sexta-feira, 15 de abril de 2016

MÁRIO DE ANDRADE E A PLUTOCRACIA PAULISTA

                                                                                De Lira Paulistana



Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

 Granfino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió. 

Mulher gordaça, filó
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...

 Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.



Mário de Andrade. Poesias completas, 4 ed. SP: Martins, 1974.

domingo, 10 de abril de 2016

NEI LEANDRO DE CASTRO (1940)


ANJO BARROCO

 Eu vivo com meus fantasmas,
um deles é sexual.
Sátiro, persegue as moças
derruba-as pelas esquinas,
levanta saias de freiras
e sorri com a visão
da brancura imaculada
de suas calcinhas claras.
O meu fantasma é anêmico
e tem peito enfisemático,
a sua risada estronda
nos corredores escuros
quando surpreende a adúltera
em decúbito ventral.
Fauno moderno, o fantasma
galopa em bicicletas.
Querendo, vira selim
onde meninas estrepam
o sexo de flores brancas.
Meu fantasma tem roupões
que ele veste por cima
do corpo peludo em pêlo.
Assim vestido, ele vai
para a porta dos colégios,
acena com picolés
e docinhos pras crianças
até que, na outra esquina,
quando o guarda se afasta
ele exibe seus guardados:
duas esferas que apóiam
a envergadura do sexo.
Meu fantasma esquadrinha
as fechaduras antigas
por onde ele pode ver,
com as têmporas latejando,
o tímido que dilacera
a noiva em lua-de-mel.
Nos tabiques dos hotéis
de terceira e quarta classe
ele cola seus ouvidos
e ouve a cama rangendo,
ouve a mulher docemente
trespassada. Ouve ainda
o macho que estertora
na explosão do orgasmo.
Meu fantasma vai à praia
mas prefere estar na sombra
porque o sol o dilui.
E na sombra das barracas
com olho em grande angular
olho-de-peixe aberto
ele grava nas retinas
um só pelinho de púbis
que escapa dos maiôs.
Nas piscinas, seu mergulho
só esbarra, por acaso,
em coxas, seios e nádegas.
Anjo barroco, o fantasma
entra no confessionário
e goza, ele e o padre,
com as confissões da viúva.
Meu fantasma não lê livros
porque acha que em sexo
não devem entrar palavras.
Prefere correr o risco
de ser preso em flagrante
comprando baralhos sujos
em que reis trepam rainhas
e as damas de ouro e copas
se empalam no ás de paus.
Alguém precisa ver só
como meu fantasma vibra
com os seios, todos eles,
exceto, claro, os murchos.
Peitos de adolescentes
libertos sob os vestidos
cujos bicos, dois espinhos,
fazem buracos simétricos
na blusa.  Os intumescidos,
das mães que doam seu leite
sob seus olhos mendigos.
Seios, seios, seios, seios
até os reproduzidos
na séria revista médica.
Meu fantasma tem um trauma:
nunca esmagou uma pulga
nas nádegas de uma amante
negra, vestida apenas
de longas meias de renda. 
Ah, meu fantasma, bolinas
até a menina dos olhos.
Te exorcizo.  Vade retro.


Neil de Castro. Zona erógena.  Rio: Edições Eros, 1981.




 
O Anjo, escultura de Sun Yuan e Peng Yu

segunda-feira, 4 de abril de 2016

QUATRO POEMAS DE ANA CRISTINA CÉSAR (1952-1983)




ANÔNIMO

Sou linda; gostosa; quando no cinema você roça o ombro em mim aquece, escorre,já não sei mais quem desejo, que me assa viva, comendo coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no cinema é escuro e a tela não importa, só o lado, o quente lateral, o mínimo pavio.  A portadora deste sabe onde me encontro até de olhos fechados; falo pouco; encontre; esquina da Concentração com Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

 

NADA, ESTA ESPUMA

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

 

 
ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS

Mas poderei dizer-vos que elas ousam?  Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?

 
 

SAMBA-CANÇÃO

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas fiz, tantas fiz...


Ana Cristina Cesar.  A teus pés.  SP: Brasiliense, 1982.


terça-feira, 29 de março de 2016

CAETANO VELOSO: NÃO VERÁS UM PARIS COMO ESTE


[dos textos do exílio londrino]

 

          Cremúsculo.  O sol, a só, despe de si, digo, despede-se, desce pé ante pele, descalço, dá-se e sobe, digo, sob, ou melhor, sobre as bandas cremoças das mulheres alfíssimas do hemisferno nhorte.  Kolinas sonrisam no horizonte.  Mastros desdesenham-se no ocidonte. Acapulcos e havaís tampouco.  Tranquislidade.  Moite.  Não há dúvida: é chagada a hera dos maiares desgrossos.  Não há dúdiva: ele virá, sentará de pé sobre a poldrona enfernizada onde tandos senturame fera o seu elequante discorso: sua eterna dádiva; nossa eterna dívida.  Assim pressunto trudo que já estrá aquantessendo encuanto camino por las calles de esta casa grande mansão da minha hotess.  Sua majestade, sua desclarada, sua cachorra de minha adolescênica, por que nunca me declaraste nenhum amor enquanto eu era virgem e voraz?  Eres uma pública.  Y yo te quiero, yo te quiero... Mas como eu ia rizendo: alguns mastrodantes circruzavam pela prehisteria na hora da ave maria.  Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor, despertando no meu coração as saudades do primeiro amor.  Um gemido e se esvai lá no espaço nesta hora de lenta agonia quando o sino saudoso murmura badaladas apropriadas. Braçal, ano dos maus.  Brastel, amo dos meus.  Passou o ano dos gols.  Bravil, anda com ferro e gorgulho a terra onde Maciste, criança, enfrentou João Lúcio Godar: não verás nenhum Paris como este.  Olha que Shell, que mer, querida, que forgets! Papo furado.  Acordar tarde demais é que é fogo. A mulher que eu amo realmente me disse que eu acordasse mais cedo um pouco. Ao crespúsculo é demais.  Fossa na certa.  Merci bocu.  O bandeide da luz vermelha rides again.  Qualquer negócio.  Hoje em dia, minha filha, tanto faz como tanto fez.  Entretanto não adianta resposta.  Há dias em que adias tudo.  Ou: há dias tudo. ADIO GRINGO! Here comes the Sun king.  Ringo, João, Paulo e Jorge.  Ringo nunca foi santo...João houve dois e agora há, pelo menos, 23.  Paulo parlava molto.  Jorge adaptou-se tão bem aos pegis brasileiros que o Vaticano despediu-o.  Eis tudo o que sei sobre religião, perguntarão.  E jamais saberão.  E nunca sabão.  E nem são. E não. Hão? Rima rica do meu verso, minha canção preferida, melodia do meu samba, vida da minha própria vida.
 
          - Ouvi passos lá fora.
          - Quem será?
          - A essa hora.
          - Anda, Luzia, pega um travesseiro e vai ver lá no quintal.
          - Eu? Mas nem morta.
          - Anda logo. E fale baixo aqui pra ele não ouvir.
          - Ele quem?
          - Sei lá... o ladrão, ora.  Quem fez o barulho lá fora.
          - Que barulho?
          - Você não ouviu?
          - Ah. Não encha o saco.

          Luzia levantou-se, andou até o banheiro, acendeu a luz.  Uma estranha serenidade invadiu a sua alma.  Lá estavam as escovas de dente sobre a pia, a banheira rachada, o chão molhado em volta da latrina, todas as pequenas coisas das quais dependia a sua felicidade.  Será que a palavra latrina sairia na revista Querida? Trentarei, noventarei.  Eu sou um escritor cujo estilo é uma tentativa de realizar o irrealizável: um Nelson Rodrigues prafrentex.


Publicado n’O PASQUIM, edição de 4 a 10/12/1969.  In: Caetano Veloso.  Alegria, alegria: uma caetanave organizada por Waly Salomão.  Salvador: Pedra Q Ronca, 1977.

 

domingo, 20 de março de 2016

JOSÉ CRAVEIRINHA (1922-2003) TRÊS VEZES


 
 
 
              A participação em uma banca de concurso público esta semana me reconectou a um poeta de quem praticamente me esquecera, de quem não lia nada acho que desde a graduação: o moçambicano José  Craveirinha.  Grande poeta, pensei em postar dele aqui a monumental “Ode a uma carga perdida num barco incendiado chamado Save”, poema que foi analisado – aliás, brilhantemente – na prova de aula por uma candidata.  Mas resolvi optar por três peças pequenas, todas comprovadoras da força excepcional desta poesia.  Não localizei nenhum livro do poeta aqui nas minhas estantes, tendo então me valido do excelente blog de Antônio Miranda http://www.antoniomiranda.com.br/index.html.


SEM TÍTULO

 Não sei se existe Deus.
Mas se Deus existe
Ele está com toda a certeza
a comer comigo esta farinha
no mesmo prato.

 

APARÊNCIAS

 
Amigos!
Apesar das aparências
estarem de acordo com as circunstâncias
não sou eu quem morre de medo.
 
Antes
Durante
E após os interrogatórios
(Inclusive nos quotidianos trajectos de jipe)
a minha língua é que se torna de papel almaço
E minhas desavergonhadas rótulas de borracha
Coitadas é que tremem.

 Ao bom evangelho dos cassetetes
ouvir avoengos pássaros bantos
cantarem algures nos ombros
velhas melodias de feridas.
 
E depois
à sedutora persuasão das ameaças
pela décima segunda vez humildemente
pensar: Não sou luso-ultramarino
SOU MOÇAMBICANO!

 
Será suficiente esta confissão
Sr. Chefe dos cassetetes
da 2ª. Brigada?





 
 
MÁQUINA ELÉCTRICA DE COSTURA

Quando finalmente Maria
menos havia de cansar-se a coser
sua nova máquina eléctrica de costura
em funesto ilogismo encerrada
 noutro esmero de alinhaves
solidária se prosternou
desusada.
 
Infeliz
máquina de costura.




Extraídos de  CRAVEIRINHA, José.  Obra Poética.  Maputo: Direcção de Cultura, Universidade Eduardo Mondlane, 2002.  367 p.

 
 

terça-feira, 15 de março de 2016

JAYRO JOSÉ XAVIER, 1936

      O grande e querido poeta completará em junho 80 anos.  Mais uma vez posto poema seu  aqui.

Ilustração de Talarico
 
 

 
 
DOIS CANTARES COM ENVOI
 
I
 
Só a carne é sábia
só a carne é santa
só a carne
saciada
pode subir aos céus
(para perder-se
e achar
nos labirintos
de Deus)
 
Ó meu amor
ouve o meu canto
e vem
 
Vem com o ondear
de teu negro rebanho
de cabras,
                   vem
com teu púbis
de velcro
 
Aleluia
 
A alegria da carne que goza alça vôo mais alto
que as aladas
asceses
da alma
 
Vem, pastora,
vem
mais nua
- vem sem a pele de loba
da alma
 
Só a carne
é pura
 
palpitação de pássaro
 
 
II


Finda a amorosa batalha,
a  carne em paz, satisfeita.
                                      Deita
teu filho, exausto, no colo.
 
Há um grande medo na noite.
Como o sol não se levanta,
                                      canta
- nina quem se fez menino
 
e adormece, adormeceu
com a cabeça em teu ventre,
                                      entre
(...psiu) a vida e a morte
 
 
 
L’ENVOI

A Glória
eterna
está
em ti
 
que estás
em mim
Senhora
minha
 
Oh dá
que eu morra
e viva
 
no céu
da tua
bainha
 
Jayro José Xavier.  Poemas.  Niterói:  Ed. Do Autor, 2007
 
 
 



sábado, 5 de março de 2016

CIRCUNSTÂNCIA


Os que batem panelas não são
os que areiam panelas
                                    que são
os que sabem onde guardados estão
garfos e cutelos  facas facões
e chegarão montados em tubarões
voadores  atentos glutões
ao mínimo detalhe guiados
e atordoados ao som
                                  defenso-agressivos
à caça de sangue
abundante  e sem sublimação.