terça-feira, 29 de março de 2016

CAETANO VELOSO: NÃO VERÁS UM PARIS COMO ESTE


[dos textos do exílio londrino]

 

          Cremúsculo.  O sol, a só, despe de si, digo, despede-se, desce pé ante pele, descalço, dá-se e sobe, digo, sob, ou melhor, sobre as bandas cremoças das mulheres alfíssimas do hemisferno nhorte.  Kolinas sonrisam no horizonte.  Mastros desdesenham-se no ocidonte. Acapulcos e havaís tampouco.  Tranquislidade.  Moite.  Não há dúvida: é chagada a hera dos maiares desgrossos.  Não há dúdiva: ele virá, sentará de pé sobre a poldrona enfernizada onde tandos senturame fera o seu elequante discorso: sua eterna dádiva; nossa eterna dívida.  Assim pressunto trudo que já estrá aquantessendo encuanto camino por las calles de esta casa grande mansão da minha hotess.  Sua majestade, sua desclarada, sua cachorra de minha adolescênica, por que nunca me declaraste nenhum amor enquanto eu era virgem e voraz?  Eres uma pública.  Y yo te quiero, yo te quiero... Mas como eu ia rizendo: alguns mastrodantes circruzavam pela prehisteria na hora da ave maria.  Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor, despertando no meu coração as saudades do primeiro amor.  Um gemido e se esvai lá no espaço nesta hora de lenta agonia quando o sino saudoso murmura badaladas apropriadas. Braçal, ano dos maus.  Brastel, amo dos meus.  Passou o ano dos gols.  Bravil, anda com ferro e gorgulho a terra onde Maciste, criança, enfrentou João Lúcio Godar: não verás nenhum Paris como este.  Olha que Shell, que mer, querida, que forgets! Papo furado.  Acordar tarde demais é que é fogo. A mulher que eu amo realmente me disse que eu acordasse mais cedo um pouco. Ao crespúsculo é demais.  Fossa na certa.  Merci bocu.  O bandeide da luz vermelha rides again.  Qualquer negócio.  Hoje em dia, minha filha, tanto faz como tanto fez.  Entretanto não adianta resposta.  Há dias em que adias tudo.  Ou: há dias tudo. ADIO GRINGO! Here comes the Sun king.  Ringo, João, Paulo e Jorge.  Ringo nunca foi santo...João houve dois e agora há, pelo menos, 23.  Paulo parlava molto.  Jorge adaptou-se tão bem aos pegis brasileiros que o Vaticano despediu-o.  Eis tudo o que sei sobre religião, perguntarão.  E jamais saberão.  E nunca sabão.  E nem são. E não. Hão? Rima rica do meu verso, minha canção preferida, melodia do meu samba, vida da minha própria vida.
 
          - Ouvi passos lá fora.
          - Quem será?
          - A essa hora.
          - Anda, Luzia, pega um travesseiro e vai ver lá no quintal.
          - Eu? Mas nem morta.
          - Anda logo. E fale baixo aqui pra ele não ouvir.
          - Ele quem?
          - Sei lá... o ladrão, ora.  Quem fez o barulho lá fora.
          - Que barulho?
          - Você não ouviu?
          - Ah. Não encha o saco.

          Luzia levantou-se, andou até o banheiro, acendeu a luz.  Uma estranha serenidade invadiu a sua alma.  Lá estavam as escovas de dente sobre a pia, a banheira rachada, o chão molhado em volta da latrina, todas as pequenas coisas das quais dependia a sua felicidade.  Será que a palavra latrina sairia na revista Querida? Trentarei, noventarei.  Eu sou um escritor cujo estilo é uma tentativa de realizar o irrealizável: um Nelson Rodrigues prafrentex.


Publicado n’O PASQUIM, edição de 4 a 10/12/1969.  In: Caetano Veloso.  Alegria, alegria: uma caetanave organizada por Waly Salomão.  Salvador: Pedra Q Ronca, 1977.

 

domingo, 20 de março de 2016

JOSÉ CRAVEIRINHA (1922-2003) TRÊS VEZES


 
 
 
              A participação em uma banca de concurso público esta semana me reconectou a um poeta de quem praticamente me esquecera, de quem não lia nada acho que desde a graduação: o moçambicano José  Craveirinha.  Grande poeta, pensei em postar dele aqui a monumental “Ode a uma carga perdida num barco incendiado chamado Save”, poema que foi analisado – aliás, brilhantemente – na prova de aula por uma candidata.  Mas resolvi optar por três peças pequenas, todas comprovadoras da força excepcional desta poesia.  Não localizei nenhum livro do poeta aqui nas minhas estantes, tendo então me valido do excelente blog de Antônio Miranda http://www.antoniomiranda.com.br/index.html.


SEM TÍTULO

 Não sei se existe Deus.
Mas se Deus existe
Ele está com toda a certeza
a comer comigo esta farinha
no mesmo prato.

 

APARÊNCIAS

 
Amigos!
Apesar das aparências
estarem de acordo com as circunstâncias
não sou eu quem morre de medo.
 
Antes
Durante
E após os interrogatórios
(Inclusive nos quotidianos trajectos de jipe)
a minha língua é que se torna de papel almaço
E minhas desavergonhadas rótulas de borracha
Coitadas é que tremem.

 Ao bom evangelho dos cassetetes
ouvir avoengos pássaros bantos
cantarem algures nos ombros
velhas melodias de feridas.
 
E depois
à sedutora persuasão das ameaças
pela décima segunda vez humildemente
pensar: Não sou luso-ultramarino
SOU MOÇAMBICANO!

 
Será suficiente esta confissão
Sr. Chefe dos cassetetes
da 2ª. Brigada?





 
 
MÁQUINA ELÉCTRICA DE COSTURA

Quando finalmente Maria
menos havia de cansar-se a coser
sua nova máquina eléctrica de costura
em funesto ilogismo encerrada
 noutro esmero de alinhaves
solidária se prosternou
desusada.
 
Infeliz
máquina de costura.




Extraídos de  CRAVEIRINHA, José.  Obra Poética.  Maputo: Direcção de Cultura, Universidade Eduardo Mondlane, 2002.  367 p.

 
 

terça-feira, 15 de março de 2016

JAYRO JOSÉ XAVIER, 1936

      O grande e querido poeta completará em junho 80 anos.  Mais uma vez posto poema seu  aqui.

Ilustração de Talarico
 
 

 
 
DOIS CANTARES COM ENVOI
 
I
 
Só a carne é sábia
só a carne é santa
só a carne
saciada
pode subir aos céus
(para perder-se
e achar
nos labirintos
de Deus)
 
Ó meu amor
ouve o meu canto
e vem
 
Vem com o ondear
de teu negro rebanho
de cabras,
                   vem
com teu púbis
de velcro
 
Aleluia
 
A alegria da carne que goza alça vôo mais alto
que as aladas
asceses
da alma
 
Vem, pastora,
vem
mais nua
- vem sem a pele de loba
da alma
 
Só a carne
é pura
 
palpitação de pássaro
 
 
II


Finda a amorosa batalha,
a  carne em paz, satisfeita.
                                      Deita
teu filho, exausto, no colo.
 
Há um grande medo na noite.
Como o sol não se levanta,
                                      canta
- nina quem se fez menino
 
e adormece, adormeceu
com a cabeça em teu ventre,
                                      entre
(...psiu) a vida e a morte
 
 
 
L’ENVOI

A Glória
eterna
está
em ti
 
que estás
em mim
Senhora
minha
 
Oh dá
que eu morra
e viva
 
no céu
da tua
bainha
 
Jayro José Xavier.  Poemas.  Niterói:  Ed. Do Autor, 2007
 
 
 



sábado, 5 de março de 2016

CIRCUNSTÂNCIA


Os que batem panelas não são
os que areiam panelas
                                    que são
os que sabem onde guardados estão
garfos e cutelos  facas facões
e chegarão montados em tubarões
voadores  atentos glutões
ao mínimo detalhe guiados
e atordoados ao som
                                  defenso-agressivos
à caça de sangue
abundante  e sem sublimação.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ADRIANO NUNES




RUDOLPH E AS GRAVATAS

                    
Rudolph amava ter gravatas.
Como todo homem que amava
Ter gravatas, muitas comprava.
De tons distintos, cores várias.
De algodão e seda importada.
Ah, quantas colecionava!


Rudolph amava ter gravatas,
Porém em nenhuma nó dava
Porque não sabia. Guardava-as
Numas caixas, enfileiradas.
Era a sua empregada Lália 
Quem os nós dava, "nós de alma",

Como falar bem costumava.
Somente Lália tais gravatas
Manuseava. Três a cada
Semana, sempre as mais baratas -
Sempre as do trabalho na fábrica!
Como o olhar de Rudolph brilhava!

Certa noite, cansado já 
Da vida, cansado da fábrica,
Resolveu nós com as gravatas
Dar. Umas às outras, atadas.
Subiu, pensativo, as escadas
Que ao segundo andar levavam.

Deixa despencar uma lágrima.
Será mesmo que Rudolph salta?
Arrependeu-se. Ao olhar para
Suas gravatas amassadas,
Ficou demais triste e com raiva. 
Ah, culpa de Lália, a empregada!

Rudolph amava ter gravatas.
Como todo homem que amava
Ter gravatas, tantas comprava.
De panos lindos, marcas várias.
Será mesmo que ainda salta?
Como o olhar de Lália brilhava

Quando dava os nós nas gravatas!
Ficou demais triste e sem nada!
Sete e dez. O alarme da fábrica 
Soa alto. As pessoas passam
Apressadas. As chances calam.
Suspenso no ar, Rudolph baila.
 
 

 Poema inédito em livro, cedido pelo autor, colhido em seu blog http://astripasdoverso.blogspot.com.br/
 
 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

DUAS VEZES EUGENIO MONTALE (1896-1981)


Poema 37

 

É difícil viver
sem fé alguma;
cada dia a notícia
de um massacre.  E nas colisões
cotidianas, descobrimos o sombrio
sinal do destino.
Mesmo os zimbórios parecem
tetos baixos,mas uma nota,
um frêmito inesperado
entre as trepadeiras, ou um
desconhecido que rebate a bola
e a partida recomeça.
É a batalha da sobrevivência.

 

É difficile vivere
senza fede alcuna;
ogni giorno una notizia
d’un massacro.  E negli incastri
quotidiani, scorgiamo Il cupo
segno del destino.
Anche le guglie sembrano
tetti bassi, ma una nota
un guizo inaspettato
tra i rampicanti, o un ignoto
battitore che rilancia la palla
e la partita ricomincia.
È la battaglia della sopravvivenza.



Poema 43

 

Somos fantoches manipulados por mãos hostis.
Não adianta ver as injustiças.
Tudo agora ruiu. Até o prodígio
se esfarela.  Os olhos estão cansados.
O último tempo da vida foi vivido.
Só nos resta a magia de um vôo
desta terra fulminada para
um outro antro, no qual afundaremos
para depois emergir com contornos esbatidos.
 

 

Siamo burattini mossi da mani ostili.
Non serve vedere le ingiustizie.
Tutto è ormai diruto.  Si sfalda
anche  il  prodígio.  Gli occhi sono stanchi.
L’ultimo tempo del vivere è vissuto.
Resta solo l’incantesimo d’un volo
da questa terra folgorata verso
un altro antro, nel quale affonderemo
per poi emergere con contorni sfumati.  
 

                            Traduções de Ivo Barroso



 
Eugenio Montale.  Diário póstumo – 81 poemas dedicados a Annalisa Cima.  Trad. introd. e notas por Ivo Barroso.  RJ/SP: Record, 2000.



 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

De A TAL CHAMA O TAL FOGO: AS ANACRONIAS (1989)


SEIS ANACRONIAS  

 

I

quanto tentei acompanhar o carme adolescente
que solfejei na porta do alumbramento
lábios que refutei por medo
na loja do mundo simples
onde nos condenamos à felicidade.

 

 
II

finjo que ali não tem o que procuro
e adiante embaraço os pés
nos cadarços dos sapatos.
mereço o tombo embora
me iluda: navio, me digo
e não calçada.

 

 
III

aquela noite te acordei e fui te arrastar
com toda volúpia
pra te dizer que o primeiro amor morreu
o segundo amor morreu
o grande amor não era
e cantar-me a tardia adolescência.
para mim.  para meus ouvidos
desabotoados.
 

 

IV

pergunto entre um significado
e o itinerário daquele ônibus
entre o esmalte das carrocerias
e o verniz das carcaças, o sono
e o deambular da espécie
rumo ao mar
lêmingues

 

 
V

na manhã – embora de estiletes
acarinho a vida: seu dorso de terciopelo
a mão vai se tornando minha
a voz zela à bocca chiusa
o adeus à terra prometida
 

 

VI

melancólico ectoplasma medusado fogo flâmula
o varredor vai acumulando palavras recolhidas
junto ao meio-fio
saio de novo para a velha manhã
bonita e desabitada de palavras
ele continua lá.  varrendo.
o ajudo – mtaadoâfperolasnoli
fora as que ficaram
mal varridas.
 
 
 

SÉTIMA ANACRONIA

poder apagar a cidade
relógios e galerias
todas as calçadas toda a memória dos passos
todos os calendários virados.
não se pode estancar a
continuidade da cidade na cidade
do homem na cidade
do homem
como se
- cadê o privilégios dos caminhos? –
fosse só atravessar e num
mesmo movimento
apagar estancar zerar
e viver como se a mentira não fosse a água
a água



 

Roberto Bozzetti. A tal chama o tal fogo.  Oficina Raquel, 2008


Marianne Von Werefkin - Cidade à noite com taberna (1880)