sábado, 30 de janeiro de 2016

TRÊS POEMAS DO POVO CURDO, POR LEDA BECK




A amiga Leda Beck, que mora em São Paulo, em passagem pelo Rio me disse que deu um pulo na Da Vinci, que estava vendendo livro de baciada e que lá, entre outras coisas, adquiriu uma antologia de poemas populares curdos, traduzidos para o francês.  Leda, que é tradutora (tem se dedicado atualmente a  traduções de Maquiavel) , empolgou-se e traduziu  três cantos de amor do francês para o português.  Então pedi-lhe,   e ela concedeu: publico-os aqui, com muita alegria

              Talarico ilustrou, inspirado no detalhe de uma iluminura curda do século XIV  que é a capa do livro.   




Oh Cavaleiro, Cavaleiro [1]

 

Oh Cavaleiro, Cavaleiro...
A montanha é tão alta, já não te vejo.
Minhas mãos queriam colher buquês de rosas, de manjericão, de narcisos,
Mas não têm força para romper os caules.
Desgraça minha, desgraça de meu pai!
Depois de conhecer os olhos de Smailê Ayô,
Já não aceitarei mais a homenagem de coração algum aqui na planície.

Oh Cavaleiro, Cavaleiro...
Levantei de madrugada e ainda não fiz nada.
Minhas mãos ainda não tocaram a água fria ou quente.
Vi passar os ciganos, que me leram a sorte,
E me deram a triste nova.
Disseram-me: “Eles pegaram, menina, o nobre caro ao teu coração,
Colocaram algemas nos punhos de Smailê Ayô,
E o levaram ao posto de Diyarbekir”.
 
Oh Cavaleiro, Cavaleiro...
Cavaleiro, já não estou aqui nem alhures,
Sou uma nesga de nuvem negra sobre o mar,
Sou a chuva fina batida pelo vento,
Sou a amante de Smailê Ayô, pai de Abdelqader, cavaleiro da égua baia.

Oh Cavaleiro, Cavaleiro...
Ouvi cantar o galo da meia-noite.
Smailê Ayô, o nobre caro ao meu coração, desceu ao grande pátio,
Arreou a alazã cinzenta,
Montou e partiu para países longínquos.
Fui ao terraço do castelo e o chamei por três vezes.
 
Oh Cavaleiro, Cavaleiro...
Que nossa maldita aldeia queime, a estrada a margeia!
Passou um batalhão de jovens guerreiros do Curdistão.
Eu lhes disse: “Boa viagem, rapazes, aonde vão?”
“Vamos à cidade de Mouch,
guerrear.”


[1] Lamento composto entre 1925 e 1930 por uma jovem cujo amante fora preso.




Canto da abandonada

 

— Amiga, amiga, oh branca!
Que fazes sobre esse monte, tu que, ruiva e bem penteada,
Abandonas tua cabeleira ao vento?
Lancei minha boca ao chego de tua garganta,
Meus lábios deslizaram e caíram na fonte
De dois seios onde o leite ainda não passou.
Amiga, amiga, oh branca!

 Oh aldeia destruída da alta montanha!
Paciência e paz de espírito já não existem sem ti!
Nossos cavaleiros montaram a cavalo, de manhã
Sua vanguarda chegou aos montes Evdeleziz,
Sua retaguarda ficou ao pé do Qewqêb.
 
Que eu seja um buquê entre buquês
E caia entre as mãos de meu bem-amado!

Que ele me respire, e me coloque entre seus bigodes negros,
Oh meu amado! Deixa minha mão. Os demônios e os maldizentes
E os caluniadores são muitos em nossa aldeia!
Sujarão minha reputação e a tua.

Amiga, amiga, oh branca!

O calor do verão tombou sobre nós.
O ardor do dia queimou, queimou.
Vi o rebanho das jovens gazelas
Que se agruparam na planície;
E eu, eu permaneço virgem na casa de meu pai!
O mundo da ruína voltou-se para minha cabeça.
Depois da meia-noite,
Em minha cabeça, a madeira do berço
Tornou-se um fardo pesado, um desejo obcecante.

 Amiga, amiga, oh branca!

 O calor do verão tombou sobre nós.
Parece uma neblina ardente.
Vi o rebanho de jovens gazelas de um ano,
Mamando em suas mães.
Mas eu permaneço virgem na casa de meu pai.
Depois da meia-noite,
Sonhando com o rebanho de gazelas,
Eu me lamento e deixo minha cabeça vacilar.



Oh cruel

 

Oh cruel, cruel, cruel,
Sou pássaro entre pássaros negros,
Pouso nas ameias da infeliz Diarbekir,
Asas e plumas lassas,
Minha alta figura curvada,
Como terei forças para andar amanhã?
Oh cruel, cruel, cruel,
Esta manhã não pude avançar
Nem pude fugir.
Não haverá uma alma caridosa
Para levar, de noite, uma palavra minha
Ao cavaleiro dos cabelos cacheados?
Talvez ele aceite me raptar,
Oh! Sim, que ele me rapte!
São numerosos os que me desejam,
Os homens que vieram pedir minha mão estão sentados na casa de meu pai,
Vede como são numerosos.
 
Oh cruel, cruel, cruel,
Sou pássaro entre pássaros vermelhos,
Pouso nas ameias de Diarbekir queimada,
Asas e plumas transidas,
E os ossos de minhas asas mortificados.
Amanhã já não terei forças para voar, nem para andar.
Não haverá uma alma caridosa para levar uma palavra minha
Ao cavaleiro dos cabelos cacheados?
Se ele quiser me raptar,
Que me leve!
Se não quiser,
Muitos são os que me desejam,
Há numerosos pretendentes na casa de meu pai, a pedir minha mão.
Eles são vinte e seis!


In: CHALIAND, Gérard. Anthologie de la poésie populaire kurde. Paris : Éditions de l’Aube, 1997. Outras versões da mesma antologia, pelo mesmo autor, podem ser encontradas em edições de 1961 (Maspéro), de 1975 (Ed. Aujourd’hui) e 1980 (Stock).

 
A tradutora Leda Beck fala sobre os poemas:
 

     A antologia de poemas populares curdos publicada por Gérard Chaliand em 1997 reúne traduções para o francês de cantos de amor (três deles publicados aqui), cantos épicos, outros cantos e a grande epopeia curda Mamé Alan, que data provavelmente do século XIV. São todos versos sem rima, cujo comprimento varia de acordo com o fôlego do cantador – o dengbêj, griô do Curdistão. A maioria deles foi criada por mulheres em duas variantes do que chamamos de língua curda: o kurmanji (falado pelos curdos da Turquia, da Síria e pela maioria dos curdos do Irã) e o sorani (curdos do Iraque e do Irã meridional). A língua é escrita pelo menos desde o século XVII, quando o poeta Ahmed Khani transcreveu o Mamé Alan, considerado um clássico da literatura curda.
 
     Perdeu-se, porém, uma parte dos textos originais dos poemas publicados por Chaliant, muitos deles recolhidos pelos próprios curdos, ao sabor dos exílios, em revistas de vida breve, a partir de meados do século XIX, quando a transmissão dessa cultura pelos dengbêj foi se tornando cada vez mais fragmentada. Há também uma abundante literatura poética traduzida do curdo, sobretudo para o alemão e o armênio, por gerações de orientalistas.
 
     Estima-se que há, hoje, cerca de 25 milhões de curdos, metade dos quais está na Turquia, onde esse povo sofreu as piores atrocidades a partir do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi então que as potências ocidentais redesenharam o mapa da região, inventando cinco estados nacionais: Síria, Cisjordânia, Líbano, Palestina e Iraque. Com os nacionalismos, recrudesceu a perseguição à minoria étnica curda, principalmente na Turquia, cujo Império Otomano (1299-1923) estava em franca decadência. Lá, a língua e a cultura curdas foram proibidas (deputados curdos chegaram a ser condenados a 15 anos de prisão por falar curdo).
 
      A partir dos anos 1930, um orientalista francês, Roger Lescot (1914-1975), que em 1945 fundou o Instituto de Estudos Curdos na Escola Nacional de Línguas Orientais Vivas, destaca-se por enfrentar a empreitada de traduzir – pela primeira vez poeticamente, não literalmente – o Mamé Alan. Nesta pequena seleção da antologia de Chaliand, Lescot traduziu o poema Oh Cavaleiro, Cavaleiro do curdo para o francês. Pierre Rondot (1904-2000), que foi diretor do Centro de Estudos sobre a África e a Ásia Modernas (CHEAM), em Paris, traduziu o Canto da abandonada e o autor da antologia traduziu Oh cruel, com a ajuda de Kamuran Ali Bédir Khan (1875-1978), membro de uma tradicional família curda.
 
Curiosamente, os três – Lescot, Rondot e Chaliand – tiveram uma formação humanista, sobretudo em Letras, mas os dois primeiros fizeram carreiras militares e Chaliand, o único que ainda vive, fez carreira acadêmica, mas é um especialista em guerra de guerrilhas. Já esta tradutora do francês para o português não fala curdo e,  de militar, só tem as asas.
 
Combatente curda de Kobani


 




segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)


AS PROMESSAS DE UM ROSTO

 

Amo,ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
Que não têm nada de funéreos. 
 
Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: “Amante, se o apelo
Queres seguir da musa plástica,

  Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
Que nós te fomos bem verazes;

 Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
Amorenado como bronze,
 
Um rico tosão que à tua enorme cabeleira
Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
Noite sem astros, Noite escura!”

 

Tradução de José Paulo Paes
 
Baudelaire: Autorretrato sobre os efeitos do haxixe

 
 
LES PROMESSES D'UN VISAGE
 
J'aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D'où semblent couler des ténèbres,
Tes yeux, quoique très noirs, m'inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.

Tes yeux, qui sont d'accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent : " Si tu veux,
Amant de la muse plastique,

Suivre l'espoir qu'en toi nous avons excité,
Et tous les goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu'aux fesses ;

Tu trouveras au bout de deux beaux seins bien lourds,
Deux larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d'un bonze,

Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t'égale en épaisseur,
Nuit sans étoiles, Nuit obscure !"
 
José Paulo Paes.  Poesia erótica em tradução.  Companhia das Letras, 1990.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

BUCÓLICA FINAL


baratas bem sabem esgueirar-se junto ao rodapé
dissimuladas
enquanto não encontram o todo
do rebanho

morcegos hematófagos revoam ao meio-dia
no pomar
enquanto a seara morre de arrependimento
e troncos pendem dos galhos
gotejantes

na hora de levar a ração aos lobos
reses assistem ao sorteio
enquanto na lixeira ratazanas provocam gatos
esquálidos
intimidados

cardumes de pandorgas são dizimados a esmo
por pedras perdidas em fuga de estilingues
enquanto lamentamos nada
poder fazer
o padre surdo é amasiado com o delegado
dizimador de viados

sou o corpo ao sol
sou a ração dos lobos
no lixão.
não há lobos
na alcatéia de hienas.

 

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

AH, UM SONETO... DE PAUL VERLAINE


MEU SONHO FAMILIAR

 

Sonho às vezes o sonho estranho e persistente
De não sei que mulher que eu quero, e que me quer,
E que nunca é, de fato, uma única mulher
E nem outra, de fato, e me compreende e sente.

Compreende-me, e este meu coração transparente
Para ela, não é mais um problema qualquer,
Só para ela, e meu suor de angústia, se quiser,
Chorando, ela transforma em frescura envolvente.
 
Se é morena, ou se é loira, ou se é ruiva – eu ignoro.
Seu nome? É como o nome ideal, doce e sonoro,
Dos amados que a Vida exilou para além.

Seu olhar lembra o olhar de alguma estátua antiga,
E sua voz longínqua, e calma, e grave, tem
Certa inflexão de emudecida voz amiga.

 

                            Tradução de Guilherme de Almeida

 

 

MON RÊVE FAMILIER

 
Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur, transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d’être um problème
Pour elle seule, et lês moiteurs de mon front blame,
Elle seule les sait refraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? – Je l’ignore.
Son nom? Je me souviens qu’il est doux et sonore
Comme ceux des aimés que la Vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des vois chères qui sont tues.

 

 


Verlaine.  A voz dos botequins e outros poemas.  Tradução de Guilherme de Almeida. SP: Hedra, 2009.

sábado, 2 de janeiro de 2016

DOIS POEMAS DE O VISIONÁRIO (1937), MURILO MENDES


A VAMP

 

A camisinha de rendas
Que usava
A irmã que morreu de amor.
Ligas misturadas
Antes da paixão
Com uma lata de talco
E um retrato de Nossa Senhora
Construído com borboletas.
Uma flauta no cabide
Fez a guerra do Paraguai
Quando não havia petróleo
- Pertenceu a meu avô –,
A dama chegou no tufão,
Vestida de dominó
Despe o dominó
Tem quatro braços
Traz a vertigem
Está com febre
Me pega o amor
Tem quatro braços
Não posso mais
Quatro sovacos
Aí vem a manhã
Clareia o quarto
Allegro aleluia
Allegro da Aurora
O sol ilumina
O mundo sem amor.


"Mulher sentada com ramo de flores", Ismael Nery, 1927



 

FIM E PRINCÍPIO

 

Espírito pavoroso do século,
Não te dedicaria pianos
Nem harmonias de sirenes
Se os demônios não quisessem.
Entretanto chora o mar,
Choram noivas, peixes, mães,
Desde o princípio do mundo;
Apitos de máquinas levarão
Desde o pólo ao equador
Até o final dos tempos
Lamentações de novilhas,
De cegos, órfãos e plantas.



 
Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Nova Aguilar, 1994.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

SEIS POEMAS DE NYDIA BONETTI

1.
caminho arranhando meus pés sobre as pedras
da rua
gosto do som das rodas que se arrastam sobre
concreto
fatídicas
vias (de fato)
gosto de ouvir o som da vida – eterno arrastar
se sobre
tudo

2.
memória: - é apenas um nome
inscrito
na sola dos pés

vai se perdendo na caminhada


3.
o tempo insiste em arrastar 
móveis pesados
há sempre um piano
que não passa na porta
notas suspensas. cordas frágeis
que sempre ruem. antes 
que seus pés toquem a rua
em áspero ruído

 






4.
Talvez leve um buquê de cactos. E uma canção
de Leonard Cohen.
Quem sabe uma rosa
do povo
de Hiroshima
de Gertrud
de ninguém.
As flores do mal
as flores do bem. As flores
afinal, carregam — todas — a náusea de existir.


5.
quando a noite me olha, na sua hora mais escura
e o silêncio me encara
com seus olhos de pedra
e murro
                   paraliso
pela vidraça
chuva negra de ferpas e granizo
estilhaços de vidro
e vento
tentam furar meus olhos
                   aquários vazios
onde o último peixe
morreu de sede e medo
do gato imaginário – olhos de fogo e faca – fera
que jamais existiu



6.

fogo apagou!
gritava o pássaro da minha infância
pressagiando as cinzas que viriam







                A preciosa e precisa poesia de Nydia Bonetti (1958) tem marcado presença em diversas publicações online (onde foram colhidos estes seis poemas), entre as quais http://www.mallarmargens.com/ 
(Mallarmargens revista de  poesia e arte contemporânea), revista Nerval ( http://issuu.com/revistaflaubert/docs/nerval004), Cronópios  (http://www.cronopios.com.br). 

                Nydia publicou ainda minimus cantus (Coleção Instante Estante – Projeto de incentivo à leitura, RS, 2012), Sumi-ê (Ed. Patuá, 2013), tendo ainda integrado a antologia Desvio para o vermelho: 13 poetas brasileiros contemporâneos, organizadaem 2013  por Marceli Andresa Becker para o Centro Cultural SP.  É de Nydia ainda o excelente blog Longitudes (http://nydiabonetti.blogspot.com.br/).

                As ilustrações da postagem, respectivamente "Duas" e "O pássaro saciado do dia", são do artista português radicado em Bruxelas Rui Cavaleiro Azevedo, que fez em 2013 uma série de desenhos inspirados na poesia de Nydia. 




sábado, 12 de dezembro de 2015

TRÊS BÁRBAROS E LIVRES DE MARCELO DINIZ

Duas mãos - foto de Marcelo Diniz


         Marcelo Diniz postou, como volta e meia o faz, poemas novos em seu perfil no Facebook – não eram sonetos, modalidade em que sua mestria é absoluta e à qual tem se dedicado com quase exclusivismo. No corre-corre,  os dois que li – não sei se postou mais - eram poemas extraordinários, e acabei pedindo uns dias depois a ele   que mos enviasse, que eu gostaria de ter a primazia de posta-los aqui no Firma.  Gentilmente ele me enviou três, a que chamou de”seleta pro firma de rascunhos bárbaros e livres”.  Dou-os aqui,  com muita alegria e orgulho – e a admiração de sempre.  Talarico ilustrou.


1. 
é possível encontrar palavras sem procurá-las
as bárbaras cambalhotas de um guarda-chuva aberto pela calçada
e o que se tem à mão ao abri-lo sempre nos trai como um morcego estropiado
palavrões sempre são encontrados em semelhantes circunstâncias
a nódoa no brim o rasgo dos fundilhos
há palavras que parecem arrancadas de nós
o que falamos sem saber por mais que pensemos depois
fazendo brotar o sentido como uma vegetação atrasada
o que por mais que pensemos vaza sem efígie
um significado inusitado e ao mesmo tempo tão antigo
tropeçamos a todo momento no murmúrio
não que sejamos necessariamente atrapalhados com as palavras
nunca as estudamos tanto nunca enxergamos tanto através delas
existência mais consistente do que a mudez que nos rodeia
lixo espacial de antigos satélites
e que risca o céu quando algum pedaço cai
e esfria seu metal na terra e enferruja
as palavras estão sempre onde não as supomos
topada martelo no dedo língua entre dentes
capazes de dizer eu te amo na hora mais adversa
as palavras nos dizem
é preciso escutá-las e lê-las como uma camisa ao avesso
ver-lhes o oco articulado
ver-lhes a corda o mecanismo a chave e ainda
ouvi-las com risco e encanto
lê-las com lento maravilhamento e súbita revelação
a que repetida se torna real
e a que repetida perde o sentido
a que grita e propaga
a que sussurra hesita e naufraga

no travesseiro no elevador


2.
– vô

como fosse o adão das coisas
substantivos na boca e dêiticos no indicador
como se me ensinasse a língua
que sabia com orgulho e gosto
de um mundo vasto e repleto de motivos
como se toda palavra fosse um fruto
macio mordido pela primeira vez
como se sua fala colasse à coisa falada
e ria satisfeito e me traduzia
o que não me era nítido ainda
e não eram os passos temerosos de colono recém chegado
e não era a inocência imaginada dos colonizados
nem era a catequese do cosmos
não havia ainda a palavra astúcia
havia a interjeição com o fato de cada coisa cor
responder ao som que repetisse e eu repetia
como se repetindo provasse do mesmo fruto
como se a flor do pequeno jardim fosse
o sabor da vogal extraída
e as pétalas coubessem o imaculado esplendor
na cor de uma única sílaba
de fato o mundo começara ali
a satisfação de fazer sentido
nada mais tinha história naquele vocabulário abrupto
cuja sintaxe se desenhava entre prosódia e gesto
quando enfim me deu nome




Ilustração de Talarico

3.
a água que me lavou o corpo é um desperdício
desce pelo ralo com meus resquícios para sempre
vejo as pessoas passando e percebo muitas
não se acham belas e a beleza é um desperdício
a incidência de restar paralelo como um segredo
cultivando certa voz que lhe soprasse sempre
a verdade que mais se estima do que é inútil
o brilho de alumínio da embalagem descartada
que reflete o céu aleatório de seu destino
o que respiram as cerdas da vassoura enquanto
chiam no chão da barbearia no meio da tarde quente
o clarão de um fósforo riscado em cômodo escuro
a consistência da bolha de luz que arrasta pelos móveis
o rumor de sombra de sua pele oscilante
o desperdício sempre foi sua insistente atenção
à musa que visita os alvéolos efêmeros dos fungos
à cultura de poeira e seu ilegível inventário de ácaros
ao azinhavre do utensílio que aposentou seu dono
à alegria provável do que é desnecessário
porque deixou de sê-lo e também à graça de nunca ter sido
o desperdício de olhar a esquina e não exigir mais nada
abandonar o saco plástico e imaginar a quanto
será elevado antes da tempestade na rua vazia
a parede descascada é uma paisagem extraterrestre
o alívio indiferente à chuva de meteoros
que dizimou de vez a urgência da vida de outrora
o universo decerto fosse mais seco não se infiltrasse
esta espessura de lágrima e riso que o desperdício
acumula em cada nicho de sua minuciosa colmeia
a inaudível aspereza do vento se houver vento