seu ilegível inventário de ácaros
ao azinhavre do utensílio que aposentou seu dono
à alegria provável do que é desnecessário
porque deixou de sê-lo e também à graça de nunca ter sido
o desperdício de olhar a esquina e não exigir mais nada
abandonar o saco plástico e imaginar a quanto
será elevado antes da tempestade na rua vazia
a parede descascada é uma paisagem extraterrestre
o alívio indiferente à chuva de meteoros
que dizimou de vez a urgência da vida de outrora
o universo decerto fosse mais seco não se infiltrasse
esta espessura de lágrima e riso que o desperdício
acumula em cada nicho de sua minuciosa colmeia
a inaudível aspereza do vento se houver vento













terça-feira, 24 de novembro de 2015

DISCURSO DE PARANINFO

(Aos formandos do Curso de Letras, turma 2011-2 e "anexos", por ocasião da cerimônia no dia 20 de novembro de 2015)


Dirijo-me aos formandos, inicialmente para agradecer a escolha de meu nome e também para falar em nome da ligação afetiva com esta turma, da proximidade no convívio cotidiano da academia, e mesmo dos laços de efetiva amizade que estabelecemos alguns de nós. Até porque talvez só mesmo laços muito fortes de amizade justificariam a confiança demonstrada não apenas para uma cerimônia destas num feriadão, ainda mais tendo sido o convite formalizado em cima da hora, o que me levou a algumas observações e considerações vazadas numa linguagem bem pouco apropriada a ser reproduzida aqui nesta cerimônia – aliás, em qualquer cerimônia.
         Pois bem: é justo por causa desses laços  muito fortes que resolvo recusar o discurso de viés mais afetivo (que tem sido o mais comum nestas cerimônias) e procurar fazer algumas observações a serem levadas por vocês no arremate desta etapa da vida.  Não farei “um adeus de discurso” – como diz Oswald de Andrade pela boca de João Miramar - , tampouco um discurso de adeus.  Não forçarei a nota afetiva.  Em vez disso, buscarei encaminhar algumas reflexões.
         Comecemos por falar não do “feriadão” (perdendo – ou ganhando o dia, como ensinou Drummond), mas do feriado, deste feriado: o Dia Nacional da Consciência Negra, feriado nacional criado em janeiro de 2003, no atendimento democrático a uma iniciativa das demandas da população negra organizada, feriado de caráter eminentemente democrático por ser opcional,  e que hoje se estende – viva o google! – a 780 municípios brasileiros, que o celebram.
         Numa visão bastante ingênua ou meramente produtivista, existem aqueles que listam entre as causas do nosso “atraso” enquanto país o “excessivo número de feriados”, como se ao suprimi-los ou reduzi-los déssemos um importante passo como nação.  Não vou aqui lembrar da França, onde há mais feriados do que no Brasil, e que não é propriamente um país atrasado – aliás, nestes dias sombrios que correm, uma das razões, se não a principal, de a França ter sido, e ser ainda, alvo de ataques extremistas fundamentalistas é justamente seu caráter de nação pioneira na consagração das conquistas democráticas.
         Aproveito então o “gancho” do feriado para trazer algumas questões à reflexão de todos aqui.  Como vocês me ouviram dizer muitas vezes em sala de aula, vou “dar um passeio”, esperando não me perder antes de retomar o início ao final, numa fala mais “encorpada”.
         Dirijo-me prioritariamente à atenção da turma de formandos, ou seja, – aqui lançando mão de referências mais familiares a nós, “povo de Letras’, mas que serão, se cabíveis forem, de proveito para todos, para o “público externo’ – aqui representado por amigos e familiais presentes - , pois afinal é o trânsito entre o nosso saber específico -mas não exclusivista – e o corpo geral da sociedade, é esse trânsito que deve dar sentido à nossa formação, ainda mais numa universidade pública.
         Aproveito, pois, o mote do Dia da Consciência Negra, para dizer que Antonio Candido lembra Joaquim Nabuco, em O abolicionismo, que diz que uma das dimensões da nossa catástrofe social histórica – e que, é preciso reconhecer, agora se busca, com muita luta e muitas contradições, reverter – é a persistência do drama humano trazido pela escravidão, que comprometeu para sempre o regime de trabalho e de produção, fazendo com que gerações e gerações se acostumassem as ver no trabalhador um objeto, e não um ser humano.  Decorreu isso de que os antigos escravos, mesmo com a abolição de lei em 1888, não foram incorporados à estrutura social.  Cito Candido: “O trabalho livre se estabeleceu lentamente e sofreu uma influência benéfica da imigração estrangeira.  Italianos, sírio-libaneses, alemães, espanhóis, os imigrantes fizeram o Brasil contemporâneo.  Mas aí deu-se um fato que é bastante grave.  A oligarquia brasileira é tão poderosa que coopta todas as sucessivas camadas dominantes.  O imigrante aqui chega e, quando fica rico, passa a tratar o empregado exatamente como foi tratado, como escravo.  Quer dizer: a classe dominante brasileira não é formada pelas mesmas famílias, mas as famílias que se vão sucedendo adotam o mesmo comportamento.”
         Como se vê, entramos numa espécie de reprodução por inércia, quase um moto-contínuo para a perpetuação de nossas iniquidades e indignidades como sociedade.  Darcy Ribeiro repetia serem as elites dominantes brasileiras talvez as mais perversas do mundo e, numa frase que muito circula hoje pelas redes sociais, dizia ainda que o fracasso da educação no Brasil, do ponto de vista das elites não era um fracasso, era um projeto.  Projeto de educação definido também sinteticamente por Paulo Freire em outra frase: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”
         Cito Darcy e Freire porque foram dois homens que juntos estiveram e juntos “fracassaram” em seus projetos para a educação, calados, cassados e perseguidos que foram com o golpe de 1964, ambos.  O governo autoritário e ilegítimo – porque às custas de um golpe – que então se instalou, não custa lembrar ou apenas informar aos mais desavisados, começou golpeando duramente a educação, perseguindo, prendendo, assassinando, fazendo desaparecer estudantes e professores – e não apenas – em muitos crimes de terrorismo de estado, que continuam aí sem esclarecimento e sem punição, para nossa vergonha como nação. Mas não apenas violência contra pessoas: fazendo desaparecer dos currículos escolares qualquer coisa ligada ao ensino de filosofia, que lida, como sabemos, com o exercício constante do pensamento crítico.
         E se falo nesse período medonho para o campo do saber é porque hoje em alguma medida ele parece querer reviver nos sonhos de nossa desmemória endêmica  e manipulada.  Mas sou otimista e considero que, apesar das dificuldades e dos reveses, o pior não acontecerá.  Seguiremos na seara democrática que, apesar de tudo, sinaliza a existência de seus primeiros frutos.  Falemos um pouco destes.
         Li que ontem houve protestos, pelo pessoal que organizou festejos da Semana de Consciência Negra, em frente ao antigo prédio do DOPS na Rua da Relação, Centro do Rio.  O local foi escolhido com a intenção de se marcar um lugar de memória trevosa, de modo a afrontá-lo enquanto tal.  Bem vinda afronta.  Tenho inclusive razões pessoais para festejar a boa ideia, pois frequentei o prédio semanalmente há quase quarenta anos, quando, ao ser aprovado em concurso público, precisei obter um “atestado ideológico” para ingresso na carreira, o que foi complicado, pois no ano anterior eu havia sido presidente do diretório estudantil do meu curso de Letras. E para conseguir nomeação e tomar posse num cargo público, era necessário o “nada consta” de autoridades de resto ilegitimamente constituídas.  Digo isso para lembrar que o país já foi muito pior.
         E se celebro essa afronta ao espaço simbólico da repressão, não o faço em meu nome, um figurante obscuro de importância relegada a uma subalterna quinta grandeza naquele quadro, mas celebro para celebrar o que deve ser celebrado: as manifestações da cultura negra, com cânticos, dança de capoeira, enfim... literalmente se sambou na cara da sociedade repressiva – uma sociedade que, como lembrou Chico Buarque numa entrevista, “pensa que é branca”.  Esse aspecto glorioso da celebração é simbólico daquilo que completa o que configura a nossa seara democrática, que as conquistas das transformações sociais dos últimos anos vêm lutando para sedimentar e que gosto de sintetizar assim: os negros não voltarão para as senzalas, as mulheres não voltarão para as cozinhas, o povo LGBT se organizou, suas vozes se fazem ouvir e, felizmente, não mais de dentro dos armários, para onde não voltarão.  Há muito a ser conquistado ainda, e cito aqui, como exemplo, a dura luta a ser travada em favor da dignidade dos povos indígenas.  Mas, seja como for, viva o Dia da Consciência Negra, viva Zumbi!
         Há quarenta anos esta situação de celebração era impensável:  Jorge Ben Jor cantava algo que parecia ser tão distante: “Eu só quero ver como vai ser quando Zumbi chegar”.  Os sinais estão aí de uma chegada de Zumbi, nesta canção tantas vezes gravada e cantada em festejos diversos.  O mito se confunde por vezes com a história e, se esta pode complementar e nos levar á depressão pelo conhecimento objetivo do estágio repressivo que ela venha a flagrar – afinal, lembram Caetano e Gil, “todos sabem como se tratam os pretos” – o mito pode alimentar, se não a redenção, a perseverança na luta por dias mais justos.
         Ora, afim ao mythos, como ao epos, por vezes englobando a ambos, temos a literatura. Quando vocês me convidam, e aos colegas de literatura, a desempenhar um papel tão importante neste momento, posso, podemos interpretar isso como uma afirmação da literatura, de sua prática, de seu ensino, de sua aprendizagem, de seu sentido mais arraigado.  Este não é simples, nem cabe me estender aqui sobre ele – de resto, penso que já o fizemos muitas vezes juntos - , mas a gradativa supressão que o ensino de literatura vem sofrendo no ensino médio – sem falar no seu abastardamento ou pura e simples ausência nas etapas anteriores de formação – é para nos deixar para lá de alertas.  Não podemos abrir a guarda, não podemos abrir mão do discurso literário, de seu papel de mediador, de aferidor, de problematizador da malha de discursos, ainda mais numa sociedade tão penetrada por autoritarismo, proveniente sobretudo da ignorância e da baixa e/ou péssima  escolaridade.
         Se é inegável que assistimos nos últimos anos – e os indicadores sociais estão aí mesmo, entre outras coisas para nos livrarem de uma mídia comprometidamente venal – a uma significativa inclusão social e diminuição da pobreza e da miséria, é inegável também que muitos analistas têm apontado com razão que esse ganho se fez infelizmente mais pela inclusão via consumo do que via educação.  E a batalha pela educação é aquela que nos chama agora a combater o bom combate nas molduras da sociedade democrática, de instituições que apesar de tudo têm se mostrado sólidas.
         Encaminho agora a conclusão, procurando amarrar os fios soltos na ponta do início.  Graciliano Ramos – este magnífico escritor, por sinal nascido no mesmo estado da federação onde ficava o Quilombo de Palmares – em conversa com o folclorista Câmara Cascudo saiu-se com esta, segundo conta seu biógrafo Dênis de Moraes;
         “Na casa dessa burguesia rica você pode encontrar dez penicos de porcelana, mas não encontra dez livros.  Não é que eu deseje tê-la [a essa burguesia, bem entendido] como leitora de meus livros, mas isto mostra a indiferença pela divulgação literária e a falta de estímulo à produção intelectual.”
         Às vezes ouço falar que a literatura “é uma atividade de elite”, que seria “um luxo”, que os escritores se entregariam “a práticas elitistas”, coisas que tais.  Vou repetir aqui o que disse no correr de uma aula outro dia mesmo:   Não vamos ofender deste modo a literatura ou a atividade literária.  Numa sociedade cujas elites são perversas, boçais, obscurantistas, analfabetas, violentas e assassinas, dizer que assim é a literatura é ofendê-la, é ofender a nós todos.  Não compactuemos com isso.  Nesse sentido, vos conclamo.
         Obrigado.

domingo, 1 de novembro de 2015

HILDA HILST (1930-2004)


Algumas das

 
Pequenas sugestões e receitas
de Espanto Antitédio para
senhores e donas de casa.

 

I.

Pegue uma cenoura.  Dê uns tapinhas para que ela fique mais rosadinha(porque essa que você pegou era uma pálida cenoura).  Aí diga: cenoura, tu me lembras uma certa tarde, uma certa loira, quando meu nabo, num fiasco, emurcheceu de vez.  Se a tua mulher te encontrar na cozinha com a cenoura na mão, dizendo essas coisas, diga apenas: que bonita é a cenoura, né bem?

 

IV.

Pergunte ao seu filhinho se ele quer laranja descascada de tampinha ou de gomo.  Se ele disser que quer laranja descascada de tampinha, diga que um menino bem-educado sempre escolhe a de gomo.  Se ele começar a chorar, chupe você a laranja.  (De tampinha,naturalmente.)

 

VI.

Coloque duas alcachofras cruas dentro de uma vasilha com água fria. Fique ali esperando as folhas de alcachofra se soltarem e m edite sobre a tua condição de ser humano mortal e descartável.  Quando enfim todas as folhas estiverem sobrenadando, tome um banho, porque, convenhamos, há quantos dias você está aí.

 

VIII.

Enfeite a mesa com flores.  Compre um peru.  Feche as crianças no banheiro.  Antes de começar a ceia, convide seu marido para dançar ao redor da mesa (não mexa com o peru).  Inopinadamente pergunte se ele gosta de trufas.  Se ele disser que sim, gargalhe algum tempo atrás da porta e diga que “trufas não tem não, amorzinho”.

 

X.

Corte um saco em pequenos pedaços. Um de estopa, evidente.  Embrulhe vários ovos um por um em cada pequeno pedaço de estopa.  Pinte caras descarnadas, dentes pontudos e beiços vermelhos na cara dos ovos (sempre esses de galinha ou de pato, é desses que eu estou falando).  Quando alguma das tuas crianças começar a pedir aquelas coisas caríssimas e imbecis que são sugeridas na televisão, cubra-se de negro à noite, use tintas fosforescentes para ressaltar a cara dos ovos (aqueles) e quebre-os um a um nas pequeninas cabeças dizendo com voz rouca: parem de pedir coisas impossíveis à sua mãe, seus canalhas.

 

XI.

Compre manteiga.  Passe-a nos dedos. (Esqueça-se de Marlon Brando.) Chupe-os.  E diga em tom de oração: que vida solitária, meu Deus.  (Contenha-se)

 

XII.

Compre uma língua de tucano (é uma umbelífera), uma língua de vaca (Chaptalia nutans é seu nome científico, não vá até Santa Catarina por causa disso), um lírio branco (Lilium candidum), dois caquis (não é cáqui, não vá comprar o brim), ferva durante cinco minutos.  Depois jogue fora.  É uma simpatia para você não dormir.

 

XIII.

Se você quer se matar porque o país está podre, e você quase, pegue uma pedrinha de cânfora e uma lata de caviar e coloque ao lado do seu revólver.  Em seguida, coloque a pedrinha de cânfora debaixo da língua e olhe fixamente para a lata de caviar.  Só então engatilhe o revólver. (É bom partir como olorosas e elegantes lembranças.  Atenção: não dê um tiro na boca porque a pedrinha de cânfora se estilhaça.)

 

                                     (dos Contos d’escárnio: textos grotescos, 1990)
 
 
Hilda Hilst. Pornô Chic. São Paulo: Globo, 2014.