domingo, 3 de julho de 2016

ALBERTO CAEIRO: DO GUARDADOR DE REBANHOS


III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
 
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como que anda no campo
É triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

 

 

XLIV

 

Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído,
E esta pequena cousa de engrenagens que  está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me a sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
 
 

 

Fernando Pessoa. Obra poética.  RJ: Aguilar, 1963

quarta-feira, 29 de junho de 2016

PABLO NERUDA (1901-1975) : QUATRO POEMAS DE AÚN

Neruda em Araucânia



VI
Perdão, se quando quero
contar minha vida
é terra o que conto.
Esta é a terra.
Cresce em teu sangue
e cresces.
Se se apaga em teu sangue
te apagas.

 

 

XV
 
Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
 e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.
 

 


XXV

Vai-se o hoje: uma cápsula
de fria luz que volta a seu recinto,
à sua mãe sombria, renascendo.
Deixo-o agora envolto em sua linhagem.
Dia, é verdade que participei na luz?
Tempo, sou parte de tua catarata?
Areias minhas, solidões!
 
Se é verdade que partimos,
fomos nos consumindo
em pleno sal marinho
e a golpes de relâmpago.
Minha razão tem vivido na intempérie,
entreguei ao mar meu coração calcário.
 
 



XXVI

Se há uma pedra destroçada
dela faço parte:
estive na ventania,
na onda,
no incêndio terrestre.
 
Respeita essa pedra perdida.
 
Se encontras num caminho
um menino
roubando maçãs
e um velho surdo
com um acordeon,
recorda que eu sou
o menino, as maçãs e o ancião.
Não me magoes perseguindo o menino,
não batas no velho vagabundo,
não atires ao rio as maçãs.
 

                            Tradução de Olga Savary

 
 
 
Pablo Neruda.  Ainda (Aún).  4 ed.  RJ: José Olympio, 1984.
 
 
 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

"CEGA DE SAUDADE": UMA PARCERIA NO NOVO CD DE PAULINHO LÊMOS






         Amigo  querido de longa data, Paulinho Lêmos músico e cancionista – para usar o termo criado por Luiz Tatit para designar o fazedor de canções – de primeira, há muitos anos está radicado na Europa, de onde volta e meia nos alegra com trabalhos excepcionais e eventuais visitas ao Rio, onde costuma se apresentar.

          Pois ele vem de lançar um ótimo CD, todo de voz e violão, chamado Outra dimensão, no qual há uma parceria nossa, “Cega de saudade”, uma meio que toada quase caipira, de costura melódica delicada e meticulosa.  No CD há preciosidades compostas por Paulinho com seus parceiros habituais, como o ótimo Rogério Batalha, além de Moacyr Luz, Agenor de Oliveira e outros mais.   O CD está disponível para ser adquirido online (em Bandcamp, e também em   Apple Music, Amazon, CdBaby, Spotify, Google play, etc.), além de haver uma tiragem limitada em vinil a sair no fim deste mês de junho.

          Eis a letra da nossa CEGA DE SAUDADE





Ela me olha no olho
acho que cheia de mim
eu bem que tento e não vejo
nem sombra de ser feliz
ali

Se bem que não tou ali
onde ela atenta me fita
também nela não me vejo
quando  sorrindo me diz
ah, sim

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

De dentro do seu retrato
sorri tão cheia de si
ela me tira do sério
quando me chega  chorando
infeliz

 Com a minha falta de tato
penso que ela tá de fita
claro que não, que mau-trato
pois já me disse  e eu não
ouvi

que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim 

Lhe compro os olhos da cara
para que olhem pra mim
retoco no photoshop
me desarranco do siso
é o fim

sentir  como é que me sinto
pensar se pensou em mim
saber que é só vaidade
dizer chega de saudade
e ouvir

 que tá cega de saudade
mas é verdade
não é saudade de mim

 A seguir o link para o CD Outra dimensão no Bandcamp de Paulinho Lêmoshttp://paulinholemos.bandcamp.com/releases

 

 
 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Um poema novo, para conjurar os nossos dias contra os nossos dias





OS DESVISÍVEIS

 

Onde não havia ninguém

          - nem vestígio

                    indício 

                             perdido de vista no fundo do

                             precipício

só silêncio abafando

          o suplício de todo

          dia até o fim desde

o início

dos tempos coloniais

 

-  então quando os invisíveis se tornam

visíveis

 

impossível será torná-los

desvisíveis

 

não mais

 

 

 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

HAROLDO DE CAMPOS (1929-2003)


 

Dois poemas das gatimanhas & felinuras

 
brancura
 
a gata chamada
 
tamborim (tam-
 
bi)
olhos amareloesverdeados
cara chim
gosta de telhados livres
e do calor do colo
 
com miados de cortesia
mandarim
nos cumprimenta toda manhã
solicitando modestíssima
que a recebamos
no interior azulejado
da cozinha
 
na primeira noite de cio
miou por um gato galante
e com seu galã cinzamalhado
enluarou o telhado
branquíssima de paixão
 
 
nênia para tamborim
 
tinha olhos
amarelos
miava mel
era selvagem –
messalina dos telhados –
mas tinha charme:
um gato cinza-macho
de olho azul
que miava Raul
tinha paixão por ela
 
gostava de pessoas
de preferência a outros
félices
(a aristogata lady bi
tinha ciúmes
dos seus olhos ambarinos
de gato – meretriz)
 
alvíssima
quase albina
com lugares rosa
limpava com esmero
a fuligem
que de andanças e atropelos
lhe ficava no pêlo
 
morreu
dama sem camélia
odete sem catléia
- a pobrezinha! – de
câncer na pele:
 
chorei (chorai) por ela
 
 
 
Haroldo de Campos.  Crisantempo: No espaço curvo nasce um.  SP: Perspectiva, 2004.
 
 


quinta-feira, 19 de maio de 2016

DOIS POEMAS DE GEIR CAMPOS (1924-1999)


CANTO DE PEIXE I

Há um jeito de calar que o peixe sabe
de mais efeito onde o falar não cabe:
um jeito de boiar sob as estrelas
quando é mais límpido o instante de vê-las,
um jeito de intuir quando faísca
o aço fatal no cerne doce da isca,
um jeito de espelhar raios de sol
para indicar na tocaia um anzol,
um jeito de carpir o companheiro
ferido ou morto por arpão certeiro,
um jeito de saltar por cima d’água
quando submersa é mais dorida a mágoa,
um jeito de rolar dentro da onda
que se encaixota pesada e redonda,
um jeito de flanar sob o navio
de pesca em calculado desafio,
um jeito de franzir as barbatanas
à vista de armadilhas (des)humanas,
um jeito de mascar a excitação
para agir bem na boa ocasião,
um jeito de minguar sob a tarrafa
atento à brecha por onde se safa,
um jeito de acenar ao camarada
que olha os ocos da rede e não vê nada,
um jeito de alertar que sempre vence o
cortinado mais duro de silêncio,
um jeito de treinar as nadadeiras
nas correntes adversas mais ligeiras,
um jeito de nadar roçando o fundo
nas fronteiras do seu com outro mundo,
um jeito de parar tocando o limo
como frágil e derradeiro arrimo,
um jeito de assumir a cor do lodo
ou do saibro ou da pedra e sumir todo,
um jeito de se encompridar na areia
na esteira de prata da lua cheia,
um jeito de ir e vir pelo cristal
líquido num convite ao natural,
um jeito de rondar a fêmea púbere
sem piscar todavia os olhos túmidos,
um jeito de ser frio entre o calor
como a sentir saudade em pleno amor,
um jeito de ver quando se resume
o ser livre em ser mais preso ao cardume
um jeito de entender ante tudo isso
o engano do que foge ao compromisso,
um jeito de velar o ensinamento
até provar-se chegado o momento
de cantando invocar a luz da aurora
entre os  corais do dia que se enflora,
num jeito de cantar que o peixe sabe
– canto de guerra ou cantiga de amor –
mas não é bom que o saiba o pescador.



Geir Campos. Canto de peixe & outros cantos.  RJ: Civilização Brasileira, 1977.



 


METANÁUTICA

Posso te dar a carta de marinha
mas o traço que nela insinuasse
um entre tantos rumos
não

Posso te dar as tábuas de marés
mas a leve emoção de cavalgar
onda e onda após onda
não.

Posso te dar os índices das águas
conforme as densidades, mas a branda
flutuação do casco
não.

Posso te dar a rosa e o timão
mas o desequilíbrio concertante
ao balanço de bordo
não.

Posso te dar exemplos de ancoragens
mas o galeio do barco seguro
retesando as amarras
não.

Posso te dar o longe no binóculo
mas acolá das lentes e paisagem
convidando à viagem
não.

Posso te dar notícia do mar calmo
mas o rumor das franjas no espelhado
junto à roda de proa
não.

Posso te dar o gorro marinheiro
mas a pressão do linho nos cabelos
enquanto sopra o vento
não.

Posso te dar a direção da chuva
mas o gosto da baga salitrada
escorrendo no rosto
não.

Posso te dar posturas de sextante
mas o fulgor da estrela observada
entre horizonte e prisma
não.

Posso te dar os nomes de alguns peixes
mas o espanto de vê-los acender
fosforescentes rastros
não.

Posso te dar frios conhecimentos
mas o que se acalanta no convívio
amoroso do mar
não.

Geir Campos. Metanáutica. RJ: José Olympio, 1970.
 

 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

CHACAL




CEP 20.000


                                           “... arrependei-vos e rejubilai-vos
                                            CEP 20.000 está no ar!”

                                                                       Minotauro


aqui
    da janela desse baú de lata
        - barão de gusmão/Leblon –
           vejo a vida passar inexorável

atropelando o que é velho
    aplicando chapinha no asfalto
        quente e mole
             nessa noite de verão

 o lotação passa batido
    pela haddock lobo pelo Estácio
         dropa aqui desvia ali embala acolá

desfila veloz pela Riachuelo
     no clube dos democráticos
          buzina evoé e vai

pela sinuca galera afiada desfiando versos
     hip hop na zoeira

passa os arcos passa a lapa
     e deixa o fantasma do circo
        sobrevoando a fundição

pelo passeio passa apressado
     glória flamengo botafogo humaitá

é dia de cep
     ali a onda é boa o mundo ali é bom



de repente
     saltei do ônibus
          cheguei ao posto
suor no rosto
      que ela rindo
            me desenxugou

de repente
   boca sem dente
        delinqüente rock and roll
           é o joe.
               o show já começou.
 

 



In: Chacal por Fernanda Medeiros.  Rio: EdUERJ, 2010 (Coleção Ciranda da Poesia)